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    O depósito de carvão ficava espremido entre dois prédios industriais mais altos, na Rua de l’Ametller onde o movimento diminuía conforme o horário avançava. Às 15:30, o sol ainda iluminava os telhados, mas ali embaixo a luz mal chegava. O ar tinha cheiro de óleo velho, ferrugem e madeira úmida, típico da região — um pequeno parque industrial. Niko e Gwen observavam o local de um beco estreito, meio escondidos atrás de uma caçamba metálica amassada.

    — É maior do que eu imaginava. — murmurou Gwen, ajustando o manto claro. — E parece bem mais organizado também.

    O depósito tinha três andares aparentes, janelas altas e sujas, algumas quebradas e cobertas por tábuas. Na lateral direita, uma porta de carga reforçada com barras de metal. À esquerda, uma escada externa que subia até o segundo andar, parcialmente enferrujada.

    — Organização demais pra ser só um esconderijo improvisado. — respondeu Niko, em voz baixa.

    Ele se afastou um passo da caçamba e se agachou perto da parede. Tirou do bolso interno do manto uma caneta e um bloco de notas, abrindo em uma página simples, sem escrita nenhuma. Passou a tinta no papel, cravando o símbolo da Alma no objeto. Niko arrancou o papel do conjunto e o deslizou para baixo de uma pedra solta perto da base da parede.

    — Se a gente tiver que sair correndo… — começou.

    — Eu sei. — Gwen interrompeu. — Marca de retorno. Bem pensado.

    Ela deu um meio sorriso rápido, mais nervoso do que confiante.

    — Prefiro não precisar usar.

    — Eu também.

    Eles contornaram o local pela lateral esquerda, mantendo-se próximos da parede. A escada externa rangia levemente com o vento, mas não parecia ser usada com frequência, seria perigoso usá-la. A porta do térreo estava fechada e era grossa demais pra abrir sem barulho. Gwen apontou para cima, indicando uma janela quebrada no segundo andar. Havia um piso ao ar livre antes da janela, sem nenhuma pessoa. Era seguro.

    — Parece que esse é o único jeito de entrar. — comentou ela, baixo.

    Niko assentiu. Olhou em volta uma última vez e puxou do manto uma de suas facas. Girou-a entre os dedos, avaliando a distância, e arremessou para cima, mirando o parapeito interno da janela.

    Niko tocou no ombro de Gwen e, em um piscar de olhos, o chão sumiu e deu lugar ao concreto frio do segundo andar. Niko apareceu agachado, com Gwen já ao seu lado.

    — Ainda odeio essa sensação. — murmurou ela, ajeitando o equilíbrio. — Meu estômago sempre dá um nó. Parece que meus órgãos são puxados pra fora. Urghh…

    — Um dia você se acostuma. — respondeu Niko, com uma expressão presunçosa.

    — Não quero.

    Eles entraram pela janela com cuidado. O segundo andar era mais amplo do que parecia do lado de fora, porém vazio. O piso de concreto estava manchado de preto, com marcas antigas de carvão que nunca haviam sido removidas. Trilhos metálicos cortavam o chão em algumas partes, restos de um sistema antigo de carrinhos. As paredes eram grossas e o teto alto cruzado por vigas largas podia ser visto do outro lado da porta.

    — Isso aqui já foi depósito mesmo. — murmurou Gwen. — Mas parece que eles nem se deram ao trabalho de evacuar tudo.

    Eles avançaram a porta devagar, mantendo-se próximos às paredes. O silêncio ali dentro não era absoluto; havia um som baixo e constante, quase imperceptível, como o zumbido distante de algo elétrico funcionando em algum lugar do prédio.

    O corredor à frente se dividia em três portas. Todas fechadas. Gwen se aproximou da primeira, encostou o ouvido na madeira.

    — Nada.

    Na segunda, o mesmo. A terceira estava entreaberta. Niko espiou por uma fresta, a luz do quarto entrando pela janela. 

    — Vazia também.

    Empurrou a porta com cuidado. O cômodo era um simples e antigo quarto de manutenção: paredes estreitas, um armário metálico enferrujado encostado no fundo, algumas caixas de madeira empilhadas de qualquer jeito e um monte de pó preto acumulado nos cantos. O cheiro de carvão ali era mais forte, seco e impregnado do que os outros cantos. Gwen entrou logo depois e fechou a porta com cuidado.

    — É um ótimo ponto de entrada. — disse ela, observando o teto. — E melhor ainda… — apontou para cima.

    Niko seguiu o olhar dela. Acima do armário, uma grade de ventilação antiga, parcialmente torta, presa por parafusos que claramente não eram mexidos havia anos. O duto seguia na horizontal, desaparecendo dentro do resto da estrutura do prédio.

    — Dutos. — completou Gwen. — Prédios velhos sempre tem uma malha inteira disso. Dá pra mapear o lugar sem se expor muito. Mais que perfeito pra gente.

    — Desde que caibamos lá dentro. — respondeu Niko, cruzando os braços, claramente cético quanto a estratégia de Gwen.

    Gwen olhou para os chifres de cervo do garoto. Depois para o duto de ventilação. Depois de novo para os chifres. A conclusão era óbvia.

