Dois dias haviam se passado desde a reunião secreta entre o rei Ryoma e o imperador Maguns. Dois dias de silêncio, conspiração e luto. O funeral de Hiroshi Ignivor já parecia um eco distante na mente de Sayuri, mas o peso de sua ausência ainda esmagava o peito dela e de seus irmãos.

      Sayuri Ignivor atravessava as ruas de Pyronia com passos firmes, mas a escuridão da noite tornava tudo ao seu redor opressivo. O cheiro de terra úmida da chuva recente misturava-se ao aroma de vinho e tabaco que escapava das tavernas da cidade. Quando avistou a mansão Ignivor no alto da colina, sentiu um aperto no peito.

      Ela ainda não tinha visitado seus irmãos desde o enterro. Não por falta de vontade, mas porque precisava agir rápido para manter Imperion segura. Agora, no entanto, era hora de encarar Haruki e Hizuke.

      Ao entrar na mansão, encontrou o mordomo Genji à sua espera no hall de entrada. O velho a observou com um olhar compreensivo e inclinou a cabeça.

    — Senhorita Sayuri, seus irmãos estão na biblioteca.

      Ela acenou com a cabeça e seguiu pelos corredores escuros. Empurrou as portas da biblioteca sem hesitação e encontrou Haruki e Hizuke sentados ao redor de uma mesa repleta de garrafas de saquê e copos de vidro. O cheiro forte da bebida impregnava o ar, e a expressão deles deixava claro que não estavam apenas bebendo por luto.

      Haruki mantinha a compostura, mas Sayuri notou os sinais de exaustão: olheiras profundas, a barba malfeita e um olhar distante. Hizuke, por outro lado, estava com os olhos vermelhos de tanto chorar e segurava um copo meio cheio entre os dedos trêmulos.

    Nenhum deles reagiu imediatamente quando ela entrou.

    — Então é assim que vocês estão lidando com isso? — Sayuri quebrou o silêncio, cruzando os braços.

    Hizuke soltou uma risada amarga, mas não olhou para ela.

    — Se você tem uma solução melhor, me diga.

    Haruki não respondeu de imediato. Em vez disso, deslizou uma carta aberta sobre a mesa até ela.

    — Recebemos isso agora há pouco.

    Sayuri pegou a carta e leu rapidamente. “O rei foi envenenado.”

    Ela expirou pelo nariz, fechou a carta e a colocou de volta na mesa.

    — Eu já sabia.

    Hizuke levantou a cabeça num sobressalto.

    — O quê?

    Haruki também a encarou, confuso.

    — Explique-se.

    Sayuri puxou uma cadeira e se sentou, esfregando a têmpora.

    — Começou há cerca de duas semana. O rei teve febre, fraqueza, dores pelo corpo… mas os sintomas pioraram gradualmente. Ele manteve tudo isso em sigilo total.

    Os irmãos ficaram em silêncio. Haruki foi o primeiro a falar.

    — Se ele já estava envenenado há tanto tempo… isso significa que alguém próximo a ele estava fazendo isso pouco a pouco.

    — Tanaka. — disse Sayuri sem hesitação.

    Haruki fechou a mão em um punho.

    — Se for verdade, então ele está preparando o terreno para colocar Ryota no trono.

    Hizuke bateu o copo na mesa, irritado.

    — Isso é óbvio! Mas quem garante que Ryota não está envolvido nisso? O garoto sempre foi um idiota, mas nunca confiável.

    Sayuri balançou a cabeça.

    — Ele pode ser impulsivo, mas não tem a inteligência para orquestrar algo desse nível. Isso é obra de Tanaka e Magnus.

    Haruki cruzou os braços, pensativo.

    — Então é isso? Nossa família acabou de perder nosso pai, e agora Imperion pode cair nas mãos de traidores?

    Sayuri apertou os punhos.

    Hizuke passou a mão pelo rosto, frustrado.

    — Então, por onde começamos?

    Sayuri olhou para os irmãos e respirou fundo.

