Capítulo 21 — 1 Amiga Imaginária (3/4)
Mãe e filha foram abraçadas pelo milharal e outros tipos de plantas depois de alguma caminhada dentro dos campos de cultivo. Havia outras mulheres e crianças nos arredores, alguns ficando nos campos perto e outros adentrando ainda mais aquelas terras cobertas pela natureza.
Lavina levou a filha pelo milharal amarelado rumo ao Noroeste, para uma grande e robusta árvore imponente que ficava no centro do campo de cultivo das Hermis, um terreno retangular de 100 metros quadrados, 20 de comprimento e 5 de largura.
Vaiola descarregou a carga que tinha sob a sombra da árvore rosbusta e se alongou por alguns segundos, aliviando a dor nos ombros. Seu sorriso cresceu em seguida, quando os seus olhos caíram sobre o campo de família da sua família, observando todas aquelas plantações que cresciam lá. Tinha um pouco de tudo naquele lugar.
— Pegue a enxada e o ancinho — Lavina disse logo em seguida, já indo em direção às plantações. — Vamos limpar as ervas daninhas.
Vaiola não reclamou, na verdade, ela nem se sentia cansada, apenas sentia algumas dores nos ombros, dores essas que já começavam a desaparecer.
— Estou indo! — A nanica disse em resposta, recolhendo as ferramentas requisitadas do chão.
Os trabalhos iniciaram logo depois que a pequena alcançou a mãe numa área centrada na plantação de amendoim, onde pequenas flores azuladas desabrochavam nas pequenas plantas de folhas roxas.
Lavina ficou a responsável por arrancar as ervas daninhas do chão, a enxada subindo e descendo às ordens dos seus braços, enquanto a nanica reunia todas elas num só lugar com o ancinho.
— Huh? — Vaiola parou, de repente, sua audição captando alguma melodia distante.
— Oh! Elas começaram. — Lavina falou em seguida, um sorriso largo entre os lábios
— Começaram? — Vaiola perguntou, olhando com curiosidade para a mãe, que a olhava de volta.
A melodia foi soando cada vez mais perto, o que permitiu a nanica entender algumas palavras que vinham com ela.
— Debaixo deste sol de matar…
— O Vento balançando o que acabamos de plantar…
— E as nossas costas sempre a reclamar…
Lavina sorriu, repetindo a cantoria melódica que vinha de longe, a sua mão estendida na direção da filha, ao mesmo tempo em que começava a agitar o corpo numa leve dança.
— Vem, eu te ensino — disse ela, puxando a filha, que acabava de segurar na sua mão, para perto.
Todo o trabalho então seguiu daquele jeito, uma hora todos estavam capinando e noutra estavam dançando. E aquela troca criava o que parecia ser uma dança há muito ensaiada. E a melodia nunca cessou, ecoando por todo aquele campo de cultivo.
Quando os trabalhos trabalhos terminaram, assim como as danças e a cantoria, Vaiola ainda mantinha um largo sorriso na face, ofegando um pouco. Seu coração aquecido batia forte no seu peito.
Enquanto todos os outros estavam sentados à sombra para se alimentar, Vaiola e sua mãe estavam se exercitando sobre a sombra da árvore rosbusta. A princípio não foi nada desafiador, apenas alguns alongamentos, então a Vaiola foi ordenada a correr em volta do terreno de cultivo da família, mas só depois de colocar alguns pesos de areia nas pernas, braços e tronco. Ela devia estar carregando cerca de 30 quilos de areia.
Logo seguiram as flexões, quinhentas repetições, e, claro, com pesos nas costas. Depois vieram os abdominais, agachamentos e um combate prático, onde, bem, foi mais a Vaiola levando porrada da mãe, que a acertava repetidas vezes com um pedaço de madeira. Apesar de tudo, a Vaiola só caiu quando o treino de técnicas de combate chegou ao fim, depois de aprender diversas artes marciais com a mãe.
— Isso é só um acréscimo — dizia Lavina, realizando os movimentos das artes marciais para a filha imitar. — Você é uma Hermis, então a técnica não tem muita importância, já que ninguém resistira a sua força bruta.
