“Como assim?” Oliver largou a peça que estava segurando. “Um mago de 1º ciclo consegue matar uma pessoa.”

    “E daí?” Erina posicionou uma peça no tabuleiro sem olhar para ele. “Um homem grande com uma lança também consegue. Por que isso seria uma medida de poder entre magos?”

    Oliver ficou em silêncio por um momento.

    As magias de 1º ciclo haviam deixado uma impressão forte nele, Jonathan quase o havia matado da primeira vez que as usou, e o relâmpago que havia concebido contra o orc estava longe de ser inofensivo, tinha certeza que poderia matar uma pessoa comum. Ele havia assumido que isso era suficiente para ser levado a sério. Aparentemente não era.

    “O que acontece no 3º ciclo para que seja diferente?”

    “É onde o mago define a especialidade. O caminho que vai seguir. É a partir daí que ele se destaca de verdade entre os outros magos.”

    “Como você sabe tudo isso?”

    “Fico muito tempo com Archibald.” Ela deu de ombros. “Ele fala sobre magia o tempo todo. Às vezes sem perceber que estou ouvindo.”

    Oliver queria perguntar mais, mas a próxima aula com Archibald estava próxima. O mago poderia responder com mais precisão do que Erina.

    Oliver se despediu quando o sol já estava baixo.

    Oliver voltou para casa quando estava escurecendo, muita coisa se passava em sua mente no momento, mas ele continuaria se esforçando para aprender mais magias. Se o 3º ciclo fosse o ponto de virada, ele iria atingi-lo e conseguir proporcionar uma vida melhor para ele e sua mãe.

    Foi quando viu o velho.

    Orson estava encostado num dos casebres perto do bordel, a gaiola presa na cintura por uma tira de couro que Oliver não havia notado antes. O cachorro Caramelo estava ausente.

    Oliver acelerou o passo.

    Orson o viu chegar, acenou com a mão e começou a andar para o lado oposto.

    Oliver parou. “Sério?”

    O velho continuava andando, sem pressa, sem olhar para trás, sumindo atrás de um casebre e reaparecendo mais à frente. Sempre com o sorriso no rosto.

    Oliver correu.

    Nos minutos seguintes, Oliver descobriu que um velho mendigo de aparência frágil conseguia, de alguma forma, manter uma distância constante sem nunca parecer apressado. Desaparecia atrás de uma esquina, reaparecia mais longe. Atravessou o limite da cidade sem se apressar, passou pela última fileira de casas, e só parou quando já havia floresta à vista.

    Oliver chegou ofegante.

    “Como diabos esse velho é tão rápido?” Disse entre respirações.

    Orson estava encostado numa árvore com os braços cruzados, o sorriso banguelo intacto.

    Oliver ficou parado recuperando o fôlego por um bom tempo. Orson esperou. Não disse nada, não se moveu, apenas ficou encostado na árvore.

    Quando Oliver finalmente respirou direito, ele ergueu o olhar.

    “Não vai me perguntar nada?” Orson quebrou o silêncio primeiro.

    “Eu estava recuperando o fôlego.” Oliver endireitou as costas. “O que diabos era aquilo no cemitério? A fumaça negra no formato do orc?”

    “Era um espírito vingativo.” Orson deixou as costas sairem da árvore e ficou de pé. “Quando o corpo morre, mas ainda há ódio ou arrependimento intenso o suficiente, a alma não segue seu caminho natural. Fica presa, corrompida pelo que não conseguiu resolver em vida.”

    “Como você conseguia ver ele? Ninguém mais parecia perceber.”

    “Sou um mago especializado em almas.” Orson tocou a gaiola na cintura com dois dedos, levemente. “Um espírito vingativo não é nada mais do que uma alma corrompida. Para mim é fácil de identificar.”

    Oliver havia lido os <Fundamentos da Teoria Arcana> do começo ao fim. Não havia uma única menção a magos especializados em almas. Ficou olhando para o velho por um momento.

    “E essa gaiola?”

    “É um item mágico.” Orson a dependurou da cintura e a segurou à frente, deixando Oliver ver. Era mesmo pequena, simples, sem ornamentos, com barras finas de algum metal escuro que Oliver não reconhecia. “Ela é capaz de aprisionar almas. A alma do orc está aqui dentro agora.”

    Oliver olhou para a gaiola. Depois olhou para Orson.

    “O que você quer? Como estava na hora certa e no lugar certo para me salvar?

    “Estou de olho em você desde que cheguei na vila sempre atento a possíveis problemas. Quanto ao que eu quero, é simples. Gostaria de te ensinar o que sei sobre almas antes de morrer.”

    Oliver manteve o olhar no velho e verificou o que conseguia ler. A alma de Orson não tinha as flutuações de alguém construindo uma mentira, a intuição de Oliver dizia que ele não estava mentindo também, mas Oliver sentia que esse não era o quadro completo, Orson ainda parecia estar escondendo algo.

    “Você não parece estar mentindo.”

    “Não estou.” Orson disse isso com simplicidade.

    Oliver cruzou os braços.

    Havia muita coisa para considerar. Ultimamente várias pessoas haviam reconhecido talento nele e oferecido algo em troca, Archibald, Lilian, agora Orson. Cada uma com motivações diferentes. A questão não era se as intenções eram boas. A questão era o que aceitar implicava.

    “Já tenho um mestre. Não pretendo trocar.”

    “Não precisa trocar.” Orson balançou a mão, descartando a preocupação. “Posso te ensinar sem que ninguém saiba. Não há conflito.”

    Oliver descruzou os braços lentamente.

    “O que você ganha me ensinando?”

    O velho ficou quieto por um momento. Quando respondeu, havia algo diferente no tom, mais direto, menos casual.

    “Estou morrendo, Oliver. Não hoje, mas em breve.” Ele olhou para a gaiola na cintura, depois devolveu o olhar ao garoto. “Gostaria que alguém recebesse o que desenvolvi antes que eu vá. Não existe ninguém mais adequado para isso do que um elfo da alma.”

    Oliver ficou em silêncio.

    “O que exatamente você ensinaria?”

    “Minha especialidade é magia da alma.” Orson deu alguns passos lentos, sem direção específica, os olhos no chão à sua frente. “Mas posso te passar outras coisas também. Todo mago tem uma especialidade, mas certas magias são úteis demais para não serem aprendidas. A maioria dos magos sérios faz questão de aprendê-las independente do caminho que escolheu.”

    Oliver considerou isso.

    Havia perguntas demais para fazer numa única noite, e ele estava cansado. Assentiu com a cabeça.

    Os dois começaram a andar de volta para a cidade em silêncio. Quando já dava para ver as primeiras casas, Orson falou sem virar o rosto.

    “Acho que não preciso dizer, mas o que conversamos hoje fica entre nós. É importante.”

    Oliver assentiu de novo.

    Quando chegaram ao limite da cidade, cada um foi para seu lado sem mais palavras. Oliver olhou por cima do ombro uma vez antes de dobrar a esquina.

    Orson já havia desaparecido.

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