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    A primeira coisa que Niko sentiu foi o frio. Não o frio cortante de gelo ou vento, mas o frio imóvel do piso de cerâmica pressionado contra o lado do rosto. Um frio liso que não reagia ao calor da pele. Ele abriu os olhos devagar — ou achou que abriu, parecia que já estava de olhos abertos —, com a visão turva como se tivesse acordado no fundo de um tanque d’água. A luz acima era amarela demais, espalhada por luminárias embutidas no teto alto, refletindo nas paredes revestidas de mármore claro.

    Muito… branco…

    Sentiu dor. Um latejar forte surgiu na parte de trás da cabeça, seguido por um gosto metálico que parecia colado à língua. Niko tentou puxar ar, mas a primeira respiração veio arranhando a garganta como vidro moído. Ele tossiu, o som ecoando alto demais para o espaço em que estava. O som retornou a ele deformado, multiplicado no ambiente fechado e amplo ao mesmo tempo.

    Ele piscou várias vezes até conseguir focar. Espelhos. Havia três grandes espelhos acima de uma fileira de pias industriais. Todos estavam rachados em padrões irregulares, como se algo tivesse sido arremessado contra eles anos atrás. Seu reflexo apareceu dividido em múltiplos ângulos: o rosto, os olhos, o próprio corpo.

    Cheiro. Desinfetante barato, forte, tentava mascarar o odor de ferrugem e umidade antiga — sem sucesso. Ferro oxidado. Canos velhos. Algo levemente doce e desagradável que denunciava infiltração constante. Cloro?

    Ele tentou se mover, e junto do movimento, veio um som metálico. Um puxão brusco interrompeu o gesto. Seu pulso direito estava preso por uma corrente grossa, fixada a um suporte de metal embutido na parede entre duas pias. O metal estava frio contra a pele e pesado o suficiente para limitar qualquer movimento além de meio metro.

    Memória. A memória veio em fragmentos desconexos. Fumaça. Tiros. A sensação de queda. A granada. O salto. Nada. Confuso. Dor. Algo.

    Ele fechou os olhos por um segundo, tentando organizar as peças, mas a dor atrás da cabeça pulsou com mais força, forçando-o a inspirar fundo — o que só piorou a ardência na garganta.

    — Niko…? — a voz cortou o ar como uma lâmina fina.

    Ele virou o rosto com esforço. Do outro lado do banheiro, à sua direita, presa por outra corrente fixada próxima a uma coluna estrutural, estava Gwen.

    Os cabelos ruivos estavam desalinhados, parte presa na nuca, parte solta sobre o rosto. Havia fuligem no casaco e um rasgo discreto na parte esquerda do pequeno manto. Ela estava ajoelhada quando percebeu que ele havia acordado — e se levantou rápido demais, a corrente limitando o impulso e fazendo o metal bater contra o azulejo com um estalo seco.

    — Niko!

    Ela atravessou o espaço que a corrente permitia e, ao perceber que o alcance quase tocava o dele, estendeu os braços como se fosse atravessar a distância por força de vontade. Quando a corrente finalmente esticou ao máximo, ela segurou o rosto dele entre as mãos com firmeza inesperada. O toque era quente demais para aquele ambiente frio.

    — Você voltou! — a voz dela não tremia, mas estava mais baixa do que o habitual. — Por um segundo eu achei que…

    Ela não terminou. O impulso veio antes do controle. Gwen inclinou o corpo e o puxou para um abraço limitado pela corrente, o gesto desajeitado pela restrição de espaço.

    Niko sentiu o próprio corpo reagir um segundo depois. A tensão nos ombros dela não era teatral; era contida à força. Ele conseguia perceber na respiração curta, no modo como os dedos dela apertavam o tecido da camisa.

    — Eu tô… — ainda no abraço, ele tentou falar, mas a garganta falhou, tossiu novamente. — Eu tô vivo.

    Gwen se afastou o suficiente para encará-lo nos olhos. Havia algo diferente ali — não medo puro, mas um tipo de indignação silenciosa.

    — Ahh, pelos deuses… — respondeu ela, segurando os ombros do garoto. — Eu sabia… Eu sabia que você não ia morrer! Os deuses não nos trouxeram até aqui para morrer em vão!

