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    A voz não foi alta, nem precisou ser. O timbre era baixo, quase monótono, mas atravessou o espaço como algo cortante e pesado.

    Gwen ainda respirava de forma irregular quando ergueu o olhar. Havia um resquício de desafio ali, embora o tremor nos dedos denunciasse que ainda não havia esquecido o confronto anterior com Niko.

    — Quem é você? — perguntou ela, tentando se manter superior.

    A mulher não respondeu de imediato. Aproximou-se apenas o suficiente para que a luz do teto revelasse melhor os detalhes do rosto: ali só havia uma expressão vazia, sem qualquer traço de personalidade.

    — Não te interessa.

    A resposta — novamente — veio sem variação emocional, como se estivesse dizendo algo óbvio demais para exigir explicação. Ela então deslocou o olhar para Niko, avaliando-o de cima a baixo, focando no pulso preso, na postura tensa, no sangue seco ainda marcado na roupa.

    — Quem são vocês?

    Gwen soltou um pequeno riso pelo nariz. Era fraco, mas deliberado. O canto da boca se ergueu em um meio sorriso convencido, quase infantil. Ela havia deixado a brecha perfeita para o troco.

    — Não te interessa.

    Por um segundo, nada aconteceu. A mulher não franziu o cenho. Não alterou a respiração. Não demonstrou irritação. Nada. Apenas ficou parada, absorvendo a resposta como se registrasse uma informação irrelevante.

    Então ela se afastou. Virou-se com naturalidade e caminhou alguns passos até uma barra de ferro caída próxima à parede — talvez parte de alguma estrutura quebrada há anos. O salto baixo ecoou seco no piso enquanto ela se abaixava e segurava o objeto com uma mão firme. O sorriso de Gwen desapareceu na hora.

    — E-ei! — ela começou, mas não terminou.

    A mulher voltou na mesma velocidade controlada. Não havia pressa, não havia tensão nos ombros. Apenas uma decisão tomada com frieza aparente.

    O primeiro golpe veio sem aviso nenhum em seu ombro. O som foi bruto, um estalo metálico seguido pelo impacto surdo contra carne, o osso e os músculos. A cabeça de Gwen girou para o lado com a força da pancada, o corpo sendo puxado pela corrente antes de conseguir cair por completo. A esotérica se encolheu na resposta.

    — Claro que isso me interessa. — disse a mulher, ajustando a pegada na barra.

    Segundo golpe

    — Você é retardada?

    O metal atingiu entre as costas e os dedos dessa vez. Gwen soltou um gemido abafado, tentando proteger o rosto com os braços limitados pelo alcance da corrente.

    Terceiro golpe.

    — Se eu te perguntei alguma coisa, é porque isso me interessa.

    O sangue começou a escorrer pela lateral da testa dela, misturando-se à fuligem já acumulada na pele. O corpo tremia, mas não mais por uma emoção de êxtase ou aventura, mas sim, de dor e medo.

    — Sua burra do caralho.

    Outro impacto.

    Niko, antes que aquela cena brutal piorasse, se ergueu, puxou a própria corrente instintivamente, com o metal vibrando alto contra a parede. Não conseguiu alcançar a mulher

    — Para! — gritou ele sem hesitar.

    A palavra saiu mais forte do que ele pretendia. A barra ficou suspensa no ar por um instante, sem atingir Gwen, mas sem tornar a mulher completamente indefesa. A mulher virou o rosto devagar na direção dele. Em silêncio. Ela observou Gwen no chão de relance, respirando com dificuldade, o rosto marcado, sangue descendo pelo queixo, molhando o chão.

    — Acho que você já aprendeu sua lição aqui.

    Ela soltou a barra sem cerimônia. A arma caiu no chão com um som metálico pesado que ecoou por todo o banheiro.

    Ela caminhou até Niko e se agachou diante dele com a ponta dos pés, apoiando os antebraços nas coxas, mantendo distância suficiente para permanecer fora de alcance. O olhar castanho encontrou com os olhos brancos dele de forma direta, impessoal.

    — Quem são vocês? — repetiu, como se estivesse retomando uma conversa educada interrompida por um ruído inconveniente.

    Niko sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de responder. O coração ainda batia acelerado pela cena anterior, mas a mente começava a se reorganizar. Se ela havia parado quando ele pediu, significava que não era completamente irracional.

    — Nós não somos ninguém importante. — disse por fim, medindo cada palavra. — Não fazemos parte de gangue nenhuma. Nem facção.

    Ela não piscou, pareceu estar absorvendo todo aquele conhecimento como um robô.

    — Inclusive, eu mal conheço ela. — continuou ele, inclinando levemente a cabeça na direção de Gwen, que permanecia caída contra a parede, respirando com dificuldade. — A gente se conheceu hoje.

    Um pequeno vinco surgiu entre as sobrancelhas dela. Não por emoção, mas por análise.

    — E, se for de sua curiosidade, eu sou de Kyndral. — acrescentou.

    Gwen ergueu o olhar para ele imediatamente. Não pela resposta sincera — até mais do que deveria — mas sim por algo anterior. Ele havia dito que não entendia Luminárico. Que só compreendia kyndralês e algumas palavras graças a Brigitte. Mas agora, ele falava a língua com naturalidade, sem tropeços, sem hesitação na estrutura das frases, como se fosse um nativo. 

    A mulher misteriosa permaneceu em silêncio, mas uma dúvida persistente ficou ali. A mulher inclinou a cabeça de leve.

    — Então por que invadiram minha base?

    Niko hesitou por um segundo. Ela ainda parecia calma demais. Tão calma que o ar parecia mais pesado por sua falta de emoção.

    — Estamos procurando por Valand. — respondeu, firme. — Queremos perguntar algo a ele.

    A mulher o observou por um instante longo demais, ainda sem piscar os olhos. Depois se levantou. Virou-se de costas para eles e caminhou alguns passos, como se estivesse organizando um pensamento invisível. Então puxou uma cadeira metálica caída perto da parede oposta a Gwen, arrastando-a pelo chão com um ruído áspero. Sentou-se de frente para ele, cruzando as pernas com postura impecável.

    — Ele está bem na sua frente. — disse. — Faça suas perguntas.

    O silêncio que se seguiu foi denso. Niko arqueou uma sobrancelha, confuso com a situação.

    — Você é o… Valand?

    — Você é surdo? — respondeu ela, sem alterar o tom. — Eu acabei de dizer que sou Valand. Que pergunta de merda.

    A fala, a expressão — facial e corporal — não indicavam raiva, nem desprezo, ou qualquer outra coisa. Ela estava perfeitamente neutra, mesmo que as falas e atitudes não combinassem nem um pouco.

    — Valand é nome de homem. — continuou Niko.

    Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, como se estivesse analisando um objeto curioso.

    — E você é fiscal de cartório? — respondeu. — Quer ver minha certidão de nascimento também?

    A postura permanecia perfeita. Os ombros alinhados. O olhar estável. Nenhuma contração visível no rosto.

    — Se eu disser que meu nome é Valand, então é Valand. — completou. — Ou você tem dificuldade de entender frases simples? Você é retardado que nem a moça ali?

    Niko sustentou o olhar por um segundo a mais, absorvendo o choque entre a voz agressiva e a ausência total de emoção na face dela. Continuar insistindo naquilo era mais inútil. Ele respirou fundo, voltando ao objetivo.

    — Essa não era a pergunta principal.

    Ela fez um pequeno gesto com a mão, indicando que continuasse com aquele teatro.

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