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    Ela inclinou ligeiramente a cabeça, analisando melhor a cena agora com calma: Niko ajoelhado, Gwen tensa como uma mola prestes a estourar e, entre eles, a garota caída, com o braço claramente fora do lugar.

    — Então… como isso… tudo foi acontecer?

    Gwen soltou um sopro irritado pelo nariz, ainda com o peito subindo e descendo rápido demais para alguém que supostamente já havia terminado uma luta.

    — Nada não, só a princesinha aqui que tentou me matar com uma chave de fenda pelas minhas costas. Nada demais.

    O olhar dela desceu imediatamente para a garota, carregado de desprezo puro. Viu o sangue escorrer pelo nariz, imaginou que seria melhor se escorresse por um buraco na cabeça. Imaginar isso trouxe uma satisfação curta a ela.

    — Ela estava se fingindo de inocente. Chorando, tremendo, toda frágil… — continuou, cerrando o punho. — Ela me enganou direitinho… Quando eu virei, ela veio com uma chave de fenda direto no meu pescoço.

    Brigitte ergueu as sobrancelhas, surpresa pela ação da garota — tão pequena em sua mente. O olhar dela deslizou imediatamente para Niko. Ele apenas fez um pequeno aceno com a cabeça. Uma vez. Confirmando.

    — Eu vi a tempo. — disse, em voz baixa. — Interceptei ela antes de acertar.

    Gwen bufou. Os dedos dela tamborilaram uma vez contra o próprio braço, um gesto curto, nervoso, como se ainda estivesse pronta para reagir a algo que já tinha passado.

    — “Interceptei” é um jeito educado de dizer que ele apareceu do meu lado do lado rápido como um trem.

    O silêncio pairou por um segundo, pesado, carregado de adrenalina ainda não dissipada — de Gwen, claro. Os olhos de Brigitte desceram novamente para o braço da garota, que estava torto em um ângulo antinatural.

    — Certo… isso explica melhor as coisas. — inclinou levemente a cabeça, analisando melhor o corpo mole da garota. — Mas e o braço? Ela foi tão violenta assim pra vocês precisarem fazer isso?

    Niko desviou o olhar por um instante, como se revivesse o momento.

    — Eu tentei tirar a chave de fenda da mão dela. — respondeu. — Mas ela não soltou… 

    Gwen completou, praticamente interrompendo a fala do albocerno:

    — Ela só soltou quando o niko torceu o braço dela, e olha que ela nem gritou de dor. — a esotérica esticou os braços em um alongamento. — Eu me pergunto se ela é mesmo humana.

    A garota emitiu um som fraco, inconsciente, um gemido arrastado que parecia vir de muito longe. Foi então que — não aguentando mais aquela vista horrível — Evelyn finalmente se moveu. Sem pedir permissão. Sem avisar.

    Ela se agachou ao lado do corpo, com o olhar clínico, distante, como se estivesse avaliando um objeto danificado e não uma pessoa. Segurou o braço da garota com ambas as mãos — uma na altura do cotovelo, outra no pulso. Gwen franziu o cenho, talvez em dúvida, talvez irritada.

    — Ei, o que você-

    Um estalo veio antes que ela terminasse a fala. Um som seco, limpo, horrivelmente orgânico. O corpo da garota reagiu com um espasmo violento, mesmo inconsciente, as costas se levantaram por um instante antes de cair novamente contra o chão. Um grito estrangulado escapou de sua garganta, mais reflexo do que consciência.

    Brigitte fez uma careta. Por um instante, uma lembrança atravessou sua mente, a vez que, durante uma missão, acabou caindo no fundo de uma ravina depois de escorregar como uma iniciante durante uma forte chuva. Estava com o tornozelo inchado. Teve que fazer o mesmo que Evelyn fizera agora. O som era até o mesmo.

    Piscou uma vez, voltando ao presente, claramente pouco interessada em revisitar aquilo.

    — Credo…

    Evelyn não demonstrou qualquer reação ao som. Apenas ajustou a posição do braço, pressionando levemente para confirmar o alinhamento.

    — Deslocamento com fratura simples. — murmurou, como se estivesse recitando algo mecânico, algo que aprendeu de algo próximo em um tempo distante. — Vai piorar se continuar assim.

    Então, encostando no membro dela, um frio emanou do próprio corpo. Primeiro como uma névoa fina ao redor de suas mãos, depois como um brilho azulado que se espalhou pela pele da garota, subindo do pulso até metade do braço. A camada preencheu o braço, a pele ficou azul, a respiração irregular da garota diminuiu gradualmente e o rosto, antes contorcido, relaxou um pouco.

    — Só uma anestesia improvisada. — explicou Evelyn, soltando o braço como se tivesse terminado um reparo trivial. — Não vai sentir tanta dor.

