Índice de Capítulo

    「❍」

    Mal amanheceu e Kevyn já estava acordado, como sempre.
    Sentado na cama, seus olhos apáticos encararam o vazio, ou talvez fosse a si mesmo?

    Silêncio.

    Inaudível era sua respiração, seu corpo já sem energia para se manter em pé, se autoconsumindo, usando suas habilidades para ter energia.

    Silêncio.

    “Eu não quero beber sangue…”, o que estava acontecendo?

    「❍」

    O céu tingindo-se de dourado, o sol iluminou as pontas da grama em uma linda paisagem, tão linda que fez Kevyn chorar. “Por que isso tá me afetando?”.

    Uma lágrima veio e caiu sobre o verdejante gramado; não havia tristeza, felicidade, raiva…

    O garoto entrelaçou os dedos, sua esperança era que parasse; seu coração pareceu acelerar, mas logo parou.

    「❍」

    Fazendo o café da manhã, o príncipe olhou para os ovos sendo fritados e mais uma vez aconteceu.

    Cada gota que escorria, nenhum sentimento a ser sentido; em vez de esperar, seu silêncio apenas gritava.

    Então, depois de fritar os ovos, ele veio, carregou um prato para Aycity, foi até seu quarto, deixou-o em sua cômoda e saiu com um sorriso no rosto.

    No entanto, quando chegou na cozinha, Humbra estava lá.

    De maneira harmoniosa, o general olhou para ele com pesar e perguntou:

    — Você está bem?

    O garoto trouxe consigo o sorriso, mas ele se tornou falso no momento em que seu subordinado perguntou aquilo.

    Mais uma vez, Kevyn mentiu, não para seu filho, mas para si mesmo:

    — Sim, eu estou.

    Ele desfez o contato visual com Humbra…

    「۝」

    Abrindo seus olhos, Aycity acordou e já se levantou da cama logo em seguida; animadamente, ela fitou seu café da manhã sorridente.

    Em breves segundos, ela devorou e correu para o andar de baixo; com tantas expectativas, ela procurou por Kevyn, mas ele não estava lá.

    Por sua vez, Humbra olhou para ela.

    — Humbra!

    — Bom dia, minha rainha.

    — Cadê o…

    O esqueleto não a deixou terminar:

    — Ele saiu.

    — Oh… então… que tal fazermos uma surpresa?! Tipo… uma comida que ele gosta?…

    As pupilas do general ficaram maiores; ele levou a mão até sua face e respondeu:

    — Eu vejo isso como uma boa oportunidade, srta. Aycity, mas meu Deus já fez o almoço. Nesse caso, vamos deixar Dayron devorar tudo e nós fazemos comida de novo.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Passos solenes, pertinentes, inerentes e eternos. Passo por passo, Kevyn andou, seus olhos embaçando, trocando, tentando.

    De repente, alguém veio até sua frente. Aquela sensação de nostalgia, mas ele não percebeu; breve, sua cabeça repousou sobre a outra pessoa.

    Tênue toque que se transformou em perigo; o que poderia ser feito? Quando percebeu, o garoto cerrou seus olhos e, sem temer, se afastou para olhar em seus olhos.

    — Que nostálgico… Kevyn.

    De cabelo negro, Notherite cerrou seus olhos de maneira tênue, com compaixão.

    — Você me reconheceu… — disse baixo — Notherite.

    — Podemos conversar?

    O garoto desviou o olhar, piscou e suspirou…

    — Podemos.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ し ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Ajeitando alguns talheres, uma mulher ruiva sorriu ao ver que seu chá estava pronto. Retirando a chaleira do fogão, ela a levou até a sala e repousou-a bem em cima de sua mesa oriental.

    Sorridente, ela ligou sua televisão e viu o que estava passando, mas, sem interesse, colocou em sua série favorita e foi preparando mais coisas.

    — Ele vai vir, hein? Isso é booom…!

    Em milésimos, pegou ovos, separou as gemas, usou farinha, manteiga e, assim, fez um bolo. Seu forno era uma máquina do tempo, ou ele era só rápido demais?

    Ela fez ele acreditar que era.

    Fez o forno acreditar que era uma máquina do tempo.

    Logo, recheio de chocolate, morango e tudo que ela podia imaginar e achar em sua geladeira. O bolo perfeito!

    Seu “eu”, tão animado, era diferente, muito além de todas as coisas. Naquele momento, a mulher estava ansiosamente esperando por um olhar despreocupado da sua visita preferida.

