Capítulo 118: Um encontro despretensioso num bar temático
25 de abril de 2024, quinta-feira.
Victor estava com um olhar surpreso, e quando seus olhos percorreram o Koda, percebeu que ele já sabia e, provavelmente, também estava envolvido, com aquele ar todo orgulhoso de sempre.
— Eu propus, para o marketing, a ideia de “Passaporte digital”. Todas as empresas envolvidas no evento fizeram alguma contribuição e separamos prêmios incríveis para serem sorteados. — Os gestos abertos e expansivos deixava claro a empolgação do rapaz de olhos verdes.
— E para concorrer, tem que cumprir um requisito: É preciso escanear um QR Code, que tem em cada uma das vitrines de exposição. Quando escanear todos, automaticamente está concorrendo ao sorteio. Assim, até as empresas menores terão, teoricamente, a mesma chance de apresentar seus projetos. É incrível, não é?
O tom animado na voz e os gestos calorosos mostrava, precisamente, o quão empolgado e confiante ele estava com seu projeto. Victor ficou surpreso com a ideia e não poupou elogios para com o seu colega.
— Mas eu não teria conseguido tudo sozinho. O Koda me ajudou bastante, principalmente no planejamento prático.
Koda tossiu secamente, colocando a mão, fechada, na frente da boca.
— Não é querendo me gabar, mas fiz… não, na verdade, fizemos um trabalho impecável. Toda a organização desse evento foi muito complexa e eu espero, de verdade, que seja um sucesso.
Victor não pôde deixar de soltar um suspiro, quase frustrado.
— É uma pena que não poderei participar deste evento. Eu estarei na França no mesmo dia, representando a Elegance Affairs.
— Está apenas querendo se exibir, né?! Enquanto nós, meros mortais, não iremos sair de Tóquio, o poderoso chefinho estará na França com sua digníssima e amada companheira. — Ele não conseguiu se conter e caiu na gargalhada.
Os outros dois também riram, com menos intensidade.
— Não fala assim, parece que estaremos de férias… — Ele falou, retomando o tom casual. — É uma reunião muito pesada. Me dá calafrios só de pensar. Vocês, com certeza, sabem o que está em jogo nessa reunião.
— Com certeza! Estamos apenas brincando. Os resultados dessa reunião podem ser uma virada de chave para nós. — Koda expressou e Helsing concordou com a cabeça.
Os dias se seguiram sem imprevistos, com todos os funcionários trabalhando focados, alguns, muito ansiosos pelo evento de tecnologia. Por outro lado, o relacionamento de Victor e Aki não teve nenhuma grande diferença ou mudança, apesar da evolução moderada. A cada dia, Aki se acostumava mais com aquela vida de “esposa não-oficial”.
…
04 de maio de 2024, sábado.
Apesar disso, o tempo passou mais rápido do que conseguiram acompanhar. Quando se deram conta, já estavam ali: o ambiente trazia um ar muito diferente. A estrutura era de madeira de tom marrom escuro, iluminado por luzes quentes em locais pontuais. Um local aconchegante com uma assinatura clássica. Em volta das baixas mesas, almofadas estavam preparadas para os clientes se acomodarem. Não havia cadeiras e mesas comuns.
As paredes tinham pinturas e artes que remetiam ao período Sengoku, e havia armaduras samurais em alguns pontos. O restaurante temático era, realmente, diferenciado — e o lugar escolhido para o encontro.
— Finalmente estamos aqui, estava muito empolgada! — Sayuri expressou, animada.
Yumi riu, enquanto dava uns tapinhas nas costas da amiga: “Se acalme, não vá passar mal. É só um encontro casual…”, lembrou.
Victor e Aki estavam de mãos dadas. Ele contemplava o que sua visão captava e não podia deixar de elogiar a ambientação.
— Ele disse que está na mesa seis. Vamos indo! — Sayuri foi à frente, já cumprimentando o funcionário que os recebia. Trajava um vestido de tom verde com a saia meio rodada e seu cabelo estava preso num rabo de cavalo bem feito.
