Capítulo 168 - Ninho de Rato II
Assim que ouviu o chamado, Niko desviou o olhar dos papéis de cobrança e caminhou até o quarto. Ele parou no batente da porta, observando Gwen inclinada sobre o colchão. Após um instante observando o quarto desgastado, o albocerno se aproximou da parceira.
— Isso é… um livro? — disse Niko, levantando uma sobrancelha.
Gwen pegou o objeto com as pontas dos dedos, tratando-o com e nojo cautela, como se o livro pudesse mordê-la ou criar pernas pelos efeitos do lixo. Era um volume de capa dura revestido em um couro escuro, gasto nas extremidades, mas sem uma única mancha de gordura ou mofo — uma anomalia gritante dentro daquele aterro que Elies chamava de lar.
Ela o virou, examinando a capa e a contracapa em busca de um título, um nome ou qualquer selo de editora. Nada. O couro era liso e anônimo. Gwen deslizou o polegar pela lombada, sentindo a costura firme das páginas.
— Não tem título e nem autor. — comentou ela. — E… está limpo demais. Parece que Elies cuida disso aqui como se fosse um tesouro. O título devia ser “O Tesouro do Rato”, heh. — concluiu ela, rindo baixo no final.
Gwen permaneceu de pé, andando até a parede direita, mantendo uma distância segura da imundície enquanto segurava o livro contra a luz pálida que entrava pela janela. Niko parou ao seu lado, de braços cruzados, observando a expressão da parceira mudar conforme ela folheava as primeiras páginas.
— Começa no final do ano passado… — disse Gwen, o tom de brincadeira sumindo de sua voz assim que os primeiros parágrafos foram processados. — 4501.
Ela começou a ler em voz alta, traduzindo o luminárico de Elies para que Niko pudesse acompanhar. A caligrafia era agressiva, as letras pareciam ter sido cravadas no papel com ódio ou má vontade.
“(35/Marvo – 4501)
O outono está quase acabando. O ano também. Que alívio. O ar seco é a pior parte, parece que corta a pele, mas o calor dentro da carroça é bom… O calor não só literal, mas o emocional.
A carga de hoje era pequena, de ossos finos. Parecia ter uns 17 anos e tava bem desnutrida.
Ela tentou morder minha mão quando fui amordaçá-la. O estalo do dente dela quebrando contra a mordaça foi o som mais bonito do dia.
Ela tentava gritar mas o som mal saía. E, quando eu ameacei ela, parou na hora e começou a chorar. Senti o pavor dela durante o caminho todo. Foi tão… excitante…”
Gwen fez uma pausa, engolindo em seco. Niko não desviou o olhar do papel, mas seus ombros ficaram visivelmente mais rígidos. O coração dos dois começou a bater mais rápido diante do relato escrito no papel.
— Tem… mais — continuou ela, a voz um pouco mais trêmula.
Ela pulou algumas páginas repletas de delírios sobre dívidas, drogas e desejos sexuais, até encontrar outro registro de “trabalho” de Elies já no início do novo ano.
“(05/Lubvi – 4502)
O inverno de Luminara é bom para o silêncio. A Carga de hoje — uma garota do distrito das flores — não parava de chorar.
O som era irritante. A voz dela era bem aguda, doía os ouvidos. Tive que ‘educá-la’ antes de chegar ao galpão para ela entender como as coisas funcionam. Ela aprendeu rápido que o escuro da carroça é muito mais gentil do que as minhas mãos. Uhuhuhul!
O pagamento foi bom, mas como eu usei ela… — a garota parou de ler por um instante. — esse foi o verdadeiro bônus. Ainda bem que me deixam fazer isso pra ‘calar a carga’. Desculpa perfeita!”
A página em específico do relato, grudava mais que as outras. Gwen parou de ler, fechando os olhos por um segundo enquanto uma careta de puro nojo tomava seu rosto.
— Ele… acho que nem preciso dizer… né?
Niko permanecia estático, mas suas íris brancas estavam estreitas em uma fúria gélida, fixos nas palavras que pareciam sangrar no papel. Sangue das vítimas daquele esquema nojento. Vítimas que aquela “pessoa” fazia.
“Nojento”, “repugnante”, “asqueroso.” aquelas palavras saltavam na mente de Niko de forma instantânea, violentando sua mente.
— Ele continua. — murmurou Gwen, virando a página com relutância.
“(18/Lubvi – 4502)
Outro despacho. Três de uma vez! Dois garotos e uma garota. Será que são família? Espero que sim.
O condutor da frente disse que eu deveria ser mais rápido, mas ele é um imbecil! IMBECIL, IMBECIL, IMBECIL, IMBECIL, IMBECIL, IMBECIL! MIL VEZES IMBECIL! ELE NÃO ENTENDE A ARTE DO PROCESSO. O prazer… Ô o prazer, o prazer, uhuhuh. Eu gosto de observar como o espírito daquelas pobre almas se quebra aos poucos, hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo,,, até que eles percebem que ninguém está vindo salvar eles. Isso é como se fosse uma… fecundação emocional. É lindo.
