Capítulo 213: Cheiro de sangue e mentiras
Renato observou, em silêncio, Tâmara se levantando da mesa e caminhando pelo grande salão congelado. Ela cantarolava uma canção alegre que ele não conhecia.
Todo mundo observou.
Ninguém falou nada.
Todo mundo sabia que ela não deveria estar normal, então comportamentos estranhos eram esperados. Afinal, seu cérebro ficou tempo demais sem oxigênio, sem sangue, sem vida. Deve ter havido sequelas.
Tâmara foi até o meio do salão. Olhou em volta, como se procurasse algo, deu mais algumas voltas, tocou as paredes.
Quando viu o mordomo surgir na porta, ela rapidamente voltou para seu lugar ao lado de seu amado e segurou sua mão.
“A mão dela é gelada” pensou Renato, entrelaçando seus dedos nos dela.
O mordomo Aerin caminhou calmamente, e com a postura de um nobre, até a mesa dos convidados. Mas não se sentou. Ao invés disso, se pôs de pé, ao lado de Renato.
Olhou para ele e sorriu.
— Quero pedir desculpas por meu comportamento anterior. Eu fui rude. Isso não é comum de minha natureza. Estou apenas cansado, infelizmente, e não consegui demonstrar a cortesia necessária.
— Tá tudo bem, cara. — Renato deu de ombros e levou uma das xícaras de chá, que Lua tinha trazido, à boca.
Clara não disse nada. Apenas se ajeitou em sua cadeira, para ficar mais confortável e se mover com maior liberdade. Seus braços, ocultos debaixo da mesa. Ela também sorria de maneira amigável e assentia educadamente, ouvindo as palavras do mordomo.
Mas as narinas de Lírica eram sensíveis demais para deixar passar despercebido aquele cheiro metálico de sangue.
Ela farejou, sutilmente, tentando não ser notada. Olhou para o alto e viu o teto feito de gelo maciço. Em sua mente, o cheiro tomava forma, e ela quase podia visualizar o que tinha no andar de cima.
Tâmara, por outro lado, notou outra coisa. Aquele tipo de sorriso… ela já presenciou algo semelhante. Ela mesma já sorriu daquele jeito tantas vezes.
Por um momento, ela se sentiu burra. Como demorou tanto para perceber? Talvez algo tenha mudado. O sorriso falso. O discurso exageradamente cortês. Algo tinha acontecido.
Para alguém que já trocou mentiras, frente a frente, com Kath, aquilo não era nada. Era até patético!
— A minha mãe, Aerin! A marquesa! — disse Lua. — Onde ela está?
— A marquesa foi tratar com os elfos e pedir a eles que toquem uma canção alegre esta noite para que celebremos; e também foi ter com os anões para que eles nos supram de cerveja da melhor qualidade. É tempo de festa, não concorda, senhorita marquesa infante?
— Concordo… — Lua parecia inquieta. Uma sensação ruim no peito difícil de compreender. Algo como um aperto, uma angústia com gosto de zinabre.
— Eu vou ajudá-la! — disse Soll, e se levantou.
— Senhorita, não é uma boa ideia — respondeu Aerin.
— E por que não?
— Porque a marquesa pretende fazer uma surpresa. Eu nem deveria ter lhes contado. Vocês irem até lá, estragaria completamente os planos da marquesa.
Soll ficou em silêncio. Não queria se intrometer nos assuntos de sua mãe. Mas mesmo assim…
— Mentira. — A voz seca de Tâmara cortou o ambiente.
Jéssica, Mical e Irina se entreolharam, tentando entender melhor a situação e decidir o que fariam. Bastou alguns poucos olhares para toda a comunicação ser feita.
— Desculpe — disse Aerin —, eu não entendi, senhorita.
— Eu disse: mentira! Achou mesmo que me enganaria? Nem uma palavra sequer, que disse desde que chegou, foi verdade. Eu consigo ver nos seus olhos. Você acha que mente bem? Pois eu conheci seres humanos que mentiam mil vezes melhor!
— Ora, eu não estou entendendo, senhorita. Estamos todos sendo amigáveis aqui, não estamos? Acusar alguém de maneira leviana, principalmente quem lhe ofereceu hospitalidade, é uma coisa grave. Não deveria fazer tais coisas.
Essa foi a primeira vez que Tâmara riu desde que voltou do Inferno. E foi um riso de profundo desdém.
— Sangue. O cheiro também vem de você. — Dessa vez, a voz calma e sem emoção de Lírica que rasgou a falsa calmaria como se fosse tecido velho. — Eu demorei para perceber porque o cheiro que vem lá de cima é intenso demais. Mas o mesmo cheiro vem de você.
