Índice de Capítulo

    O arranque de Kaede Shizuma não foi um simples deslocamento; foi uma ruptura na própria física do campo de batalha. Raios vermelhos explodiram atrás dele, desenhando rastros violentos e irregulares que cortavam o ar como chicotes. A cada passo que dava, o solo cedia, fragmentando-se em pedaços de pedra que eram lançados para trás pela pura pressão cinética do seu avanço.

    San Ryoshi permaneceu parado, mantendo a postura ereta e inabalável que o definia. Ele observava. Seus olhos, antes dominados por uma indiferença absoluta, agora estavam atentos. O topo do torneio percebeu o óbvio: Kaede não era apenas um lutador agressivo ou um oponente irritado. Ele era perigoso. De verdade.

    Em uma fração de segundo, Kaede surgiu diretamente na sua frente. O braço direito estava puxado para trás, em um arco perfeito de destruição.

    À medida que o soco avançava, os raios vermelhos ao redor de seu corpo começaram a se comprimir, condensando-se violentamente em torno de seu punho. O plasma elétrico ganhou definição. Mandíbulas monstruosas começaram a se abrir; presas afiadas e olhos feitos de pura eletricidade tomaram forma até que um mini leão de raios vermelhos nascesse envolvendo completamente o braço do lutador.

    — TENTA SEGURAR ESSE! — berrou Kaede, descarregando o golpe.

    EXPLOSÃO.

    O leão de plasma rugiu no exato instante do impacto. San Ryoshi ergueu o braço esquerdo no último milésimo de segundo, interceptando a trajetória do punho.

    BOOOOOOOM.

    O choque entre as duas energias foi tão violento que destruiu o chão abaixo deles instantaneamente. Uma cratera monumental abriu-se em círculos concêntricos, enquanto os raios vermelhos de Kaede ricocheteavam pela arena inteira, espalhando-se como serpentes enlouquecidas que perfuravam os destroços ao redor.

    O braço de San, deslizou alguns centímetros para trás. Foi um recuo mínimo, quase imperceptível para quem assistia de longe, mas real.

    O silêncio que se seguiu foi denso. Os olhos de San mudaram levemente, estreitando-se. Pela primeira vez desde o início da luta, ele precisou recrutar força real para não ser sobrepujado.

    Kaede, percebendo a reação mecânica do adversário, alargou ainda mais o seu sorriso insano. — HEH… — Ele soltou o ar, os olhos arregalados pela adrenalina. No mesmo instante, os raios vermelhos explodiram com ainda mais fúria de seus músculos. — Então você CONSEGUE sentir o golpe.

    San Ryoshi observou o próprio braço que bloqueava o ataque. Na densa camada de proteção de seu Sen, pequenas rachaduras haviam surgido. Eram fissuras mínimas, superficiais, mas incontestáveis.

    — Interessante… — a voz de San saiu calma, quase analítica. Seus olhos encontraram os de Kaede, tornando-se mais profundos. — Você não é comum.

    Kaede riu. Uma gargalhada cortante, violenta, impregnada por um instinto puramente selvagem. — Finalmente alguém entendeu!

    Os dois mantiveram-se travados naquele impasse de forças. A aura vermelha e instável de Kaede chocava-se contra a aura ciano escura e abissal de San. Era a tempestade tentando rasgar o abismo.

    Do outro lado da arena devastada, alheio ao embate dos gigantes, Tsubasa Hayashi respirava fundo. Seus olhos estavam cravados em Karaku Sabito.

    Karaku mantinha a Meta-Visão ativa, o brilho azulado de suas pupilas mapeando os movimentos do espadachim, enquanto sua arma permanecia fria e preparada. Ambos sabiam que aquela sub-batalha seria decidida em uma questão de segundos.

    Tsubasa abaixou levemente o centro de gravidade, flexionando os joelhos na sua clássica postura de avanço.

    Karaku não alterou a mira. Continuou calculando, a voz saindo sem pressa. — Você vai tentar velocidade máxima — previu o atirador, os olhos brilhando intensamente com as projeções futuras que se desdobravam em sua mente. — Porque sabe que em uma luta longa… — Um leve sorriso, quase imperceptível, surgiu no canto de seus lábios. — …você perde.

    Tsubasa desapareceu.

    EXPLOSÃO DE VELOCIDADE.

    O solo quebrou atrás de seus pés no mesmo instante em que seu corpo cortou a distância em linha reta. O deslocamento foi tão brutal que o próprio ar ao redor pareceu atrasar para preencher o vácuo deixado por ele. Era uma velocidade que desafiava a percepção humana normal.

    Karaku, no entanto, acompanhou o vetor. Sua Meta-Visão desenhava com precisão milimétrica onde o corpo de Tsubasa estaria no próximo quadro de tempo. Mas, mesmo prevendo o futuro, o corpo físico do atirador ainda precisava de tempo para reagir à velocidade absurda do espadachim.

    Tsubasa surgiu no ponto de impacto, já perto o suficiente para finalizar. A lâmina de sua espada cortou a atmosfera em um arco rápido, cirúrgico, mirando diretamente o pescoço de Karaku.

