Capítulo 130: Sob um céu mágico
25 de maio de 2024, sábado.
Victor não sabia quanto tempo havia se passado. Talvez alguns minutos, talvez mais de uma hora. Durante esse momento introspectivo, relembrou tudo que já havia acontecido com ele nos últimos anos. Depois que se formou na escola, entrou na faculdade e começou a namorar com Fernanda. Quando já estava formado, os seus pais acabaram soltando boa parte das responsabilidades da Pacca Consortium nas suas costas, ao mesmo tempo em que ele fundou a Brilho Feliz no Rio de Janeiro.
Ele se casou com a garota por quem se apaixonou, de pele parda e cabelos escuros e ela engravidou. Sua filha nasceu e recebeu o nome de Ayla. Seu mundo estava perfeito, tudo indo muito bem — mesmo com os problemas comuns de um grande empresário. Ele tinha o mais importante: felicidade, amor.
Entretanto, como já diziam as pessoas desde os tempos passados, o destino sempre nos reserva surpresas — sejam boas ou ruins. E quem decide o caminho, nem sempre é quem está vivendo o momento…
Um mundo colorido, onde o sol era quente e agradável, as flores coloridas e perfumadas, com bosques verdes e um rio cristalino, se tornou um mundo sombrio e escuro; frio, sujo e insuportável. Não havia sol, nenhum tipo de calor. As flores estavam murchas e cercadas de uma névoa escura e pútrida. O que restaram das árvores foram apenas troncos distorcidos, ressecados e queimados. O rio límpido se tornou como uma enxurrada de petróleo, carregando um mau odor insuportável.
De um instante para o outro, de uma ligação para uma manchete na TV e toda aquela pintura matizada e cintilante se tornou em uma rasura rabiscada e fosca. Não havia mais brilho ou perfume, nem calor ou descanso. A paisagem se tornou deformada, carregada de uma atmosfera densa de tristeza, melancolia e amargura.
E tudo em volta dele se tornou sem graça, tudo era monocromático e indiferente. Mesmo com ajuda profissional e de medicamentos, pensou em dar um fim a tudo isso por várias vezes, onde noites em claro eram comuns e os ombros pareciam carregar o peso do mundo. Porém, seus amigos e familiares, como Victor, Carla, João Batista e Breno, nunca deixaram que ele se afundasse completamente na depressão.
Após o período que Victor julgava o mais turbulento que alguém poderia passar; após o luto doloroso e que parecia infinito; após conseguir se controlar, ele havia decidido recomeçar tudo do zero, literalmente do outro lado do mundo. E assim, mudou-se para o Japão.
Graças aos contatos da Pacca Consortium, Victor conseguiu um emprego na Elegance Affairs e o senhor Akashi o havia colocado como supervisor de eventos — mesmo entrando depois de alguns outros funcionários muito competentes, como o Koda — ao lado de Aki. Talvez por sorte ou brincadeira do destino, ele se mudou justamente quando a Elegance Affairs estava fazendo a sua primeira expansão.
Akashi sabia de tudo que aconteceu e sabia também dos desejos de Victor, como de ninguém saber seu sobrenome “Pacca” ou saber que ele, tecnicamente, estava em pé de igualdade com o chefe em questão de grandes decisões. Era o segredo que ambos carregavam pela decisão do brasileiro. E mesmo pensando não estar mais apto para lideranças, o senhor Nagaya — sobrenome do senhor Akashi — confiou profundamente nele e, pouco a pouco, tentou lhe trazer de volta ao mundo real.
Todos os esforços, embora recompensados pela competência do brasileiro, pareciam inúteis no sentido de fazê-lo ver a luz do dia novamente. Um cara apático e seco, porém competente. Esse era Victor na Elegance Affairs.
Mas havia um pequeno detalhe em tudo isso. Um pequeno detalhe que seria o suficiente para mudar completamente o destino de Victor. Esse detalhe se chamava Aki.
Pouco a pouco ela tentava descobrir mais dele. Por mais que não tivesse respostas no dia a dia, ela insistia em saber mais sobre todo aquele misterioso brasileiro. Por que ele era tão apático? Por que ele era tão quieto? Por que ele nunca participava das brincadeiras de equipe? Por que nunca havia saído com eles após o expediente? Todos esses “por que” faziam a japonesa pensar em muitas teorias e atiçava sua curiosidade.
E graças a um pequeno deslize, um pequeno momento de distração, eles acabaram se esbarrando na rua — e fora do expediente de trabalho, Victor se permitia ser um pouco mais aberto, e assim, aconteceu o primeiro encontro dos dois, ainda que sem qualquer tipo de segundas intenções.
Esse foi o ponto de partida cheio de pequenas coincidências e pormenores. Cada “pouca coisa” ou “pequeno detalhe” foi se moldando em uma mudança genuinamente grande na vida de Victor. Aki passou de uma simples colega de serviço para uma colega pessoal, ao ponto de contar todo seu passado para ela e ambos viajarem juntos para Nagano, na casa dos pais dela.
