Capítulo 179 - A Sede IV
Antes que Niko pudesse responder, o corredor voltou a ganhar vida. Passos apressados ecoaram do outro lado da esquina. Não um, não dois — vários. Vozes sobrepostas, ordens curtas, o metal de armas sendo engatilhadas. O som seco de um ferrolho puxado atravessou o ar como um aviso. Gwen ergueu a cabeça no mesmo instante.
— Merda!
O primeiro disparo veio antes que ela terminasse a frase. A bala atingiu a parede ao lado deles e explodiu concreto e poeira no ar. Outra atravessou a porta da sala das celas atrás deles, abrindo um buraco na madeira.
Três silhuetas surgiram no fundo do corredor — eram os mesmos homens que haviam visto pelos dutos de ventilação. Agora não eram apenas sombras observadas de cima. Estavam ali, firmes, com rifles longos apoiados nos ombros, avançando com frieza. Sem tempo para discutir.
— Pra sala! — Gwen puxou Niko pelo ombro.
Eles recuaram rapidamente para o quarto das celas — praticamente se jogando na porta — enquanto novos tiros rasgavam o corredor. As balas bateram em algumas grades de ferro com estalos metálicos violentos, ricocheteando em ângulos imprevisíveis. Um projétil atravessou uma das gaiolas e arrancou lascas de madeira do outro lado. O eco ali dentro era pior — cada disparo tinha o estrondo de dez.
Niko apoiou-se em uma das barras, respirando com dificuldade. A tontura ainda persistia em sua cabeça como uma névoa, mas a náusea começava a ceder. A Alma Negativa ainda estava ali, a maldição queimando sob a pele, mas já não o paralisava completamente. Ele fechou os olhos por um segundo.
“Sem Alma… Que maravilha…”
Quando abriu, o olhar estava diferente — mais atento, como se tivesse empurrado a fraqueza para o fundo do corpo à força. A mão boa foi até a foice presa às costas. Ele a puxou com um movimento curto, sentindo o peso familiar se encaixar na palma.
— Então vou ter que improvisar… — murmurou.
Gwen já estava se movendo. Com um chute forte, fechou a porta das celas de volta no lugar e arrastou uma das gaiolas metálicas vazias para a frente dela, usando-a como barricada improvisada. O ferro raspou no chão com um som agudo que ecoou pelo cômodo. Ela empurrou também uma das mesas baixas próximas contra a madeira estilhaçada, criando o mínimo de resistência possível.
— A gente precisa se esconder, Niko! — gritou ela. — Eles já vão entrar!
Niko respirou fundo, ignorando o latejar no braço. O sangue ainda escorria devagar pelo antebraço, deixando a empunhadura da foice escorregadia. Ele limpou a mão na própria roupa e se moveu rápido, passando por entre as celas até alcançar a parte mais escura da sala, onde as sombras das grades dominavam completamente a luz.
Agachou-se atrás de uma fileira dupla de barras, posicionando-se de forma que pudesse ver a entrada sem ser visto facilmente. Estava com joelhos flexionados, tronco inclinado levemente à frente, foice baixa, pistola já destravada na outra mão.
A barricada não durou muito. O primeiro impacto contra a porta foi brutal. A estrutura inteira vibrou. O segundo veio acompanhado de um estalo alto de madeira cedendo. No terceiro, a fechadura arrebentou de vez e a porta voou para dentro, arrastando a gaiola alguns centímetros.
Os três homens entraram com disciplina quase militar, rifles erguidos, passos firmes e olhos atentos. Um deles chutou a gaiola para o lado, abrindo passagem. Outro fez um gesto silencioso com dois dedos rondando em círculos, indicando separação. Em seguida, eles começaram a vasculhar a sala.
Um seguiu pela esquerda, passando a mão pelas barras das celas como se esperasse que alguém estivesse escondido dentro. Outro avançou pelo centro, mirando entre os vãos, pronto para atirar ao menor movimento. O terceiro contornou pelo lado direito, perto das gaiolas empilhadas, com o cano do rifle acompanhando cada sombra que se movia com a poeira no ar.
— Sumiram? — murmurou um deles, de voz baixa, mas tensa.
O silêncio era sufocante. Só o rangido das botas no chão de concreto e o som distante de vozes no corredor.