Vaiola observou com extrema atenção toda a movimentação da mãe e memorizou tudo o que via. Depois de cerca de 15 minutos, Lavina sentou-se e se escorou na árvore.
— Sua vez agora. — Apontou para o lugar onde as suas pegadas tinham ficado marcadas. — Replique os movimentos que te mostrei.
Vaiola se levantou, depois do curto descanso, se posicionou onde a mãe apontava e fez o ordenado.
— Hunf! Hunf! Hunf!
Lavina arregalou os olhos depois de alguns minutos vendo a sua filha, que ofegava, cansada, executando os movimentos por ela mostrados.
“Hahahaha! Você é realmente uma Hermês.”— O seu choque logo virou um sorriso de orgulho. Vaiola não estava apenas imitando o que lhe fora mostrado, aquilo que ela estava fazendo era uma cópia perfeita, algo que só quem já conhecia aquelas artes marciais devia fazer…
Não!
Pelo que a Lavina podia avaliar, aquilo estava além do que apenas conhecer as artes marciais, Vaiola parecia até estar corrigindo, instintivamente, os erros de cada técnica.
“Haaa!”— Mas o sorriso da mulher sumiu em seguida, os cantos dos seus lábios caíram e o cenho enrugou-se. Ela parecia preocupada. —“O que o mundo quer de você, minha pequena?”
Sua face, carregada de preocupações, elevou-se aos céus, mas, por algum motivo, parecia que ela não olhava para os céus em si, mas para algo além deles.
— Terminei! — Vaiola gritou, arfando, depois de passados cerca de trinta minutos.
Lavina baixou o olhar e piscou algumas vezes, ela nem tinha visto o tempo passar. Aquela mulher sabia que naquele universo, em Heternidade, nenhum potencial era dado de graça, mas resolveu deixar aquele assunto de lado, quando viu a Vaiola sorrir, mesmo estando com o corpo todo tremendo de tão cansada.
A mais velha sorriu.
“Bem, não importa! Vou apenas garantir que você esteja preparada.”— Ela só não sabia que não tinha como preparar a nanica para o que estava por vir.
— Certo, isso é tudo por hoje. — Vaiola desabou de costas para o chão logo em seguida e desmaiou. — Olha só para você, já agindo como uma Hermês.
[Mais Tarde]
Vaiola despertou da sua longa soneca e seus olhos se depararam de imediato com uma pequena parte dos céus e um sorriso contido.
— Mãe? — Vaiola chamou, seus olhos piscando algumas vezes, não era sempre que Lavina esboçava um sorriso tão… relaxado… e aquele brilho no olhar…
— Oh, você acordou. — Lavina ajudou sua filha a se sentar e puxou um copo com um líquido verde dentro. — Beba, vai ajudar a relaxar os músculos.
— Uh! — Vaiola recebeu o copo e bebeu, sem hesitar, aquele líquido amargo e enjoativo. O efeito veio, alguns segundos mais tarde, como uma brisa fria no interior do seu corpo, revigorando cada célula, músculo e osso.
O passo a seguir foi a alimentação, o cardápio eram algumas frutas e hortaliças. Mãe e filha aguardaram ali depois de tudo feito, aproveitando a brisa morna que soprava debaixo da árvore.
— Uh, mãe? — Lavina desviou os olhos das plantações e os fixou na filha, que parecia um tanto hesitante. — É que… bem… não é que eu esteja reclamando, haha, na verdade, eu amo treinar com você, isso me faz tão bem… meu corpo se sente tão bem… — Vaiola olhou para o alto, as folhas da árvore entrando no seu campo de visão, e sorriu com sinceridade. — Mas… por que você me treina tanto?
— Por que você é uma Hermis. — Lavina respondeu de imediato, como se aquela resposta já estivesse na ponta da língua. Contudo, ela acabou por sorrir e soltar um suspiro, quando viu o olhar que a sua filha dirigia a ela, como se gritasse: “Eu quero uma resposta de verdade”. — Haaa! Certo. Eu já te contei sobre o mistério do desaparecimento da Xima e feijoada?

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.