    E então— Karaku sorri.

    A aura do atirador explodiu de forma repentina. Não era uma energia comum; era escura, profunda, pesada como breu. Em um único estalo seco, o corpo físico de Karaku Sabito simplesmente se dissolveu.

    Sombras. Puras sombras.

    A arena mergulhou em uma escuridão artificial por um breve instante. Corvos negros surgiram do vácuo, cortando o ar violentamente. Suas asas gigantescas abriam-se em meio a grasnidos lúgubres e assustadores que ecoavam pelas paredes da arena, confundindo os sentidos de quem tentasse focar na cena.

    Tsubasa arregalou os olhos. O corte de sua espada atravessou apenas o vazio, encontrando o ar frio da noite simulada. Karaku havia desaparecido.

    As sombras giravam ao redor do espadachim em uma velocidade estonteante, enquanto os corvos espectrais voavam em círculos fechados, sufocando qualquer tentativa de leitura de terreno.

    E então, a escuridão se concentrou novamente. Logo atrás de Tsubasa.

    Karaku reapareceu com uma calma assustadora, a postura perfeitamente alinhada e o cano da arma já apontado para a nuca do adversário.

    — Corvo das Sombras — murmurou Karaku.

    Disparo.

    BOOM.

    O tiro à queima-roupa atravessou as costas de Tsubasa em cheio. Os olhos do espadachim se arregalaram com o choque do impacto. O projétil imbuído em Sen causou uma ruptura imediata; o sangue explodiu pela frente de seu corpo em uma névoa vermelha.

    A força do impacto lançou Tsubasa violentamente contra o solo da arena. O corpo dele quicou múltiplas vezes contra as pedras antes de finalmente parar, inerte, metros adiante.

    Silêncio.

    Os corvos negros desfizeram-se lentamente em partículas de fumaça e a escuridão forçada recuou, devolvendo a iluminação padrão ao campo. Karaku abaixou a arma devagar, observando o filete de fumaça cinzenta que saía do cano. Sua Meta-Visão continuava ativa, fria e rigidamente calculista.

    Enquanto isso, ao longe, Tsubasa Hayashi tentava puxar o ar para dentro dos pulmões.

    E falhava.

    Kaede Shizuma puxava o ar com força, os pulmões queimando a cada respiração. Raios de um vermelho espesso e colérico percorriam cada centímetro do seu corpo, estalando contra a pele e deixando o solo abaixo das suas botas completamente esfarelado.

    À frente dele, San Ryoshi permanecia de pé. A postura continuava impecável, mas a expressão no rosto do líder inimigo mudou: ele agora exibia uma seriedade sutil. Real.

    Kaede abriu um sorriso largo, os dentes manchados pelo esforço, enquanto as pupilas brilhavam em puro escarlate.

    — Então vamos ver se você sangra mesmo.

    EXPLOSÃO.

    Kaede avançou. O deslocamento foi de uma velocidade absurda, deixando rastros geométricos de luz estática no ar antes que ele reaparecesse, instantaneamente, na cara de San.

    O primeiro soco foi descarregado. O mini leão de plasma ganhou forma no seu braço direito, rugindo em pura eletricidade vermelha.

    IMPACTO.

    San bloqueou com o antebraço, mas a violência do choque estilhaçou o piso abaixo deles. Kaede não parou. Mandou o segundo soco, ainda mais rápido, ainda mais pesado, fazendo outro leão explodir no ponto de contato. Veio o terceiro. O quarto. O quinto.

    BOOM. BOOM. BOOM. BOOM.

    A arena inteira começou a tremer sob a sequência implacável. Pela primeira vez desde o início do torneio, San Ryoshi estava sendo empurrado para trás, perdendo totalmente o controle do ritmo mecânico da luta.

    Kaede soltou uma gargalhada selvagem em meio ao combo. — VAMOS!

    Os raios ao redor dos seus músculos expandiram-se ainda mais, superaquecendo o oxigênio. — VOCÊ NÃO É O TOPO?!

    San tentou inclinar o tronco para esquivar do próximo direto, mas Kaede acelerou no último milissegundo, alterando a trajetória do golpe no meio do vetor. O impacto entrou limpo. Em cheio.

    BOOOOOOOOM.

    San Ryoshi foi arremessado violentamente para longe. O corpo dele cortou a extensão do campo feito um projétil, atravessando e destruindo três colunas de contenção antes de finalmente fincar os pés no solo e estabilizar o recuo.

    Silêncio.

    Karaku observava a cena da sua posição de cobertura, os olhos estreitando-se por trás das lentes dos óculos. A Meta-Visão operava em rotação máxima. — …Ele conseguiu lançar o San.

    O atirador ergueu o cano da sua arma de forma lenta, ajustando a mira diretamente na silhueta de Kaede. — Então eu elimino ele agora.

    Kaede tocou o chão de volta, a respiração desregulada, o corpo coberto por faíscas residuais. Karaku já calculava os próximos três segundos na sua mente: o garoto ia perseguir San para manter a pressão da ofensiva. O disparo perfeito de interceptação já estava engatilhado.

    Mas as linhas futuras mudaram de repente.

