Chronos - O Enforcado II
Finalmente seus sentidos despertaram por completo, lento, mas ainda existente. Porém agora, não estava mais na floresta nevada de antes, onde acordou e ficou durante o resto do dia — ou teria sido mais de um?
Agora, a única coisa que podia ver eram quatro paredes o cercando, uma sala fechada, com apenas uma mesa de ferro ao seu lado e uma porta de metal à frente. Iluminada por uma forte lâmpada amarela, e impregnada com um cheiro de metal oxidado. Ele não sentia mais a neve sob as costas, mas sim a rigidez de uma cadeira de madeira e o aperto de cordas que cortavam a circulação de seus pulsos e canelas.
Seu coração começou a bater alto, as íris contraíram, e o pânico tomou conta de seu corpo. Ele começou a hiperventilar alto, o peito subindo e descendo em espasmos curtos, enquanto seus olhos vasculharam cada canto da sala. Tentou forçar os braços, puxando as amarras com uma força que apenas fazia o couro queimar sua pele. O suor frio escorria por sua testa, fazendo ainda mais o corpo tremer de medo.
Ele pensou em gritar. Abriu a boca trêmula, mas o som não saia. Sabia, no fundo, que a ajuda jamais viria. Gritar apenas apressaria a chegada do ser, do monstro que o colocou ali.
Horas se passaram desde que acordou ali. A fome e a sede eram as piores partes, doía e queimava. O braço, antes congelado, agora estava totalmente seco e acalorado. Quando o silêncio da sala tornou-se quase insuportável, o som pesado dos trincos girando rompeu a quietude.
A porta à sua frente se abriu, revelando um homem alto, de postura impecável e profissional. Ele, sem dizer uma única palavra, entrou na sala.
O homem vestia roupas negras refinadas, carregando duas armas de fogo no cinto. O que mais aterrorizou o rapaz, entretanto, foi o rosto: uma máscara de pano preta com uma caveira branca estampada, um emblema de morte e anonimato feroz. Em uma das mãos, ele trazia uma maleta de ferramentas pesada; na outra, um grosso bastão de madeira.
— Quem… q-quem é você? — a voz do garoto saiu falha, como um sussurro desesperado. — P-por favor, m-me tira daqui… eu não…
— Esse truque idiota não vai adiantar. — disse o homem, sua voz era profunda, abafada pela máscara, mas carregada de uma raiva e desprezo gelado.
Ele caminhou devagar até ele, com o som de suas botas ecoando na sala pequeno como sentenças de morte.
— Você traiu a organização. Achou mesmo que fugir apagaria o que você fez? Você cometeu o pior dos pecados, e por isso será punido, como o lixo que você é.
— Eu não sei do que você está falando! — gritou, enquanto se contorcia na cadeira. — Eu não lembro de nada! Eu acordei naquela floresta hoje, eu nem sei quem eu sou!
O homem bateu a maleta e o bastão sobre a mesa, com o estrondo do metal sobre o metal fazendo-o pular. Ele se inclinou sobre o garoto, a caveira branca estava a poucos centímetros de seus olhos.
— Então você também perdeu as memórias de ter traído o Abaddon? — perguntou o homem, a voz quase suave, perigosamente calma.
— Sim! Eu juro, eu não conheço você, eu não conheço esse nome… eu só-
O som do impacto foi seco e brutal. O homem girou o bastão de madeira contra a perna do garoto com uma força esmagadora, rompendo ligamentos e tendões.
— AHHHH! — gritou ele, rasgando a voz no ar da sala.
— Foi uma pergunta retórica, seu imbecil. — disse o homem, endireitando a postura e agarrando o queixo do ser de chifres com uma mão enluvada, forçando-o a encarar a máscara de caveira. — Você me dá nojo. Olhar pra essa sua cara de vítima é quase tão ofensivo quanto a sua traição.
Ele soltou o rosto do garoto com um empurrão forte, deu alguns passos para trás e girou o bastão de madeira.
— Por que você fez isso? — a voz dele ecoou, fria e metódica. — Por que nos traiu depois de tudo o que a Skarshyn investiu em você?
— Eu… eu não sei do que você está falando… — soluçou. — Por favor, eu nem sei quem eu sou!
Outro golpe veio, rápido, atingindo o estômago e expulsando todo o ar de seus pulmões. Ele se dobrou o máximo que as cordas permitiam, tossindo e tentando recuperar o fôlego.
— Mentir não vai te salvar. Diga-me: desde quando você nos trai? — o homem misterioso se aproximou novamente, a sombra da máscara crescendo sobre o garoto. — Estava ajudando alguma outra organização? Algum governo? Quem te convenceu a virar as costas para nós?
— Ninguém! — gritou em puro desespero. — Eu juro! Eu acordei na neve! Eu estava sozinho!
— Sozinho? — o homem riu, em um som seco e sem humor. — E como sobreviveu àquele ferimento? Ninguém sobrevive a um dano daqueles sem ajuda externa ou uma regeneração que só os Anjos podem ter. Quem te curou?
— Eu não sei… eu não lembro! — ele fechou os olhos com força, já esperando o próximo impacto.
Instantes depois, o impacto veio. Desta vez, o bastão atingiu o lado esquerdo de seu rosto. A visão do rapaz explodiu em luzes brancas e, em seguida, um borrão escuro. Ele sentiu o gosto metálico inundar sua boca e o estalo de algo se quebrando. Um de seus dentes caiu sobre o chão, e seu olho direito começou a inchar rapidamente, tornando-se um hematoma arroxeado e pesado.
