Capítulo 185 - Sem Expressão II
— É sobre o despacho na madrugada de ontem. — ele finalmente disse, depois de alguns segundos organizando a própria respiração. — O Registro C.397.D…
Novamente nenhuma reação. Ela continuava sentada, de pernas cruzadas, com as mãos repousadas sobre o joelho e os dedos alinhados com precisão quase mecânica. O corpo não se movia além do necessário para respirar. Parecia ouvir como quem assiste a uma apresentação entediante, aguardando o ponto em que valeria a pena prestar atenção.
— O dríade. — completou ele.
Os olhos dela se moveram quase imperceptivelmente. Não foi surpresa e nem tensão. Apenas algo que se assemelhava a uma curiosidade primitiva.
— …Não entendi.
Não houve ironia na resposta. A garota realmente não havia entendido a direção da pergunta — ou não via relevância na forma como ele havia colocado. Niko apertou levemente os dentes antes de reformular.
— Estou atrás do dríade que passou por aqui. É isso.
A simplicidade da frase contrastava com o peso que as palavras carregavam.
Ela inclinou levemente a cabeça, analisando a situação com mais cuidado agora. O movimento foi mínimo, mas deliberado. Os cabelos negros deslizaram sobre o ombro sem desalinho.
— Você está atrás da propriedade que está sob minha posse?
A palavra foi dita com naturalidade administrativa. Propriedade. O termo atingiu Niko de forma mais violenta do que qualquer golpe que poderia tomar da barra de ferro. Algo no estômago se contraiu imediatamente. Não era apenas repulsa por ela. Era repulsa por si mesmo. Pela memória do beco. Pela imagem do dríade caído, implorando por ajuda. Pela escolha que ele fez naquele dia.
Propriedade. Ele havia permitido que aquilo continuasse sendo verdade. Os dedos dele se fecharam involuntariamente sobre o joelho. A corrente fez um leve ruído metálico quando a mão apertou. Suas íris se estreitaram.
— Sim. Eu estou
A resposta saiu mais controlada do que ele se sentia por dentro. Ela descruzou e cruzou as pernas novamente, mudando o peso do corpo com elegância quase desinteressada.
A pergunta não vinha carregada de julgamento moral. Para ela, era apenas lógica econômica. Se alguém invade um território, é para adquirir algo de valor. Simples assim.
— Não! De jeito nenhum! — a resposta saiu rápida demais, quase atravessando a fala dela. — Eu não estou atrás de escravos. Eu só estou atrás do garoto.
Ela o observou por um segundo mais longo.
— Ele é um escravo.
— Ele é um ser vivo. — retrucou Niko, a voz mais baixa agora, mas firme.
Ela ficou em silêncio por dois segundos. Dois segundos em que não piscou. Não mudou a postura. Apenas sustentou o olhar branco dele com os próprios olhos castanhos, profundos e vazios.
— Tanto faz o que você ache dele. — disse por fim. — Para mim, é um ativo.
A palavra ecoou de forma diferente das anteriores. Ativo. Não foi dita com crueldade, nem com orgulho. Foi dita como se fosse técnica. Como se estivesse classificando apenas um objeto.
Niko sentiu o maxilar tensionar involuntariamente. Uma possível resposta veio à mente, rápida, quase automática — algo sobre dignidade, sobre liberdade, sobre o direito de existir sem coerção. Sobre o fato de que ninguém deveria ser reduzido a uma linha de registro. Ele abriu levemente a boca, mas ela o interrompeu antes que qualquer palavra saísse.
— De qualquer jeito, como você conheceu ele? — perguntou ela. — Ele nasceu e cresceu em cativeiro. Alimentado com Alma desde o início com o único intuito de ser um escravo.
Ela descruzou as pernas devagar, inclinando-se um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Um gesto que demonstrava mudança de foco. Os olhos castanhos continuavam vazios.
— É impossível que você tenha conhecido ele.
A palavra “impossível” não veio como desafio. Veio como constatação vazia. Como se ela estivesse dizendo que a água é molhada. Niko sentiu a tensão subir pelo peito. Não pela forma como ela falou — mas justamente pela falta de qualquer coisa na forma como falou. Ele respirou fundo.
— É que… ele fugiu. E eu estava lá.
A frase saiu torta. Aquela não era uma explicação organizada. Era algo profundo escapando de si. A lembrança veio antes da escolha das palavras. Não porque ela exigiu detalhes — ela nem ao menos exigiu essa informação. Mas porque ele simplesmente tinha a vontade de falar, desabafar.
— Eu estava em um beco, andando de volta até minha casa temporária e, quando eu menos esperava, ele caiu bem na minha frente.
O banheiro pareceu ficar mais frio. Uma dor incômoda começou no centro do peito dele, como um peso empurrando para dentro. A sensação se espalhou devagar, alcançando os ombros, descendo pelos braços, até as pontas dos dedos. Não era uma dor física comum, era fraqueza, vazio.
— Ele estava fraco. Nem conseguia ficar de pé. E as palavras que saíam de sua boca eram sussurros fracos.
Ela não reagiu. Nenhuma contração no rosto. Nenhum microgesto. Nenhum sinal de irritação, surpresa ou interesse. Era como se as palavras atravessassem ela e fossem direto para a parede atrás.
— Ele pediu ajuda. Baixinho, mas o suficiente pra que eu pudesse ouvir. Parecia ter usado toda a força de seus pulmões pra isso.
A corrente rangeu levemente quando Niko levou o braço até o lado esquerdo do peito, pressionando como se pudesse conter a pressão interna que escorria do coração.
— E eu não fiz nada… — murmurou.
Um segundo depois, repetiu:
— Nada.
