Capítulo 34 — 1 Missão (1/4)
[Terras Centrais: Leste]
Vaiola olhou para trás, para o mar que ficava distante a cada passo dado. Ela suspirou e, mais uma vez, levantou a mão e balançou-a no ar, despedindo-se do pai, que não parava de acenar há cerca de dez minutos.
Os seus lábios se ergueram num pequeno sorriso quando ele gritou alguma coisa — provavelmente uma mensagem de despedida que foi levada pelo vento para longe, sem nunca alcançar a pequena.
— Eu também vou sentir muita saudade, pai! — gritou de volta. Mesmo não ouvindo os gritos dele, ela tinha certeza que ele bradava algo daquele gênero. — E te amo muito também!!
Ao lado do seu pai, Dokin também balançava a mão em despedida. Ele colocou o braço ao redor do pescoço do Glamich e gritou algo. É claro que, daquela distância, assim como foi com as palavras ditas pelo pai, Vaiola sabia que o som seria levado pelo vento e nunca a alcanç…
— Cuide-se e… não esqueça que eu te amo, nanica.
Vaiola arregalou os olhos, atônita. Como aquelas palavras chegaram até ela?
— O que foi? — Olhou para o lado e encontrou sua alta e musculosa mãe. Lavina carregava dois grandes fardos nos ombros.
— É que… — A nanica queria comentar sobre o que tinha acontecido, mas, notando que a mãe parecia não ter escutado aquelas últimas palavras do Dokin, pensou que talvez fosse apenas algo vindo da sua imaginação. — Nada não.
Contudo, o que já era estranho ficou bizarro quando ela viu o largo e característico sorriso do Dokin se fechar e desaparecer, transformando-se numa faceta sombria.
“Desculpa, mas não tem como mudar isso.”
Uma brisa repentina soprou, algo como um suspiro de alguma divindade esquecida, e aqueles murmúrios penetraram os ouvidos da pequena, trazidos por aqueles ventos.
— Quê? — Ela apenas piscou e tudo pareceu uma ilusão. Na verdade, Dokin nunca deixou de sorrir e balançar a mão.
— Vamos logo. — Lavina chamou. Vaiola piscou algumas vezes, balançou a cabeça para mandar embora a confusão e aquelas cenas estranhas na sua mente, então olhou para a mãe, que já se distanciava.
— Estou indo! — Sorriu e correu até alcançá-la. De mãos dadas, mãe e filha seguiram para um destino que só a mais velha conhecia.
“Eu não gosto disso.”
Vaiola olhou para a sua esquerda; Iola tinha se formado lá, visível apenas para ela, com o rosto escuro e contorcido em preocupação. A menina virou a cabeça para trás, para a direção onde a silhueta violeta mirava, e lá encontrou seu pai ainda acenando.
“O que foi?” — perguntou em pensamentos, sentindo a estranheza emocional da amiga em seu âmago.
“Não sei ao certo. Só não gosto disso.”
Iola ainda olhava para longe. Se ela tivesse pernas e fosse afetada pela física, certamente teria ficado para trás, mas continuava ao lado da nanica, não importa o quanto caminhassem. Vaiola voltou a olhar para a direção onde seu pai e tio ainda estavam e lembrou de mais cedo, quando sua mãe chegou carregando aqueles dois grandes fardos.
A mais velha tinha sido direta quando interrompeu a pescaria:
— Você terá um treino intensivo pelos próximos meses. Vamos!
Não era uma sugestão, então Vaiola e seu pai só puderam aceitar. Assim, a família seguiu até onde Dokin estava, já que a pequena queria se despedir do seu amado tio.
Para a despedida, Dokin contou um breve conto sobre uma poderosa mulher, uma Bruxa, que atormentou o mundo até que subitamente desapareceu, deixando para trás o seu Grimório.
Segundo o narrador, aquele artefato seguia perdido até aquele momento… o Grimório de Salmem Nala.
O conto, como esperado, foi bem macabro, já que se tratava de uma Bruxa Necromante.
Mas esse não foi o ponto alto do momento.
Aquela situação ficou estranha mesmo quando Vaiola foi abraçar seu tio e pai. Nada de anormal aconteceu quando ela abraçou Dokin, mas, quando quase esmagou o pai com um demorado e apertado abraço, Iola se formou ao lado dela, assim que pensou em se separar dele.
