[Terras Centrais: Leste]

    — Sem sono? — A voz de Lavina soou como um sussurro breve e levemente alto naquele quarto devorado pela escuridão.

    Ela estava sentada na cama, as costas escoradas na parede, os dedos entrelaçados e a mente pairando nalgum lugar distante dali. Contudo, nem mesmo aquele momento de imersão mental a impediu de perceber seu marido se remexer na cama por tantos minutos. Ela pretendia deixar Glamich enfrentar a sua luta para dormir, mas acabou falando aquilo.

    O homem parou de se remexer na cama, empurrou a coberta até o abdômen e se arrastou até descansar a cabeça nas coxas da esposa.

    — Pois é. — A resposta veio com melancolia. Ele não conseguia ver a esposa naquela escuridão, mas a sua faceta tensa e o pulsar das suas têmporas não passaram despercebidos por ela. — Aquilo não sai da minha cabeça.

    Ela não respondeu por alguns segundos, concentrada em apenas fazer um cafuné no Glamich, tentando deixar o homem menos tenso.

    — Foi uma surpresa até para mim. — Lavina continuou com o afago na cabeça do marido e suspirou. — Aquele ódio que ela exalava… aquilo foi bem além do imaginado.

    Ela fez uma pausa, lembrando e reorganizando em sua mente algumas cenas de dois dias atrás, quando o incidente na pousada Flores Douradas ocorreu. Ambos ficaram em silêncio durante os próximos segundos, ainda tentando assimilar tudo o que tinha acontecido… mesmo após um dia do ocorrido.

    — Aquilo… — Glamich enfim quebrou o silêncio, sua voz soando com uma mistura de preocupação, curiosidade e medo. — Aquilo nas costas dela era… uma Essência? A pequena deu forma à sua Essência?

    — Assustador, não? — Lavina soltou um riso de orgulho e soberba, a imagem daquela névoa roxa humanoide se formando em sua mente. — Ela nem é uma Campeã ainda. Heh. Nem eu consegui tal façanha… aliás, acho que ela é a única em toda a Heternidade que conseguiu dar forma à sua Essência com tão pouca idade e sem poder nenhum.

    — Não sei se fico feliz por ela ou preocupado. — O homem confessou, seu riso quebradiço sumindo assim que deu as caras.

    Tirando os recém-nascidos, que não possuíam conhecimento, não existia uma só alma viva em Heternidade que não conhecesse o termo “Dar Forma à Essência”. Muitos almejavam alcançar aquele estágio de iluminação, mas quase ninguém conseguia. Dar forma à Essência não advinha do poder, assim como os grandes estudiosos daquele universo diziam: “Não perca tempo tentando, se for para acontecer, então acontecerá. Afinal, esse é um estágio que ocorre só porque sim.”

    Sem esforço, sem explicação.

    Por conta dessa natureza incompreensível, quando aqueles sem conhecimento dão forma à sua Essência, por muitas vezes acham que estão loucos, vendo coisas ou, simplesmente, acham que criaram… amigos imaginários. Como foi mencionado, era algo que todos queriam alcançar, portanto, Glamich devia alegrar-se por sua filha… e ele se alegraria, mas existia um ditado que era amplamente conhecido em toda Heternidade: “O mundo sempre é justo”.

    Em todas as sete dimensões de Heternidade o mundo tendia a sempre ser justo e nunca dava nada a ninguém sem nenhuma razão. Ou seja, com grandes poderes, vinham grandes responsabilidades.

    — Eu falei pra você que ficar dando tapinhas na sua barriga ia trazer complicações. Heh! — Glamich voltou a falar, um pequeno sorriso entre os lábios.

    — Uma Hermês precisa treinar desde o ventre. — Lavina retrucou, também sorrindo. — Já imaginou se a pequena tivesse nascido fraca só porque negligenciei seu pré-treino?

    — Hahaha. Vocês Hermês têm umas regras estranhas… e perigosas. — O homem ficava angustiado só de lembrar o tanto de vezes que a mulher sangrou durante a gravidez, das tantas vezes que ouviu “se eu perder a gravidez é porque ela não é forte o suficiente para ser uma Hermês”. — Felizmente, a pequena provou-se forte o suficiente. Haha.

