CAPÍTULO 33 - ANTINATURAL
Um mago talentoso, capaz de compreender os conceitos da magia e aplicá-los, é raro. Magia é um tópico complexo, e aqueles que desenvolvem magias irregulares, moldando o mundo apenas com a própria vontade e imaginação, são mais raros ainda. Esse era o caminho mais difícil.
Por isso, o caminho que se popularizou foi o da magia regular, no qual, por meio de um cântico e alguns gestos, era possível conjurar uma magia.
Ainda assim, tão importante quanto compreender e aplicar conceitos era a reserva de mana de um mago. Afinal, como um mago sem mana poderia conjurar magias? A resposta era simples: não poderia.
Graças aos treinamentos que fazia com Jonathan, Archibald conseguira estimar quantos pontos de mana o garoto possuía.
“Ele fica muito cansado depois de conjurar 2 magias, mas não completamente esgotado. Deve ter por volta de 3 pontos de mana. Não é ruim.”
Ao observar sua recuperação, Archibald também levava em conta o fator de recuperação arcana de Jonathan.
Com Oliver, porém, ele não sabia o que esperar. Depois de ver os dois relâmpagos que o garoto havia desferido contra o orc, tinha certeza de que sua quantidade de mana deveria ser maior do que 4 pontos. A quantidade de mana de uma pessoa era hereditária e, sendo meio-elfo, Oliver carregava nas veias a linhagem dos elfos.
Elfos eram conhecidos por terem grandes reservas de mana. Por isso, Archibald esperava que Oliver tivesse algo entre 7 e 8 pontos, o que não seria estranho. O verdadeiro problema era o fator de recuperação arcana, esse sim era uma loteria. Magos com baixa recuperação arcana sofriam muito, pois isso limitava quanta magia poderiam usar antes de precisarem se recuperar de novo.
Embora estivesse preocupado, Archibald tinha grandes expectativas em Oliver. Achava que o garoto se sairia bem mesmo com um fator de recuperação arcana baixo. No entanto, todas essas preocupações se mostraram desnecessárias no instante em que ele observou os números projetados pelo cubo metálico.
[ Mana: 15 pontos ]
[ Fator de recuperação arcana: 33% ]
O número era absurdo. Archibald jamais tinha visto uma reserva de mana tão avassaladora. O fator de recuperação arcana de fato não era alto, mas era importante lembrar que a porcentagem se referia à quantidade total de mana. 33% de 15 era algo próximo de 5. Em outras palavras, Oliver recuperaria cerca de 5 pontos de mana por dia de descanso, o que já era bastante expressivo.
“O que está acontecendo?” Jonathan murmurou, sem conseguir desviar os olhos dos números. A expectativa de que Oliver tivesse uma reserva baixa acabara de ser destruída.
Oliver ouvira toda a explicação de Archibald sobre reservas de mana. Estava um pouco preocupado com a possibilidade de sua reserva ser insuficiente, mas, pelo visto, não teria de se preocupar com isso.
“Hmm… Mestre Archibald, tem algo de errado com esse valor?” A voz de Oliver soou cautelosa, quase como se temesse interromper o silêncio pesado que havia tomado a sala.
Ele entendia que se tratava de um valor alto, mas a reação de Archibald parecia exagerada demais. O homem continuava encarando os números projetados pelo cubo metálico sem piscar, como se o restante do mundo tivesse congelado por um instante. Só a pergunta de Oliver foi capaz de arrancá-lo do estupor.
“Errado? Isso está absolutamente errado! Ninguém deveria ter mais de 10 pontos! Não no 1º ciclo.” Archibald começou a roer as unhas, incapaz de decidir como proceder a partir dali.
Oliver franziu levemente a testa antes de insistir.
“Tem alguma chance de esse item mágico estar quebrado?”
“Impossível!” Archibald rebateu de imediato, baixando a mão só para apontar para o cubo. “Medir a quantidade de mana e o fator de recuperação arcana é uma tarefa simples. Além disso, eu já testei em mim mesmo e garanti que estivesse funcionando.”
