Índice de Capítulo

    Assim que os olhos de Tâmara se abriram, ela puxou muito ar para os pulmões. Foi uma respirada profunda e angustiada. Todo o corpo tremeu e se contorceu em espasmos.

    Seu tórax ardeu, como se estivesse queimando.

    Ela se ergueu, catatônica, e avançou ferozmente sobre a jarra de água e virou o líquido em sua boca. Bebeu com avidez. Com desespero.

    A água umidificou seus lábios secos e rachados.

    Não importava quanta água bebia, o gosto amargo não saía da língua.

    — Preciso de mais! — disse ela, com dificuldades, após beber toda a água da jarra.

    O garoto se aproximou.

    — Tâmara… você…

    — Renato! — Ela tentou pular sobre ele, mas tropeçou nos próprios pés e caiu no chão. Ergueu os olhos para ver aquele que amava mais do que a si mesma. — Meus pés não… respondem! Minhas pernas tremem…minha cabeça dói… — A voz saiu fraca, quase inaudível. —  O que… o que… acont…

    — Tâmara… — O garoto a abraçou. — Que bom que voltou!

    — Eu… o que houve? Por que tá tão frio? Parece que eu tomei a maior surra da minha vida! Meus ouvidos estão zumbindo. Parece que minha cabeça vai explodir! O que houve?

    — Tâmara, não se lembra?

    — Ah, eu lembro que a gente estava enfrentando os cavaleiros e… acho que eu fui atingida! E aí tudo ficou escuro. — Ela levou as mãos às têmporas e fez uma careta de dor. — Acho que eu me machuquei. Te atrapalhei, não foi?

    — Acha que se machucou? — Clara riu.  — Você morreu, fofinha. Bateu as botas. Vestiu o paletó de madeira. Se bem que… não chegou a vestir de fato. — A súcubo levou a mão ao queixo, pensativa. —  Mas que caiu nas prisões da punição eterna, ah, caiu!

    — O quê? Como…

    — O Renato foi até o Inferno e resgatou sua alma. — A súcubo deu de ombros. — Ele é mesmo incrível, não acha? Acho que você deveria agradecer a ele de joelhos! E eu ajudei, então seria de bom tom me agradecer de joelhos também!

    — Deixamos seu corpo congelado no freezer por todo esse tempo — disse Lírica, um tanto apática. — Mesmo assim, já estava começando a cheirar mal.

    — Isso parece um filme de terror! — murmurou Irina, com assombro, enquanto levava as mãos ao rosto e balançava a cabeça.

    — Bom… isso explica porque eu tô toda ferrada… — Tâmara moveu o braço com dificuldade e tentou sorrir, mas ao invés disso, fez uma careta de dor.

    — Posso ajudar com isso — disse Mical, se aproximando. Ela tocou Tâmara, que foi envolvida pela luz verde curativa.

    — Me sinto bem melhor! Valeu, Mical! — Tâmara se levantou, ainda com dificuldade devido às vertigens. — Agora tudo o que eu preciso é de um banho quente! Bem quente!

    — Bem quente? — Clara assentiu. — Tá com saudade do andar de baixo?

    Tâmara apenas bufou, irritada.

    — Você podia tomar banho comigo, não é, Renato?

    — Ah, bem…

    — Por favorzinho! Diz que sim! Eu acabei de ressuscitar! Acho que mereço um banho quente com o meu Renato!

    — “Seu Renato” uma ova! — irritou-se Irina.

    — Nosso Renato, então. Mesmo assim, eu acho que mereço! — Tâmara fez beicinho.

    — Não gosto da ideia de deixar essa garota sozinha com o Renato… — disse Jéssica.

    — Eu também não — concordou Lírica.

    — E eu muito menos! Humpf! — Irina tinha uma veia na testa que parecia a ponto de explodir.

