Índice de Capítulo

    O universo parara de vez.

    Os fragmentos de gelo no ar congelaram, os eventos roxos nas bordas da esfera pararam no tempo, e a forma distorcida de Nihara no limiar do horizonte ficou incompleta, suspensa num instante que não progredia para o próximo.

    O próprio barulho do vórtice desapareceu. Algo silenciou o mundo pela raiz.

    Akemi ficou suspenso no vácuo, paralisado, com o rosto em choque e o braço apontado à direção de Rin, também estática como as mãos cósmicas partidas das costas.

    Todos os outros alunos permaneceram presos em um voo parado no tempo acima do topo do altar. Kyoko, aprisionada pelo aperto da grande mão roxa, ainda demonstrava a impaciência que lhe era própria nos olhos, mas nenhuma vontade própria alcançaria qualquer mudança de humor.

    Até que aquém do espaço comum, a lógica das sequências normais da realidade foi rompida:

    Sobre o piso gélido do altar, uma oval transparente e vertical abriu-se como um portal de autoridade recorrente, distorcendo o tecido da atmosfera com um som de baixa frequência. De dentro da fenda, uma mão atravessou primeiro; escrituras de brilho prateado cobriam a palma, formadas por ideogramas circulares e incompreensíveis. Depois, uma silhueta coberta por panos escuros pisou no chão do altar com um único passo.

    Sob o capuz negro e pontiagudo, uma máscara oval com pequenos buracos na região da boca mantinha o rosto oculto. No centro da longa capa escura, o contorno de um grande relógio com ponteiros invertidos e números deformados em espiral formava um símbolo além da linguagem visual comum. Detalhes metálicos reluziam nas costuras da indumentária1, e a farda preta simples que aparecia sob o manto reforçava a impressão de alguém que não distinguia o campo de batalha do meio acadêmico.

    Ao lado da instrutora de braços abertos à paisagem caótica, sua presença manteve o breve silêncio sepulcral2 e ritualístico, trazendo o peso de mil relógios parados ao mesmo tempo.

    — Tenente-coronel Hisako Shimizu — a voz grave e abafada da figura passava pelos orifícios da máscara. — Como sempre, suas instruções seguem me dando trabalho. Chego a me perguntar se algum dia terei o privilégio de não precisar salvar um aluno em suas circunstâncias… letais — a pausa serviu para o saboreio do feito.

    Passos subiram pela escadaria.

    O encapuzado não virou o rosto, pois reconhecia aquele ritmo.

    Teruo Kenzo chegou ao topo com o ar em volta do corpo ondulando levemente, pequenas fagulhas sem cor o contornavam o corpo, seguindo os movimentos como rastros invisíveis. Seus olhos foram direto para a imobilidade de Rin abaixo do vórtice paralisado. — Chegou bem na hora — disse ele, indiferente — aquela garota possui uma aura de propriedades incontroláveis. Um segundo a mais e o Miyazaki não teria volta.

    O encapuzado permaneceu estático como os ponteiros desenhados em suas costas. — Recomendo que tome medidas mais cautelosas daqui pra frente, Teruo. Minha aura ficará em desuso até a recuperação total. Você já não é criança, e estou ficando limitado. Daqui a pouco, posso não estar por perto para prevenir perdas desnecessárias.

    No fundo, as palavras carregavam a preocupação de quem lidara com futuros que nunca aconteceram… e com alguns que aconteceram demais.

    Teruo levou um instante. — Eu sei.

    — Sei que você sabe, por isso, teremos uma boa prosa depois daqui — o encapuzado virou-se para Hisako, a máscara ficou claramente visível. — Suas brincadeiras estão encerradas, Tenente-coronel. No momento de definir as notas, valorize os alunos que sabem a hora certa de agir. Espertos são os que reconhecem o inviável antes de mergulhar nele.

    A última frase, além de aviso, foi diagnóstico. Pois ele sabia que alguns alunos, apesar das boas intenções, necessitavam de choques de realidade maiores do que a própria confiança.

    No limiar do horizonte de eventos, entre as sombras que o tempo paralisado não tocava, Akemi continuava suspenso no vácuo, com os dedos apontados para onde atingira Nihara. As faíscas foram descarregadas, o disparo havia consumido-as. O que restava era a consciência exata do que havia feito e o silêncio absoluto causado pela falha irreversível, pelo menos por conta própria.

    Um mundo paralisado ao redor, e entre ele, um garoto que temia a sensação de fraqueza e inutilidade.

    Preso por dentro e por fora, Akemi buscaria mais formas para que um dia finalmente se libertasse das amarras que o mantinham como ineficaz, mesmo que o sentimento tenha sido causado por um puro azar…

    — CURIOSIDADES DO MUNDO ÁURICO —
    O Guardião dos Instantes e a sombra dos Kurosawa

    Entre todas as classificações áuricas catalogadas pela ciência asahiana, as Auras de Grau X permaneciam como as mais enigmáticas e perigosas. Diferente dos elementos clássicos originados dos asteroides, as auras classificadas como Grau X manifestavam propriedades que desafiavam a compreensão científica convencional. Vácuo, tempo, escuridão e outras manifestações inexplicáveis compunham a categoria restrita, cujas origens permaneciam envoltas em mistério e especulação.