— Espero que esse cara realmente esteja aqui. — Aki comentou com Victor num tom que somente eles ouviam. — A gente vê muitas coisas estranhas acontecendo nos noticiários. Esse foi um dos motivos de ter topado vir… — Suas palavras foram abruptamente tomadas por um silêncio que seguiu, quando seu olhar pousou na mesa de número seis.
Um jovem de corpo magro e cabelos desgrenhados, embora, visivelmente penteados, de cor castanho escuro, usando uma camisa cinza e calça jeans. Ao seu lado um jovem muito parecido com ele, aparentemente mais novo, com seus cabelos sendo mais lisos.
— Natsu! Fuyu! — Aki exclamou, perplexa. Os dois olharam para o grupo, como se tivessem visto um fantasma.
— Irmãzona!
— Irmãzinha!
Os dois responderam, num tom tão surpreso quanto o dela.
Somente depois disso, que Sayuri e Yumi finalmente perceberam que os dois garotos, que já tinham avistado pouco antes de Aki, eram os irmãos da garota. Elas não os reconheceram de imediato.
— O quê?! — As duas expressaram ao mesmo tempo, tão incrédulas quanto eles.
Victor, que estava só observando, riu, enquanto pôde ver a expressão nítida no rosto de cada um, inclusive de Sayuri e Yumi, que ficaram de perfil lateral, olhando para os irmãos e para Aki, em choque.
Quando os funcionários se aproximaram, preocupados, foi quando tudo se acalmou e eles explicaram aquela incrível coincidência. Embora todos se conhecessem, de certa forma, o clima ficou num grau estranho.
Mesmo assim, a conversa prosseguiu normalmente, sem adversidades. Natsu e Fuyu se apresentaram para as duas, formalmente, já que, teoricamente, seria um encontro às cegas.
Aki observava a cena, tentando entender todos os detalhes. Quais eram as chances daquilo acontecer?
Apesar do choque imediato e o retardo em iniciar uma conversa fluente, logo se acostumaram com a situação e finalmente conseguiram conversar tranquilamente.
Victor e Aki estavam de frente um pro outro, decidiram que assim seria melhor. As três garotas de um lado e os três rapazes do outro.
— Então, em que tipo de fórum vocês se conheceram? — Victor tentou dirigir a situação.
Eles trocaram olhares: — Bem… um fórum sobre um livro, que se passa no período Sengoku.
— Isso explica muita coisa… — O brasileiro comentou num tom brincalhão.
— Mas ainda acho que é muita irresponsabilidade toparem esses encontros às cegas. — Aki lançou um olhar para os irmãos e depois para as amigas.
— Não precisa exagerar. Somos todos adultos, não é? — Natsu respondeu, extrovertido.
— Ainda assim pode ser perigoso… — Após a insistência, logo ela tocou em outro assunto: — E vocês vieram de Nagano para Tóquio apenas para virem a esse encontro?
— Em partes, sim… Mas é claro que a gente iria fazer uma visita na casa da nossa irmãzinha. — Natsu falou com naturalidade, como se fosse óbvio.
Victor e Aki se entreolharam e um frio percorreu a barriga da garota. Ela se lembrou de que, provavelmente, os irmãos ainda não sabiam da novidade: Ela e Victor estavam morando juntos.
— Algum problema? — Fuyu percebeu o olhar entre eles.
— N – não… de forma alguma… — Aki respondeu, balançando a mão.
— Ela está escondendo algo… — Sayuri começou a falar, quando percebeu o que era. — Ah, saquei. — Em seguida, tanto ela quanto Yumi começaram a rir.
— Ei! Para com isso! — Aki protestou.
Yumi esticou o braço e bateu em seu ombro, de leve: — Seu segredo está seguro conosco.
— Que segredo?! Agora estou curioso! — Natsu protestou.
Victor riu, mais sem jeito do que por qualquer outro motivo. Ele também percebeu o rosto de Aki corando, quando limpou a garganta.
— Isso não importa agora… Natsu, Fuyu, como estão as coisas em Nagano?
Após uma resposta positiva e alguns detalhes explorados, que durou cerca de dez minutos de conversa, Victor continuou:
— Vamos para Nagano na outra semana… Temos um evento lá.