A frase ficou suspensa entre os dois em uma corda emocional fraca. Ela continuava olhando para ele da mesma maneira. Não era frieza calculada. Não era desprezo. Era como se aquela informação simplesmente não encontrasse nada dentro dela para bater.
— Eu achei que aquilo não fosse problema meu. — continuou ele. — Que se eu me envolvesse, só ia trazer problema pra mim. Que eu já tinha muitos problemas e nem queria pensar em ter mais um pra lidar…
Ele engoliu em seco.
— Então eu deixei ele lá. Sofrendo. Agonizando. Sendo espancado.
As imagens, os sons de socos e gemidos fracos vieram à mente. O silêncio não mudou. Não ficou mais pesado, mas também não ficou mais leve. Apenas existiu no espaço.
— Depois, dois bandidos sumiram com ele. — Niko concluiu. — E eu estou aqui, porque eu devia ter feito alguma coisa naquele momento.
Ela inclinou a cabeça um grau mínimo para o lado, como alguém tentando encaixar uma peça que estava começando a entender onde se encaixava.
— Então você invadiu minha base… — disse ela devagar — …por arrependimento?
— …Sim.
A confirmação não saiu heroica, nem teve firmeza épica. Saiu crua, quase feia. Era o tipo de “sim” que não pede validação, não busca absolvição, não tenta parecer nobre. Apenas admite algo profundamente enraizado em si, sem ver a luz do dia.
Valand permaneceu imóvel por alguns segundos depois da resposta. Não havia julgamento no rosto dela. Não havia escárnio. Não havia admiração. Os olhos castanhos continuavam fixos nele, fundos e opacos, como se estivessem olhando através da fala e não para ela.
O banheiro estava silencioso demais, exceto pela respiração irregular de Gwen ao fundo e pelo leve eco metálico das correntes se acomodando contra a parede.
Então, algo diferente aconteceu. Não uma mudança brusca, foi um pequeno atraso — como se a informação precisasse percorrer um caminho maior do que deveria dentro dela. Ela piscou uma vez. Depois outra. E, de repente, soltou o ar pelo nariz. Um som curto. Quase um riso contido na face robótica. O canto da boca dela se moveu milimetricamente, mas não era um sorriso completo. Era algo como se fosse uma ação forçada, sem intenção.
— Arrependimento… — repetiu, como se experimentasse a palavra.
Ela se levantou da cadeira devagar, sem pressa, caminhando alguns passos pelo banheiro enquanto falava, os saltos produzindo um som ritmado e seco no piso frio. Sem tensão no movimento. Nenhum músculo rígido. Apenas um andar natural.
— Você matou meus homens. — disse, quase distraída. — Invadiu minha base. Quebrou a estrutura da minha organização. E fez tudo isso…
Ela parou de costas para ele.
— …porque se sentiu mal por uma plantinha.
Aquela fala não era acusação moral. Não era indignação — longe disso. Era uma constatação óbvia, carregada de leve confusão, como se ela precisasse entender a motivação das ações ainda.
Ela virou o rosto por cima do ombro, observando-o novamente. E então — ainda com a expressão imóvel — começou a rir. Um riso genuíno, levemente histérico. Alto o suficiente para ecoar nas paredes de azulejo. Um riso inesperadamente vivo vindo de alguém tão vazia. O conteúdo humorístico que saia de sua boca não combinava com os olhos vazios. Ela levou uma das mãos à testa como se precisasse se apoiar para continuar.
— Espera. Espera. — disse entre pequenas respirações. — Deixa eu ver se eu entendi direito.
Ela se virou completamente agora, caminhando de volta até ele.
— Um escravo fugiu. — começou a contar nos dedos. — Caiu que nem lixo num beco que você tava andando. Você viu. Ignorou. E foi embora.
Mais um passo em direção ao albocerno.
— Depois ficou com peso na consciência… viajou pra OUTRO PAÍS, e decidiu invadir a base da pessoa que mantinha ele em cativeiro pra salvar o escravo que você ignorou antes.
Valand parou diante dele. O riso cessou tão abruptamente quanto começou. O rosto ainda era o mesmo, mas ainda assim, parecia mais vazio do que antes. Um profundo vazio.
— Você é a pessoa mais maluca que eu já vi.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Mais maluca do que a minha irmã. E ela é surtada pra caralho.
Sem alterar o tom, sem elevar a voz, ela se afastou alguns passos até onde a barra de ferro havia caído anteriormente. Abaixou-se e a pegou novamente com a mesma naturalidade de quem recolhe um objeto esquecido no chão. O metal raspou levemente contra o piso. Niko cerrou os dentes, sabendo exatamente o que iria acontecer.
— Sabe, eu até poderia rir da sua situação. — continuou, voltando na direção dele. — Talvez até deixar você ir embora só pra ver até onde esse seu arrependimento te levaria.
Ela parou bem à frente dele, ainda fora de alcance para qualquer defesa de Niko.
— Mas você fez algo que eu não deixo barato.
O olhar dela permaneceu vazio. Por um segundo, o garoto pôde se ver no reflexo dos olhos dela.
— Você invadiu a minha base. Matou os meus homens. Tentou roubar algo que é meu.
O silêncio se partiu no instante seguinte. Ela deu um golpe direto contra o ombro dele. O impacto foi seco e brutal. A corrente vibrou violentamente contra a parede quando o corpo de Niko foi jogado para o lado. O som do metal ecoou pelo banheiro junto com o estalo surdo da barra atingindo seu corpo.
— DRAH! — gemeu o garoto, de dor.
— Isso… — outro golpe, agora nas costelas — não é engraçado.
O ar saiu dos pulmões dele em um som falho. A dor irradiou do ponto de impacto para o resto do corpo, misturando-se com a fraqueza que ainda não havia desaparecido desde a tentativa de usar a Alma.
— ISSO NÃO É ENGRAÇADO.

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