Quando os homens menos esperavam, Gwen apareceu primeiro. Ela surgiu atrás de uma das celas como um predador natural dos bandidos. Deu dois passos rápidos e golpeou o homem da esquerda na base do crânio com a coronha da pistola. Com o criminoso ainda caindo, pegou-o pelo pescoço, enforcando-o enquanto as mãos tentavam alcançar o braço.
— Contato! — gritou o do centro, girando a arma na direção dela.
Mesmo com um refém em mãos, eles atiraram em direção à garota. A bala atravessou as barras e arrancou lascas da parede atrás. Os olhos de Gwen arregalaram com a cena. Ela esperava que os homens se renderiam ou, pelo menos, não a atacassem.
“Peraí, peraí, peraí!”
Antes que eles ajustassem a mira, um tiro ecoou dentro da sala. Niko, ainda agachado atrás das grades, havia sido o responsável. O projétil atingiu a mão do homem do centro que segurava o rifle. O grito veio junto com o estalo do osso atingido. A arma caiu no chão, deslizando para longe.
O terceiro tentou reagir, puxando o ferrolho para um novo disparo, mas Niko já estava de pé. Ele avançou com a foice em arco baixo, usando o cabo primeiro. O impacto atingiu o joelho do homem com força suficiente para fazê-lo desabar. Antes que ele pudesse se recompor, Niko girou o corpo e acertou o estômago dele com a extremidade do cabo. O homem se curvou instintivamente. A parte plana da lâmina encontrou a lateral da cabeça. Ele desabou na hora.
O que ainda segurava a mão ferida tentou alcançar a pistola presa ao cinto. Niko chutou o rifle para longe e avançou um passo, golpeando o antebraço dele com a haste da foice. Em seguida, deu um segundo golpe, controlado, na têmpora. O homem tombou para frente, inconsciente. Por fim, Gwen terminou o serviço atirando na cabeça do falho refém. Ele caiu duro no chão.
Um silêncio se instaurou na sala. A poeira ainda flutuava no ar, atravessada por feixes de luz do corredor. Gwen manteve a pistola apontada por alguns segundos a mais, respirando pesado, os olhos percorrendo cada corpo no chão para certificar que não acordariam.
— Já foram os três. — disse ela.
Niko engoliu seco, sentindo o braço pulsar de novo. Cinco no total, contando os do corredor. Ele ajustou a foice na mão e olhou para a porta destruída.
— E pelos murmúrios no corredor, a gente sabe que tem mais.
Gwen assentiu devagar, o olhar varrendo o quarto agora manchado de sangue fresco. O ferro no ar era quase palpável. Três corpos espalhados entre as celas vazias. Ela sentia nada em relação à isso.
— É… a gente precisa sair daqui.
Dessa vez não houve discussão, nenhum plano elaborado, só a necessidade imediata de sair dali. Eles se moveram em silêncio absoluto. Gwen foi primeiro até a porta, encostando-se na lateral da moldura quebrada e espiando o corredor por uma fresta. Nada à vista.
Ela fez um gesto curto com dois dedos, como se dissesse “vamos”. Niko saiu logo atrás, tentando controlar a respiração. A cada movimento, o braço ferido enviava um choque quente e perfurante pelo corpo, mas ele ignorou. O corredor parecia mais estreito agora, mais sufocante. As lâmpadas fracas oscilavam levemente no ar.
Eles avançaram colados à parede, evitando o centro. O destino imediato era a sala da plantação de ópio — do outro lado do corredor, um pouco atrás. Ali seria o lugar mais seguro da fuga, afinal havia janelas com acesso direto à rua.
Chegaram à porta. Gwen testou a maçaneta… Não girou. Ela forçou um pouco mais, com cuidado para não fazer barulho… Ainda nada. Ainda em silêncio, Niko tentou também, apoiando o ombro contra a madeira. A porta sequer cedeu um centímetro.
— Travaram por dentro… Droga. — murmurou ele.
Gwen passou a mão pela moldura, sentindo o encaixe. Havia algo bloqueando do outro lado. Talvez uma barra. Talvez móveis. De qualquer jeito, a sala da plantação não era mais um caminho viável. Eles estavam presos ali.
— Se você pudesse usar sua Alma…
— …Eu sei.
O silêncio que se seguiu foi uma mistura de frustração emocional e cálculo racional. Gwen olhou para a interseção que levava ao setor principal do prédio e pensou na única opção possível.
— Então a gente vai ter que encarar o depósito.
Niko virou o rosto lentamente para ela.
— O depósito tá cheio. A gente viu pelo duto. Além disso, já deve ter mais pessoas lá.
— E aqui é um corredor estreito com saída nenhuma. — rebateu ela, firme. — Prefere voltar pros dutos?
Ele cerrou os dentes.
— Essa também é uma opção. — respondeu, simples. — Prefiro não andar pra dentro de um ninho armado.
— Melhor um lugar aberto cheio de inimigos do que um lugar fechado onde qualquer barulhinho eles fuzilam a gente. — respondeu ela, seca. — Lá pelo menos a gente tem cobertura.
Conforme Gwen andava para o final do corredor, os murmúrios ficavam mais próximos. Vozes coordenando posições. Gwen inclinou a cabeça.
— Vamo logo.
Ainda na interseção eles mudaram de direção. Antes de seguir direto ao depósito, tentaram o escritório ao lado — a sala que acreditavam ser de Valand. Se estivesse aberta, poderiam buscar o que vieram fazer para inicio de conversa, além de uma possível rota de fuga.
Niko testou a maçaneta… Travada. Ele pressionou a porta com mais força, em desespero para abri-la. A madeira rangeu, mas não cedeu nem mais um centímetro.
— Se eu arrombar…
— Eles escutam, e podem fazer uma investida contra a gente. — completou Gwen. — A gente tá em desvantagem, Niko. A gente precisa sair daqui agora.
Ele permaneceu pressionando a porta por mais um segundo, como se a força bruta pudesse resolver o impasse, depois recuou devagar. O braço ferido latejou com o esforço, espalhando uma dor surda até o ombro. Arrombar o escritório seria anunciar exatamente onde estavam, e ainda os prenderia dentro de uma sala sem saber quantos homens aguardavam do lado de fora. Era um risco alto demais para um ganho incerto.
Gwen virou o rosto para o corredor que levava ao depósito principal. A expressão dela estava diferente agora — menos estratégica, mais resoluta. Não havia outra rota.
Niko assentiu, mesmo sabendo o que isso significava. Eles deram a volta e avançaram pelo corredor final com passos controlados, tentando manter o máximo de silêncio possível.
À medida que se aproximavam da abertura ampla do depósito, algo chamou atenção dos dois ao mesmo tempo: o som diminuiu. Não havia mais passos correndo. Não havia mais gritos. Nenhum único som sequer. O silêncio que se instalou era organizado demais para ser coincidência. Tático demais.
Gwen desacelerou instintivamente, erguendo a pistola antes mesmo de enxergar o interior do salão. Niko ajustou a foice na mão boa junto com sua pistola e posicionou o corpo ligeiramente à frente dela, mesmo ferido. A respiração dos dois estava controlada, mas o coração batia forte o suficiente para ecoar nos próprios ouvidos. Os dois já estavam encostados na porta, prontos para o desafio que estava os esperando.
Gwen e Niko colocaram a mão na alavanca horizontal e, com um grande impulso, empurram a enorme porta de metal. O espaço além parecia amplo, tomado por estantes altas, sacos empilhados e mesas improvisadas espalhadas pelo chão de concreto manchado. Era um salão grande o bastante para esconder muita coisa — e muitas pessoas.
Assim que atravessaram o limiar, os dois entenderam o silêncio anterior. Homens estavam posicionados em pontos estratégicos por todo o salão. Alguns ajoelhados atrás de mesas viradas, outros parcialmente ocultos entre sacos de carvão empilhados até a altura do peito. Dois estavam em plataformas improvisadas mais ao fundo, com visão elevada da entrada. Com os rifles já apoiados, alinhados, esperando exatamente aquele momento. Havia também dois mais próximos, armados com pistolas, protegidos por caixas reforçadas que serviam de cobertura. Aquele não era um grupo disperso, era uma linha de execução.
— MORRAM, DESGRAÇADOS! — gritou alguém de dentro.

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