— É verdade, eu ouvi que seria uma reunião muito importante. A verba desse evento foi surpreendente. — Sayuri comentou, sabendo de informações como uma das tesoureiras da empresa.
Finalmente havia um assunto para debater. O papo rolou por alguns minutos, com todos interagindo sem problemas. Natsu sempre era muito caloroso quando falava e Fuyu se espelhava nele. Sayuri também tinha um ar parecido e sempre brincalhona, enquanto Yumi, embora falasse menos, não ficava para trás.
Aki sempre, de alguma forma, interligava os assuntos, sendo uma ponte entre eles. Victor também falava pouco, deixando com que, com exceção de Aki, os outros se conhecessem melhor. Fazia apenas comentários pontuais.
Quando o pedido chegou, eles ficaram mais quietos, mas ainda rolavam comentários. O sabor era marcante, com um tempero único daquele restaurante. Provavelmente deveria ter algum tipo de segredo de família naquela comida.
A bebida era de muito boa qualidade e combinava perfeitamente com a refeição. Depois que acabou, puderam voltar a uma conversa mais intensa novamente. Talvez pelo álcool, mas Sayuri estava ainda mais animada, enquanto Yumi já ficou mais calada, mas com comentários sempre extravagantes.
Natsu ainda parecia a mesma pessoa e Fuyu ficou mais falador. Victor não apresentou mudanças e Aki estava com o rosto ruborizado e, aparentemente, mais ousada nas palavras.
O tempo voou e quando perceberam, já era muito tarde. Eles trocaram contatos pessoais na ocasião. Sayuri e Yumi moravam próximas uma da outra e foram embora num táxi.
Os outros quatro também foram de táxi, mas o destino era um local onde os irmãos não conheciam. Eles estranharam quando perceberam que não estavam na porta da casa de sua irmã, contudo, evitaram comentar algo desnecessário. Victor pagou o motorista e eles desceram.
— Vocês vão dormir em algum hotel? — Aki perguntou despretensiosamente.
— A gente pensou em dormir na sua casa, irmãzinha! Haha! Onde mais a gente dormiria aqui em Tóquio? — Natsu expressou, seu tom um pouco mais alto que o normal.
O casal trocou outro olhar e Victor riu, quando deu um tapinha nas costas da namorada e sussurrou: “Boa sorte!”
— Vocês têm certeza? — Aki hesitou.
— Claro… — Natsu arqueou a sobrancelha.
— Nossa irmãzona não quer a gente por perto? — Fuyu dramatizou, fazendo uma expressão chorosa.
Aki suspirou, levantando o olhar para o céu, como se pensasse, antes de dizer:
— Então, vamos entrando. — Ela começou a caminhar e os dois a seguiram, e Victor ficou por último.
— Você também vai ficar, né, Victor? — Natsu perguntou num tom de proposta.
Victor soltou outra breve risada, já sabendo o que iria acontecer em seguida. Quando a garota destrancou a porta e eles entraram, Fuyu comentou:
— Não sabia que a irmãzona tinha se mudado. Aconteceu algo na outra casa?
Aki acendeu a luz quando passou, mas somente quando os olhos dos dois irmãos se acostumaram à claridade, que puderam perceber o ambiente. Uma sala simples, e numa escrivaninha tinha um porta retrato do casal.
— Olha só, que lindos! Um verdadeiro casal apaixonado! Estão indo bem! — Brincou Natsu. — Só falta começarem a morar juntos. — Sua gargalhada foi ligeiramente exagerada para o momento.
Aki apertou o tecido da sua roupa, sentindo seu rosto queimando. Hesitante, tímida e ansiosa, ela final entre começou:
— Bem… — Comentou, então Natsu e Fuyu a encararam cheios de dúvida. Seu rosto rubro de denunciava seu nervosismo. — Sejam bem-vindos à nossa casa.
Uma explosão de sentimentos subiu em seu peito. Dizer aquilo em voz alta era tão grandioso, diferente e acolhedor. Seu coração se intensificou em sentimentos que ela não saberia discernir.
Mas a reação dos irmãos fez sua expressão se suavizar, formando um sorriso quase zombeteiro.
— “Nossa casa”? — Os dois reclamaram juntos, boquiabertos.

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