Jonathan passava boa parte do dia ouvindo Archibald. Para quem não vivia na mansão Venn, eles talvez parecessem cultivar uma boa relação de mestre e discípulo, mas isso estava longe de ser verdade.

    De manhã, Jonathan lia tantas páginas quanto conseguia de vários livros.

    “Um bom mago precisa ter o hábito da leitura! Você precisa ler TODOS os dias!”

    Eram raras as vezes em que ele realmente entendia o que o livro dizia. A linguagem era complexa, e os conceitos contidos ali eram mais complexos ainda. Era realmente difícil.

    Durante a tarde, Archibald ensinava magias de 1º ciclo a Jonathan. Atualmente, ele conhecia apenas duas, mas já se sentia genuinamente feliz por conseguir usá-las. Pelo menos isso lhe mostrava que seu esforço não estava sendo em vão.

    Entretanto, Archibald nunca estava satisfeito.

    “Você acha que pode ficar feliz por ter aprendido somente 2 magias? Você só vai descansar quando tiver aprendido pelo menos 10!”

    Archibald gritava com Jonathan o tempo todo, reforçando o quanto ele era medíocre e quanto ainda precisava se esforçar só para se tornar mediano.

    “1 minuto para conjurar essa magia? Se estivesse numa situação de vida ou morte, já teria morrido! Pare de fazer os gestos tão devagar. Você precisa fazê-los rapidamente, assim!” Archibald tentava demonstrar a forma correta como os gestos deveriam ser feitos.

    Segundo ele, todo o processo de conjuração de uma magia básica não deveria levar mais de 5 segundos. Atualmente, o melhor tempo de Jonathan era 1 minuto. Archibald estava extremamente insatisfeito.

    Jonathan estava se esforçando de verdade. Nunca antes, em toda a sua vida, havia se esforçado tanto. Sua infância na capital fora repleta de serviçais, luxo e tempo livre. Desde que Balthazar se mudara para Corval e contratara Archibald para ensiná-lo, o garoto não tivera mais paz.

    Mais uma vez, ele se perguntava se valia a pena sofrer tanto apenas para provar que era superior a um plebeu mestiço.

    Atualmente, mesmo sem admitir em voz alta, Jonathan via Oliver com outros olhos. Depois de testemunhar em primeira mão o talento dele nas aulas de Archibald e de ouvir sobre o incidente no bordel, era impossível negar que Oliver era talentoso. Ainda assim, isso não o impediria de tentar ultrapassá-lo.

    Oliver tinha aulas com Archibald uma vez por semana, enquanto Jonathan as tinha todos os dias. Ele dispunha de diversos recursos e de tutoria particular praticamente em tempo integral. Jonathan acreditava que, mais cedo ou mais tarde, seria capaz de superar Oliver.

    Agora, bem diante dele, Oliver fazia várias perguntas relevantes. Archibald sempre sorria ao responder. Jonathan achava injusta a diferença de tratamento entre os dois.

    “Só porque ele é um pouco mais talentoso do que eu… Que injusto…”

    Oliver parecia entender completamente o conteúdo que Archibald apresentava. Jonathan, por outro lado, mal conseguia compreender o suficiente para formular uma pergunta. Ao contrário de Oliver, que fazia uma enxurrada delas.

    Os dois garotos passaram a manhã inteira ouvindo Archibald falar. Jonathan já não parecia ter energia para continuar prestando atenção, todo o seu corpo gritava, implorando para que o mestre parasse de falar.

    Oliver, por sua vez, estava sedento por conhecimento. Prestava atenção a cada palavra de Archibald e não parecia cansado. Como não possuía nenhum livro ou grimório para estudar naquele momento, Archibald lhe entregou pena e papel para que pudesse fazer anotações. Era o único material que estava autorizado a levar para casa.

    Conforme o meio-dia se aproximava, Archibald decidiu encerrar a aula. Oliver, então, fez uma última pergunta.

    “Mestre, todo esse conhecimento é realmente útil, mas quando vou aprender magias de 1º ciclo?”