    — …Vai ser apertado. Mas é a melhor estratégia que temos.

    — Maravilha.

    Ela tirou uma pequena ferramenta do bolso, subiu no armário com uma agilidade impressionante e começou a soltar os parafusos da grade.

    — Sério. — continuou, em voz baixa. — Se isso aqui for mesmo uma base, eles vão ter corredores conectando salas administrativas, depósitos, talvez até alojamento ou salas de maquinários. Dutos costumam passar por tudo isso.

    A grade cedeu com um rangido leve. Gwen a segurou antes que caísse, deixando em cima da estante de metal.

    — Ok. Eu vou primeiro. — disse.

    Ela subiu apoiando o pé no armário e se puxou para dentro do duto com um pouco de dificuldade. O metal rangeu sob o peso, mas aguentou. Gwen se arrastou alguns centímetros e olhou para trás.

    — Dá pra passar. Mas… — ela fez uma pausa curta. — Cuidado com a cabeça.

    Niko suspirou.

    — Sempre.

    Ele tirou a foice das costas para não prender, colocando-a ao lado da estante, e se puxou para cima com cuidado. O espaço era apertado demais para os chifres; ele precisou inclinar a cabeça de lado e avançar centímetro por centímetro, sentindo o metal frio roçar perigosamente perto das pontas.

    — Se eu quebrar um desses… — murmurou.

    — Nem termina essa frase. Isso é horrível. — respondeu Gwen, já à frente. — Continua reto, depois vira à direita.

    O duto fez uma curva fechada. Niko precisou parar, respirar, ajustar o corpo inteiro antes de conseguir passar sem bater. Um movimento errado e o som ecoaria pelo prédio inteiro.

    — Quem projetou isso claramente não pensou em albocernos. — resmungou.

    — Heh.

    Eles avançaram até a primeira saída de ar. Gwen afastou devagar a palheta interna e espiou pelas grades.

    — Um dos corredores… — sussurrou. — Duas pessoas passando agora… Armadas.

    Niko se aproximou o máximo que conseguiu sem prender os chifres. Abaixo deles, um corredor longo, com portas numeradas nas laterais. Os homens caminhavam com naturalidade, com armas de fogo visíveis — uma pistola e um revólver —, conversando baixo.

    — Já vai pra lista de anotações. — comentou Gwen, baixo.

    Seguiram adiante pelo duto, agora em linha reta. O metal vibrava levemente sob eles. Na segunda saída de ar, Gwen parou de novo.

    — Sala grande.

    Niko olhou. Era um antigo salão de armazenamento, agora reorganizado. Caixas empilhadas de forma ordenada, uma mesa central com mapas, lanternas, papéis. Três homens armados ali dentro, um deles apontando para um mapa enquanto falava.

    — Três aqui. — contou Gwen. — Já vimos dois no corredor… cinco no mínimo.

    — E ainda falta o térreo e o terceiro andar.

    O duto seguia e descia levemente e o ar ficava mais quente à medida que iam para frente. Na terceira abertura, Gwen respirou fundo antes de olhar.

    — Um escritório.

    Niko se aproximou. A sala era menor, fechada, com uma mesa de madeira pesada, estantes com pastas e um cofre pequeno embutido na parede. Não havia ninguém ali no momento.

    — Provavelmente é a sala do Valand. — disse Gwen.

    — Nosso alvo, então.

    Eles seguiram até o fim daquele trecho de duto, onde havia uma descida vertical. Abaixo, dava para ver um espaço estreito, vazio naquele instante.

    — A gente desce aqui? — perguntou Niko.

    — Não. Muito exposto. — Gwen apontou para trás. — Volta um pouco. Tem outro ramal que leva pra um depósito menor. Deve ser seguro.

    Niko assentiu, já sentindo o pescoço reclamar da posição forçada.

    — Da próxima vez, eu escolho o plano.

    — Da próxima vez, você nasce sem chifres.

    Eles retornaram pelo duto lateral até outra saída. Abaixo, havia um espaço pequeno, isolado e sem movimento.

    Niko puxou uma das facas, respirou fundo e a soltou para baixo. A puxada da Alma veio rápida, familiar. O metal do duto desapareceu e deu lugar ao chão de concreto escuro. O cheiro de carvão voltou forte, quase sufocante. Niko surgiu agachado, seguido de Gwen um instante depois.

    O cômodo era apertado: um armário alto encostado na parede, caixas de madeira empilhadas, sacos vazios de carvão jogados em um canto. Nenhuma janela. Apenas uma porta simples. 

    Por um segundo, tudo ficou mergulhado na penumbra. Os olhos de Niko se ajustaram na escuridão, e viu uma lanterna de latão em cima do armário. Ela era pesada, coberta por uma camada fina de poeira. Niko a pegou, girou o botão com o polegar.

    A chama acendeu com um estalo seco, lançando uma luz amarelada e instável que se espalhou pelo quartinho, revelando melhor as paredes manchadas, o pó negro no chão, as marcas de uso antigo. Gwen soltou o ar devagar.

    — Ok… — murmurou. — Aqui dá pra organizar a cabeça.

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