Capitulo 11
De volta do mundo dos sonhos. Mathew despertou no chão da cozinha do navio, mal se lembrava como havia parado ali, a cabeça latejando enquanto o som distante das ondas parecia zombar de sua ressaca. Ao seu lado, Vênus estava estirada com um braço sobre ele, e ele resmungava algo incoerente em meio ao sono. Ele soltou um suspiro pesado, esfregando os olhos enquanto pensava que, talvez, conviver tanto tempo com piratas estivesse começando a cobrar seu preço.
Nix e Panacéia estavam decorando um bolo na bancada, era aquele dia do ano novamente. Mathew nunca perguntou o porquê, ainda que a curiosidade o consumisse. O sol começava a despontar no horizonte, tingindo o céu em tons suaves de laranja e rosa, enquanto as ondas quebravam suavemente na areia da praia isolada.
Nix e Panacéia caminhavam lado a lado, carregando o pequeno bolo com cuidado exagerado. Era um ritual que faziam todos os anos, algo entre melancolia e um estranho senso de humor que só aquelas duas pareciam entender.
Quando se aproximaram do túmulo marcado por pedras e uma concha ornamentada, uma figura já estava lá, sentado na areia com as costas apoiadas contra a lápide improvisada. Ele era coberto por bandagens que escondiam grande parte de seu corpo, desde os dedos das mãos até o pescoço. A máscara de médico da peste, ornamentada com detalhes dourados, dava um ar quase teatral à sua presença.
Nix estreitou os olhos, reconhecendo a figura imediatamente.
— Ora, ora, meu amado médico já está aqui! — disse ela, o tom de voz carregado de sarcasmo. — Chaga, achava que era meu papel trazer a festa para você.
Chaga, ainda encostado no túmulo, ergueu a cabeça e suspirou com exasperação.
— Vocês podem parar de vir ao meu túmulo comemorar meu aniversário? — Ele murmurou, irritado.
— Não! Sabe o quanto eu chorei quando você morreu? É o mínimo que você pode fazer. — Nix colocou o bolo no chão com cuidado exagerado, os olhos brilhando de falsa indignação.
Panacéia soltou uma risada curta enquanto acendia um cigarro, soprando a fumaça para o lado.
— Ela realmente chorou. Um show inteiro de soluços e gritos. Achei que teria que dar um tapa nela.
Chaga removeu a máscara com um suspiro longo e cansado, revelando um rosto coberto de úlceras e cicatrizes. Apesar da aparência deteriorada, seus olhos brilhavam com uma sagacidade que desmentia seu estado físico.
— Tá, tá, não preciso de um sermão sobre a minha “morte”. — Ele passou a mão sobre a testa, franzindo o cenho. — Aliás, tia Panacéia, Você sabia da Fallon? Ou a Nix está inventando coisas de novo?
Panacéia deu um olhar lento para Chaga, enquanto dava outra tragada no cigarro.
— Não. Nem sabia que Nix tinha uma irmã. — Ela deu de ombros. — Morfeus apareceu um dia com uma criança de oito anos no colo e me deu pra cuidar. Quem sou eu pra questionar um ser celestial? — Ela fez uma pausa, soltando a fumaça lentamente. — Só descobri sobre Fallon quando Nix sequestrou ela do templo, saiu em todos os jornais. No mesmo dia que você morreu, então não consegui te contar.
Chaga fez uma careta, provavelmente mais pelo nome “Morfeus” do que pelo cigarro. Nix, no entanto, se aproximou com calma e colocou uma mão no rosto do garoto. Ele tentou se afastar, mas cedeu à familiaridade do gesto.
O toque de Nix era quente e reconfortante. Lentamente, as úlceras começaram a desaparecer, as feridas maiores se fechando e a vermelhidão diminuindo. Chaga suspirou, sentindo a dor aliviar um pouco.
— Não importa quantas vezes você faça isso, eu ainda vou continuar “morto”, sabe disso, né? — Ele murmurou, mas havia gratidão em sua voz.