Foi nesse momento, aproximadamente sete meses atrás, em que Victor começou a ponderar se o destino poderia lhe devolver parte do brilho que lhe tomou. Mesmo antes da viagem, ele já estava enxergando Aki como alguém especial, uma amiga de verdade. E sob aquele céu de Nagano, acima daquele teto que ele encarava de forma quase vazia, ele resolveu confiar que o destino podia fazer alguma surpresa positiva.
E ali, diante uma estrela-cadente, tanto Victor quanto Aki fizeram seus respectivos pedidos. Ele não tinha certeza do que ela havia pedido, mas os seus desejos haviam se realizado. Nesse instante de devaneio, cogitou se aquele céu estrelado de Nagano era realmente mágico ou não. Perguntou, em pensamentos, ao destino, o motivo de fazer essas pegadinhas.
Enquanto isso, suas memórias continuaram passando como um filme em sua mente através de imagens de momentos com Aki. Os eventos que participaram juntos foram cruciais para que a maioria daquelas cenas pudessem ter acontecido. Internamente e praticamente inconscientemente, Victor estava extremamente grato para com o chefe Akashi pela oportunidade.
“E agora estamos aqui…”
Victor comentou internamente, quase ouvindo a sua própria voz. Um sorriso se formou em seus lábios e ele se sentou no sofá, pegando seu telefone e olhando algumas fotos com a sua namorada. Seu coração estava cheio de uma energia quente e positiva.
Foi quando ele ouviu a porta da sala se abrir e os pais de Aki, juntamente com Fuyu, chegaram.
…
O silêncio era quebrado apenas pelo som da respiração pesada de Fuyu, quase um ronco e Victor não conseguia dormir. Não por causa daquele pequeno barulho, mas sim pelo que sentia. Não era uma sensação ruim, mas estava se sentindo como um adolescente que fica perdido em seu primeiro amor. Relembrar tudo que aconteceu daquela forma lhe trouxe esse sentimento de forma intensa em seu peito.
Ele se levantou e caminhou até à varanda enquanto todos já dormiam — pelo menos era o que parecia àquela hora da madrugada — e se apoiou na grade limitadora, olhando para o céu. Estava imerso em pensamentos, quando seus olhos foram subitamente tapados.
Apesar do susto, ele reconheceu aquele toque único. Era Aki. Segurando suas mãos com delicadeza, ele se virou com um sorriso genuíno no rosto.
— O que está fazendo aqui? Você me assustou… — comentou, enquanto a abraçava e depois depositou um beijo em sua testa.
— Eu levantei para beber água e te vi aqui. Para falar a verdade, eu também me assustei quando vi um vulto parado aqui. — ela riu.
Victor guiou Aki, segurando sua mão, até uma das cadeiras espreguiçadeiras e ela se acomodou. Em seguida, ele sentou-se em outra ao lado.
— Sabe por que eu estava aqui viajando? Eu estava pensando em algo: Eu realmente acho que o céu de Nagano tem algum tipo de poder mágico.
Ela riu novamente, quando perguntou o motivo dessa conclusão.
— O meu pedido que eu fiz naquela noite aqui com você, ele se realizou. Se realizou de uma forma completa e ainda mais perfeita do que eu desejei… — Ela estava sem palavras, sendo pega de surpresa.
— O meu também se realizou… — comentou, em resposta, no intervalo de silêncio que Victor deu.
— E sabe de uma coisa, eu queria aproveitar esse momento para fazer outro pedido para esse céu. — Victor se levantou, olhando para o infinito escuro acima dele.
— Mas… dessa vez não tem estrela-cadente…
— É verdade. Mas você sabe o motivo das estrelas-cadentes serem esse catalisador de desejos?
Um silêncio seguiu como sinal de negação. Victor continuou:
— As estrelas-cadentes são como um “amuleto”, sendo sinal de bom presságio e bons agouros. Entretanto, eu não preciso de um amuleto chamado estrela-cadente, porque eu já tenho um amuleto chamado Aki, lembra?
Aki sentiu seu rosto queimar, lembrando-se da brincadeira que ele fez sobre amuleto quando foram ao cinema na sexta-feira treze alguns meses atrás.
Ela desviou o olhar, enquanto enrolava uma mecha de cabelo no dedo.
— Bobo… — balbuciou, cheia de timidez, após se levantar para ouvi-lo.
— Você fica muito fofa assim! — elogiou, se aproximando e a abraçando. Seu corpo envolveu o de Aki, lhe enchendo de calor. — Eu te amo, Aki. E o meu pedido dessa vez é para que continuemos juntos, para sempre! E que nunca esqueçamos desses nossos momentos!
— Seu bobo! Não pode contar o pedido, traz azar. — Ela respondeu, ainda envergonhada.
— Lembre-se do que eu disse. Você é a minha “estrela-cadente” chamada Aki. Não podemos contar aos outros, mas fazemos o pedido à estrela, certo?
Ela afundou o rosto contra o peito de Victor, sentindo o calor da timidez subir em seu peito.
— Eu te amo, Victor!
Em seguida, levantou o rosto e o beijou. E assim ficaram por alguns momentos, como se quisessem selar aquelas promessas e pedidos sob o dito “céu mágico de Nagano” com as estrelas como testemunhas daquele amor que ardia em seus corações.

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