    Ela voltou até a sala na melhor cena e deixou o grande bolo lá em cima da mesa.

    Então acabou.

    Ela olhou para o quadro de sua antiga amiga, uma foto dela, Myuky e Astéria reunidas depois de vencerem uma guerra tão difícil.

    Tão difícil de se segurar sozinha, Etubezaab Suedrom Learza lacrimejou e, sem mais se conter, uma lágrima solitária escorreu pelo seu olho direito.

    — Tudo vai valer a pena no final, não vai? Você sempre falava que ia… amiga…

    ★ ≫ ──── ≪ • ◦ ۝ ◦ • ≫ ──── ≪ ★

    — Há!

    De repente, Gabriel surgiu na porta da casa de seu irmão mais novo e, assim, pôde presenciar uma cena aterrorizante.

    Aycity estava no chão, morta e sangrando.

    Humbra, derrotado, seus ossos jogados pelo chão.

    Dayron, por sua vez, estava de pé, sentada na cadeira, enquanto uma panela pegava fogo no fogão.

    Gabriel deu um passo à frente e bateu as palmas. No mesmo instante, a fumaça de queimado se transformou em oxigênio, o fogo em água, a panela em uma bacia.

    Breve, o homem transformou a sujeira em ar.

    Um tanto irritado, ele se aproximou da patética garota e perguntou:

    — O que vocês estavam fazendo?!

    Derrotada, ela olhou para ele com lágrimas nos olhos e fez pirraça:

    — Eu só queria fazer comida! Por que é tão difícil?!

    Nada surpreso, o homem pegou uma panela nova do armário e colocou no fogão.

    — O que querem fazer? — ele perguntou.

    Mesmo desmontado, Humbra falou:

    — Strong-on-off…

    Levando a mão até o queixo, Gabriel lembrou de todas as vezes que assistiu seu irmão cozinhando e pensou: “É um prato fácil, mas o problema é replicar a qualidade dele… certo!”.

    — City, você disse que iria conversar com ela, não é? Vá! Eu farei a comida para vocês, plebeus.

    Ele sorriu e encarou todos atrás de si.

    Aycity se levantou, sorriu e gritou:

    — OBRIGADA, CUNHADO!

    A garota então saiu correndo para fora de casa sem qualquer hesitação.
    Surpreso, o homem se questionou: “Quando ela aprendeu a agradecer? Ah…”. Encarou a panela. “É, ela fez o mesmo durante o nosso treinamento, não é?”, sorriu e percebeu outra coisa…

    — Um segundo… Cunhado?!

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    — 70 milhões? Ah… — Desviou o olhar. — Desculpa, não tenho tudo isso…

    Após toda a conversa, Kevyn e Notherite estavam um de frente para o outro, prestes a se despedir.

    — Não tem… não é?

    Já com um plano em mente, à mulher bastava apenas a afirmação para seu plano começar; não importa o que ele fizesse, já estava na palma de sua mão.

    O príncipe sentiu hostilidade; brevemente, ele também tinha um plano.

    Assim, os dois vieram a falar juntos:

    — Eu vou trabalhar para você!

    — Você vai trabalhar para mim!

    Silêncio.

    Os dois se olharam por um breve momento, incrédulos do que acabara de acontecer.

    De repente, do outro lado da rua, um homem disse:

    — Jinx!

    Os dois ignoraram, voltaram o contato visual e Notherite disse:

    — Está feito; te vejo quando, então?

    — Em breve. Como esse mês já tá acabando, nos vemos no dia um do seis.

    — Certo, até mais, Calamith.

    Ela logo se foi.

    Atônico após aquela conversa, o menino olhou para as nuvens e suspirou tênue. “Se tornar Monarca? Puft~”, ele riu, mas sabia o quão sério era aquilo.

    ★ ≫ ──── ≪ • ◦ ۝ ◦ • ≫ ──── ≪ ★

    Atravessando a floresta em alta velocidade, Aycity atravessou as árvores com portais de gelo rápidos e precisos. “Tô me acostumando com isso!”, riu e acelerou o passo.

    Cada vez mais distante, ela pôde observar os monstros de mana; de repente, também viu os tigres de madeira que Kevyn cuidou no passado, agora já crescidos.

    Animada, ela pegou uma buchinha e amarrou o cabelo em uma bolinha, assim como a da sua personagem favorita.

    — Vamos!

    Usando toda sua pouca velocidade, ela rasgou a floresta com extrema agilidade. “Há!”, portais para cá e para lá até, de repente, bater contra uma muralha de troncos de madeira.

    — Arg!