Nix deu um sorriso leve.
— Então, pelo menos deixe meu fantasma curar o seu, “morto-vivo”.
Panacéia, com o olhar fixo no mar, suspirou profundamente, deu uma última olhada para o túmulo antes de acender outro cigarro.
— Então, garoto, vai com a gente para a vila ou vai ficar aqui remoendo o passado?
Chaga balançou a cabeça, suspirando novamente.
— Não vou. Minha mãe já tem problemas suficientes sem a minha presença. Além disso… boa sorte com ela. Vai precisar.
Nix piscou para ele, já se afastando com Panacéia.
— Obrigada pelas palavras encorajadoras. Não se preocupe, Chaga. Trago notícias da Marquesa quando voltarmos. E talvez um presente.
Enquanto as duas se afastavam pela praia, Chaga as observou em silêncio, seus pensamentos girando entre esperança e ceticismo. Olhou mais uma vez para o túmulo observando o nome entalhado nele, Zander. Então se levantou colocando a máscara da peste de volta, voltando a ser apenas Chaga, o misterioso médico da tripulação do Semente do Caos.
A floresta que cercava o Cais das Lágrimas era silenciosa, como se soubesse que algo importante estava prestes a acontecer. O som das folhas sob os pés de Nix e Panacéia era abafado, quase respeitoso, enquanto elas se moviam com propósito. Nix segurava um punhado de pérolas negras nas mãos, o brilho iridescente das esferas iluminando os traços determinados de seu rosto.
— Ainda acho que devíamos entrar pela porta da frente, sem portais mágicos. — Panacéia resmungou, apagando o cigarro na sola da bota. — Mas não, você tem que sempre escolher o caminho mais dramático.
— E você prefere um sermão inteiro de Andréa antes mesmo de cruzarmos o portão? — Nix respondeu com um sorriso travesso, fechando os olhos enquanto murmurava o encantamento. — Prefiro as pérolas, obrigada.
O portal se formou em um instante, ondulando como um espelho líquido. Nix respirou fundo e deu um passo à frente, seguida por Panacéia. Quando atravessaram, o mundo mudou ao redor delas.
A vila dos ferreiros era tão vibrante quanto Nix se lembrava. O calor das forjas enchia o ar com uma mistura de fumaça e metal, enquanto o som dos martelos ecoava pelas ruas de pedra. Trabalhadores suados passavam apressados, carregando barras de ferro e ferramentas, e o brilho do fogo iluminava a vila como um pôr do sol eterno.
A mansão de Andréa dominava a paisagem, com suas torres de pedra negra e portões ornamentados com o brasão da Marquesa: Uma borboleta pousada sobre um grande martelo.
— Ah, lar doce lar. — Panacéia murmurou com sarcasmo enquanto caminhavam até o portão. — Sempre me esqueço de como esse lugar é… Cafona.
Nix revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso. Por mais que a vila e a mansão trouxessem memórias confusas, havia algo reconfortante em estar ali novamente.
Quando chegaram aos portões, no entanto, os guardas imediatamente cruzaram as lanças, bloqueando a entrada.
— Senhorita Nixoria. — Um dos guardas disse com formalidade, mas sem esconder o desconforto. — A Marquesa não está recebendo visitas inesperadas hoje.
Nix arqueou uma sobrancelha, inclinando-se ligeiramente para o lado como se estivesse tentando espiar além do portão.
— Isso é sério? Sou praticamente parte da mobília desta casa.— Ordens da Marquesa. — O guarda respondeu, tentando manter a postura firme.
Panacéia não se segurou, soltando uma gargalhada alta.
— Parece que sua tia não está nada satisfeita com você, Nix. Que surpresa.
Antes que Nix pudesse retrucar, uma figura surgiu das sombras ao lado da mansão. O Cavaleiro Negro de sua infância. Ou melhor, Morfeus. Ele estava encostado na parede, a armadura coberta de raízes que pareciam ter crescido diretamente do chão ao redor dele.
