Capítulo 132: Intrigas ou apenas honestidade?
25 de maio de 2024, sábado.
Shouto e Hana olharam para Victor com surpresa, embora não visivelmente. Aproveitando o momento a sós, como o brasileiro queria, se iniciou o diálogo.
Victor foi direto ao ponto, sem rodeios. Os olhos dos Yamada se arregalaram momentaneamente em determinado ponto. Em seus rostos agora era possível ver a surpresa e uma mistura de sentimentos que não sabiam explicar.
Hana, em especial, chegou a lacrimejar, enxugando o rosto com um lencinho que tinha no bolso do avental que estava usando. Shouto ouviu em silêncio e até manteve um sorriso no rosto já no final da conversa.
…
Os quatro irmãos haviam voltado do mercado e agora estavam todos reunidos novamente. Victor e Aki se retiraram em algum momento para se arrumarem e voltarem ao evento Ecotour para resolver as pendências deixadas, como o contrato com o senhor Ronald McTrumph.
E ainda havia algo que incomodava Victor profundamente. Esse problema se chamava Jeanne. Não era daquele momento que ele conhecia a mulher e sabia de suas ideias ardilosas e cheias de segundas intenções. Entretanto, o dever lhe chamava e não podia recuar.
…
— Mas não se esqueça, essa foto pode fazer um reboliço. — O olhar de desdém era evidente. Victor cerrou o punho que não estava visível, irritado pela atitude de Jeanne.
Embora tivesse um sorriso estampado no rosto, estava claro que a mulher estava fazendo uma ameaça. Aki engoliu em seco, pensando que tudo foi por culpa dela.
— Você não mudou nada nesses últimos anos, não é? — Victor revirou os olhos. — Não é assim que as coisas funcionam.
— Mas é só dar um jeitinho brasileiro, não acha? — insistiu a ruiva.
“Que mulher irritante. Pior que precisamos dela para os nossos planos…”
Victor pensou. Se não fosse pelo fato da importância dela em seus possíveis novos contratos, já teria dado um fim a essa história. Porém, tanto ela quanto ele sabiam dessa questão.
— Não me leve a mal, Victor. Eu já disse, não estou tramando nada. Foi só um comentário. Imagina estampado nas redes: “Victor Pacca está escondido no Japão”, ou coisas semelhantes. Pode causar muito impacto. Você sabe como a mídia adora uma fofoca.
Aki estava mais por fora da conversa, apenas observando em silêncio. Os três estavam em pé, próximos a uma árvore, logo na entrada do local do evento. Na verdade, estavam esperando uma oportunidade para conversar com o senhor Ronald McTrumph.
— Você não vai dizer nada, ok? Você sabe o motivo de eu ter vindo ao Japão, não preciso te contar a história.
— E aqui você reencontrou o amor? — Nesse momento, até mesmo Jeanne percebeu que falou demais, quando ela tapou a boca com uma das mãos, desviando o olhar.
Victor não conseguiu evitar que seus olhos se arregalaram momentaneamente e os lábios franzidos, pronto para soltar uma enxurrada de ofensas.
— Veja, o senhor McTrumph finalmente está livre! — Aki puxou Victor, percebendo que a situação estava prestes a sair do controle.
Em seu coração, contudo, sentiu o peso das palavras de Jeanne. Seria ela apenas uma substituta de algo que Victor já viveu? Pensamentos negativos flutuavam em sua mente, mas ela os ignorou, mesmo que fosse difícil.
Jeanne ajeitou o decote do seu vestido e seguiu o casal, prontos para iniciarem uma conversa com o senhor Ronald. Apesar do momento anterior, desta vez tudo seguiu muito bem.
Tanto Ronald McTrumph quanto Victor e Aki tinham as propostas já preparadas, com Jeanne servindo como uma intermediadora, já que ela os apresentou. No fim, acabaram por marcar uma reunião futura para finalizarem o acordo.
Alguns bons minutos passaram desde o início e houve uma brecha para encerrarem o assunto e assim fizeram. Jeanne arrumou o cabelo, jogando-o habilmente, antes de falar:
— Você ainda está em forma, não é? Sempre tão direto e convicto nas palavras… — elogiou.
Victor revirou os olhos em desdém.
— Não me venha com isso, Jeanne. Você não mudou nada. Não pense que me esqueci do que você aprontou aquela vez. E, que fique claro, só estamos nos comunicando por puro interesse profissional. Nada além disso. Não confunda as coisas.
Aki sentiu uma sensação estranha percorrendo seu corpo. O tom de Victor era diferente do que ela estava acostumada a ver. Jeanne, porém, deu de ombros.
— Você levou para o coração, não é? — sua pergunta carregada de ironia. — Confesso que eu passei um pouquinho dos limites, mas quem nunca errou?
O semblante do brasileiro continuava pesado, quando pôde responder:
— E eu duvido que você tenha se arrependido. — O sorriso sarcástico no rosto da espanhola deixava evidente a resposta para ele. — Sinceramente, não quero ficar voltando nesse assunto. Apenas fique longe da Aki é de mim quando não estivermos resolvendo qualquer tipo de assunto profissional.
— Aff. — suspirou a garota. — O contrato com o senhor McTrumph já está praticamente fechado. Acho que já fiz minha parte. Então até logo. — desfilando com elegância, a ruiva saiu da presença do casal, indo em outra direção.
Um silêncio estranho ficou entre eles, até que a japonesa finalmente tomou coragem para perguntar:
— Victor… o que a Jeanne fez para você? — Aki não encarou Victor nos olhos, talvez temendo a resposta.
