Capítulo 169 — Parte 4
De frente para Absurdness, Serasáty cerrou os olhos.

Erguendo sua mão,
Hydromel se contorceu em sua palma,
estirando-se, rasgando o ar,
tornando-se uma foice afiada como um grito.
Girando-a pelo próprio corpo,
Serasáty avançou.
Os pés arrastando a terra,
levantando poeira,
rasgando o chão,
enquanto, imóvel, de pé,
a demônio sorria.
Um portal surgiu diante dela.
Insultantemente calmo.
E Serasáty entendeu.
Tudo.
No relance.
Na fração de um pensamento.
Completamente serena no caos,
no último segundo,
Hydromel virou um portal,
uma brecha, uma curva espaço-temporal rasgada com ódio.
Ela desapareceu.
E então, apareceu acima,
a foice voltando ao estado material
e de cima para baixo,
o arco mortal
caiu para arrancar Absurdness da existência.
Mas a demônio ergueu o antebraço.
A lâmina chocou-se contra a pele como se batesse em ferro primordial.
Nenhum dano.
Nenhuma marca.
Nem mesmo um recuo.
Mas então.
O choque.
O mundo vacilou.
Serasáty sentiu o coração de seu pai…
sumindo.
Cada batida falhando,
escapando entre seus dedos,
como água fria.
Sua mente estourou.
O corpo tremeu.
O ar travou nos pulmões.
Ela congelou tão profundamente
que nem viu o golpe vindo.
A pancada da Absurdness a lançou longe,
arrastando-a pelo chão.
Terra voou.
Pedras ricochetearam.
O mundo virou um borrão acinzentado e doloroso.
Deitada na poeira, ela encarou o céu.
Seus lábios tremiam,
seu peito arfava, e sua mente gritava sem voz,
tentando entender,
tentando respirar,
tentando não desmoronar.
Mas ela não quebrou.
Não ainda.
Com uma calma trêmula,
uma calma desesperada,
ela se levantou do chão,
as pernas balançando,
o corpo vacilando,
mas a alma, não.
Absurdness já estava à frente.
Não correra.
Não precisou.
Apenas apareceu,
como um aviso,
como uma sentença.
Seu punho veio,
um golpe feito para punir,
para esmagar,
para destrui-la como uma piada final.
Mas Serasáty, em uma ira que transbordou, que explodiu, que rompeu carne, osso e lógica,
ergueu o olhar.
Os olhos dilatados, brilhando demais, trepidantes demais. Ela segurou o punho da demônio. Com uma mão apenas.
A terra ao redor vibrou.
Os ventos recuaram.
Os portais estremeceram com a pressão.
E, erguendo seu braço —
sem técnica,
sem beleza,
Serasáty devolveu o golpe.
Um golpe tão forte, tão devastador,
tão impossível,
que Absurdness não teve tempo de sentir.
Nem de pensar.
Nem de existir.
No instante seguinte,
ela já estava morta.
Completamente morta.
Arrancada do mundo
como se nunca tivesse estado nele.
E Serasáty, sozinha,
com Hydromel tremendo em sua mão,
sentiu o eco da própria fúria
desabar sobre ela
como um segundo universo em colapso.
— Pai! Não morre ainda!
Ela correu.
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Cada segundo,
mais a lua se aproximava do sol em meio ao céu.
A planície inteira sustentava o peso daquele fenômeno, como se o mundo estivesse segurando a respiração.
A grama pálida, açoitada pelo vento quente,
brilhava sob o véu dourado da vastidão infinita daquele dia.
Era uma luz quase sagrada…
e ao mesmo tempo, traiçoeira.
Porque ela não aquecia.
E a hora chegava,
cada vez mais próxima do seu eclipse.
As sombras se esticavam,
lentas,
como se fossem arrastadas por dedos invisíveis.
O ar tremulava entre dourado e um início de cinza,
um contraste que fazia tudo parecer levemente torto,
como se o próprio horizonte estivesse coagulando. A natureza, o vento, a poeira, a terra — tudo respondia ao que nascia no céu.
E naquele instante,
Humbra elevou sua mão
e mostrou seu dedo
do meio.
Uma fúria queimando em seu peito, tanto que transbordava pelos ossos, subia pelo seu braço, invadia seu peito e ameaçava rasgar o ar.
De tão irritado,
ele gritou:
— Vai se foder, Moon!