    O sorriso ficou ali por longos segundos, até que a nostalgia se esvaiu, levando junto o sorriso.

    — Aquilo… era uma coroa de chifres?

    — Dez chifres… — Lavina disse em resposta, então olhou para o alto e sorriu. — Você sabia que, entre os Senthys, apenas um deles possui dez chifres?

    Glamich olhou para a direção da voz, sem poder ver o rosto da esposa. Ele já estava acostumado com a forma “antiquada” que a Lavina usava para se referir aos demônios… uma forma que foi comumente usada antigamente, mas que quase ninguém lembrava atualmente.

    — Ele possui uma coroa de dez chifres e encarna a pura maldade, crueldade e corrupção — murmurou, lembrando de uma passagem que lera num livro de história. — O Rei Demônio.

    Outra longa pausa se seguiu depois daquelas palavras, até que Glamich voltou a falar: — Você acha que…

    — Que a nossa filha é a Rainha dos Demônios? Hahahahaha!! — Ouvindo a gargalhada da esposa, Glamich riu. Pois é, era improvável. — Você fala isso como se nunca tivesse visto a minha Essência.

    Glamich arregalou os olhos e seu corpo tremeu uma vez, até paralisar-se. Lembrando da Essência da Vaiola, aquilo não tinha nada de assustador, parecia apenas uma jovem mulher com chifres. Porém, a Essência da Lavina era algo diferente… uma monstruosidade que encheria de terror aqueles chamados “demônios”.

    — Viu. — Ela disse, depois do prolongado silêncio do homem. — A Essência de uma Hermês é naturalmente assustadora. A Essência da Vaiola não está nem entre as mil mais assustadoras.

    Glamich não deixava de se perguntar se aquilo seria mesmo normal, afinal, a Essência é um “desenho” minucioso da alma de uma pessoa… sua verdadeira aparência… Lavina definitivamente não era bela por dentro.

    — Haaa. — Suspirou, jogando a imagem assustadora da verdadeira aparência de sua esposa num canto escuro em sua mente. — Deixando isso de lado, é impressão minha, ou ela falou?

    Lavina olhou para o seu cônjuge, suspirou e falou: — Essências nada mais são além da concentração massiva de todo o potencial de um ser. Para além de servirem para dar um aumento estrondoso de poder ou capacidade física, elas não podem interferir com a realidade, sendo incapazes de se mover.

    Deviam ser apenas estátuas, ou, olhando de uma forma mais sombria, eram meras baterias de poder sem vontade alguma. Depois de uma breve pausa, Lavina continuou: — Talvez aquilo tivesse sido apenas uma impressão… mas se realmente aconteceu, então será um caso sem precedentes. Aí sim eu diria que você precisa se preocupar.

    Ninguém mais falou pelos próximos minutos. Os dois ficaram ali, tentando assimilar tudo o que envolvia a sua pequena filha.

    — Vou levar a pequena num treinamento — disse Lavina de súbito, chamando a atenção do Glamich no mesmo instante. — Ela fez uma Promessa de Sangue, a Banshee chorou… sinto que tudo vai mudar em breve.

    — Quanto tempo? — O homem perguntou apenas aquilo, ciente de que a pequena precisava se tornar mais forte o mais rápido possível. Ela podia ser forte naquele momento, mas ainda não era o suficiente para cumprir a promessa feita… para enfrentar o mundo.

    — Até que ela esteja pronta.

    Glamich ouviu aquilo e, a princípio, engoliu em seco, mas toda a tensão e preocupação se esvaiu quando lembrou que se tratava da Vaiola. Se fosse a nanica, não levaria muito tempo.


    O sol ainda não tinha nascido quando Vaiola foi tirada da cama e obrigada a preparar o máximo de mudas de roupas possíveis. Só depois de preparar um pequeno fardo é que ela recebeu a informação de que estaria saindo para um treinamento com duração indeterminada, junto com a mãe.