— É uma longa história… — Eles se sentaram num banco próximo e com pouca iluminação. Ele começou a contar desde o primeiro encontro que tiveram, depois de sentir-se preparado.
Victor já namorava com Fernanda nessa época e, após o primeiro encontro desastroso que tiveram na lanchonete da Pacca Consortium, Jeanne continuava com insinuações e conversas ambíguas. O brasileiro sempre se esquivava das investidas e impunha claramente um limite profissional, que parecia não funcionar com a madrilense. Mesmo porque ela escondeu a relação dela com a World Trails todo esse tempo.
Um fato que Victor sempre se perguntou o motivo era que Jeanne nunca aparecia em reuniões “solo” das empresas, somente em reuniões de grupos. Mesmo assim, não tinha muito o que fazer sobre isso. Quando pesquisou, não encontrou de qual empresa a tal Victória Salles pertencia. Porém, não fez questão. Ela com certeza era membro de uma das entidades parceiras.
Mesmo assim, se incomodava com as mensagens de duplo sentido e assuntos estranhos. Victor prezava pela boa relação e ignorava a maioria das investidas, porém, chegou em um ponto que passou do limite.
Jeanne chegou a manipular prints e conversas dando a entender que Victor estava de conversinha com a espanhola. Fernanda ficou muito chateada, embora soubesse da verdade. O brasileiro sempre deixou a namorada por dentro de toda a confusão. Resumindo, não funcionou e Jeanne ficou ainda mais irritada. Até que desistiu e desapareceu quase por completo da vida de Victor, mantendo apenas um contato muito raro por mensagem e e-mail.
Ele terminou de contar toda a história, detalhadamente, para Aki.
— E como você consegue manter contato com esse tipo de pessoa? — indagou, tentando compreender as decisões do namorado, quando terminou de contar tudo.
Ele coçou a cabeça, como se estivesse procurando uma forma de responder.
— Querendo ou não, a Jeanne é uma pessoa muito influente no ramo e ela pode ser muito útil para nós como representantes da Elegance Affairs. Por isso fiz questão de determinar esse limite profissional, embora nunca tenha funcionado direito… porém, a questão é que não podemos abaixar a guarda. Esse tipo de pessoa é difícil de lidar.
…
O evento finalmente se encerrou e até o próprio dirigente da Ecotour foi cumprimentar o casal. Estava muito satisfeito com todos os resultados obtidos, inclusive com a Eternit, tanto para a Ecotour quanto para a Elegance Affairs.
Também se despediram do senhor Ronald e de outros convidados com os quais tiveram algum contato profissional durante o evento. Jeanne se aproximou quando o casal já estava fora e perguntou algo como “Não vão se despedir de mim também?”. Victor reforçou os limites estabelecidos e depois foram embora, mesmo que a ruiva tenha torcido o nariz e estalado a língua para a resposta.
Estava relativamente cedo; a noite havia se instalado há pouco, derramando um tom azul-escuro sobre Nagano, enfeitado com pontos prateados brilhantes. O ar estava mais fresco, por causa dos ventos que surgiram naquele horário, mas não estava frio — longe disso. O calor ainda incomodava de certa forma, embora menos quente que mais cedo. Quando Victor e Aki entraram pela porta, tirando os sapatos e adentrando a sala, foram recebidos pelo pai da garota.
O senhor Shouto estava sentado no chão, com as pernas cruzadas, observando algo no celular com seus óculos escorregando levemente no nariz. Assim que percebeu o casal entrando, endireitou a postura e se levantou com uma agilidade surpreendente para quem já tinha mais de quarenta anos.
— Pronto para experimentar os melhores saquês do Japão? — perguntou ele, abrindo um sorriso convidativo e raro.
— Agora você vai conhecer a mágica da Yamada Breweries Co., Victor… — ela deu um tapinha no ombro do namorado, quando se dirigiu até o quarto em seguida.
— Eu estava esperando por você — Ele cruzou os braços. — Mas, devo admitir, a tentação foi forte. Eu estava muito ansioso. O Natsu já está vindo também. Vamos para a Adega.
Victor se curvou respeitosamente.
— Seria uma honra experimentar bebidas com o senhor novamente.
— Só espero que você aguente. Eu separei alguns rótulos especiais. Nada dessas coisas turistadas que vendem em Tóquio. Eu quero que conheça apenas nossos melhores saquês.
Ele então fez um gesto com a mão, chamando Victor para o acompanhar. Sobre a bancada no outro cômodo, havia três garrafas de vidro, cada uma com um rótulo elegante e caracteres caligráficos impecáveis. Pareciam garrafas de perfume de tão refinadas.
— Uau! As garrafas são muito elegantes… — Victor comentou, mais para si mesmo.
Shouto sorriu.
— Papai, o Fuyu decidiu participar. Pode? — Natsu indagou, chegando no cômodo logo em seguida. — E aí cunhado! — cumprimentou, dando um tapinha no ombro de Victor, que sorriu em resposta.
— Claro! Que honra a minha. — Enquanto falava, Fuyu chegou. — Vamos Fuyu, sente-se conosco. Será que hoje vocês vão aguentar?
— É verdade. Da última vez o Fuyu desmaiou. Haha! — Natsu riu de forma exagerada.
— Você também não ficou para trás, idiota. — retrucou o irmão.
— Já chega, meninos. Hoje vamos aproveitar a noite dos homens! Haha! — Shouto deu uma risada muito rara de se ver, que lembrava muito o jeito extrovertido de Natsu.
“Então o Natsu puxou esse detalhe dele…” Victor analisou internamente, achando graça na cena.
— Vamos beber!

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