    Do outro lado, Night escutou. Desnorteada, ela correu e olhou por cima de seu muro. Vendo quem era, ela não sabia se tinha ódio, surpresa, alívio ou inveja.

    Ela cuspiu o nome dela com veneno.

    Pateticamente disse com ira.

    As duas fizeram contato visual, se odiaram pelo olhar, mas aquilo não importava de verdade. Night sorriu em deboche e disse:

    — Entre, entre…

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Cacos e mais cacos, passo por passo, devaneio crescendo em uma solidão decadente. Tente, tente e tente.

    Naquela rua, uma ida sem volta. Kevyn viu a porta; parecia tão distante. Ele caminhou, sua respiração se tornando densa, sua ansiedade pronta, ali, palpável em seu coração acelerado.

    Como uma quebra no espaço-tempo, ele chegou instantaneamente até a porta. Até o mundo estava ansioso para aquele encontro tão especial.

    Suando frio, o garoto tocou na maçaneta, girou, mas ela não abriu. Em vez disso, voltou atrás e bateu na porta.

    Nada aconteceu.

    Ele levou as mãos atrás das costas e ficou envergonhado. “Ela é tão legal… uma amiga da minha mãe, a única que posso contar! A Kancernali não ajudou na luta, isso me faz pensar…”, A porta se abriu.

    Então ela veio; em seus olhos, caveiras, mas… de roupas tão usuais como sempre.
    Só que algo incomum, mítico, nítido e perfeito: um avental, como uma verdadeira mãe.

    Vendo-o tão bem vestido, Suedrom riu e fez-lhe um cafuné.

    — Que fofo, você tem gastado muito dinheiro, hein? Não precisa usar roupas tão formais; vem, entra…

    Ela retirou sua mão e adentrou sua casa, sinalizando para que ele a seguisse.

    Erguendo suas orelhas felinas, o cabelo do menino se tingiu em um branco espectral; dessa vez, não havia frieza, ele apenas estava calmo demais, mais do que deveria, mais do que queria.

    Sem temer, ele a seguiu.

    ★ ≫ ──── ≪ • ◦ ۝ ◦ • ≫ ──── ≪ ★

    — Hahahaha! É isso?! Bem feito pro seu pai!

    Night gargalhou após notícias tão belas vindas de sua não convidada.

    Apática, Aycity encarou-a sem qualquer expressão; apenas o silêncio congelante do nada, marcado pelo inferno Astraal.

    — Ha… ha… desculpa…

    — TÔ ZUANDO! Tinha que ver sua cara! Hahahahah!

    Piscando de nervos, a demônio tossiu e virou a cara, emburrada.

    — Que seja, idiota! Não é possível que o Kevyn não esteja treinando! E me enfrentar?! Ele sequer vai tocar em mim desse jeito!

    Mais uma vez.

    O olhar da patética garota se tornou apático; dessa vez, tão real que era palpável. O ar se tornou flocos de neve.
    Ela os cerrou; então Night também igualou sua presença, encarou-a nos olhos.

    — Estrelinha, estrelinha…

    — O que foi, Abusadinha?

    Lentamente, a garota levantou-se da tora de madeira em que estava e lentamente caminhou na direção da demônio que, fazendo o mesmo, arregalou um dos olhos e cerrou o outro, vendo-a se aproximar tão devagar.

    Mais e mais, Aycity se aproximou até quase encostar suas pupilas.

    — Você vai perder… e, se não perder, eu vou te fazer experimentar o que tanto venho treinando.

    — O nada?

    — Não, eu não preciso disso… hehe

    A verdade por trás de toda aquela pressão era uma calmaria imensa. Night congelou, sentiu uma fisgada em suas costas, mas era somente psicológico.

    Mais uma vez, aquela pressão; a demônio então percebeu e, quando entendeu, chamou sua espada, mas antes mesmo de poder, aquela maldita garota rapidamente decepou sua mão com uma faca e, assim, World Destroyer apenas passou reta, fazendo um pequeno arranhão na bochecha de Aycity.

    — Mudei de ideia, Estrelinha. Vamos fazer o seguinte?

    — Hm?

    — Senta aí, vamos conversar de verdade agora, hehe!

    A garota sentou onde sua mestra estava antes.

    Sentando-se do lado dela, Night desviou o olhar.

    — Quero que você derrote o Kevyn.

    Estranhando, a demônio perguntou:

    — Por quê?

    — Porque eu quero que minha princesa busque ficar mais forte.

    — Só por isso?

    — Não. Óbvio que não!