Com a foice em mãos, Face Eater correu. Não correu, rasgou o espaço em sua direção.
Avançou com o corpo arqueado, os pés mal tocando o chão,
ergueu o braço, o ombro estalou,
e logo após veio com um golpe brutal,
um corte descendente
tão direto
que parecia querer dividir o mundo ao meio.
Num estalo de segundo, Humbra apareceu.
Não surgiu: estava lá.
Como se tivesse sido desenhado no último instante.
Desviou. Um passo que virou ausência. Um giro, mas curto demais para ser visto. Um corte de vento, não de lâmina.
Ela atacou.
Sem pausa.
Sem a respiração entre um golpe e outro.
A foice dela veio como se sempre tivesse estado ali,
como se o movimento já estivesse pronto antes do pensamento. E ele — ele não conseguiria fazer nada.
O mundo não deu espaço para a reação.
Mais e mais ataques vieram,
cada um mais apertado que o anterior,
cada impacto uma rachadura no instante.
Mais e mais ele desviou, tentou escapar, tentou existir entre os cortes. Tentou sobreviver ao que não dava margem para sobrevivência.
Uma lâmina veio da direita, ele inclinou o corpo para trás.
Outra veio de baixo, ele anulou o peso das pernas para não ser arrancado do chão.
Mais uma por cima, ele dobrou o tronco como se fosse feito de poeira.
A sequência deles não era uma queda livre infinita de Ataques.
Tudo despencando ao mesmo tempo. O som da lâmina mal criava ruído, como se estivesse avançando mais rápido do que podia ser ouvido.
Humbra pisou, o mundo tremeu. Face Eater pisou também, e o tremor desapareceu, como se ela anulasse sua existência.
Um corte:
H
O
R
I
Z
O
N
T
A
L
Outro:
VERTICAL
Um corte:
C
R — U — Z
A
D
O
Outro em:
D
I
A
G
O
N
A
L
Nenhum deles tinha forma completa; todos eram apenas o começo do próximo.
Humbra tentou contra-atacar, um movimento apenas.
Mas quando a foice dela avançou,
o corpo dele já tinha saído da própria sombra.
A lâmina passou por onde ele estava,
não por onde ele estava sendo.
Ele rosnou.
Foi a única coisa que teve tempo de fazer.
Face Eater veio de trás. Depois veio da lateral. Depois veio de frente. Tudo dentro de um único segundo quebrado em pedaços pequenos demais para caber na vida.
E Humbra?
Humbra só conseguia se contorcer,
dobrar o corpo, inclinar o pescoço, ceder o peso, forçar o passo, desaparecer e reaparecer no intervalo entre dois ataques que não tinham intervalo algum.
A batalha deles não parecia estar acontecendo. Parecia estar atrás do que acontecia, forçando o mundo a acompanhá-los e falhando miseravelmente.
Num momento, ele quase foi atingido — sentiu o ar se abrir perto do osso do ombro.
No outro, a foice dela passou tão perto da mandíbula que arrancou um fio de voz da garganta dele.
E ainda assim, ele continuou.
A cada milésima feita de cortes,
a cada ausência de tempo,
a cada gesto sem descanso,
Humbra se negava a morrer.
O que havia ali não era combate. Era sobrevivência. permanecer existindo apesar do impossível.
E Face Eater continuava vindo, vindo, vindo. Imersiva, implacável, inevitável.
Enquanto ele desviava por instinto, por raiva, por puro ódio de ser vencido.
A velocidade deles era tão absurda
que até a planície ao redor parecia atrasada,
como se estivesse tentando testemunhar algo que o próprio mundo não conseguia alcançar.
E a batalha seguiu, feroz, cortante, imediata em um dilúvio de movimentos onde nenhum deles podia hesitar porque hesitar significava morrer antes mesmo de perceber.
A lua avançou mais um passo lento sobre o sol, engolindo um anel de luz,
e o céu perdeu o azul por um instante.
Instante que durou o suficiente para o mundo hesitar.
Face Eater recuou.
Seus pés deslizaram pela terra como se rasgassem a própria linha entre avanço e desistência, e então ela ergueu-se no ar.
Flutuou.
A planície, antes apenas um campo de guerra, agora respirava diferente:
O vento preso, o som cortado, o mundo inteiro segurando o fôlego.
Lá em cima, a lua finalmente encostava no sol, inevitável, arrancando do céu uma luz crepuscular, violeta, quase doentia.