    — Então está resolvido. Vamos todas tomar banho juntinhas do Renato! — Clara trouxe a solução óbvia. —  Sem nenhuma intenção oculta, é claro. Apenas para vigiar a Tâmara, afinal, todas concordamos que ela é perigosa, não é? — A súcubo parecia teatral. — Todas juntinhas, do jeito que viemos ao mundo! Molhadinhas, escorregadias de sabão…

    — Não faça parecer algo pervertido, sua súcubo assanhada! — berrou Irina. — S-só vou ir junto pra vigiar todas vocês! Vocês são tão perigosas quanto ao Lázaro de saia psicopata aí!

    — Eu não sou perigosa! — protestou Mical.

    — Você tem uma bazuca mágica, Mical! Você é perigosa! — retrucou Irina.

    — Então está decidido! Todas nós! — Clara tinha um olhar profundamente safado no rosto.

    — Ah, até que eu gosto da ideia! — Renato até que tentou conter o sorriso, mas não teve muito sucesso.

    **

    No meio da madrugada, enquanto Renato dormia tranquilamente junto das garotas, uma brisa gelada soprou diferente no quarto.

    Uma fina camada de gelo, azulada e brilhante, começou a cobrir o chão, desenhando no piso ranhuras e padrões ramificados e translúcidos: lindos dendritos de gelo em formato de estrelas e prismas.

    Mical, sentindo o frio na pele mesmo dormindo, se encolheu debaixo das cobertas.

    E as garras de Lírica, ferinas como garras de leão, tocaram a garganta da invasora. Uma única gota de sangue escorreu na pele pálida feito gelo.

    — Como ousa invadir dessa forma? Está tentando nos atacar enquanto dormimos?

    — Não. — Lua engoliu em seco. A garra tocando sua garganta incomodou ainda mais. — Eu só…

    — Fique tranquila, Lírica. — Clara estava sentada em cima do guarda roupas. A espada do pecado com cheiro de tutti-frutti estava em sua mão, mas ela rapidamente a fez desaparecer. — Essa aí é inofensiva. É só um floquinho de neve que aprendeu a falar!

    — E você é uma vadia que aprendeu a ser demônio! — retrucou Lua, com dentes cerrados. — E tire isso da minha garganta! — Lua afastou a mão de Lírica com um tapa.

    Clara deu de ombros para as palavras da garota elemental.

    — Talvez isso seja mesmo verdade.

    — A menina do frio do mal! — disse Mical, acusadora, com o dedo indicador.

    — Meu frio não é do mal! — Lua pareceu ofendida.

    Jéssica moveu o cobertor, revelando o fuzil que estava escondido.

    — Não gosto dessa garota!

    — Você dorme armada?! — Lua franziu o cenho. — Gente, que paranóica! — Então seus olhos encontraram os de Tâmara, e a frieza que viu naquelas pupilas âmbares fez até a elemental do gelo estremecer. — Tem alguma coisa de errado com ela.

    — Não tem nada de errado comigo. — Tâmara apenas se deitou e jogou o cobertor por cima da cabeça, se isolando de toda aquela bagunça. Usou o peito de Renato como travesseiro, se aninhando confortavelmente nele. Estava cansada demais. É claro que, se a situação pedisse, ela agiria. Mas podia deixar com as outras, por enquanto.

    O garoto tinha despertado também, mas permaneceu em seu lugar. Não queria tirar o travesseiro de Tâmara. Ela merecia isso. Precisava de conforto. Ele sentia que devia isso a ela!

    — E o que quer, Lua do Frio do Mal? — perguntou Clara, pulando do guarda-roupas e caminhando até ela.

    Lírica continuou olhando com desconfiança, mas se afastou um pouco.

    Lua respirou fundo, contendo a irritação.

    — Fiquei com saudades!

    — Eu duvido.

    — E também…

    — Também? Fale logo, porque você está atrapalhando meu sono de beleza!

    — Preciso de ajuda.

    — Ajuda com o quê?

    — Ajuda para atrapalhar um casamento.

    — Casamento de quem? — Clara estava começando a gostar do rumo da conversa.

    — O meu — respondeu Lua.

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