Capítulo 66 - Aqueles Que Observam o Futuro
O campo rugia abaixo.
Explosões de ouro.
Raios queimando como fogo.
Cinzas se erguendo como sentença.
Mas lá de cima…
o som chegava diferente.
Menor.
Controlado.
Como se aquela guerra absurda fosse apenas… um teste.
Daizen Takatora observava em silêncio.
Braços cruzados.
Postura relaxada.
Olhar afiado.
Não assistia como espectador.
Analisava como criador.
— …Então esse é o resultado.
A voz dele saiu baixa.
Quase decepcionada.
Quase impressionada.
Os olhos focaram em um ponto específico do campo.
Ryuji Arata.
Sangue.
Raios.
Chamas.
Adaptação constante.
Erro.
Correção.
Evolução.
Tudo… em tempo real.
— Ele não luta como um prodígio.
Daizen inclinou levemente a cabeça.
— Ele luta como um sistema vivo.
Silêncio.
Passos ecoaram atrás dele.
Leves.
Mas presentes.
Daizen não virou.
Já sabia.
— Você demorou.
Uma figura parou ao lado dele.
Zenon.
Olhos profundos.
Sorriso leve.
Postura relaxada… mas errada.
Errada no sentido de perigosa.
— Eu tava esperando ele quebrar — Zenon respondeu.
— Mas ele não quebra.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
Observando.
Ryuji se movendo no limite.
Errando.
Aprendendo.
Sobrevivendo.
Zenon soltou um riso baixo.
— Isso aqui… é raro.
Daizen não respondeu de imediato.
— Raro não.
— Problemático.
Zenon olhou de lado.
Interessado.
— Problemático?
Daizen apontou com o queixo para o campo.
— Ele não segue curva de crescimento.
— Ele distorce ela.
Ryuji, lá embaixo, criava chamas elétricas.
Misturava com instinto.
Misturava com dor.
Misturava com desespero.
E fazia funcionar.
Zenon cruzou os braços.
— Ele aprende rápido demais.
— Não — Daizen corrigiu.
— Ele aprende no momento errado.
Silêncio.
Zenon sorriu.
Agora mais aberto.
Mais interessado.
— Eu gosto disso.
Os olhos dele brilharam levemente.
— Ele não espera estar pronto.
— Ele força o mundo a acompanhar.
Daizen fechou os olhos por um instante.
Pensativo.
— E é exatamente por isso que ele vai morrer cedo… se ninguém controlar isso.
Zenon riu.
Baixo.
Sincero.
— Ou…
Ele voltou a olhar para Ryuji.
— ele vira algo que nem você consegue prever.
Pausa.
Pequena.
Mas pesada.
Daizen abriu os olhos de novo.
— Eu prevejo tudo que entra no meu projeto.
Zenon respondeu na lata:
— Então ele vai ser o primeiro erro.
Silêncio.
O campo explodiu novamente abaixo.
Ouro e azul colidiram.
Cinza subiu.
E no meio—
Ryuji continuava de pé.
Mesmo quebrando.
Zenon inclinou levemente a cabeça.
Curioso.
— Qual o nível dele agora?
Daizen respondeu sem hesitar:
— Baixo demais… pro que ele tá fazendo.
Zenon sorriu.
— Então imagina quando ele chegar no topo.
Pausa.
E então—
Ele soltou, direto:
— Eu quero treinar ele.
O ar mudou.
Não pesado.
Mas… sério.
Daizen finalmente virou o rosto.
Encarou Zenon.
Olhar frio.
Analítico.
— Você não treina ninguém.
Zenon deu de ombros.
— Eu treino quem vale a pena.
Os dois se encararam.
Sem tensão explosiva.
Mas com algo mais perigoso.
Critério.
Escolha.
Destino.
Zenon olhou de volta pro campo.
— Ryuji Arata…
Ele falou o nome como se estivesse testando.
— Esse aí…
Um pequeno sorriso surgiu.
— Tem coisa dentro dele que nem ele entendeu ainda.
Daizen ficou em silêncio.
Mas não negou.
Porque ele também viu.
O sangue.
Os raios.
A adaptação.
E algo além.
Algo que não estava no plano.
Nem no sistema.
Nem no controle.
Algo próprio.
Zenon deu meio passo à frente.
Como se já estivesse decidindo.
— Se ele sobreviver…
Ele olhou direto pra luta.
— Eu vou pegar ele.
Silêncio.
E dessa vez—
Daizen não respondeu.
Porque pela primeira vez desde o início do projeto…
existia uma variável que ele não controlava totalmente.
E ela tinha nome.
Ryuji Arata.
O campo explodia abaixo.
Mas lá em cima…
o silêncio ainda dominava.
Zenon não tirava os olhos de Ryuji Arata.
Cada movimento.
Cada adaptação.
Cada erro corrigido em tempo real.
Então ele falou:
— Você já mediu o QI de luta dele?
Daizen Takatora respondeu sem olhar.
— 216.
Zenon soltou um leve assobio.
— Alto.
Os olhos dele se estreitaram, interessados de verdade agora.
— Isso coloca ele no nível dos Novos Gênios.
Pausa.
O campo abaixo tremia.
Ryuji desviava de um ataque que, um segundo antes, seria inevitável.
Zenon continuou:
— E mais…
Ele inclinou a cabeça.
— Ele já encosta no território do Saey Ryoshi.
Silêncio curto.
O nome pesou.
— 246 — Zenon completou. — O maior QI de luta registrado no Japão atual.
Daizen finalmente falou:
— Números.
Frio.
Direto.
— QI de luta não decide combate.
Zenon sorriu de lado.
— Não decide.
— Mas mostra quem entende o combate.
Ele apontou com o olhar pro campo.
— E ele entende.
Ryuji, lá embaixo, misturava:
Instinto.
Leitura.
Adaptação.
Como se estivesse resolvendo uma equação viva.
Zenon continuou:
— Ele não reage só ao que acontece.
— Ele responde ao que ainda vai acontecer.
Daizen ficou em silêncio.
Mas não discordou.
Porque era verdade.
Zenon cruzou os braços.
— Você sabe disso.
— Esse tipo de leitura não se ensina fácil.
Pausa.
— Isso nasce.
Daizen respondeu, firme:
— E morre rápido… se não for refinado.
Zenon riu baixo.
— Aí que eu entro.
Silêncio.
O campo abaixo explodiu novamente.
Ryuji ainda de pé.
Mesmo no limite.
Mesmo quebrando.
Zenon olhou fixo.
Sem piscar.
— Você sabe o que ele é.
Daizen não respondeu.
Zenon continuou:
— Não é só talento.
— Não é só adaptação.
— É direção.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Ele sempre encontra um caminho.
Mesmo quando não existe.
Pausa.
Mais pesada dessa vez.
— E você sabe o que isso significa.
Daizen finalmente virou o rosto.
Encarou Zenon.
Sem expressão.
Mas atento.
Zenon falou sem rodeio:
— Ryuji Arata tem potencial pra ser o futuro do Japão.
Silêncio.
Nenhuma negação.
Nenhuma confirmação.
Só o campo rugindo lá embaixo.
E um garoto…
forçando o mundo a acompanhar o próprio crescimento.
Daizen desviou o olhar de volta pra luta.
Mas agora…
o olhar estava diferente.
Mais sério.
Mais profundo.
— Potencial não garante nada.
Zenon respondeu na hora:
— Mas ignorar ele…
— garante que você perde algo único.
Os dois ficaram em silêncio.
Observando.
E pela primeira vez—
não estavam analisando só um lutador.
Estavam olhando para algo maior.
Algo que…
se sobrevivesse—
mudaria o jogo inteiro.
