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    O sol começava a se inclinar no horizonte quando Brigitte e Evelyn alcançaram o limite do Distrito Industrial. A luz alaranjada do fim de tarde escorria pelas fachadas como uma tinta líquida, alongando sombras entre guindastes e galpões. À frente delas, estava o Galpão 14-B — o mesmo que o guarda havia dito —, imponente e silencioso, com janelas altas refletindo o incêndio morno do pôr do sol.

    Brigitte parou por um instante, ajustando sua arma enquanto avaliava a estrutura com um olhar técnico. As torres laterais projetavam sombras longas no chão rachado. Uma cerca alta cercava o perímetro, envolta por arame farpado que cintilava sob a luz dourada.

    Do lado de fora, um segurança rondava lentamente ao longo do prédio, o rifle apoiado contra o peito. Ele parecia inquieto, o olhar percorrendo tudo com frequência maior do que o necessário.

    Brigitte inclinou levemente o corpo para frente, usando a quina de um contêiner enferrujado como cobertura natural. A posição era privilegiada: do ponto onde estavam, conseguiam observar o trajeto do segurança sem serem vistas, protegidas pela sombra projetada por um guindaste e pela própria inclinação do terreno.

    O guarda passou outra vez pelo mesmo trecho, com o rifle pendendo do ombro por um segundo antes de ele ajustá-lo de volta contra o peito.

    — Primeira impressão, — murmurou Brigitte, quase em tom casual — parece que eles estão esperando problemas.

    Evelyn manteve os olhos cansados fixos no padrão de passos do homem. Não respondeu de imediato. Ela cruzou os braços por um instante, depois descruzou, como se percebesse que o gesto denunciava tensão.

    — Ou já tiveram. — disse por fim, com a voz baixa e controlada. — Esse tipo de ronda não é de uma rotina relaxada. Ele está contando tempo entre voltas. Deve ser chato.

    Brigitte lançou um olhar lateral rápido, satisfeita com a leitura precisa da situação. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios e, como forma de animar a amiga, respondeu com leveza:

    — Ótima observação!

    Evelyn não reagiu. Não houve sorriso, nem ironia, nem um comentário adicional. Ela apenas baixou o olhar por um instante, como se reorganizasse os próprios pensamentos. Percebendo que o incentivo não surtiu efeito, Brigitte deixou o sorriso desaparecer naturalmente e voltou a estudar o galpão.

    O prédio era um depósito grande e funcional, sem grades externas elaboradas ou barreiras ostensivas — assim como o local anterior — além da própria estrutura de tijolos. A entrada principal era um portão largo de correr, fechado naquele momento, e uma porta menor embutida na lateral direita. O guarda fazia o trajeto entre esses dois pontos, em linha quase reta, antes de contornar parte da parede e desaparecer brevemente no ângulo morto do prédio.

    Só havia uma entrada frontal — a mesma que o segurança rondava — e seria suicídio atravessar aquele espaço aberto. O terreno diante do galpão era plano, com pouca cobertura além de algumas empilhadeiras desligadas e pallets de madeira encostados junto à parede. Qualquer aproximação direta seria vista a metros de distância.

    — Uhmm, isso vai ser complicado. — murmurou Brigitte, avaliando as janelas superiores.

    Evelyn ergueu o olhar para a linha do telhado. As janelas altas estavam fechadas e empoeiradas, refletindo o céu em transição para a noite. A iluminação interna já estava acesa e sombras se moviam atrás do vidro fosco.

    — Pela frente não dá e pela lateral também não. — disse ela, analisando a extensão do prédio. — Mas por cima dá.

    Brigitte acompanhou o raciocínio, caminhando agachada ao longo da parede, mantendo-se no limite da sombra projetada pelo próprio edifício. O concreto áspero roçava de leve no tecido da roupa enquanto elas avançavam, sincronizando a movimentação com o momento exato em que o guarda desaparecia no ângulo morto do prédio.

    Elas avançaram até o fundo do galpão, onde o movimento do segurança não alcançava com tanta frequência. Ali, o terreno era mais irregular, com caixas metálicas abandonadas e tambores vazios encostados perto da parede. Uma escada externa antiga subia até uma grande varanda no segundo andar — provavelmente uma saída de emergência — mas estava recolhida e trancada por dentro. A varanda, no entanto, permanecia ali, perfeita para a entrada.

    Evelyn estreitou os olhos ao notar a estrutura.

    — Ali.

    Brigitte seguiu o olhar dela e assentiu quase de imediato. A varanda tinha uma porta lateral e uma janela estreita ao lado, ambas no segundo piso. Da posição do guarda, seria difícil enxergar aquele ponto específico, especialmente com a luz agora diminuindo.

    Sem dizer mais nada, Evelyn se aproximou da parede e apoiou a mão aberta contra o concreto. O ar ao redor esfriou de maneira progressiva, espalhando uma névoa fina junto ao chão. O gelo começou a se formar verticalmente, sólido e translúcido, criando uma escada compacta que se moldava na parede, com degraus firmes e bem definidos.

    Brigitte testou o primeiro degrau com o pé e sentiu a firmeza da estrutura.

    — Estável o suficiente pra corrida? — perguntou em tom leve, brincando.

    — …Não. — respondeu Evelyn, seca, mas sem agressividade.

    Brigitte — agora sem graça — subiu primeiro, leve e ágil, mantendo o corpo próximo à parede para reduzir o perfil. Evelyn veio logo atrás, reforçando os pontos de contato com pequenas camadas adicionais de gelo sempre que necessário.

    Ao alcançarem a altura da varanda, Brigitte apoiou as mãos na borda e ergueu o corpo com um impulso controlado, pousando em silêncio sobre o piso. Ela imediatamente se abaixou, analisando o interior pela janela lateral. Evelyn subiu em seguida e, assim que ambas estavam na varanda, desfez a escada. O gelo começou a se dissolver de cima para baixo, evaporando antes de tocar o chão. Não restou nenhum vestígio.

    A porta ao lado parecia trancada, mas a janela tinha apenas um fecho interno simples. Evelyn encostou os dedos no metal e deixou o frio agir. O mecanismo enrijeceu com o choque térmico, contraindo o suficiente para ceder com um leve estalo abafado. Brigitte segurou a moldura antes que vibrasse.

    Lá dentro, o segundo andar parecia funcionar como um corredor administrativo, com iluminação branca e o som distante de vozes ecoando do piso inferior.

    Brigitte trocou um olhar rápido com Evelyn. Primeira vez ali dentro. Sem mapa. Sem certeza do que encontrariam. E então, sincronizadas no mesmo movimento, elas entraram pela janela com cuidado…

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