    A teoria predominante sugeria que tais auras derivavam de fontes elementais ainda não descobertas, possivelmente asteroides menores cujos impactos passaram despercebidos pelos registros históricos, ou mutações áuricas extremamente raras que ocorriam espontaneamente em indivíduos predispostos.

    A família Kurosawa, renomada linhagem de cientistas áuricos especializados em pesquisas que revolucionavam constantemente o entendimento sobre manipulação elemental, dedicava décadas ao estudo daquelas anomalias. Contudo, rumores obscuros os cercavam: acusações vagas de crimes contra a vida, experimentos proibidos e violações éticas que nunca foram comprovadas publicamente, mas que manchavam sua reputação em pequenos e escassos círculos acadêmicos asahianos.

    Entre os raros portadores de Auras de Grau X, nenhum era mais valioso estrategicamente para Asahi do que o Shihai do Tempo. Sua identidade permanecia protegida sob sigilo absoluto, reconhecível apenas pela máscara oval e pela indumentária característica que ostentava o símbolo de um relógio com ponteiros invertidos.

    Suas habilidades transcendiam combate: pausa de eventos catastróficos, reversão de acidentes fatais e até mesmo o conserto de objetos através da manipulação temporal limitada.

    Durante décadas de serviço, o Shihai do Tempo salvou incontáveis vidas em situações onde qualquer outro áurico teria falhado.

    O feito mais notável ocorreu durante o Incidente de Yokosuka em 1885, quando ainda atuava como estagiário militar da Academia Shihai de Asahi em seu segundo ano de formação. Naquele dia, um protótipo experimental de couraçado áurico sofreu falha catastrófica inesperada em seus reatores elementais ígneos durante testes de campo. A explosão iminente devastaria toda a base naval e a cidade portuária adjacente, onde aproximadamente cinquenta mil civis residiam.

    Nos três segundos finais antes da detonação, o jovem Shihai do Tempo que se encontrava em outro setor longe do perigo, sentiu o incidente, atravessou um portal e congelou os arredores do couraçado no exato instante em que as chamas da explosão se expandiram.

    Com o tempo paralisado, iniciou-se uma corrida contra suas próprias limitações. Naquela época, sua habilidade de reversão do fluxo temporal alcançava apenas alguns segundos, o que era insuficiente durante a evacuação de milhares de pessoas. Contudo, descobriu-se naquele momento que sua capacidade de pausa no tempo em vastas áreas era praticamente ilimitada em duração.

    Aproveitando a descoberta, o Shihai carregou fisicamente cada militar nas proximidades e interiores do couraçado para fora da zona de explosão, um por um, enquanto exigia que os outros fora da área congelada alertassem uma evacuação imediata dos civis da cidade portuária.

    O resgate durou horas extenuantes. Quando finalmente todos os militares foram removidos e a população civil evacuada, o fluxo temporal foi liberado.

    A explosão devastou completamente a base naval, mas nenhuma vida foi perdida.

    Aquele incidente revelou tanto o potencial quanto as limitações de sua aura: pausa temporal de área extensa sem limite aparente de duração, porém reversão temporal extremamente restrita. Nos anos seguintes, através de treinamento intensivo na ASA, o Shihai do Tempo expandiu sua capacidade de reversão temporal de meros segundos para vinte minutos, um avanço significativo que o tornaria ainda mais valioso em futuras emergências.

    Aquela única intervenção salvou dezenas de milhares de vidas, mas custou ao Shihai do Tempo aproximadamente quinze anos de expectativa de vida, pois cada uso de seu poder cobrava preços devastadores:

    A manipulação temporal desgastava seu DNA progressivamente, encurtando sua expectativa de vida a cada intervenção. Por tal razão, o Shihai do Tempo nunca fora enviado para campo de batalha, seu valor estratégico como salvador de última instância superava infinitamente qualquer contribuição que ofereceria em combate direto. A perda de tal recurso em confronto militar seria desperdício inaceitável.

    Curiosamente, registros confidenciais indicavam ligações estreitas entre o Shihai do Tempo e a família Kurosawa, embora a natureza exata dessa conexão permanecesse obscura. Alguns teorizavam que os Kurosawa haviam desenvolvido tratamentos experimentais que prolongavam a vida do Shihai apesar do desgaste temporal.

    Outros sussurravam que a própria origem de sua aura temporal estava conectada a experimentos realizados por aquela família de cientistas. As acusações vagas de crimes contra a vida que os perseguiam talvez se relacionassem às pesquisas proibidas, mas provas concretas nunca emergiram, e o governo asahiano, juntamente da Família Miyazaki, mantinha silêncio absoluto sobre o assunto.

    Para jovens shihais, a compreensão da existência das Auras de Grau X expandia drasticamente sua percepção sobre os limites do poder áurico, demonstrando que, apesar de séculos de estudo, o mundo elemental ainda guardava segredos profundos, e que alguns desses segredos vinham acompanhados de sacrifícios terríveis.

    1. o que uma pessoa veste; vestimenta.[]
    2. que evoca o sepulcro, a morte; sombrio, medonho.[]
    Sabia que Shihais tem um servidor no Discord? Se quiser conhecer, clique no botão abaixo!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota