Archibald vestia suas roupas mantendo uma expressão neutra.

    Na cama havia uma cornídea de pele escura e chifres curvados.

    “Você me prometeu que daria duas aulas gratuitas para Oliver, mas ainda não cumpriu com o combinado!” Erina estava insatisfeita ao falar isso.

    “Tenho andado ocupado com Jonathan ultimamente, ele me demanda muita atenção, não possui talento nenhum. Dá muito trabalho ensinar ele. Mas está fazendo progresso” explicou Archibald.

    “Isso não é desculpa… se você ainda quiser me ver, quero se mexa ainda essa semana e dê uma aula para Oliver!” Erina exigiu.

    Archibald mantinha uma expressão neutra normalmente, mas na realidade ele era impulsivo e poderia explodir por pouco.

    Entretanto, ele não ficou irritado com a exigência de Erina. Estava preocupado.

    “Isso não é uma ameaça vazia” Erina afirmou.

    “Você deixaria de atender um cliente tão bom quanto eu? Por Teimosia?” Archibald questionou, ele pagava cerca de 1 peça de ouro toda vez que visitava Erina.

    “Sim, claro. Odeio quem não cumpre promessas.”

    Archibald não questionou, apenas acenou com a cabeça, ele tinha certeza que não era um blefe.

    Atualmente Erina era a pessoa mais inteligente no círculo social de Archibald, ela discutia assuntos complexos com ele. Consolava ele, ouvia suas reclamações diárias. Era mais do que um encontro carnal.

    Archibald já havia se apegado a ela, ele pensava em levá-la embora da vila assim que suas obrigações acabassem, mas nunca manifestou essa vontade para Erina.

    Sob o risco de nunca mais a ver, ele só pôde concordar com sua demanda absurda.

    “Eu… um mago de 3º Círculo, vou dar aulas para um plebeu?” Archibald pensou enquanto voltava para casa.

    Ele tinha um fundo nobre, nem todos podem ser magos. Exige recurso e conhecimento. Normalmente famílias nobres fariam questão de que pelo menos um de seus filhos desenvolvesse capacidades mágicas.

    Afinal, ser um mago concedia poder e status social.

    Dessa forma, magos não dariam aulas para plebeus. Ia contra toda a lógica do sistema. E ninguém era tolo o suficiente para fazer caridade.

    Mas ele não teve escolha, e agora daria aulas para Oliver.

    “Espero que no mínimo seja mais talentoso que Jonathan, senão eu não vou aguentar…” Pensamentos de aceitação já passavam na mente de Archibald. 

    Enquanto isso, numa casa confortável, Jonathan praticava magia no quintal.

    “Consegui! Consegui! Consegui!” Pulou de alegria enquanto comemorava seu sucesso.

    Na sua frente havia um alvo de treino feito de palha, semelhante a um espantalho. Agora estava destruído no chão, sem que restasse muita coisa.

    “Parece que vou precisar de um novo alvo de treino. Mas essa magia que o Sr. Archibald me ensinou que é muito útil para o combate. Oliver não perde por esperar…”

    Oliver se encontrava afagando o cachorro caramelo nesse momento. Na sua frente um mendigo idoso estava sentado num colchão de palha velho.

    Infelizmente, a carne de lobo havia acabado.

    Foi capaz de alimentar Oliver, Eliandris, Orson e o cachorro Caramelo nos últimos 15 dias. 

    Mesmo que a carne tivesse acabado, Oliver adquiriu o hábito de visitar o mendigo.

    Orson estava comendo pão quando Oliver chegou, compartilhando alguns pedaços com Caramelo.

    “Boa Tarde Sr. Orson, quem te deu esse pedaço de pão?” 

    Ao contrário do esperado, Orson não estava passando fome. As pessoas se compadeciam com ele e o alimentavam frequentemente.

    “Olá Garoto. Dona Joana é muito gentil, ela me disse que esse pão era velho e ela jogaria fora. Então preferiu me entregar para não desperdiçar.” explicou Orson.

    Joana era a única herbalista da cidade. Ela era ocupada, não era pobre. Remédios eram caros, afinal.

    Entretanto, esse não era o primeiro ato de caridade dela. Oliver já ficara doente algumas vezes, nem sempre o remédio era barato o suficiente.

    Joana já havia administrado o remédio várias vezes sem que Eliandris pudesse pagar. 

    Ao invés disso, ela cobrava favores básicos: colher ervas, ajudar a processá-las, limpar o chão da herbaria.

    O pão que Orson comia claramente não era ‘velho’. Ele ainda cheirava bem, estava fresco, parecia ter acabado de sair do forno.

    “É reconfortante ver a atitude das pessoas da vila em relação ao Sr. Orson”. Oliver pensou enquanto abria um sorriso.

    “O que te traz aqui garoto?” Orson falou de boca cheia.

    “Nada demais, só vim realmente ver como você estava”

    “Estou ótimo!” Orson sorriu, alguns dentes faltando na boca, mas ele estava bem. Sua alma irradiava um genuíno tom amarelado, indicando que estava feliz.

    Oliver afagou o cachorro Caramelo e estava prestes a partir. Porém, notou uma cena estranha.

    Na sua frente, a não muitos metros de distância, Jonathan estava parado observando.

    A alma de Jonathan irradiava uma cor dourada, indicando confiança. Havia também um leve traço de vermelho que indicava ódio.

    “Ele ainda guarda rancor. Mas eu só dei dois socos inefetivos. A gordura dele o protegeu.” Oliver rapidamente pensou, enquanto observava ele de volta.

    Orson estava curioso com essa cena. Os dois garotos se encaravam, a uma distância razoável um do outro.

    Jonathan continuou encarando, mas ele começou a fazer algo que deixou Oliver confuso.

    Ele fechou os olhos enquanto recitava algo em tom extremamente baixo, quase um sussurro.

    Suas mãos se mexiam, trabalhando com bastante energia enquanto gesticulava.

    “O que ele está fazendo?” Oliver observou em silêncio por um minuto inteiro.

    Finalmente Jonathan encerrou o que estava fazendo. Ao seu redor havia um leve brilho azulado, visível a olho nu. Ele se aproximou de Oliver.

    “Ei gordo, que tipo de bizarrice é essa que você fez?” Oliver levantou uma sobrancelha, ele estava genuinamente curioso.

    Se Jonathan não tivesse enlouquecido, aquela encenação deveria servir para algo.

    “Pirralho metido! O que Garet fez com sua mãe não foi o suficiente para que tivesse educação!” Jonathan falou em voz alta.

    O humor de Oliver mudou no mesmo instante.

    Pessoalmente, ele não guardava rancor de Jonathan, por mais que a história tivesse começado pela briga. Oliver não culpava Jonathan, afinal era apenas uma criança. 

    O alvo de ódio de Oliver era Garet, o serviçal que agrediu sua mãe. Jonathan era apenas um pirralho mimado aos seus olhos.

    Entretanto, seu sangue ferveu ao ouvir falar mal de sua mãe. Ele se irritava com facilidade quando um ente querido era envolvido.

    Antes que Oliver pudesse responder, Jonathan avançou.

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