    Niko sentiu o peso da corrente novamente quando tentou ajustar a postura. O metal raspou contra o azulejo, produzindo um som seco que pareceu alto demais naquele banheiro vazio. Ele inspirou fundo, testando o próprio corpo com cautela. Não sentia mais a dor da cabeça.

    — O que… — a voz ainda saiu rouca — o que aconteceu?

    Gwen já havia voltado à posição anterior, sentada próxima à parede onde sua corrente estava presa. Os ombros estavam mais firmes agora, parecia ter recuperado o autocontrole. Ainda assim, os dedos dela permaneciam inquietos, roçando o metal da corrente como se avaliassem sua resistência.

    — Depois que você caiu… — começou ela, mantendo o tom estável. — Eu não parei de gritar o seu nome nem por um segundo. Te balancei, rezei pra você voltar. Mas aí, um deles me atingiu por trás. Quando eu vi, já estava com uma arma na cabeça.

    Ela desviou o olhar por um instante, não por fraqueza, mas para reorganizar a sequência dos fatos.

    — Você tava sangrando muito. — A mandíbula dela se tensionou. — Eu achei que você ia morrer ali mesmo.

    Niko ouviu em silêncio, tentando encaixar as memórias quebradas, inexistentes, nas palavras dela.

    — Disseram que tinham umas perguntas pra mim, mas naquele momento eu nem prestei atenção direito. — continuou Gwen. — Eu só implorei pra que eles te salvassem, ou que só eu o salvasse…

    A palavra pareceu pesada demais para ela. Soltou um suspiro.

    — Eu disse que podia curar você. Que se deixassem, eu estancaria o sangue e você ainda poderia… servir pra alguma coisa. Pras perguntas também. — a última parte saiu com evidente desprezo. — No começo eles hesitaram. Discutiram entre si, mas no fim, deixaram. Acho que eles pensaram que você tava morto e que não importaria se eu te curasse… Nem conseguia ouvir seu coração…

    Niko piscou devagar.

    — Você… implorou?

    Ela sustentou o olhar dele, firme.

    — Da forma mais humilhante possível.

    Não havia vergonha na resposta. Apenas pragmatismo.

    Ele engoliu em seco e, quase por reflexo, levou a mão livre até o próprio braço. Ele olhou para onde lembrava de ter sido atingido. A pele estava intacta. Pálida, com manchas secas de sangue antigo, mas intactas. Nenhum buraco. Nenhuma cicatriz recente. Nenhum sinal de perfuração.

    Ele ergueu as sobrancelhas e tocou o outro lado do torso, onde sentiu o impacto da segunda bala. Pressionou com os dedos, esperando encontrar dor profunda. Nada. Apenas uma leve sensibilidade superficial.

    — Meus ferimentos… — murmurou, incrédulo.

    Gwen inclinou a cabeça de leve.

    — Sumiram, né? — respondeu. — Eu também achei isso estranho.

    Ele a encarou, buscando algum sinal de exagero, mas encontrou apenas a mesma perplexidade contida.

    — Eu fechei os buracos como sempre faço. — continuou ela, técnica, quase clínica ao descrever. — Estanquei o sangue. Fiz o básico. Mas eles estavam… muito feios. Um dos piores ferimentos que vi na vida.

    A lembrança pareceu atravessá-la por um segundo.

    — Depois disso, um dos homens trouxe uma pomada. Disse que ajudaria a “acelerar” a cicatrização. Não explicou mais nada. Eu passei porque você estava perdendo muito sangue.

    Niko continuava olhando para a própria pele como se esperasse que a realidade se desmentisse.

    — E então? — perguntou, baixo.

    — Então eu vi o ferimento se fechar muito rápido. — Gwen arregalou os olhos. — Tipo, a pele simplesmente… se reorganizou. Como se o dano nunca tivesse existido.

    O silêncio se instalou por um momento, quebrado apenas pelo zumbido da lâmpada e pelo gotejar distante de uma torneira mal fechada.

    Niko deslizou os dedos sobre o local onde lembrava ter sentido a bala atravessar. A memória do impacto ainda estava ali — o choque, o ar sendo arrancado dos pulmões — mas o corpo não carregava nada daquilo.

    — Depois eu quero saber mais daquela pomada que eles me deram. — Gwen concluiu, a voz mais fria agora. — Vai que consigo fazer mais e vender.

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