    As duas vieram a se olhar; então Aycity sorriu e terminou:

    — Quero que faça isso para que ele tenha alguém para superar! Uma motivação!

    — Onde você aprendeu isso, menina?

    Pateticamente, ela fingiu tossir e respondeu:

    — Eh… em um anime por aí. — Desviou o olhar.

    ❍ ≫ ──── ≪ • ◦ ❍ ◦ • ≫ ──── ≪ ❍

    Chegando até a sala, Suedrom correu e se sentou no sofá. Ela entrelaçou as pernas, olhou nos olhos de Kevyn com uma chama juvenil e disse:

    — E aí?! O que achou?!

    Olhando para o bolo, o bule de chá, a televisão, a casa arrumada, a perfeição de cada ato, até mesmo o chão perfeitamente encerado, ele nem quis se perguntar como ela tinha feito aquilo; ele apenas ficou admirado pela proeza perfeita que aquela mulher tinha.

    Ainda imperfeitamente inexperiente, ele bufou de excitação e, com um brilho nos olhos, triunfante, ele juntou, se esforçou, forçou e até ficou vermelho após pensar no melhor conjunto de palavras para elogiar tudo aquilo.

    — Purryn, você só não é perfeita por escolha!

    Cruzando seus braços, a mulher fechou os olhos e bateu a mão no assento ao lado.

    — Vem, vou servir seu bolo de aniversário atrasado.

    — Vo-você… lembrou?

    — A-ah… — Coçou a cabeça. — Bem, você só veio aqui por causa do trabalho, hein? Mas eu queria fazer algo para comemorar.

    Kevyn então se sentou; animadamente, ele ergueu suavemente suas orelhas, sem deixá-las muito aparentes…

    Mas Suedrom percebeu aquele mínimo gesto.

    Era incrível; era como vê-lo se desleixar em uma situação em que deveria sentir medo absoluto.

    Kevyn veio a perceber que, ali, um relógio de parede marcava o mesmo segundo havia tempo demais.
    O ponteiro tremia, imóvel, como se tivesse medo de seguir.

    A televisão, esquecida ali em cima da cômoda, sussurrava um noticiário abafado. Vozes distantes. 

    Ruído de estática misturado ao som do vento que entrava pela janela entreaberta. 

    Um copo de diamante, pousado sobre a mesa, vibrava levemente a cada batida grave da narração televisiva, emitindo um som frágil, quase imperceptível, como o ressoar de um sininho preso no ar.

    Ela moveu-se.

    O som do tecido do avental roçou a cadeira, um deslizar quase inaudível, mas ritmado, como o início de uma sinfonia doméstica.

    Pegou a faca com dois dedos, como se a lâmina fosse sagrada.
    Atravessou o bolo com a precisão de um deus.

    O corte foi lento, impecável.

    A massa cedeu em silêncio, soltando um suspiro doce, o perfume de chocolate misturado com manteiga e açúcar derretido.

    A fatia deslizou e repousou no prato.
    O impacto foi mínimo — um som macio, abafado, quase carinhoso.

    Por um instante, a vibração desse toque ecoou dentro da porcelana, como se o prato tivesse respirado.

    Então veio o chá.

    O bule, de porcelana antiga, tilintou ao ser erguido; a tampa produziu um som breve, metálico, como o fechar de um segredo.

    O vapor escapou em espirais lentas, subindo no ar como véus transparentes, dançando sobre o brilho do líquido âmbar.

    O chá caiu — um fio fino, constante — e cada gota parecia pesar mais do que o tempo. Mais que o espaço. Mais que todo aquele universo.

    O aroma espalhou-se pela cozinha: flores secas, mel, algo quente e leve, como memórias de uma tarde perdida.

    Ela observou o líquido girar na xícara, criando redemoinhos microscópicos, reflexos dourados e marrons que se misturavam à luz fria da lâmpada.

    Uma gota escorreu pela borda e pousou na mesa.

    Ela não limpou.

    A gota desceu devagar, descrevendo o contorno do verniz, até parar, imóvel, cristalina.

    O tilintar dos talheres contra a porcelana quebrou o silêncio.

    Um som agudo, pequeno, mas preciso, como o bater de asas de um inseto preso numa sala vazia.

    Ela pousou a colher ao lado do prato — alinhada, simétrica, perfeita.

    O reflexo do metal devolveu a luz trêmula da televisão, que ainda murmurava notícias que já não importavam.

    Então ela respirou.

    O som entrou, saiu, e o ar pareceu se mover com o mesmo cuidado com que ela servira o chá.

