Capítulo 30 – As Sombras do Trono
O salão estava silencioso.
O enterro havia terminado há poucas horas, e a noite se instalava sobre Pyronia, lançando sombras longas sobre os vitrais do castelo. Na grande sala do trono, apenas três homens permaneciam: Rei Ryoma Rivenhart, Imperador Maguns Von August, e o Duque Saito Tanaka.
O Duque Tanaka mantinha-se de pé ao lado do rei, sua expressão cuidadosamente neutra, embora por dentro estivesse perplexo. O rei não confiava em muitos homens, e vê-lo organizar uma reunião privada com o imperador de Drakmor sem aviso prévio era algo inédito.
O imperador, como sempre, exalava arrogância. Maguns reclinou-se na cadeira de madeira ornamentada que lhe foi oferecida, observando o rei com olhos de lobo.
— Vamos direto ao ponto, Ryoma. — Sua voz era cortante. — Qual o verdadeiro motivo para essa reunião?
O rei Ryoma não sorriu. Ele se ergueu de sua cadeira, caminhou até a janela e olhou para a cidade abaixo, onde a multidão começava a se dispersar após a cerimônia. Sua voz era calma, mas carregada de peso.
— Eu precisava trazer você até Imperion, Maguns. Precisava que pisasse em minhas terras para poder fazer uma pergunta…
Ele se virou, encarando o imperador diretamente.
— Por que você está planejando invadir meu reino?
O silêncio que se seguiu foi gelado.
Maguns piscou uma vez, depois riu.
— Você enlouqueceu? — Ele se inclinou para frente, os dedos tamborilando no braço da cadeira. — Não sei do que está falando.
Ryoma não se impressionou com a negação. Ele cruzou os braços e começou a explicar.
— Há cerca de três meses, os monstros que vivem nas Montanhas Gallan começaram a migrar para as planícies próximas à capital. Nunca haviam feito isso antes. Algo os perturbou.
Ele fez uma pausa para deixar suas palavras se fixarem.
— Hiroshi Ignivor foi enviado para investigar. Ele descobriu que a caverna que servia de refúgio para essas criaturas foi invadida por homens armados. No início, não sabíamos se eram bandidos, mercenários… ou algo pior.
O rei fez uma pausa breve, observando a reação do imperador. Maguns mantinha uma expressão impassível, mas Ryoma percebeu o leve enrijecer de seus ombros.
— Alguns dias depois, enviei um grupo de aventureiros de ranking A, liderados por alguém de minha confiança, para investigar mais a fundo. Eles seguiram a caverna até onde ela ia.
O Duque Tanaka arqueou uma sobrancelha. Ele não sabia dessa parte da história.
— A caverna, como esperado, tinha um fim — Ryoma continuou. — Mas não no nosso território. Ela atravessava as Montanhas Gallan e terminava nas terras geladas de Drakmor.
Maguns permaneceu calado.
— Meus homens ficaram escondidos por alguns dias, observando. E então, soldados armados começaram a subir a montanha, vindos do lado de Drakmor, e marcharam em direção à caverna.
O duque sentiu o peito apertar. Como o rei havia mantido isso em segredo?
— Eram vinte homens. Obviamente, não eram páreo para os meus aventureiros. Foram pegos desprevenidos assim que entraram na caverna, e quase todos foram eliminados. Os sobreviventes… bem, meus espiões têm métodos persuasivos para extrair informações.
O imperador franziu o cenho, mas nada disse.
— Sabe o que eles nos disseram? — Ryoma sorriu de maneira sombria. — Que eram soldados de Drakmor, enviados pelo próprio imperador para coletar informações sobre Imperion.
O silêncio pesou.
O duque olhou de soslaio para o imperador. Ele sabia que era verdade. Mas jamais admitiria.
Maguns se levantou devagar.
— Você pode armar histórias o quanto quiser, Ryoma. Mas se acha que pode me acusar assim, sem provas…
Seus dedos se moveram de maneira sutil, e então, num lampejo, puxou uma faca oculta dentro de sua túnica.
No mesmo instante, uma lâmina fria pousou contra seu pescoço.
Maguns congelou.
Ele percebeu que não estavam mais sozinhos na sala. Figuras emergiram das sombras, revelando-se diante dele, de alguma forma pessoas estavam invisíveis naquela sala.
O rei sorriu.
— Ah, acho que ainda não apresentei os aventureiros que enviei para investigar. — Ele fez um gesto em direção à mulher segurando a lâmina contra a garganta do imperador.
Maguns virou o rosto, e sua visão foi preenchida por cabelos vermelhos como brasas.
— Sayuri Ignivor. — Ryoma apresentou. — A filha do homem que foi enterrado hoje. Você não teve nada a ver com isso, teve, Maguns?
O imperador não respondeu. Seu olhar encontrou os olhos ardentes de Sayuri. Ela não parecia hesitante. Não parecia sequer nervosa.
O rei recuou, cruzando os braços.
— Poderia ordenar sua morte agora mesmo. Mas não vou.
Ele andou devagar pela sala.
— Hiroshi morreu protegendo este reino, porque sabia que a paz vale mais do que qualquer vingança. Imperion já enfrentou guerras demais, e eu manterei este reino em paz a qualquer custo.
Sayuri abaixou a lâmina.
Maguns ajeitou a túnica com raiva e se dirigiu à porta. Antes de sair, no entanto, parou e lançou um último olhar ao rei.
— Isso terá um preço, Ryoma. Você já é um homem morto… só não percebeu ainda.
E então, partiu.
—
Nos Corredores do Castelo
Os passos do imperador ecoavam pelo corredor vazio. Sua mente girava com a humilhação que havia acabado de sofrer.
De repente, uma mão pousou em seu ombro.
Ele se virou, encontrando o Duque Tanaka.
Os dois se encararam por um momento. O duque foi o primeiro a falar.
— Ele sabe?
Maguns entendeu imediatamente a pergunta. O rei sabia da traição do duque?
O imperador sorriu de lado.
— Se soubesse, você já estaria morto.
Tanaka riu baixo.
— Não importa mais. — Ele cruzou os braços, satisfeito. — Mestre Kureta, o médico do palácio, já vem administrando veneno na comida do rei há semanas.
O imperador arqueou uma sobrancelha.
— Agora mesmo, depois que você saiu da sala, ele caiu no chão, cuspindo sangue. Seus cães devem estar tentando salvá-lo agora… mas já é tarde.
O imperador soltou uma risada baixa.
— Você realmente deseja tanto governar nas sombras?
O duque deu de ombros.
— Ryota fará tudo o que eu quiser. O conselho vai apoiá-lo, e eu serei o verdadeiro governante deste reino.
Maguns estreitou os olhos.
— Confesso que não esperava que você conseguisse matar Hiroshi. Você tem um aliado formidável… quem é?
Tanaka sorriu de lado.
— Digamos que ambos temos nossos segredos.
Os dois riram.
Então, sem mais palavras, viraram-se e seguiram por caminhos opostos, carregando consigo as sombras de seus planos.

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