— Cheiro de sangue? — Soll franziu o cenho. — Eu não sin…
— Aerin! — Lua tomou a frente. A mão, instintivamente, foi ao peito, tentando arrancar fora aquela angústia que crescia dentro dela como um câncer. — Onde está minha mãe?
O mordomo relaxou os ombros. Suspirou, resignado, e sorriu. Um sorriso malicioso.
— Responda, Aerin! Você me viu crescer, não foi? Minha mãe cuidou de você! Onde ela está?! Responda!
— Ta bom…
A mão do mordomo se moveu com velocidade. Um ser humano comum nem conseguiria detectar tal movimento com os olhos.
A lâmina da adaga, obviamente, mirando o pescoço de Renato. Essa tinha se tornado sua nova missão. Já que a infiltração falhou, pelo menos o garoto deveria ser morto.
Mas algo aconteceu.
Algo o feriu primeiro, atravessando-lhe o abdome. Uma espada da lâmina vermelha. A mão da súcubo segurava o cabo.
“Não pode ser!” pensou A Besta que Subiu da Terra. “Para ela conseguir atacar com um golpe tão rápido assim, a espada já deveria estar materializada! Por isso suas mãos estavam debaixo da mesa?! Ela também sabia?”
Mas não importava! Seria um esforço fútil. Tão inútil quanto foi todo o poder da marquesa.
— Sobrescrever!
E o tempo retrocedeu, voltando ao ponto onde A Besta tentava apunhalar Renato.
Ali estava a espada vindo em sua direção. Agora que ele sabia, não seria difícil desviar do golpe. E assim ele fez. Mas novamente…
Lírica pulou sobre ele, com tamanha selvageria que faria tigres e leões parecerem gatos domésticos. As garras tentando penetrar na pele de seu rosto. Mas era inútil. Ele era resistente demais! E ainda tinha…
— Sobrescrever!
Na terceira tentativa, ele evitou os dois ataques.
Não foi difícil.
Renato estava tão perto. Ele só precisava…
Tiros! O atingiram no rosto, peito, pescoço. Irina disparava com duas pistolas; mas ela não estava sozinha. Jéssica tinha um fuzil; e Tâmara usava um tipo de fuzil também, mas era tão grande que parecia impossível de carregar por aí.
Não que as balas tenham machucado ele de verdade. Mas atrapalhavam. Eram irritantes!
O ataque de Clara, da demi-humana e das três atiradoras. Todos acontecendo praticamente ao mesmo tempo. Era como se todas já soubessem e atacassem juntas; e a única coisa que justificaria a ordem de ataque, seria a velocidade de reação de cada uma delas. E só. Todas já estavam preparadas desde o começo!
— Sobrescrever!
Mas dessa vez não haveria mais surpresas. Com uma finta para o lado, A Besta evitou a espada de Clara e o ataque de Lírica, e depois, mergulhando num salto para baixo, evitando os tiros. Ficou próximo de Renato. Só precisaria de um golpe.
— Merda! — berrou ele, ao ver que na mão do garoto, já estava preparado o fogo negro.
Renato disparou seu ataque mais forte. Mas A Besta era ágil e saltou para trás, evitando ser atingido.
A bola de fogo sem calor bateu contra o teto, arrebentando o gelo milenar, e atravessando-o, para desaparecer rumo às estrelas.
A Besta sorriu e olhou para sua adaga com admiração. Respirava profundamente, por causa de todo o esforço físico e mágico.
— Sabe, eu fiquei curioso pra saber quanto tempo levariam. Vocês são bons! Descobriram rapidinho. Fala pra mim — ele se dirigiu a Tâmara —, o que me entregou? A demi-humana sentir o cheiro, eu até entendo, mas como você percebeu?
— Você não é tão bom quanto pensa.
— Ah, é? Meus talentos são outros, eu suponho.
— Aerin! — Lua tinha a voz chorosa. — Onde está a…
— Eu matei ela. Não percebeu ainda? E matei seu mordomo também.
A sombra se moveu no rosto dele, e derreteu como se fosse feito de barro, revelando seu rosto verdadeiro.
— E sabe de uma coisa? Acho que vou matar todos vocês.
— Não… mentira! Mentira! Ela… ela não pode…
— Aaaahhh! — Soll, enlouquecida, foi coberta por fogo, como uma tocha. As chamas se ergueram e iluminaram toda a sala. Água começou a escorrer das paredes que derretiam. As lágrimas que escorriam de seus olhos evaporavam instantaneamente sem sequer ter a chance de cair.

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