Como o próprio Archibald disse, ninguém deveria ter mais de 10 pontos sendo um mago de 1º ciclo. Era simplesmente antinatural. Ainda assim, o processo de medição era simples demais para permitir algum erro, na prática, era quase impossível que o resultado estivesse errado.
Archibald permaneceu em silêncio, afundado nas possíveis implicações daquela informação.
Oliver pôde ver a alma do homem oscilar em diversas cores, com fortes tons de roxo se sobrepondo em várias nuances. Medo, dúvida, surpresa e incompreensão se misturavam ali de forma quase sufocante.
“Será que isso tem relação com o fato de eu ser um meio-elfo da alma?” A hipótese surgiu na mente de Oliver quase de imediato, mas ele simplesmente não tinha conhecimento suficiente para formular muitas explicações.
Desde seu renascimento, a única coisa que realmente o tornava especial naquele mundo era o fato de ser um meio-elfo da alma. É claro que ter a mente de um adulto no corpo de uma criança também fazia seu comportamento parecer peculiar aos olhos das outras pessoas, mas isso não tinha relação com o seu renascimento.
“Estão dispensados.” Archibald ergueu a mão, indicando com um gesto curto que Jonathan e Oliver fossem embora.
Oliver deixou a sala sem desviar os olhos da expressão do mago. A inquietação que vira no rosto de Archibald bastou para fazê-lo sair preocupado.
…
Durante a tarde, Oliver teria mais aulas, mas desta vez com outro tutor.
O velho mendigo Orson havia combinado com ele que as lições ocorreriam fora da cidade.
Ao adentrar a área mais externa da floresta, Oliver pôde avistar seu tutor e o cachorro Caramelo ao lado dele.
“Você veio… vamos começar. Sente-se.” Orson indicou um tronco caído ali perto, oferecendo-o como assento.
Oliver observou os arredores antes de se acomodar.
“O ambiente é realmente diferente da casa dos Venn, mas não desgosto disso.”
Assim que se sentou no banco improvisado, Caramelo veio prontamente em sua direção em busca de afagos.
Orson se acomodou com tranquilidade e lançou um olhar atento para Oliver.
“E então, garoto, tem alguma coisa que quer saber?”
Oliver tinha muitas dúvidas sobre o próprio homem, mas decidiu não tocar nesse assunto. Afinal, não sentia nenhuma má intenção vinda de Orson.
Erguendo os olhos para o velho, ele foi direto ao ponto.
“O que você sabe sobre elfos da alma?”
Orson coçou a barba antes de responder.
“Hmm… não tanto quanto você deve saber, eu acho.”
“Na realidade, eu não sei de muita coisa.” Oliver foi sincero, enquanto passava a mão sobre o pelo de Caramelo. “Eu posso ver almas e sentimentos. Minha intuição também é muito aguçada, mas só isso. Minha mãe também não parece saber de muita coisa.”
Ele omitiu de propósito o fato de o clã de Eliandris considerar elfos da alma seres amaldiçoados.
Orson soltou um breve resmungo pensativo antes de falar.
“Bom… sendo sincero, o que eu sei é que elfos da alma sempre têm cabelo roxo, possuem um talento excelente para magia da alma e a habilidade inata de enxergar almas.”
Oliver ficou um tanto surpreso. Não sabia que a cor roxa de seu cabelo vinha do fato de ser um elfo da alma, mas, olhando em retrospecto, isso fazia sentido. Ele já havia visto alguns elfos em Corval, e todos tinham cabelos loiros. Eliandris era a única elfa de cabelos roxos que Oliver conhecia.
“Muito bem.” Orson endireitou a postura, e até Caramelo pareceu se aquietar. “Vamos começar sua primeira lição. Hoje, quero que você entenda o conceito do que é uma alma.”
Oliver silenciou e prestou total atenção às palavras que Orson estava prestes a dizer.

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