CAPÍTULO 13 - MAGO DE 1º CICLO
15 dias. 15 dias iguais.
Oliver acordava quando os primeiros raios solares tocavam sua cama, ajudava sua mãe com pequenas tarefas em casa. À tarde, encontrava Erina no Bordel para uma sessão de Regnum, as peças brancas e pretas clicando suavemente sobre o tabuleiro de madeira enquanto ambos sussurravam estratégias.
À noite, sozinho em seu quarto, tentava sentir a mana fluindo por seu corpo. Não conseguia. Os exercícios criativos que tentava (visualizar água, imaginar fogo, focar na sensação de pressão em seus dedos) fracassavam repetidamente, deixando apenas uma sensação de vazio.
Mas o vilarejo ao seu redor estava em movimento.
Oliver primeiro percebeu isso na rua principal. Um lote vazio que permanecera assim sua vida inteira começou a se transformar. Os sons começaram cedo: madeira sendo cortada, pregos sendo martelados, vozes gritando ordens em idiomas que ele não reconhecia. Construtores de diferentes raças trabalhavam sob o sol quente: um humanoide verde com músculos retorcidos carregava troncos, uma criatura com pele azulada agia como supervisor, apontando onde cada coisa deveria ir.
Oliver parava sempre que podia para observar. A fundação era massiva, muito maior do que qualquer casa. As paredes já começavam a subir, pedra após pedra.
“Um armazém?” Pensou na primeira vez.
“Um mercado?” Na segunda.
Seja o que fosse, seria o maior estabelecimento que Corval já havia visto.
A outra mudança era mais próxima.
Orson, o velho mendigo que Oliver havia ajudado antes, ainda estava lá. Estava vivendo no mesmo beco. Alguém tinha lhe dado um colchão de palha e um cobertor cinzento-marrom, furado em vários lugares.
E o cachorro. Oliver ainda não sabia como tinha começado, mas um cachorro de pêlo caramelo havia se juntado a Orson. O animal era de tamanho médio, costelas levemente marcadas sob a pele, mas seus olhos eram brilhantes, sempre alerta, sempre procurando por Oliver quando ele chegava.
“Au, au!” A voz pequena do cachorro ecoava no beco quando via Oliver aproximar-se.
O rabo abanava em pequenos arcos, e Oliver podia ver a alma do animal: um amarelo quente, denso, irradiando gratidão genuína por comida e carinho. Não havia desonestidade em um cachorro.
O pedaço de carne de lobo que Oliver tinha em casa era grande demais. Diferente da Terra, onde poderia ser congelada, aqui não existia tecnologia acessível para conservar alimentos, então a carne era preservada em sal.
“Li num livro de história da Terra que os navegadores preservavam carne no sal”, Oliver se lembrou, comparando o método de preservação desse mundo com o passado da Terra.
Diante do risco de deterioração, Oliver compartilhava a carne com Orson e o cachorro, que apelidou de Caramelo.
“Obrigado, garoto. Você tem feito meus dias mais felizes,” disse Orson com sinceridade.
Oliver não percebia nenhuma intenção maligna em sua alma. Orson parecia genuinamente apreciar a vida, apesar de não ter teto nem comida garantida. Sua alma emitia uma cor amarelada, ele estava feliz.
“Quando chover,” perguntou uma noite, observando o cobertor furado, “onde você vai dormir?”
Orson apenas sorriu e não respondeu, o sorriso possuía falhas, alguns dentes não estavam presentes em sua boca.
Oliver dormiu mal aquela noite.
…
A sala de estudos de Jonathan era grande e aconchegante. O livro diante dele, <Fundamentos da Teoria Arcana>, era tão grosso que precisava de ambas as mãos para virar suas páginas. As letras pareciam dançar diante de seus olhos: teoria dos ciclos, densidade de mana, meridianos arcanos, requisitos para conjuração…
Nenhuma delas faziam sentido.
“Poderia explicar novamente, Sr.?” tentou ele, levantando os olhos para seu instrutor.
“Não.” Archibald estava de pé perto da janela, seus dedos tamborilando contra o peitoril de madeira polida. “Você vai ler novamente. Até que entre na sua cabeça de uma forma ou de outra.”
Jonathan voltou-se para a página. Seus olhos simplesmente passavam pelas palavras, sem que nada se fixasse.
“Você é estúpido?” A voz de Archibald soava como uma lâmina. Ao se virar, Jonathan viu o mago. Alto e magro, com olhos que ardiam de frustração. “Se eu ensinasse um maldito cachorro, ele aprenderia mais rápido. Um cachorro!”
As broncas frequentes, quase diárias, forçaram Jonathan a tentar. Verdadeiramente tentar. Ele lia cada trecho duas vezes, três vezes, buscando capturar algo, qualquer coisa do significado.
“Por que eu deveria sequer me interessar por isso?”
De repente, Jonathan pensou se valia a pena todo esse esforço para se vingar de Oliver.
Ele recebeu dois socos sem conseguir revidar, um deles estava carregado de eletricidade.
Para Jonathan era inaceitável um plebeu sem instrução nenhuma usar magia, por mais fraca e ridícula que fosse.