O dia inteiro afundava num ouro escuro.
Sombras se alongavam como dedos tentando alcançar algo que ainda não existia.
E foi dentro dessa pausa do mundo que Humbra viu.
Viu a carne de Moon se contorcer num ritual silencioso.
Viu as veias dela incharem, roxas, pulsantes,
como se algo estivesse tentando rasgar a pele por dentro.
Viu o poder dela ser forçado a nascer.
E então, ele sentiu.
A massa roxa, viva, densa como uma lua morta, escorreu pelos dedos de Face Eater e tocou a foice.
No instante do toque, a arma tremeu e depois quebrou as regras da matéria.
Não era mais uma lâmina.
Não era mais metal.
Era outra coisa.
Uma picareta, como se alguém tivesse arrancado o osso de um titã e moldado aquilo pela violência.
O cabo estalou.
As extremidades se deformaram para um formato autêntico.
E quando a mutação terminou, o silêncio também se partiu.
Humbra arregalou os olhos.
Arregalou porque sabia.
Qualquer golpe daquele…
seria o último.

— Humbra, nossa luta foi muito boa até aqui, mas está na hora de acabar.
— Moon, não enrola.
As pupilas do esqueleto arregalaram.
Até ele pôde sentir, mesmo de tão longe.
Seu Deus estava cedendo,
seu coração caindo,
seu corpo
em decadência.
Então, eles se prepararam e avançaram com tudo,
mas o espaço se dividiu em migalhas.
Não rachou, não trincou, se rasgou.
Como tecido velho pressionado além do limite,
uma linha fina abriu o próprio mundo,
cortando o espaço,
cortando o tempo,
cortando o destino,
cortando tudo o que ousava existir entre eles.
E do outro lado da fenda que se formava, entre luz e sombra, entre eclipse e sol, uma única coisa correu.
Serasáty.
Não no auge do seu ódio.
Não.
Porque aquilo não era ódio.
O ódio é pequeno demais, estreito demais, pobre demais
para carregar o peso que ela carregava no peito.
Era amor.
Mas um amor tão retorcido pelo desespero, tão amassado pela dor, tão quente, tão pulsante, tão indomável, que virou lamento. Até o céu tremeu.
Um amor que gritou mais alto que o eclipse,
que vibrou tão forte que fez a luz estremecer,
que dobrou o ar como um juramento quebrado.
Face Eater tentou acompanhar. Tentou recuar.
Tentou levantar a arma, erguer a foice,
tentar qualquer coisa —
mas tudo ao redor
já estava ruindo.
Porque Serasáty estava rasgando o firmamento
como se fosse apenas mais uma barreira humana.
Arrancando ele do lugar com sua presença.
Deixando para trás um rastro de céu despedaçado,
como se o próprio universo estivesse se partindo
para dar passagem a ela.
E com seu punho erguido,
o coração pulsando tão rápido que parecia um segundo sol,
ela veio.
Não veio rápido.
Não veio forte.
Não veio técnica.
Ela veio inevitável.
A inevitabilidade é uma força absurda, é a sentença final que não hesita, não se explica, não para.
Face Eater tentou gritar.
Ou para fugir.
Ou para compreender.
Ninguém sabe.
Porque nada disso teve tempo de existir.
O golpe de Serasáty caiu
antes que a intenção dela pudesse nascer.
Um único impacto.
Simples.
Cru.
Honesto.
E com apenas um golpe, um golpe moldado por amor, um golpe pesado por tudo que ela jamais permitiu perder, ela destroçou Moonside da própria existência.
Não sobrou corpo.
Não sobrou pó.
Não sobrou alma.
Ela não morreu —
Moon deixou de pertencer ao conceito de “estar”.
A realidade onde ele existia não a reconhecia mais.
A luz não a encontrava.
A sombra não a absorvia.
O tempo se recusava a registrar que ela esteve ali.
Serasáty manteve o punho no ar por meio segundo, a respiração trêmula, o peito em brasas.
E então, quando a poeira do mundo começou a cair, quando o céu costurava sua fenda sozinha, quando o eclipse vibrava como um coração descompassado…
— Humbra, nosso pai está em perigo!
No rosto do general, uma expressão vazia havia acabado de se formar…
Fora seu pai e irmãos, sua única amiga acabara de morrer bem em sua frente.
— A-ah…
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