A sala tornou-se um ciclo de dor por vários longos segundos. Ele golpeava as articulações, as costelas, os ombros. A cada golpe, mais um vinha, a madeira se encontrando contra a carne, ressoando nas paredes velhas. O garoto já não conseguia mais gritar; seus pulmões ardiam e sua garganta estava em carne viva. Ele apenas emitia gemidos baixos, o corpo pendendo na cadeira como um fantoche cujas cordas foram cortadas.
Após dezenas de golpes, ele finalmente parou, respirando rápido e frio sob a máscara. Ele parecia genuinamente irritado com a persistência daquela “atuação”.
— Você é teimoso. — disse o homem, aproximando-se do ouvido dele. — Mas saiba de uma coisa: você terá o mesmo destino que todos da Cvacna Gora. Você vai queimar no esquecimento, e ninguém virá buscar o que sobrar de você. Ouviu bem?
O sujeito fixou os olhos através da máscara, esperando ver alguma mudança. Ele buscava o brilho da culpa, ou talvez um surto de raiva. Mas, sob a luz amarela, ele viu apenas o mesmo terror cego e infantil. Viu uma alma que parecia estar genuinamente perdida naquele mundo.
— Não… por favor…
Mais do que isso, algo técnico o incomodava. O garoto estava sendo massacrado, sua vida estava em risco, e ainda assim… não estava usando sua Alma. Não houve uma única faísca de poder, nenhuma marca se abriu por instinto, nenhuma defesa foi erguida. Era como se a pessoa que ele conhecia tivesse sido apagada, deixando apenas uma casca vazia no lugar.
Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, observando o garoto encolhido, sangrando e trêmulo. Ele guardou o bastão na mesa, fechou a maleta de ferramentas e, sem dizer uma única palavra extra, caminhou até a porta.
O som metálico da porta se abrindo e se fechando, das trancas que selaram o ser de chifres novamente. Ele estava sozinho, quebrado, em um lugar que não conhecia, com pessoas que não sabia o nome.
Horas se passaram no vácuo daquela sala. O tempo para o garoto havia se tornado uma massa disforme de dor latejante e delírios causados pela fome e pela sede. Quando a porta finalmente se abriu de novo, o garoto nem sequer teve forças para levantar a cabeça.
O homem de antes se aproximou em silêncio. Sem a brutalidade anterior, ele lançou uma uma lâmina e cortou as cordas que o amarravam. No instante em que os pulsos e canelas foram libertados, o corpo frágil do garoto cedeu; ele desabou da cadeira, caindo no chão frio. O impacto enviou ondas de choque por suas costelas feridas, e ele soltou um gemido agoniado, incapaz de se levantar.
Com uma eficiência mecânica, o homem de máscara o ergueu pelos ombros e o colocou de volta na cadeira. O garoto estava mole, a cabeça estava caindo para o lado e os olhos semicerrados — o esquerdo inchado. Ele então colocou sobre a mesa uma pequena porção de ração militar seca, em formato retangular, e um cantil de água.
— Coma. — ordenou, mas desta vez a voz não tinha o peso do ódio.
O rapaz esfomeado não esperou nem por um segundo convite. Suas mãos trêmulas agarraram o alimento com pressa. Ele mastigou a ração seca com dificuldade, sentindo a garganta arranhar, e virou o cantil de água, deixando o líquido escorrer pelos cantos da boca ferida. Ele não agradeceu. Não havia gratidão em sua alma, apenas confusão e medo.
O Caveira — nome dado ao homem violento pelo garoto de chifres — observou-o terminar. Ali, o silêncio na sala era denso, carregado pelo cheiro de suor, sangue e metal.
— Eu cometi um erro. — a voz dele surgiu vinda de trás da máscara de caveira. — O que eu fiz com você… foi uma crueldade desnecessária. Eu agi baseado em uma certeza que não existia. Peço desculpas.
Ele parou de beber. Ele olhou para o homem, com a visão ainda turva focando naquelas órbitas vazias da máscara.
— Você… você quase me matou. — disse finalmente, agora com o medo diminuindo. — Você me machucou muito. Eu concordo que foi horrível… mas eu não vou te perdoar. Eu não consigo.
O Caveira inclinou levemente a cabeça, como se já esperasse por aquela resposta. Ele não parecia ofendido; pelo contrário, parecia aceitar o veredito com uma calma perturbadora.
— Eu entendo. — respondeu, curto e direto.
Lentamente, o homem puxou uma faca de combate do cinto. O garoto ao seu lado arregalou os olhos, o pânico novamente disparou em seu peito. Ele tentou se encolher na cadeira, protegendo o rosto com os braços feridos, esperando o golpe final, a lâmina que terminaria sua vida… Mas o golpe não veio para ele.
O homem estendeu a própria mão esquerda sobre a mesa de metal. Com um movimento rápido, preciso e desprovido de qualquer hesitação, ele desceu a lâmina sobre os próprios dedos. O som do corte foi seguido pelo barulho de algo mole atingindo o chão.
O rapaz congelou. Ele viu o sangue escuro do Caveira começar a manchar a superfície da mesa, expandindo-se em uma poça de sangue que brilhava na lâmpada amarela. O homem nem sequer soltou um gemido. Ele simplesmente guardou a faca, enquanto os dois dedos decepados se mantinham no chão, pintando-o de vermelho
O homem de máscara olhou para o garoto, que agora tremia por um motivo diferente.
— O que eu fiz não tem perdão. — disse, com sua voz permanecendo assustadoramente estável enquanto ele encarava o próprio ferimento. — Esse é o mínimo que eu mereço sofrer.

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