Capítulo 180 - A Sede V
O estampido coletivo dos rifles sacudiu o ar pesado do depósito. Quase uma dezena de disparos explodiu ao mesmo tempo, as chamas breves dos canos se iluminaram atrás das caixas e sacos pesados.
A reação de Niko foi instintiva. Ele agarrou o braço de Gwen e puxou-a para a esquerda com toda a força que o corpo ainda permitia. Enquanto corria, refletiu dois disparos com sua foice. Os dois se jogaram atrás de uma prateleira alta carregada de sacos e caixotes, deslizando no chão de concreto enquanto os tiros continuavam a explodir ao redor.
As balas atravessaram madeira, rasgaram tecido, estilhaçaram parte da estrutura metálica da estante, espalhando pó de carvão como uma névoa espessa que queimava os olhos e arranhava a garganta.
O impacto dos disparos fez a prateleira vibrar violentamente. Alguns projéteis ricochetearam nas barras de ferro, desviando em ângulos imprevisíveis. Um saco foi rasgado acima deles, despejando uma chuva negra sobre os dois.
Gwen respirava rápido, mas os olhos estavam atentos, calculando ângulos entre os espaços da madeira estilhaçada. Ela virou o rosto levemente para Niko, a voz saindo num tom surpreendentemente seco em meio ao caos.
— Pensei que teriam mais. — a esotérica puxou o ferrolho. — Tá na hora da gente matar esses desgraçados.
Antes que Niko pudesse responder, ela já se moveu. Gwen se inclinou para fora da cobertura com um giro rápido do tronco e disparou duas vezes quase no mesmo movimento. Um dos homens atrás das mesas caiu para trás, com o rifle escorregando da mão antes mesmo de terminar o grito.
Ela recuou para dentro da proteção antes que fosse fuzilada, mas não ficou ali parada apenas esperando o pior. Com uma lâmpada surgindo em cima da cabeça, teve a ideia mais ousada que poderia ter.
Gwen respirou fundo, contando o ritmo dos disparos inimigos, e então…
— Me empresta rapidinho. — disse ela, estendendo a mão para Niko, pegando sua pistola sem seu consentimento.
— Ei! O que você tá fazendo?!
Saiu da prateleira como uma ruptura no padrão. Correu baixo, atirando com as duas armas alternadamente, forçando os homens a abaixarem a cabeça. Um disparo acertou o ombro de outro criminoso, que girou e caiu contra os sacos pesados. O segundo tiro dela pegou um homem na lateral do pescoço, fazendo-o tombar para o lado e desaparecer atrás das caixas.
Ela tentou alcançar a próxima estante com um deslize pelo chão, usando o próprio impulso para se jogar atrás da cobertura seguinte. Porém, antes que alcançasse o local, dois tiros vieram quase simultâneos de posições opostas.
O primeiro tiro atravessou a coxa direita dela. O impacto arrancou o ar dos pulmões. O segundo acertou logo abaixo do joelho esquerdo, girando o corpo dela no chão antes que conseguisse estabilizar.
Gwen caiu com força, com a pistola — roubada de Niko — escapando da mão esquerda. O sangue começou a se espalhar pelo concreto quase imediatamente, escuro demais.
Ela tentou se levantar mas a perna não respondeu. Outro disparo explodiu madeira acima da cabeça dela. Ela respondeu cobrindo o rosto, se arrastando até a próxima estante.
Niko viu a situação de Gwen e não pensou, somente agiu. Ele saiu da cobertura mesmo na chuva de tiros. O som mudou ao redor dele, ficando mais abafado, como se o mundo tivesse sido reduzido a um corredor estreito entre ele e Gwen.
Levantou a foice e girou o cabo no momento exato em que um projétil vinha em sua direção; o impacto contra o metal desviou a bala em ângulo imprevisível. Outra ricocheteou na lâmina curva, arrancando faíscas breves no enorme galpão.
Ele continuou avançando, mesmo na desvantagem. Com a mão livre, puxou duas facas presas no manto e as encaixou entre os dedos como se fossem extensões naturais da própria mão. Calculou a distância em um único segundo e lançou.
As lâminas cortaram o ar rápido, acertando um homem atrás das caixas no ombro e abaixo da clavícula, arrancando-lhe o rifle das mãos antes que pudesse reagir. Ele caiu de lado, tentando puxar as lâminas para fora enquanto o sangue manchava o chão atrás dele.
Niko alcançou Gwen e se ajoelhou ao lado dela, puxando-a pela cintura para trás da estante seguinte. Os tiros continuavam, mas mais espaçados agora, junto dos criminosos ajustando posição. Gwen estava pálida, com os dentes cerrados para não gritar.