    — Vou sentir saudades. — A nanica murmurou, quase esmagando o pai naquele abraço de urso.

    — Não mais… que eu… pequena. — Mesmo quase sem ar e com os ossos começando a estalar, Glamich continuou abraçado à filha, até que ela decidiu soltá-lo.

    — Nos vemos em alguns meses. — Lavina deixou apenas aquelas palavras de despedida e um beijo. — Vamos! — Pegou a pequena pelo braço e deu as costas ao marido, pronta para ir embora.

    No entanto, tudo pareceu parar quando uma névoa roxa começou a escapar pelos poros da Vaiola, se acumulou e formou uma jovem mulher. Iola estava visível para todos. A jovem chifruda de névoa ficou ali, de frente para a família, imóvel, apenas encarando o único homem.

    — Iola? — Vaiola chamou, o que a fez receber olhares dos seus pais imediatamente. Será que as suspeitas dos seus progenitores estavam certas? Aquela Essência conseguia falar?

    Contudo, Iola não respondeu e continuou com os olhos fixos no Glamich, tanto que ele até ficou constrangido. Vaiola olhou para trás, sem entender a razão para a sua amizade imaginária estar tão fixada no seu pai. Ela pensou em perguntar mais alguma coisa para a Iola, mas algo em seu peito pareceu estalar.

    Ela sentiu tantas saudades do pai… Com aquele peso no peito, soltou a mão da mãe e retornou até seu pai, lançando-se no seu colo, noutro forte abraço. Aquele abraço durou minutos e foi só depois do fim do abraço que a jovem de névoa desapareceu.

    “O que foi aquilo?” — Os pais perguntaram-se, sem esperança de receber uma resposta.


    [Terras Centrais: Extremo Noroeste]

    Bam.

    Vaiola foi lançada para longe e rolou várias vezes no chão, levantando uma densa cortina de poeira. Quando a poeira baixou, a nanica estava de joelhos, a mão direita massageando o abdômen. Ergueu o rosto e seus olhos encontraram sua mãe, que estava com os punhos cerrados, caminhando até ela.

    A nanica tossiu e cuspiu um bocado de sangue. Seu corpo todo estava dolorido, coberto de arranhões e uma dor aguda assolava seu abdômen. Ela estava ali há dois dias, sendo espan… treinando com a sua mãe. Era um treino pesado de doze horas por dia, das seis horas até às dezoito. Durante esse tempo, a nanica não tinha permissão nem para comer ou beber.

    — Você entendeu o que acabei de explicar? — Lavina indagou, parando os seus passos a cerca de dois metros da pequena.

    Swosh.

    Vaiola ganhou impulso e se lançou, mais uma vez, contra a mãe, surgindo em sua frente num instante. Ela lançou um soco sem perder tempo, mas foi desviado para longe por apenas um indicador da mais velha, sem esforço algum.

    — A evolução de um Campeão ocorre em seis estágios — disse em resposta, tentando acertar um chute, mas o punho de Lavina encaixou em seu abdômen muito antes da nanica poder acertar. Foi um golpe tão potente, que a menor foi lançada para dez metros distante da mãe.

    Depois de tanto rolar, tossiu sangue e, na tentativa de se levantar, seu corpo tremeu por inteiro.

    — Ngh! Desperto, Ascendido, Transcendido, Inumano, Anjo e Semideus. — continuou e voltou a tossir. — São esses os seis estágios de evolução de um Campeão. Cof!

    — Muito bem. — Lavina se colocou em posição de combate e sorriu. — Pronta para se tornar uma Campeã Desperta?

    Com a mão sobre o abdômen, Vaiola se levantou, gemendo, seus olhos constantemente fixos na mãe. Seu corpo todo gritava para que ela parasse, que desistisse e pedisse uma pausa. Contudo, em seu peito, seu coração martelava com força, bombeando um calor abrasador que devorava todos os medos da pequena, deixando apenas a sua louca vontade de lutar. Sentia que nascera para aquilo.

    Separou os lábios num largo sorriso entortado pela dor e se lançou contra a mãe.

    Aquela era a missão dela: tornar-se uma Campeã.

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