    “Na realidade, a partir da próxima semana já pretendo lhe ensinar alguma magia de 1º ciclo. Eu só estava esperando chegar um item mágico que encomendei da capital. Esse item vai me ajudar a compreender melhor a capacidade mágica de vocês dois.”

    Archibald sorriu levemente. Em suas mãos havia uma espécie de cubo de metal, com inscrições estranhas brilhando em um azul suave sobre a superfície.

    “Venham, aproximem-se, vocês dois!” ordenou Archibald.

    Oliver e Jonathan obedeceram. O cubo metálico que Archibald havia tirado de dentro do robe estava sobre a mesa.

    “Jonathan, você primeiro. Coloque a mão no cubo e não a retire até que eu mande.”

    Jonathan fez como lhe foi ordenado e pousou a mão sobre o cubo. Quase imediatamente, o objeto se acendeu em uma luz azulada intensa que preencheu toda a sala.

    Alguns instantes depois, Archibald mandou que Jonathan retirasse a mão do cubo, e a luz começou a se apagar.

    Quando Archibald o segurou novamente, algumas letras flutuavam acima dele, como se formassem uma espécie de holograma. As palavras, escritas em Universal, diziam o seguinte:

    [ Mana: 3 pontos ]

    [ Fator de recuperação arcana: 50% ]

    “Assim como eu suspeitava…” Archibald coçou o queixo enquanto lia as runas.

    “Mestre, o que é isso?” Jonathan perguntou, curioso com o significado daqueles números.

    “Bom, basicamente, essas duas variáveis definem o talento mágico que você possui em relação à mana. Claro, isso não mede níveis de compreensão, apenas a quantidade de mana que você possui e a sua taxa de recuperação. Esses fatores envolvem tanto genética quanto sorte.”

    Archibald olhou para Jonathan antes de continuar.

    “3 pontos de mana indicam que você consegue conjurar 3 magias de 1º ciclo antes de desmaiar de exaustão. Ficar sem mana é semelhante a sofrer uma perda severa de sangue: calafrios, náusea, vômito, tontura e assim por diante. Por isso, os magos normalmente não esgotam suas reservas mágicas, pois ficam inúteis depois de fazer isso. Eles sempre mantêm uma margem de segurança para não serem incapacitados.”

    “3 pontos é bom ou ruim?” Jonathan perguntou.

    “Está na média. É difícil ter muito mais do que isso. Qualquer coisa acima de 6 já pode ser considerada rara. Quando comecei a aprender, minha reserva era de apenas 5 pontos.”

    “E o outro número?” Jonathan perguntou novamente, enquanto Oliver permanecia calado, prestando atenção.

    “O fator de recuperação arcana indica quanto da sua reserva você consegue recuperar naturalmente em 24 horas. Esse fator é uma tremenda loteria. Alguns magos possuem uma taxa de recuperação de apenas 10%. Isso significa que precisam de 10 dias para recuperar toda a mana, uma vez que a tenham esgotado.”

    Um grande sorriso se abriu no rosto de Jonathan, e ele olhou na direção de Oliver. Sua quantidade de mana podia estar apenas na média, mas sua taxa de recuperação parecia muito boa: 50%. Isso significava que ele precisava descansar somente dois dias para recuperar completamente a mana.

    “Vamos ver como Oliver vai se sair. Dependendo dos valores, não importa que ele seja mais talentoso do que eu. Afinal, um mago com pouca mana não é diferente de uma pessoa comum.” Jonathan antecipava os resultados do colega, torcendo para que fossem piores que os seus.

    “Oliver, aproxime-se”, ordenou Archibald.

    Oliver deu um passo à frente.

    Ele encostou a mão na caixa metálica e só a retirou quando lhe foi ordenado. O mesmo brilho azul inundou a sala.

    Oliver estava um tanto ansioso. Sabia que era talentoso, sobretudo por compreender magia com mais facilidade, mas a quantidade de mana de alguém e a velocidade com que ela era recuperada também pareciam ser fatores fundamentais para determinar o poder de um mago e o quão longe ele poderia ir.

    As palavras flutuaram no ar, revelando os números que todos queriam saber.

    Archibald foi o primeiro a ler, e sua reação não poderia ter sido mais exagerada.

    “Impossível! O que é isso?”

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