— O que você tava pensando sua maluca?! Quer morrer?! — gritou o albocerno, com os tiros sobressaindo na sua voz.
— Pensei que daria certo… Geralmente funciona… — ela tossiu uma vez, o ar falhando no meio da frase. — Parece que eu não sou tão sortuda assim. — terminou em um riso fraco, quase histérico.
Niko pressionou a mão contra a coxa ferida dela, tentando estancar o sangramento enquanto olhava ao redor, procurando uma saída que parecia não existir.
— Cala a boca. — respondeu ele, ofegante.
O riso morreu rápido demais. Gwen baixou o olhar para as próprias pernas. O sangue escorria em duchas grossas pela coxa direita, enquanto a esquerda tremia involuntariamente. Ela pressionou os dentes com força, tentando estabilizar a respiração, mas o ar entrava curto, irregular. A dor já não era apenas ardência — era pressão pulsante, como se cada batida do coração estivesse tentando empurrar as balas de volta para fora.
— A gente precisava sair, não? — disse ela, ofegando. — Só tentei abrir o caminho… e metade já foi agora. Não foi totalmente inútil.
— Eu disse pra calar a boca! — Niko respondeu mais alto do que pretendia, o desespero escapando pela voz.
Ele olhou ao redor com rapidez. Não podiam ficar ali esperando a próxima investida. Entre os caixotes quebrados e sacos rasgados, encontrou pedaços de pano jogados — antigos panos de chão, sujos de carvão, mas ainda inteiros. Agarrou dois, rasgou com os dentes e com a mão boa, improvisando faixas grossas.
Sem delicadeza, levantou a perna direita dela e amarrou acima do ferimento, apertando até que Gwen soltasse um gemido baixo e abafado. Repetiu o processo na outra, usando a estante como apoio para mantê-la sentada.
— Aguenta… — murmurou, puxando o nó com força suficiente para cortar parcialmente o fluxo de sangue. — Só mais um pouco.
Ela encostou a cabeça na madeira da estante, respirando pelo nariz, tentando não perder o foco. O tiroteio havia diminuído, mas não cessado. Os homens estavam se reposicionando, esperando que eles cometessem outro erro — ou talvez, estivessem preparando uma investida.
Niko ergueu o olhar por entre as frestas da cobertura. Ali, eles tinham duas opções. Ficar e eliminar o restante. A vantagem era clara: menos homens significava menos perseguição depois e já haviam derrubado vários até agora. Talvez conseguissem abrir caminho à força. Mas Gwen não conseguia mais correr e ele estava ferido. Era provável que não durassem muito mais no tiroteio. Além disso, poderiam surgir mais homens.
A outra opção era romper contato imediatamente. Fugir o mais rápido dali, desaparecer antes que reforços chegassem do restante da base. O problema era óbvio: para correr, precisariam atravessar um campo aberto sob mira de rifles. Ficar significava lutar em desvantagem física. Correr significava apostar tudo em uma única oportunidade que não tinha chance de vitória.
Ele fechou os olhos por um segundo, tentando organizar os pensamentos sob o ruído distante dos passos se ajustando no salão. Se eliminassem todos ali, ainda haveria outros no prédio. Se saíssem agora, talvez sobrevivessem. Mas não havia como abandonar o conflito. Nenhuma distração. Oportunidade. Nada.
— Niko.
A voz de Gwen o puxou de volta. Ela não estava olhando para ele. Estava olhando para a própria mão, onde segurava algo cilíndrico e metálico, com um pino e uma alavanca, escrito: fumée. Era uma granada de fumaça.
Sem dizer mais nada, colocou o dispositivo na palma dele e fechou os dedos dele ao redor do corpo frio do artefato. Forçou a mão dele contra o metal.
— Essa é a nossa chance.
Niko sustentou o olhar dela por um segundo a mais. Havia dor ali, mas também confiança. Ele assentiu devagar, firme, como se estivesse aceitando algo muito maior do que apenas um plano de fuga. Observou o depósito por um tempo. Em seguida, puxou o pino e arremessou a granada para o centro do salão.
O cilindro quicou duas vezes no concreto antes de começar a liberar uma fumaça espessa e branca, que se espalhou rápido demais para que os homens reagissem com precisão. O salão, que antes estava desenhado em linhas claras de cobertura e ângulos de tiro, tornou-se um labirinto opaco em poucos segundos.
— Que merda! — alguém gritou do outro lado.
Niko guardou a foice nas costas com um movimento brusco e se abaixou diante de Gwen.
— Vem.
Ela passou o braço pelo pescoço dele, apoiando-se com o pouco de força que restava. Ele segurou as coxas dela, ignorando o sangue que voltava a molhar os panos improvisados, e a ergueu. O peso não era o problema. O problema era correr com o braço ferido e o peito ardendo sob o cheiro de pólvora.