    — Vamos começar descobrindo tudo sobre o veneno. Quem administrou, como foi feito e se há cura. E então… lidamos com nossos inimigos.

    Haruki e Hizuke concordaram ao mesmo tempo. O luto dos Ignivor continuará e junto a isso o desejo por justiça.

      Sayuri lia com olhos ardentes e mãos suadas, apesar do ar frio da capital. As velas já derretiam quase até a base, lançando sombras inquietas sobre os livros empilhados. Cada página virada era um segundo perdido. Um segundo mais próximo da morte do rei.

      Haruki andava de um lado ao outro diante das estantes de carvalho, como uma fera presa. Os olhos âmbar estavam fundos, cavados por noites em claro. Os mapas, manuscritos e tratados sobre venenos e curas se espalhavam por toda parte, mas nenhuma resposta parecia completa.

    — Alguma coisa? — perguntou ele, rouco, detendo o passo.

    — Talvez — disse Sayuri sem tirar os olhos do tomo diante de si. — Aqui está: folhas de Yvalen, quando fervidas com sangue de salamandra solar, criam um antídoto capaz de neutralizar venenos de decomposição lenta. Mas…

    Ela hesitou, os olhos fixos nas letras desbotadas.

    — Mas o quê? — exigiu Hizuke, do outro lado da mesa.

    — A Yvalen cresce apenas em clima quente e seco, e segundo esses registros, há uma estufa mantida por curandeiros do antigo Templo do Sol, nas Dunas de Vharad, perto da fronteira com Aethernia.

    — Aquelas terras são praticamente desertas 
    — disse Hizuke. — A estrada até lá é longa, e infestada de bandidos e saqueadores. Ainda mais agora que as fronteiras estão instáveis.

    — E as salamandras solares? — perguntou Haruki.

    — Vivem nas cavernas da Dungeon de Ordhalim, ao sul. E só aparecem durante as primeiras horas do dia, antes que a luz fique forte demais. São difíceis de capturar, mesmo para caçadores experientes. 

    — Mas ir para as cavernas da dungeon não somos aventureiros — disse Hizuke.

    — Eu sei disso ao invés de irem para a dungeon devem ir nos mercado de caçadores em Alderam, Lá vendem partes de monstros, poções raras, armas encantadas. Se tiverem sangue de salamandra solar, vocês nem precisam se arriscar nas cavernas da dungeon — respondeu Sayuri.

    Haruki respirou fundo. O ar parecia pesado demais para os pulmões.

    — Então temos dois ingredientes raros, em locais opostos do reino, e um tempo que não temos.

    — É isso — confirmou Sayuri. — Mas se não tentarmos…

    — Ele morre — completou Hizuke, com frieza.

    — Partiremos ainda hoje — decidiu Haruki. — Hizuke e eu vamos para o sul, atrás da salamandra. Sayuri, você vai para as dunas. vá armada.

    — Eu não preciso de ordens — ela respondeu, com a voz firme. — Sei o que está em jogo.

      Haruki acenou com a cabeça, mas seu olhar carregava mais do que decisão: carregava medo. E culpa. A mesma culpa que todos eles sentiam, mesmo sem ter cometido crime algum.

    — Se falharmos… — começou Hizuke.

    — Se falharmos — interrompeu Sayuri —, Tanaka terá tudo que precisa para nos destruir. Vai acusar nossa família de traição, de conspiração e assassinato.

      Haruki encarou o brasão dos Ignivor gravado na madeira da mesa. As chamas vermelhas do brasão pareciam tremer sob a luz da vela.

    — Então não vamos falhar.

      O silêncio retornou. Um silêncio carregado de promessas, despedidas e temor. Lá fora, o céu da capital estava coberto por nuvens densas, mas ao leste, sobre as dunas próximas ao deserto, o sol ardia.

    E era para lá que Sayuri partiria. Para o calor escaldante das terras fronteiriças.

    Haruki e Hizuke seguiriam ao sul, onde o sol nascia sobre cavernas perigosas.

    E o rei… o rei, talvez, já não tivesse tempo para esperar por ninguém.

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