    Nenhum gesto era acidental.

    Tudo tinha peso, ritmo, intenção — como se o simples ato de servir uma fatia de bolo fosse o último rito de um mundo prestes a cessar.

    「❍」

    Admirado, Kevyn ofegou de excitação; aquilo foi lindo. Era como se sua beleza absoluta sequer chegasse perto daquilo; seu corpo vibrou e, quando ela lhe ofereceu, ele não sabia se aceitava ou apenas apreciava.

    Ela percebeu que o surpreendeu e apenas esperou-o pegar.

    — Quer aprender comigo? Vire meu discípulo, eu imploro.

    Kevyn aceitou; o sorriso do seu rosto era tão genuíno quanto o rubor em suas bochechas. Seu silêncio, seus pensamentos, sua mente sabia que aquilo era bom demais para ser verdadeiro.

    “Ser aluno dela?”, ele queria muito, mas negou a si mesmo, mais uma vez.

    — Purryn, eu amaria ser seu aluno.

    Ele então cerrou seus olhos junto a um sorriso e continuou:

    — Eu não posso aceitar porque eu sei, Suedrom. Sua alma não esconde; eu não sou digno de ser seu discípulo ainda.

    A mulher deixou a faca cair no bolo; surpresa, ela sorriu, riu, arregalou os olhos e, levantando-se, caiu no sofá ao lado dele após ser rejeitada.

    — Então vire digno logo, hein?

    — Hehe… um dia, quem sabe?

    Ela relaxou, olhou-o de canto mais uma vez e respondeu:

    — E aí… — murmurou — o que vai fazer?

    — Eu não queria… mas vou criar uma nova vida…

    Purryn colocou a mão sobre uma das orelhas dele e então respondeu:

    — Kevyn querido, você se deixou ser afetado por míseras palavras? — Cerrou os olhos. — Talvez realmente não esteja pronto…

    Kevyn desviou o olhar e respondeu:

    — O… — falou baixo — eh… uma pessoa me disse que criar soldados não é a mesma coisa que ter a devoção deles, ou… algo assim…

    Suedrom sorriu, esticou a cabeça para trás do sofá e a escorou enquanto olhava para o teto.

    — Meu pequeno, vou dizer uma frase muito importante. Ter a lealdade de seus próprios filhos é tão difícil quanto a de homens e soldados. Enquanto os homens se afetam por palavras, os filhos só são ganhos por carinho e afeto.

    Kevyn olhou para ela com admiração; então provou o bolo e uma explosão de sabores que nunca sentiu antes. Era como uma supernova na boca, tal perfeição nunca vista antes, mas então a mulher voltou a se sentar normalmente e tocou a nuca do garoto.

    — Criar uma vida não é sobre fazer alguém forte, mas fornecer o melhor do mundo para ela.

    Kevyn encarou o nada após ouvir aquelas doces palavras; ele refletiu sobre algo, sobre alguém.

    A carta, o mundo, as lembranças, tudo… “Mamãe… então… você…”, ele chorou…

    Purryn sorriu; sua percepção foi imediata.

    Abraçou-o e fixou não só os sentimentos dele, mas os seus próprios. Ela sabia, ele sabia. Também com seu olhar avoado, Suedrom fechou seus olhos e também teve seu luto.

    Também teve sua eutimia.

    Depois de alguns minutos, Kevyn voltou.

    “Mãe, eu prometo te orgulhar ainda mais!”

    Ainda chorando sem parar, ele encarou o chão determinado. Etubezaab estava lá, pronta para enxugar suas lágrimas, com o sorriso leve de quem já aceitou.

    Mastigando o bolo, ela engoliu e disse:

    — Você precisa ser o pai que eles nunca tiveram; seja o rei que Seyfu precisa. Como a própria Deusa da Morte que sou, te obrigo a não morrer! Não quero ver o filho de uma amiga tão especial acabar no mesmo destino…

    Ela tomou um gole de chá.

    — Deusa?

    O olhar dele vibrou.

    — Ela disse sobre a apologia, não é?

    Kevyn sorriu, sem mais choro; ele estava tão determinado quanto antes. Agora, era inegável: ele iria derrotar Night. Ele havia decidido lutar contra tudo.

    Então sua alma gritou pela decisão. Preparado como uma minguante de sangue, como sua avó. 

    Ele seria o pai perfeito, não somente para suas criações, mas para todo o seu reino, para todos os seus soldados.

    Então ele terminou, se levantou, apontou para Learza e respondeu com determinação pura:

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota