Capítulo 177 - A sede II
Niko apoiou a lanterna sobre uma das caixas, ajustando-a até a luz ficar firme. O brilho amarelado lançava sombras no armário e alongava os cantos do cômodo. Ele esticou a mão e concentrou sua Alma, fazendo sua arma retornar às suas mãos. Recolocou a foice em suas costas e depois passou a mão no ombro onde a roupa e a pele ainda estavam marcadas de poeira preta.
— O tempo não tá do nosso lado — disse ele. — Quanto mais a gente fica parado, maior a chance de alguém passar por aqui.
— Eu sei. — respondeu Gwen, já agachando.
Ela pegou um pedaço de carvão do chão, sujando os dedos sem se importar, e puxou uma caixa vazia jogada no canto para o centro do quartinho.
— Por isso a gente vai decidir nossa estratégia agora.
Ela virou a caixa de lado e começou a riscar a superfície de madeira com o carvão. Desenhou traços rápidos e seguros no objeto antes inútil. Um retângulo maior, depois linhas internas, bifurcações e ramos distintos.
— Analisei bem o nosso percurso. Isso aqui é o segundo andar. — explicou. — Onde a gente entrou. — marcou um ponto. — Dutos passam mais ou menos por aqui… e aqui.
Niko se aproximou, observando em silêncio. Vendo uma inconsistência, apontou para uma linha.
— Esse trecho é mais longo do que parece. O duto desce um pouco antes do final.
Gwen assentiu e corrigiu o desenho sem hesitar.
— Verdade. —lambeu o indicador, passou pelo desenho. — Boa.
Ela continuou, marcando os pontos que haviam visto pelas saídas de ar.
— Corredor principal. — disse, desenhando uma linha longa. — Dois homens armados. Aqui. — marcou um X. — Sala grande com três homens…
Por fim, ela desenhou outro retângulo, menor, afastado do resto, com um acesso de grade. Aquele era um dos últimos lugares que foram antes de caírem na salinha de planejamento provisória.
— E aqui… — disse, batendo o carvão duas vezes na madeira — é onde fica o Valand.
Niko cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha enquanto as luzes refletiam sua silhueta, seus chifres de cervo nas paredes.
— Aquela sala que vimos pelo duto? — perguntou. — Não parecia tão isolada assim.
— Parecia o suficiente. — Gwen finalmente olhou pra ele. — Além disso, tem alguma dúvida que é a sala do Valand?
— Nenhuma.
— Foi o que eu pensei.
Niko ficou em silêncio por alguns segundos. Havia muito óbvio nisso. Eles já sabiam onde ficava a sala do chefe, e estavam em um caminho relativamente seguro… Depois da conclusão, apontou para o desenho.
— Tá. Mas se a gente já mapeou tudo isso pelos dutos… por que não voltar por eles? Descer direto na sala e pronto. A gente já podia ter feito isso.
Gwen apoiou o carvão na caixa e se levantou, lançando um sorriso cheio e certeiro, de pura coragem.
— Porque agora os dutos são previsíveis. — disse. — Se alguém ouviu qualquer coisa, se alguém resolveu checar, a primeira coisa que vão fazer é olhar pra cima. E se fecharem uma saída, a gente não consegue terminar a missão.
Ela bateu fraco com os nós dos dedos na porta simples do quartinho, fraco o suficiente para não produzir nenhum som.
— Aqui embaixo, pelo menos, a gente tem opções. Salas, corredores, cobertura… — enumerou contando com os dedos.
— Ou emboscadas… — rebateu Niko.
— Ou emboscadas! — concordou ela, apontando para o garoto. — Mas a diferença é que, andando pelo prédio, a gente reage ao que vê. Voltando pros dutos, a gente aposta no que acha que não mudou.
Niko respirou fundo, passando a mão pelo rosto. Olhou de novo para o mapa improvisado, em específico, para a sala marcada — seu objetivo atual.
— E esse caminho… — disse. — Sala por sala até o escritório…
— É o mais feio. — respondeu Gwen. — E exatamente por isso, o menos esperado. Ninguém monta uma base funcional esperando que alguém avance pelo meio dela, de porta em porta.
Ela percebeu a tensão sob o amigo, sabia que não tinha motivos para se preocupar, os deuses e o destino estavam ao lado dela, e Niko viu isso no bar e na estação. Em seguida inclinou a cabeça, encarando-o.
— Vamo lá, confia em mim.
Niko fechou os olhos por um instante. Esse plano era absurdo. Apostar todas as fichas em um lugar praticamente desconhecido era suicídio. Suicidio para pessoas comuns, mas para Gwendolyn, não. Até agora todas as suas ideias deram certo e avançaram na investigação. Para falar a verdade, Niko duvidava mesmo se a investigação avançaria sem Gwen. Quando abriu, o desconforto ainda estava lá.