— Tia Andréa também te deixou plantado aí? — Nix perguntou, surpresa.
Morfeu virou a cabeça lentamente em sua direção, o elmo ocultando qualquer expressão.
— É. Parece que a Marquesa está furiosa comigo também. Quem diria?
Nix bufou, cruzando os braços enquanto o portão começava a se fechar novamente.
— Ótimo. Fico aqui fora com o pai banido enquanto a tia favorita entra para tomar chá. Fantástico.
Panacéia sorriu de forma provocadora enquanto atravessava o portão.
— Boa sorte, querida. Vou tentar melhorar o humor dela. Ou não. — E desapareceu, deixando Nix e Morfeu sozinhos.
O silêncio entre eles durou mais do que o esperado, interrompido apenas pelo som distante das forjas. Nix suspirou, deslizando pela parede de pedra e vinhas até se sentar no chão.
— Você sabia que Zander estava vivo. E não contou para ela. Não contou para ninguém. Por quê?
Morfeu se sentou ao lado dela, as raízes se partindo para libertar o cavaleiro.
— Porque o caos é muitas vezes melhor administrado quando não é conhecido.Ela o encarou, os olhos turquesa brilhando com ceticismo.
— Isso é uma desculpa terrível, mesmo para você.
— Talvez. — Ele admitiu, olhando para o horizonte. — Mas também é a verdade. Não sabia se ele estava pronto para voltar. Ou se você estava pronta para carregá-lo.
Nix esfregou as têmporas, claramente exasperada.
— Você sabe, às vezes me pergunto se você faz tudo isso só para me irritar.
Morfeus cruzou os braços, inclinando a cabeça para o lado.
— Não, Nix. Faço tudo isso porque você é minha filha. E a mudança é mais forte quando tem um propósito.
Nix bufou, revirando os olhos dramaticamente.
— Propósito! Propósito. Parece até Fallon falando. É pai dela também, por acaso? — A pergunta foi claramente sarcástica, mas a resposta de Morfeus foi tudo menos esperada.
— Estou mais para mãe dela.
Nix congelou no lugar, as sobrancelhas arqueadas em descrença.
— O quê? — Ela se levantou num pulo, apontando para ele. — Você pariu a gente?
— Não exatamente. Você foi gestada por outra pessoa. — Morfeus respondeu com uma naturalidade desconcertante, como se estivesse explicando algo trivial.
Nix piscou, confusa e um pouco horrorizada.
— Espera… como isso funciona?
Morfeus levantou-se lentamente, colocando as mãos nos ombros dela com um ar paternal que só tornava a situação mais estranha.
— Sabe, Nix, quando duas pessoas se amam muito…
— Não, não, não! — Nix ergueu as mãos rapidamente, cobrindo a boca dele antes que ele pudesse continuar. — Eu não quero ouvir.
Morfeus riu por trás das mãos dela, os olhos brilhando com diversão. Quando ela finalmente recuou, ele se afastou, mas seu tom mudou para algo mais sério, mais suave.
— O que importa, Nix, é que você foi feita com amor… e um pouco de magia. Não precisa entender tudo agora. Apenas saiba que, mesmo no meio da bagunça, você sempre teve um propósito.
Ela cruzou os braços, ainda tentando processar tudo.
— Isso é muito esquisito, até para você.
— Admito. — Morfeus deu de ombros, sorrindo levemente. — Mas estranho é meio que a nossa marca de família, não acha?
Nix riu, balançando a cabeça em resignação.
— Você é impossível.
— E você é minha filha. — Ele respondeu, o tom carregado de orgulho.
Ela ficou em silêncio, as palavras dele ecoando em sua mente. Por mais irritante que Morfeus pudesse ser, Nix sabia que ele estava tentando protegê-la — mesmo que isso significasse tornar sua vida ainda mais confusa.

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