Índice de Capítulo

    O vácuo do Portal durou menos de um segundo. Em um piscar de olhos, o grupo reapareceu no quarto de hóspedes da casa do contato de Gwen. O ambiente era acolhedor, com paredes de madeira clara e um longo tapete de lã cobrindo o chão. Através das duas janelas, exibia a luz da tarde e o som abafado do festival lá fora, que ainda podia ser ouvido, contrastando com o silêncio do cômodo, com duas camas largas, um armário cobrindo uma parede inteira e uma mesa central cercada por banquinhos.

    — Lar, doce lar… ou quase isso. — comentou Gwen, retirando a máscara e soltando um suspiro profundo de alívio.

    O desembarque, porém, não foi agradável para todos. Evelyn, cujo equilíbrio já estava seriamente comprometido pelas cinco canecas de chope e pelo uso excessivo de mímica deficiente, tropeçou na borda do tapete ornamentado assim que seus pés tocaram o chão.

    — Woah! O chão… o chão decidiu se levantar contra mim. — resmungou a elfa, apoiando-se pesadamente na cama para não desabar.

    — Você tá bem? — Brigitte perguntou, também retirando a máscara e revelando o rosto vermelho de cansaço. Ela soltou os botões do casaco de operária com urgência. — Esse uniforme… eu sinto que tem areia dentro das minhas roupas. E meu braço tá coçando como se tivesse formigas debaixo do gesso.

    Niko foi o único que não relaxou imediatamente. Ele deixou a foice apoiada na cabeceira da cama mais próxima e caminhou direto para a pequena mesa redonda no centro do quarto, retirando as máscaras e as luvas enquanto espalhava os dois papéis que Gwen lhe entregou mais cedo sobre a superfície de madeira.

    — Esqueçam a coceira por cinco minutos. — disse Niko, com a voz rouca e focada. — A gente não tem o dia todo. Se o Bernat falou a verdade, não temos muito tempo. A gente pode perder o garoto de vista a qualquer instante.

    Brigitte bufou, mas começou a se despir do uniforme pesado, revelando suas roupas de viagem por baixo. Evelyn, por sua vez, sentou-se na beira da cama com um baque, tentando desamarrar as botas de trabalho com uma coordenação motora visivelmente prejudicada.

    — Eu posso ajudar… — Evelyn murmurou, fechando um olho para tentar focar nos documentos sobre a mesa. — Eu sou… uma ótima leitora de… coisas.

    — Você sabe ler luminárico? — perguntou o albocerno, levantando uma sobrancelha.

    — …

    Evelyn apenas o encarou em silêncio por alguns segundos, processando a pergunta, antes de voltar a lutar com os cadarços.

    Gwen aproximou-se de Niko, ignorando o estado da elfa por um momento, e inclinou-se sobre a mesa. Ela puxou um banquinho e se sentou ao lado do garoto. Seus dedos traçaram as linhas escritas no papel.

    — Aqui está o primeiro registro. — Gwen apontou para o topo da folha mais amassada.

    (REGISTRO DE SAÍDA – PLATAFORMA 09 | 02:45 AM)

    Condutor: V. Elies |

    Veículo: Carroça de carga fechada (Eixo Duplo – Placa L-772) |

    Manifesto Vinculado: Item 104 – “Resinas e Óleos de Manutenção” |

    Nota Burocrática: O endereço do condutor: Mont-Clart, Rua das Amendoeiras, nº 42, apto 21.

    — É uma residência na Zona Sul, um apartamento. — Gwen traduziu em voz baixa. — Pertence ao homem que conduziu a carroça para fora do terminal. Provavelmente nem faz parte do esquema, só recebeu o pagamento direto dos traficantes para esse serviço.

    Niko analisou o nome “V. Elies”, guardando-o na memória enquanto Gwen deslizava o segundo papel, que parecia um recibo mais informal.

    (DESTINO FINAL DE DESCARGA) Local: Setor Leste – Castèl-Vell |

    Galpão: Nº 14-B (Acesso pelos fundos) |

    Horário Limite para Entrega: 05:00 AM |

    Observação: Não abrir. Carga sensível ao som. Procurar por “Mestré Valand”.

    — Um galpão de armazenamento em Castèl-Vell. Uhm, até que faz sentido. — continuou Gwen, com o tom de voz ficando estranhamente mais leve. — Esse é um distrito industrial, repleto de galpões e com baixíssima vigilância. Se o dríade foi entregue lá, é onde a transferência deve ocorrer.

    Niko desviou o olhar dos papéis, com os olhos brancos vagando pelo quarto enquanto sua mente trabalhava em alta velocidade.