A de olhos azuis me lembrou minha irmã. Isso tornou tudo muito mais divertido. Ver aquele brilho de esperança sumindo então eu… — Gwen parou, fez uma cara de nojo e então continuou — é… indescritível.”
Gwen fechou os olhos por um segundo, tentando afastar a imagem mental daquelas pessoas inocentes, homens, mulheres, crianças… nas mãos daquele rato.
— Fecundação emocional… — Gwen pareceu que falaria algo, mas somente deu um suspiro alto.
Ela folheou as páginas rapidamente até chegar à entrada daquela madrugada, o motivo de estarem ali. Não suportava ler, nem ditar mais nada além do essencial.
“(24/Lubvi – 4502)
Finalmente carne nova hoje, um dríade. A pele dele tem textura de folha seca.
Esse daí é um ‘clássico coitado’, como dizem no mercado. Ele é oco por dentro. Não lutou, não implorou, não emitiu um único ruído enquanto eu o jogava no fundo da carroça como um pedaço de lenha.
Fiz um corte fundo no braço dele só para ver se a seiva era verde. Preto. Certamente me impressionou. Bem diferente do vermelho clássico das outras cargas.
Ele parece uma estátua morta. Entreguei no 14-B antes do sol nascer. Valand parecia satisfeito, mas eu queria ter visto aquele vegetal sofrer um pouco mais… mesmo ele sendo um garoto. Não me importo.
…
(25/Lubvi – 4502)
…
Agora que estou em casa, posso finalmente faz—”
Gwen interrompeu a leitura abruptamente. O texto não terminava com um ponto final, mas com um borrão de tinta que se estendia para fora da linha, como se a caneta tivesse sido largada às pressas ou arrancada do papel por um movimento súbito.
— A escrita parou no meio da frase. — sussurrou Gwen, olhando para o borrão que ainda parecia estranhamente nítido. — Essa última parte foi escrita hoje.
Niko não respondeu de imediato. Ele estava fixo no final da página e sua mente pensava no que ganharam com a informação daquele diário. De certa forma, não havia nada de útil ali. Era somente páginas e páginas de um psicopata maldito… mas aquele final em especifico deixou Niko curioso.
Se Elies “voltou para casa” hoje e parou de escrever no meio de uma palavra, significava que algo interrompeu seu “momento de prazer”. Talvez fosse um cobrador de dívidas, ou seu parceiro, ou…
De repente, um estalo de raciocínio disparou em seu cérebro. Ele lentamente virou o rosto em direção à sala de estar.
— O que foi? — perguntou Gwen, percebendo a mudança drástica na postura do albocerno.
Niko apenas levantou um dedo em direção a boca, sem dizer nada, ainda com as íris estreitas, demonstrando fisicamente sua tensão. Niko fez um gesto de concha, chamando Gwen para o seguir. Ela não entendeu a necessidade da cautela, mas mesmo assim, comprou a ideia do garoto. Então caminharam na ponta dos pés, passando pela sala de estar, o hall de entrada, finalmente voltando até a porta.
— O que foi, Niko? — perguntou a esotérica, sussurrando.
Niko não respondeu, não com palavras, mas apontando para o detalhe que a distração do lixo os fizera ignorar: a chave da casa ainda estava na fechadura, pelo lado de dentro.
Gwen sentiu o sangue gelar em suas veias. Ela entendeu na mesma hora. Se a chave estava ali, Elies nunca saiu de casa. Ele ouviu o elevador subindo, ouviu as batidas na porta, ouviu o destrancar do apartamento e, possivelmente, estava em algum canto escuro daquele labirinto de podridão, observando-os lerem seus segredos.
— Niko… — Gwen começou a dizer, mas foi interrompida pelo som seco de algo batendo forte no chão exatamente atrás deles, no quarto.
Eles giraram os calcanhares no mesmo instante, correndo de volta ao quarto, mal se importando no que pisavam.
Quando já estavam na batente da porta, lá estava ele: um homem esguio, de cabelos longos e bagunçados, com olhos azuis grandes e olheiras tão profundas que pareciam sombras ou uma maquiagem de mau gosto.
V. Elies estava lá, paralisado na janela, entre o quarto e as escadas externas do apartamento. Ele estava com um olhar assustado, os olhos pareciam ainda maiores, e o maxilar tremia, os dentes amarelados indo para cima e para baixo freneticamente.
— Ei! — gritou Niko, partindo para o ataque com uma velocidade explosiva, saltando sobre o colchão imundo em direção à abertura da janela.
Assim que percebeu o garoto com chifres de cervo correndo em sua direção, o homem terminou de saltar a janela, fechando-a com toda a força que tinha em mãos.

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