O campo rugia abaixo.
Mas no alto…
a análise continuava fria.
Daizen Takatora manteve os olhos fixos na luta.
— QI de luta não é tudo.
Zenon sorriu de leve.
— Eu sei.
— Mas ainda é um bom mapa.
Ele virou o rosto.
— Qual o ranking atual do projeto?
Daizen respondeu sem hesitar:
— San Ryoshi — 221.
— Ryuji Arata — 216.
— Karaku Sabito — 215.
— Tsubasa Hayashi — 187.
— Mitsuya Drako — 183.
Silêncio.
Zenon absorveu.
Comparou.
Calculou.
— Então ele já é top 2…
Os olhos dele voltaram pro campo.
— E ainda tá aprendendo no meio da luta.
Daizen respondeu seco:
— E ainda tá errando.
Zenon riu.
— Claro que tá.
— É por isso que ele cresce.
Pausa.
O olhar dele ficou mais afiado.
— Mas isso aqui é interessante…
Ele apontou levemente.
— A diferença entre ele e o San não é tão grande.
Daizen respondeu:
— No número.
— Na execução… ainda é.
Silêncio curto.
Zenon assentiu.
— Faz sentido.
— O San é refinado.
— O Ryuji é bruto.
Daizen completou:
— E instável.
— O pior tipo de talento.
Zenon sorriu.
— Ou o melhor.
O campo abaixo explodiu novamente.
Ryuji e Tsubasa colidindo.
Ritmo quebrado.
Decisão no limite.
Zenon estreitou os olhos.
— Sabe o que mais me chama atenção?
Daizen não respondeu.
Zenon continuou:
— Ele não luta como alguém que quer vencer.
Pausa.
— Ele luta como alguém que se recusa a perder.
Silêncio.
Pesado.
Real.
Daizen não negou.
Porque era verdade.
Zenon cruzou os braços.
— E isso…
— não aparece em número nenhum.
Daizen finalmente falou:
— Mas cobra mais caro que qualquer estatística.
Zenon riu baixo.
— E ele tá pagando.
Os dois olharam.
Ryuji ferido.
Cansado.
Mas avançando.
Sempre avançando.
Zenon inclinou levemente a cabeça.
— San Ryoshi é melhor hoje.
— Sem dúvida.
Ele pausou.
— Mas o Ryuji…
Um pequeno sorriso surgiu.
— é mais perigoso.
Daizen ficou em silêncio.
Pensando.
Calculando.
Pela primeira vez…
sem resposta imediata.
Zenon continuou:
— Porque o San domina o que sabe.
— O Ryuji cria o que não sabe.
Silêncio.
O campo abaixo tremeu.
E a luta continuava.
Mas agora…
com outro peso.
Não era só sobre quem ia vencer.
Era sobre quem estava se tornando algo impossível de parar.
E Daizen sabia.
Se aquilo continuasse—
o projeto não ia só criar o lutador perfeito.
Ia criar algo…
que nem ele conseguiria controlar.
O campo já não era mais um campo.
Era um campo de guerra.
Metade dourado.
Metade azul.
E no centro—
Ryuji Arata e Tsubasa Hayashi colidiam.
Ryuji tentou avançar—
Mas o mundo atrasou.
Tsubasa desapareceu.
De novo.
Velocidade além da leitura.
Além da previsão.
Além do padrão.
Ryuji reagiu—
Tarde.
Corte no peito.
Outro no braço.
Outro na lateral.
Sequência limpa.
Sem erro.
Sem pausa.
Ryuji recuou.
Pela primeira vez…
claramente pressionado.
— Você não acompanha — Tsubasa disse, surgindo atrás.
Chamas douradas explodindo.
Ryuji girou—
Bloqueou por instinto.
Mas o impacto passou.
O corpo cedeu.
Ele foi lançado.
Rolou.
Levantou.
Respiração pesada.