    Não seria algo muito inteligente manter o dríade em um lugar tão óbvio por muito tempo”, pensou ele, cruzando os braços. “Criminosos desse calibre não tratam uma carga sapiente como mercadoria comum. Eles tratam como brasa: se você segurar no mesmo lugar por muito tempo, acaba se queimando. Cada minuto parado em um lugar tão claro quanto Castèl-Vell é um risco desnecessário de uma batida da guarda ou de um rastro de cheiro ser pego por algum rastreador.

    — A transferência inicial já deve ter acontecido. — disse Niko, com a voz baixa, quase como um sussurro para si mesmo.

    — Como assim? — perguntou Brigitte, de volta com a roupa de viagem, parando de ajustar o gesso para encará-lo com uma sobrancelha erguida.

    — Acredito que o lugar para onde o garoto foi levado é, na melhor das hipóteses, um ponto de encontro temporário, onde a primeira transferência deve ter acontecido logo após a saída do terminal. — explicou Niko. — No pior das hipóteses, o endereço no documento é falso.

    Evelyn, que estava com a cabeça pendida para o lado, focou o olhar em Niko com esforço.

    — Você acha que o tal Bernart estava mentindo? Que ele nos deu pistas falsas para ganhar tempo?

    — Não. — Niko respondeu prontamente. — Eu acredito que ele nos deu o que tinha. Mas esses são arquivos burocráticos. Eles servem só para satisfazer o sistema de Daurlúcia. Os nomes e locais nesses papéis podem muito bem ser apenas fachadas criadas pelos traficantes.

    Ele suspirou, sentindo o cansaço pesar, mas sua determinação — ou seria teimosia? — era maior.

    — O importante agora é adquirir o máximo de informações possível. Se o galpão for um beco sem saída, o condutor da carroça é a nossa única esperança. Precisamos saber para quem ele entregou a carga e qual era a cara do sujeito. Por isso, vamos nos dividir.

    Niko olhou para Gwen, e então para as outras duas, traçando a melhor divisão possível para o momento.

    — O ideal é que cada dupla tenha um nativo de Luminara e um estrangeiro. Assim, o estrangeiro pode focar na contenção ou observação enquanto o nativo lida com a fala.

    Ele se voltou para a elfa e a guerreira.

    — Evelyn, você conhece bem o submundo de Reiken, então acho que você é melhor do que qualquer um aqui de lidar com Castèl-Vell. Brigitte, você pode dar uma força para a Evelyn, garantir que ela fique bem. Vocês duas ficam com suposto “Destino Final da Carga”.

    Brigitte assentiu prontamente, batendo no protetor de braço com firmeza. Gwen também aceitou com um aceno silencioso, já entendendo que seu papel seria guiar Niko pela Zona Sul.

    — Mas eu sei me comunicar direito com esses luminares! — Evelyn exclamou, levantando-se da cama com uma pose dramática, embora tenha cambaleado levemente. — Vocês viram no terminal, eu sou uma mestre da diplomacia silenciosa. Eu consigo tirar informações de qualquer um!

    Niko a encarou com uma expressão gélida, a paciência já desgastada pela performance anterior.

    — Chega de gracinhas, Evelyn. Ali, um erro de interpretação pode terminar com uma faca na sua garganta, não com uma história sobre passarinhos. Foco.

    — Woah? — disse a elfa, arregalando os olhos, soltando uma indignação fingida, mas ao ver a seriedade no rosto do albocerno, apenas deu de ombros e não insistiu. O clima de brincadeira havia morrido.

    Niko e Brigitte se moveram para extremos opostos do quarto com o mesmo propósito. Niko caminhou até a cabeceira da cama, onde havia deixado sua foice anteriormente, e Brigitte dirigiu-se ao canto esquerdo do cômodo, onde estava sua lança, encostada no espaço entre a parede e o armário. Eles pegaram ambos os objetos, e então, com um clique metálico, as armas de Niko e Brigitte foram travadas nas costas de cada um.

    — Nos encontramos no mesmo bar de hoje cedo às dezessete horas. — Niko definiu, olhando para as janelas onde o céu azul ainda reinava. — No início do escurecer. Combinado?

    Ele olhou para cada uma delas.

    — Combinado. — disse Evelyn, apontando para Niko com um sorriso curto destacando sua presa saltada.

    — Combinado! — afirmou Brigitte, com a voz ressoando determinação e apertando os punhos em uma pose heróica.

    Por fim, fixou os olhos em Gwen.

    — Combinado, chefe.

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