    Kaede abriu um sorriso completamente insano e mudou a sua trajetória em noventa graus.

    EXPLOSÃO.

    Ele disparou direto na direção de Karaku. O atirador arregalou minimamente os olhos, pego de surpresa pelo desvio tático. — …O quê?

    Kaede corria em zigue-zague, usando movimentos caóticos, quase animalescos e totalmente imprevisíveis. A Meta-Visão tentava desenhar os vetores de destino, mas falhava a cada mudança de pisada. Karaku puxou o gatilho. Um tiro passou raspando pela esquerda; o segundo passou pela direita. Nenhum acertou. Kaede mudava a direção do corpo no último milésimo de segundo, agindo como um predador enlouquecido brincando com a mira do oponente.

    Karaku franziu o cenho, sentindo-se pressionado pela primeira vez.

    Kaede cravou os calcanhares no chão numa parada brusca, fazendo a terra explodir abaixo de si. Toda a eletricidade começou a se concentrar no seu braço direito, mas dessa vez o constructo não era um mini leão. Era algo monumental. Muito mais destrutivo.

    Chamas vermelhas irromperam junto com as descargas elétricas, consumindo o membro por completo. Mandíbulas gigantescas de plasma e fogo se moldaram no ar, exibindo olhos flamejantes e presas monstruosas. Um leão colossal nasceu do seu braço, fazendo a própria estrutura do estádio rachar pela pura pressão da técnica.

    — LEÃO FLAMEJANTE! — berrou Kaede.

    O rugido da habilidade ecoou pelos alto-falantes da arena. Karaku sentiu o aviso técnico na pele: era perigo real. Morte. Sua Meta-Visão explodiu em alertas vermelhos de futuro, e todas as projeções terminavam exatamente iguais.

    Destruição absoluta.

    O atirador ajustou a base imediatamente. Sua aura sombria subiu com violência, e os corvos negros reapareceram ao seu redor, muito maiores, mais densos e com uma aparência monstruosa.

    — Corvo Noturno — verbalizou Karaku, disparando.

    O projétil explodiu no ar e se transformou em uma criatura gigantesca de pura escuridão, rasgando o espaço conforme avançava contra o predador de fogo.

    Os dois monstros colidiram no centro da arena. E a realidade sumiu.

    BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM.

    Uma detonação monumental engoliu todo o campo de batalha. Raios vermelhos, sombras densas, chamas espessas e fragmentos de corvos misturaram-se num colapso absurdo de energia destrutiva.

    O solo afundou em uma cratera perfeita, enquanto as estruturas superiores eram vaporizadas pela temperatura. O céu simulado pareceu rasgar por um décimo de segundo.

    Contudo, o vetor principal do choque de retorno focou-se em Kaede. A maior parte do impacto da sua própria técnica somada ao Corvo Noturno voltou contra ele, engolindo o seu corpo por completo.

    Silêncio. A fumaça começou a se assentar entre os destroços.

    Kaede surgiu em meio à névoa. Ele ainda estava de pé, mas completamente destruído. O braço direito exibia queimaduras graves, o corpo estava coberto de ferimentos profundos e sua aura falhava de forma violenta, oscilando como uma lâmpada prestes a queimar. A respiração estava totalmente despedaçada.

    Mesmo assim… ele sorriu. Um gesto pequeno, insano. — …Heh… Foi foda.

    No mesmo microssegundo, uma presença materializou-se logo atrás dele. Sem som. Sem deslocamento de ar. Um vácuo absoluto.

    Kaede arregalou os olhos ao reconhecer a energia.

    San Ryoshi estava ali. Sem ferimentos graves, sem alteração na respiração. Intacto. O topo absoluto.

    San ergueu a mão devagar e tocou as costas de Kaede. Apenas um toque leve, quase sutil.

    E então, o inferno respondeu.

    ESPINHOS.

    Centenas de estacas afiadas explodiram do solo e do próprio Sen de San, perfurando o corpo de Kaede com brutalidade. A matéria ciano escura misturada com preto atravessou seus braços, pernas, peito e abdômen. O sangue espalhou-se no ar numa névoa densa.

    Kaede cuspiu o gosto metálico imediatamente, o corpo travando por completo sob o impacto das perfurações. A aura vermelha apagou-se no mesmo instante; as estacas drenavam tudo o que ele tinha: Sen, força física, energia vital e até a própria vontade.

    San Ryoshi segurou o corpo de Kaede pelo ombro antes que ele desabasse de vez no chão rachado, olhando diretamente nos olhos do garoto. Então, ele falou. O tom era calmo, mas carregava uma sinceridade incontestável.

    — Você lutou muito bem… — San fez uma breve pausa, sustentando o olhar moribundo do adversário — …Leão.

    O silêncio tomou conta do que restou da arena.

    E Kaede sorriu. Mesmo quebrado, mesmo sangrando e completamente derrotado, ele sorriu. Porque naquele exato microssegundo, o topo do projeto tinha reconhecido a sua existência.

    [Fim do Segundo Round] 

    [Placar: 2 a 0 — San Ryoshi, Karaku Sabito, Sander Shimo e Renji Asakura]

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