Iola ficou ali, imóvel, encarando a nanica sem responder a nenhum questionamento. Por conta disso, Vaiola desistiu de soltar o pai pelos próximos minutos. Foi só então que Iola sumiu.
“Não é melhor adiar o treino?” A jovem de névoa disse, olhando agora para Vaiola.
A pequena franziu o cenho. Era estranho ver a sua amiga tão séria e, para piorar, Iola esteve daquele jeito desde o incidente. Quando ela olhou para a mãe, a amiga imaginária desapareceu.
— Hunf! Hunf! Hunf! — Vaiola ofegava depois de rolar várias vezes no chão arenoso, levantando uma cortina de poeira.
Segurou o abdômen e cuspiu um bocado de sangue. Ela balançou a cabeça, sua face repleta de arranhões; então ergueu o rosto e viu ao longe a sua mãe, com os punhos cerrados, numa posição de combate.
— Ainda não é tempo de descanso! — Lavina gritou, dirigindo-se para perto da filha. — Levanta daí!
Vaiola tremeu de leve; sua mente gritava para ela desistir e pedir uma pausa. Afinal, apenas um soco leve de Lavina a tinha lançado para cerca de cinco metros de distância. A dor no abdômen não era pouca.
A nanica rangeu os dentes, sentindo uma pontada aguda naquela região. Na verdade, todo o corpo dela estava dolorido. Ela queria apenas encontrar uma cama macia e se deitar pelos próximos anos.
Entretanto, seu coração martelava com força no peito, espalhando por todo o corpo um calor abrasador que devorava os medos da menina, deixando apenas aquela vontade louca de lutar. Vaiola separou os lábios num sorriso torto e se lançou contra a mãe.
— É isso aí! — A mais velha bradou, com um largo sorriso estampado no rosto.
Já fazia dois dias que as duas chegaram naquele lugar. Era um pequeno deserto no extremo Noroeste das Terras Centrais.
Desde que chegaram, a pequena vinha sendo treinada durante todo o dia, obrigada a suportar o calor escaldante que assola a aquela região, e só tinha permissão para descansar quando a noite caía. O frio de congelar os ossos era seu fiel companheiro nesse momento.
Eram doze horas de treino e doze de descanso.
Das seis até às dezoito horas, Vaiola tinha de enfrentar sua mãe continuamente, sem pausas nem para comer, nem para beber. Era um treino difícil… devia ser um treino difícil, ainda mais para ela, que era apenas uma criança de cinco anos, mas, mesmo sentindo todo o corpo quebrado, a pequena conseguia se divertir.
Sentia-se leve, como se tivesse nascido para aquilo.
Pelo que sua mãe havia dito, o treino ali tinha um tempo indeterminado e a evolução da menor seria o fator determinante para ditar a duração do processo.
— Muito lento! — Lavina gritou, desviando o punho de Vaiola com apenas o indicador. A menor tinha aparecido ali num piscar de olhos. — Muito fraco.
Vaiola recuou no mesmo instante e analisou ainda mais a situação.
— Nós temos um objetivo aqui, pequena. — Lavina levou as mãos para trás da cintura e continuou: — Você fez uma Promessa de Sangue e, mesmo que seja uma Hermês, ainda é fraca para o mundo lá fora. — Vaiola escutou sem questionar. O nome Hermês já não era estranho para ela; sua mãe já tinha contado a história da família… bem, o que pôde contar. — Portanto, antes de você se tornar uma Campeã, não sairemos daqui.
Lavina nunca foi muito de explicar as coisas durante os treinos, mas viu-se obrigada a detalhar o que era ser um “Campeão”. Vaiola lembrava da explicação, afinal, sua mãe tinha falado de forma simples acerca dos seis Estágios de um Campeão.
“Despertar”: aquele era o primeiro Estágio a se alcançar para ser um Campeão, e o único jeito de fazer isso era através de um treino árduo de, no mínimo, cinco anos.
Vaiola já treinava desde os seis meses de vida, ou seja, praticamente já alcançava os requisitos.
Aquela era a missão da nanica.

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