    Por um instante, Niko ficou imóvel. Quando havia sido baleado na luta contra Clementine, Evelyn fez o mesmo com ele. Pressionou as mãos contra seu ferimento e ativou a Alma. Nunca havia parado para pensar o quão útil era isso.

    Gwen observou a estrutura de gelo com os dentes cerrados, ainda respirando pesado.

    — Ótimo. Assim ela pode continuar consciente pra explicar por que diabos ela fez aquilo.

    Niko passou um braço por baixo das costas da garota e a ergueu com cuidado, evitando tocar diretamente na área congelada.

    — Vamos. — disse, sem olhar para ninguém em específico. — Precisamos ir até o escritório do Valand.

    Brigitte descruzou os braços, finalmente colocando a lança atrás das costas, prendendo-a na bainha.

    — Finalmente alguém falando algo que faz sentido. Bora logo.

    O grupo se moveu em formação quase instintiva. Niko à frente, carregando a garota com cuidado controlado; Gwen meio passo atrás, próxima o suficiente para reagir se ela acordasse, distante o bastante para não encostar; Brigitte vindo logo depois; e Evelyn fechando a retaguarda, silenciosa. Para eles, os reforços haviam acabado na sala passada, mas nunca se sabe o que se esconde à espreita.

    Viraram à direita no corredor. Ao final, isolada das demais portas industriais, estava uma única porta de madeira escura — sem identificação e sem janelas ao lado. O escritório de Valand.

    Niko encostou-se na parede ao lado da porta, deslizando lentamente até apoiar o peso do corpo sem sacudir demais a garota em seus braços. Só então a colocou no chão com cuidado, posicionando-a sentada, com as costas apoiadas no chão. 

    Por um segundo, ninguém disse nada. O silêncio ali era diferente do do galpão — mais abafado, mais sufocante, como se o próprio corredor não fosse feito para conversas, apenas para passagem do objetivo final.

    Gwen cruzou os braços com força, desviando o olhar da garota como se encará-la por mais tempo fosse suficiente para perder o controle. Brigitte permaneceu de pé ao lado oposto da porta, a mão descansando casualmente longe da lança, embora seus olhos varressem o corredor por hábito. Evelyn ficou parada logo atrás de Niko, observando o garoto.

    Foi então que a garota começou a se mexer. Primeiro um tremor quase imperceptível nos dedos. Depois um franzir lento das sobrancelhas, como se estivesse reagindo a um pesadelo. A respiração, antes superficial, tornou-se irregular. Um gemido baixo escapou de sua garganta e os olhos se abriram lentamente.

    Por um instante, ela apenas encarou o vazio à frente, sem foco, tentando entender onde estava. A confusão veio primeiro. Depois a memória bagunçada. Seu olhar desceu e parou no próprio braço.

    A estrutura translúcida de gelo envolvia metade do membro, opaca o suficiente para esconder a pele arroxeada por baixo, mas clara o bastante para revelar o formato do ferimento ósseo. O silêncio durou menos de um segundo.

    — AAAAAH-!

    Ela tentou puxar o braço instintivamente, mas o movimento abrupto fez o corpo inteiro se contrair de dor, interrompendo o grito em um soluço sufocado. Depois, lágrimas vieram imediatamente, grossas e descontroladas.

    — M-meu braço… meu braço…!

    O olhar subiu, finalmente registrando os rostos ao redor. Sentiu confusão. Medo. Reconhecimento. E então o puro pânico tomou conta de tudo.

    — Vocês… vocês… — a voz falhou, transformando-se em choro — Vocês são monstros…!

    Gwen se moveu no mesmo instante, dando um passo à frente com os olhos incendiados de ódio. Ela não aguentava mais aquele teatro. Não aguentava mais aquela menina. Não importava que ela fosse dez anos mais nova, Gwen só queria descarregar toda aquela raiva acomulada.

    — Monstros? Você-!

    Uma mão surgiu no caminho dela antes que pudesse avançar mais. Foi Niko. Ele não disse nada primeiro. Apenas a segurou pelo antebraço com firmeza suficiente para interromper o movimento. Gwen lançou um olhar mortal para ele.

    — Solta.

    — Não.

    A resposta veio baixa, calma, sem qualquer traço de confronto — e exatamente por isso impossível de ignorar. O olhar dela vacilou por um segundo, não de fraqueza, mas de frustração. Bufou e puxou o braço de volta, recuando meio passo. Parte da raiva desapareceu naquele momento.

    Niko soltou devagar. Então se agachou diante da garota. Não havia gentileza exagerada em sua postura. Nem frieza. Apenas foco e uma leve pitada de aborrecimento.

    — Só abre a porta do escritório logo. — murmurou, direto.

    Ela piscou, confusa. O choro diminuiu, substituído por soluços curtos enquanto tentava entender o que ele queria. O olhar deslizou para Gwen novamente — e encontrou ali uma expressão tão carregada de hostilidade que a resposta veio antes mesmo do pensamento. Engoliu seco.

    — E-eu… T-tá bom…

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