Eles avançaram cegos. Tiros começaram a cortar a fumaça, disparos feitos por instinto, sem alvo definido. Um projétil passou tão perto que ele sentiu o ar se deslocar ao lado da orelha. Outro atingiu uma estante à direita, fazendo algo de vidro se destroçar em um estrondo.
Niko sabia que não podia seguir para a escada. Lá embaixo haveria mais homens. Mais rifles. Um lugar que nem conhecia. Seria execução. Ele ergueu o olhar, vendo o melhor ponto de fuga disponível: a janela. Era alta. Na lateral esquerda do salão. Alta o suficiente para que pudessem ultrapassar. Porém, era longe demais. Mas era a única abertura que levava para fora. A única forma de ir para lá seria escalando.
— Segura firme. — murmurou.
Ele desviou para uma pilha de caixas empilhadas de forma irregular. Subiu na primeira com dificuldade, com o corpo protestando. A segunda cedeu levemente sob o peso dos dois. A madeira gemeu, mas não quebrou. A terceira estava mais distante do que parecia sob a fumaça densa.
Tiros atravessaram a névoa atrás deles. Sem escolha, ele saltou para a próxima caixa, que dava acesso direto à janela. O pé direito alcançou a borda da última caixa. Por um instante — um único instante — pareceu que daria certo. O joelho flexionou, absorvendo o impacto. A mão boa encontrou apoio na madeira lateral. Gwen se agarrou com mais força ao pescoço dele. O corpo inclinou para frente na direção da janela. Ele quase conseguiu… Quase.
O carvão espalhado sobre a superfície da caixa deslizou sob a palma da mão. Primeiro um pequeno deslizamento. Um ajuste mínimo. Ele tentou corrigir o peso, deslocando o quadril para a esquerda. A caixa rangeu. O braço ferido perdeu força no momento exato em que mais precisava dela.
A esperança durou meio segundo a mais. Depois se partiu. A mão escorregou completamente. O ar pareceu ficar mais denso, mais pesado, como se resistisse à queda. Gwen tentou se erguer junto com ele, mas o impulso foi contrário. A caixa virou sob o peso combinado, derrubando as outras abaixo em efeito cascata.
Eles caíram. O impacto contra o concreto foi brutal. Primeiro o ombro de Niko. Depois as costas. A cabeça quase tocou o chão, mas ele conseguiu girar o suficiente para evitar bater o crânio diretamente. Ainda assim, o choque atravessou o corpo inteiro como uma descarga elétrica.
Por um momento, ele não ouviu nada. Só um zumbido agudo constante. Mas a fumaça começou a se dissipar, e ele pode ver as silhuetas reaparecendo entre as frestas da névoa branca, primeiro como sombras alongadas, depois como formas definidas segurando rifles apoiados com precisão. Não estavam mais atirando no escuro. Estavam mirando. Diretamente. Neles.
Gwen tentou se mover, mas as pernas não responderam. Ela ainda estava meio presa sob o corpo dele, com os olhos arregalados, tentando puxar a própria pistola de volta.
Niko viu os canos se alinhando. Viu o dedo de um deles apertar o gatilho. Na mesma hora, se virou e se jogou por cima dela, cobrindo-a completamente com o próprio corpo.
O primeiro disparo atingiu o ombro esquerdo, atravessando carne e saindo pelas costas com força suficiente para fazê-lo estremecer por inteiro. O segundo entrou no bíceps direito, abrindo o músculo já ferido. O terceiro perfurou a lateral da coxa, espalhando calor líquido pela perna.
O quarto atingiu a parte inferior do abdômen, rasgando por dentro. O quinto atravessou o antebraço que ele usava para proteger a cabeça dela — ele tentou respirar. O sexto acertou a panturrilha. O sétimo entrou sob as costelas, no lado esquerdo — profundo demais. O oitavo perfurou o lado direito do peito, roubando o ar antes mesmo que ele pudesse soltá-lo. O nono atingiu o centro da traqueia.
O som que saiu de sua garganta em seguida não foi um grito. Foi um engasgo molhado. O ar não entrava mais em seu corpo. Só borbulhava por dentro. Quente. Espesso. A visão começou a fechar pelas bordas, como se a luz estivesse sendo sugada para um ponto distante. Ele ainda sentia o corpo de Gwen sob o dele. Ainda ouvia algo, mesmo na incerteza.
— NIKO! NIKO! NIKO…
A voz dela parecia vir de muito longe, abafada, quebrada. Ele tentou responder. Tentou puxar ar para dentro do corpo. Nada veio. O depósito escureceu lentamente. As formas viraram sombras. As sombras viraram nada. E o último som que ele reconheceu foi o próprio nome, gritado até virar silêncio.

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