Ele mostraria o que um nobre conseguiria fazer… ou pelo menos foi isso que ele pensou no início.
“Você não tem talento pra magia!”
As palavras foram ditas calmamente, não houve agressão verbal.
Mesmo assim, pareciam fisicamente ferir Jonathan. Seu estômago caiu. As expectativas que havia construído, imagens dele mesmo lançando magias, intimidando nobres, mostrando ao vilarejo sua força, esfarelaram.
“Mas,” continuou Archibald, notando a expressão de Jonathan, “a maioria dos aprendizes não tem talento. Talento é raro. O que importa é o trabalho. Se você quer se tornar um bom mago, Jonathan, você vai precisar se esforçar dez vezes mais do que alguém como eu. Dez vezes.”
Uma pausa. Jonathan respirava devagar, o punho ainda apertado contra sua coxa.
“Vou começar seu despertar agora,” disse Archibald. “Pode ser perigoso sem um instrutor adequado. Mas comigo aqui o processo será tranquilo.”
“Despertar?” A voz de Jonathan surgiu pequena e carregava dúvida.
“Sim, todos possuem mana. Mas o que diferencia um mago do resto é a qualidade da mana. Arranjando círculos mágicos ao redor do coração de mana é possível aumentar a qualidade da mana. Quando você atingir o 1º ciclo vai ser capaz de lançar magias de 1º ciclo também.”
Jonathan não entendia. Mas assentiu.
Sentado de pernas cruzadas, Jonathan esvaziou a mente. Era hora de aplicar a técnica de visualização que seu instrutor tanto havia cobrado nas últimas sessões. A premissa exigia que ele fizesse a mana circular ininterruptamente pelo próprio corpo até conseguir enxergar seu fluxo interno.
No início, a prática era exaustiva e não produziu resultados. Contudo, o esforço diário rendeu frutos. Com apenas algumas respirações profundas, o processo que antes exigia todo o seu esforço agora fluía com naturalidade.
Jonathan se concentrou, até que finalmente…
Ele viu.
Não era uma visão normal, era como observar um esboço dele mesmo, transparente e brilhante. Seus órgãos se moviam dentro do contorno translúcido de seu corpo. E lá, perto do centro de seu peito, batendo levemente…
Dois corações.
Um era visível, familiar, o coração de sangue que sabia que possuía. Seu pulso bombeava constantemente, ligado ao seu sistema circulatório normal.
Mas o segundo era novidade, ele ainda ficava surpreso quando via.
Era menor, uma massa cinzenta do tamanho do punho fechado de uma criança. E dele saíam ramificações, eram os meridianos arcanos. Canais que se estendiam por todo o seu corpo como raízes de árvore, transportando uma substância fosca.
Veias transportam sangue, meridianos arcanos transportam mana para todo o corpo de maneira lenta e constante. Jonathan conseguia visualizar o processo através do método de visualização.
“Está tudo normal,” disse Jonathan, sua voz como sussurro. “Mestre.”
“Bom,” respondeu Archibald.
Então colocou a mão contra as costas de Jonathan.
Uma mana vermelha, bruta e densa inundou o corpo de Jonathan através da mão de seu instrutor. Não era sua mana, leve e delicada. Era a mana de Archibald, queimando como metal quente, pressionando contra o coração de mana de Jonathan e forçando-o a bombear, bombear, bombear.
Seu coração de sangue também acelerou em resposta. Seu corpo inteiro começou a queimar de dentro para fora.
Jonathan gritou. Sua visualização quase falhou, mas se manteve firme, manteve a imagem de seu corpo interior mesmo enquanto a dor o atravessava.
A mana de Archibald continuava fluindo. Ela escapava de seus meridianos arcanos, solidificando no ar, formando pequenos fragmentos que pareciam cristais, logo esses fragmentos se acumularam e começaram a girar ao redor de seu coração de mana.
Então começaram a colapsar.
Como se puxados por forças invisíveis, os fragmentos começaram a se unir. Pequeno pedaço depois de pequeno pedaço, a velocidade aumentando até que tudo se movimentava em um borrão. Jonathan observava, seus olhos internos arregalados, enquanto os fragmentos se fundiam em um anel sólido, brilhando de forma azulada, com inscrições estranhas correndo ao longo de sua superfície.
Aquele anel se encaixou perfeitamente ao redor de seu coração de mana.
E então tudo virou agonia.
Seu peito apertou como se uma mão invisível estivesse esmagando seu coração. Sua garganta se fechou. Seus pulmões não tiveram ar.
Jonathan tentou gritar, mas o som não saiu.
Seu estômago revirou. Seu corpo protestava violentamente contra o que tinha sido feito a ele.
“MUAAAAA—”
Vomitou sangue fervendo. Literal sangue, borbulhando, fumegando, tão quente que queimou sua boca.
Após vomitar, deitou inconsciente no chão.
“Puta merda Moleque, vai sujar meu robe, eu tinha esquecido dessa parte do processo de despertar.” Archibald reclamou.
Após isso recolheu o garoto desacordado e o levou para a cama.
Ele guiou todo o processo de despertar, então tinha certeza de que tinha ocorrido corretamente.
Agora Jonathan era um mago de 1º ciclo!

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