O corpo já não respondia no mesmo nível.
E Tsubasa sabia.
Ele avançou.
Pra finalizar.
Então—
— Sai de perto dele!
Naki entrou.
Chamas surgindo nos dedos.
Kaede Shizuma veio junto.
Velocidade máxima.
Ataque combinado.
Por um segundo—
pareceu que dava.
Tsubasa parou.
Leu.
E então—
sumiu.
Naki piscou—
Erro fatal.
Tsubasa apareceu na frente.
Muito perto.
Corte único.
Limpo.
Preciso.
Naki não reagiu.
O corpo travou.
E caiu.
Sem entender.
Sem tempo.
Silêncio.
Kaede avançou na raiva.
— FILHO DA—!
Mas Tsubasa já estava dentro.
As chamas douradas explodiram.
Não como impacto.
Como massacre.
Cortes.
Um.
Dez.
Cem.
Kaede tentou defender—
Mas não existia defesa.
As lâminas de fogo surgiam de todos os lados.
Sem trajetória.
Sem padrão.
Só execução.
O corpo dele foi rasgado.
Jogos de luz dourada atravessando carne.
O chão se pintando.
Kaede caiu.
Silêncio.
Só restava—
Ryuji.
Respirando pesado.
Olhando.
Naki no chão.
Kaede destruído.
E Tsubasa…
de pé.
Intacto.
Dominando.
Ryuji abaixou a cabeça.
Um segundo.
Só um.
Quando levantou—
acabou.
— Chega.
A voz saiu baixa.
Mas o campo inteiro sentiu.
Os raios começaram a surgir.
Mas não como antes.
Eles não se espalharam.
Eles se concentraram.
No braço.
Na mão.
Na ponta dos dedos.
O ar começou a vibrar.
O espaço… distorcer.
Como se algo estivesse sendo puxado.
Comprimido.
Forçado além do limite.
As chamas elétricas começaram a girar.
Formando uma estrutura.
Uma flecha.
Mas não uma comum.
Gigantesca.
Densa.
Instável.
Perfeita.
O chão ao redor começou a rachar.
O ar queimava.
Tsubasa sentiu.
E pela primeira vez—
medo.
Real.
Ele levantou a katana.
Chamas douradas explodindo ao redor.
— …Então vem!
Ryuji puxou a flecha pra trás.
Como um arco invisível.
Os raios gritando.
O espaço tremendo.
— Ragnarok: Flecha do Juízo Final Celestial.
Ele soltou.
O mundo rasgou.
A flecha não viajou.
Ela apagou a distância.
Explodiu.
Uma linha de destruição absoluta.
Ouro tentou resistir.
As chamas de Tsubasa subiram.
A katana bloqueou.
Por um instante.
Só um.
E então—
quebrou.
A lâmina se estilhaçou.
As chamas foram engolidas.
O impacto atravessou.
Consumiu.
Carbonizou.
O chão sumiu.
O ar desapareceu.
O campo foi dividido.
Quando a luz apagou—
silêncio.
Tsubasa estava de pé.
Mas não inteiro.
O corpo queimado.
Carbonizado.
A katana… destruída.
As chamas… apagadas.
O fluxo… quebrado.
Ele não caiu.
Mas também…
não lutava mais.
Ryuji ficou parado.
Respirando pesado.
O braço tremendo.
O corpo no limite.
Mas de pé.
O Juiz não demorou.
— Sexto Round finalizado.
Silêncio.
— Resultado: vitória da equipe de Ryuji Arata, Naki e Kaede Shizuma.
— Placar atual: 3 a 3.
O campo… não reagiu.
Porque não sobrou nada pra reagir.
E todos ali entenderam:
Aquilo não foi um golpe.
Foi um aviso.
Ryuji Arata…
tinha poder suficiente pra apagar o campo inteiro.
E se ele perdesse o controle—
ninguém ali sairia inteiro.

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