— Eu ainda acho esse plano esquisito. — disse, por fim. — Mas você já provou que sabe ler esse tipo de coisa melhor do que eu. Confio em você.
Gwen deu um meio sorriso curto, sem comemorar, mas sabendo que a vitória final estava próxima.
— Então?
Ele assentiu devagar. Finalmente aceitou a aposta arriscada, dizendo em seguida:
— Corredor. Sala por sala. Até o quarto do Valand.
Gwen apagou uma linha do mapa com a palma da mão, espalhando carvão até as linhas ficarem em um formato irreconhecível.
— Ótimo. — foi até a lanterna, apagando-a conforme terminava sua frase. — Então vamos fazer direito.
A escuridão voltou a engolir o quartinho, quebrada apenas por uma faixa fraca de luz que entrava por debaixo da porta. Gwen encostou a mão na madeira, esperou alguns segundos. Nenhum som. Nenhum passo. Ela girou a maçaneta com cuidado e abriu o suficiente para espiar o corredor.
— Limpo. — murmurou.
Eles saíram um de cada vez. Gwen à frente, Niko logo atrás, mantendo um espaço curto entre os dois. O corredor era estreito, de paredes grossas marcadas por manchas antigas de carvão e umidade. Lâmpadas espaçadas lançavam uma luz fraca e irregular, criando sombras fracas entre uma e outra.
Na interseção do corredor, ouviram passos pesados se aproximando. Bem a tempo, encontraram uma porta à direita. Gwen fez um gesto rápido com a mão. Niko se posicionou ao lado, com a foice ainda presa às costas, atento ao som. Gwen abriu a porta o suficiente para entrar, sem ranger, sem chamar atenção. Niko logo atrás, fechando a porta.
O cômodo era um mini-depósito: sacos empilhados, ferramentas velhas, caixas de madeira marcadas com números apagados. Nada de pessoas. Nada de movimento. Segundos depois, o som de passos se foi, deixando somente o silêncio para trás.
— Vamos. — sussurrou ela.
Voltaram ao corredor. A segunda porta estava à esquerda. Não haviam motivos claros para entrarem ali, porém o cheiro — um doce pesado, quase enjoativo — chamou a atenção deles. Gwen franziu o nariz assim que abriu.
Lá dentro, fileiras de vasos improvisados, lâmpadas presas por fios expostos, folhas largas crescendo sob a luz artificial. Eram plantas de ópio, cuidadas demais para seres de novatos. Havia baldes com água, fertilizantes alinhados, um sistema improvisado de irrigação.
— Isso não é pequeno. — murmurou Niko.
— Nem amador. — respondeu Gwen. — Eles estão aqui há um tempo.
Ela deu dois passos à frente, aproximando-se das plantas. Tocou uma das folhas com cuidado, avaliando a textura, depois puxou outra mais abaixo e a examinou contra a luz. Niko franziu a testa, incrédulo com a ação da garota.
— Gwen! — chamou baixo, em tom de aviso. — O que você tá fazendo?!
Ela não respondeu de imediato. Guardou as folhas dentro do bolso interno do manto e só então olhou para ele.
— Não é nada, não. — disse, em voz baixa. — É que ópio assim, cultivado desse jeito… — fez um gesto curto com a mão, elevando o indicador. — É matéria-prima pra rituais esotéricos.
Ela sorriu de lado, lançando o mesmo olhar certeiro e confiante para Niko. Em outras ocasiões ele não se importaria, mas naquela… Niko somente balançou a cabeça, descrente.
— Vou fingir que acredito em você.
— Ótimo. — respondeu Gwen. — Assim você não atrapalha.
Ela fechou a porta com cuidado e voltou para o corredor. Não avançaram muito antes de perceberem que algo estava errado. A terceira porta estava entreaberta, diferente das outras. E havia marcas no chão — arranhões e poeira deslocada. Não de passagem comum, mas de algo sendo arrastado. Gwen se abaixou e passou os dedos pelas marcas.
— Eles usam essa sala com frequência — murmurou. — E parece não ser pra estoque.
Niko sentiu o estômago se contrair. Sabia que havia algo errado ali, estava — literalmente — na sua cara.
— Será que é onde deixam os traficados? — perguntou, baixo.
Gwen não respondeu de imediato. Apenas empurrou a porta um pouco mais. A porta rangeu de leve. Dentro, havia apenas um silêncio. Sem sinal de seguranças ou qualquer outro tipo de alma viva.
— Tem chance — disse, por fim.

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