XIV. A Dama do Bosque

A cabana estava com a luz acesa quando ele chegou.
Mara abriu a porta antes que ele batesse. Avaliou o estado dele num olhar — os olhos que não haviam descansado, a espada na cintura — e recuou para dentro sem dizer nada.
Lirien estava sentada à mesa com o livro fechado na frente.
Réu sentou. Mara pôs uma xícara à sua frente — chá simples, quente, sem os aromas das ervas medicinais.
Ele contou. A batalha, o padre no beco, a reunião na casa de Harwick, a acusação da manhã. A voz saiu calma porque estava cansado demais para qualquer outro registro, e às vezes o cansaço faz pela serenidade o que o esforço não consegue.
Mara ouviu sem interromper. Lirien também.
— Virão em um ou dois dias. Precisamos pensar no que fazer.
Quando ele terminou, ficou quieto por um momento. Depois disse:
— O padre morreu porque eu não fiquei.
Ninguém respondeu.
— Ele pediu para eu ficar. — A voz não embargou; havia passado por aquilo no beco e já estava seca. — Eu disse que havia pessoas na floresta que eu amava. Que meu lugar era com elas se o perigo chegasse. — Pausa. — E enquanto eu corria para cá, ele estava num beco com dois homens armados na frente de uma criança.
— Réu — disse Lirien.
— Eu podia ter feito mais. — Olhou para a xícara. — Eu podia ter sido mais rápido…
Lirien saiu da cadeira. Ficou de pé ao lado dele por um segundo, e então pôs a mão no seu ombro — firme, sem cerimônia. Réu ergueu o braço e cobriu a mão dela com a sua.
Ficaram assim.
Mara estava de pé na janela com a xícara nas mãos, de costas para os dois, olhando para a mata que estava clara lá fora.
— Vou à floresta — disse ela, depois de um tempo. — Preciso consultar algumas coisas.
— Agora? — disse Lirien.
— Antes que fique tarde demais para muita coisa. — Mara pegou a cesta. — Ficam aqui. Comem. Descansam.
Saiu. Os passos dela desapareceram entre as árvores com a rapidez de quem a floresta educou de volta.
· · ·
Lirien sentou do outro lado da mesa e ficou olhando para Réu.
— Come alguma coisa — disse ela.
— Não estou com fome.
— Não perguntei se estava.
Réu olhou para ela. Ela ergueu a sobrancelha.
Ele comeu.
Era pão de ontem com mel e um pedaço de queijo que Mara havia guardado num pano. O estômago aceitou com gratidão.
— Você está me olhando — disse Réu.
— Estou.
— Com aquele olhar de inventário.
— Verifico se há partes faltando. — Ela inclinou a cabeça. — Há?
— Todas presentes.
— Hm. — Passou os olhos por ele de forma clínica e deliberada. — O cotovelo direito está inchado.
— Levou um golpe.
— E a testa. Tem uma marca.
— Testa dura. Já foi pior.
— E o orgu— — ela parou.
— O orgulho?
— Nada.
Réu ficou parado.
— Não. Termina.
Ela fez a expressão de quem calcula se vale a pena continuar o que começou.
— O orgulho — disse ela — está intacto, a julgar pelo número de vezes que me olhou esperando algum comentário sobre o que fez.
— Não olhei assim.
— Olhou.
— Não olhei.
— Quatro vezes desde que entrou. — Ela levantou quatro dedos. — Contei.
Réu ficou quieto por um segundo. Depois colocou o pão na mesa.
— Você contou.
— Estou muito alerta esta manhã. — Ela tentou virar uma página do livro fechado, percebeu o absurdo do gesto, e olhou para a própria mão com uma expressão levemente incomodada.
— O livro está fechado — disse Réu.
— Está.
— Estava pensando em outra coisa.
— Estava.
Ela ergueu os olhos.
Réu estava sorrindo. Era um sorriso pequeno, o tipo que vem quando você está exausto demais para conter, e Lirien ficou olhando para ele por um segundo com a expressão que ele havia aprendido a reconhecer — irritação que não conseguia ser completamente irritação.
— Você está horrível — disse ela.
— Obrigado.
— Não era elogio.
— Eu sei. — Ele se levantou, foi até a janela, olhou para a mata. — Mas você disse. E eu aceito o que vier de você.
Lirien revirou os olhos com um sorriso. Então, levantou-se e foi em direção ao quarto.
— Venha. Durma um pouco.
— Não estou com sono.
— Eu não perguntei se estava. Venha.
Bufou, e foi.
· · ·
A tarde havia chegado e Mara não voltou.
Réu ficou na soleira, depois dentro, depois na soleira de novo. Lirien leu de verdade desta vez.
Quando o sol estava baixo, Réu pegou o archote.
— Vou ver onde ela está.
— Ela sempre demora.
— Está demorando mais do que sempre. E justo hoje não temos todo o tempo.
Lirien ergueu os olhos.
— Leva o arco — disse ela.
Ele pegou e saiu.
· · ·
O claro ficava a uns quinze minutos de caminhada. Mara frequentava desde que Réu se lembrava — uma abertura entre os pinheiros velhos onde a lua chegava de um jeito diferente quando crescente.
Encontrou-a lá.
Estava ajoelhada no centro da clareira, o rosto voltado para o céu que ainda era azul mas já cor de cobre nas bordas. As mãos abertas sobre os joelhos. Ao redor, plantas dispostas em padrão deliberado — ervas secas e ervas frescas, algumas queimadas no chão de barro. O cheiro era de terra e resina e alguma coisa mais funda que ele não sabia nomear.
Ficou parado na borda.
Havia coisas que pedem para ser observadas pelo tempo que levam.
Mara orava. Em silêncio. Ele pensava, pelo menos, pela forma como se portava.
Depois de um tempo, ela ergueu a cabeça.
— Como soubeste onde eu estava? — disse ela.
— A senhora me ensinou bem.
— Hm. — Ela começou a recolher as plantas com movimentos tranquilos. — Diz o que veio dizer.
— Vim verificar se estava bem.
— Estou.
— E perguntar uma coisa.
Mara parou com as mãos nas ervas.
— O padre Anselmo — disse Réu. — Antes de eu sair da Igreja ele disse para mandar um abraço para a dama do bosque. — Pausa. — Ele a conhecia. Sabia que a senhora estava aqui.
Mara ficou quieta.
— E nunca me disse. Em seis anos.
Ela recolheu as últimas ervas. Ficou de pé com a cesta no braço.
— Vamos andando.
· · ·
Andaram devagar. A mata foi ficando mais escura nas bordas e o archote de Réu iluminou os troncos mais próximos.
— Era um vilarejo — começou Mara, depois de um silêncio. — Menor do que Armois. Com um rio estreito na borda leste e campos de centeio do outro lado. Eu vivia lá com o meu marido e os meus filhos.
Réu não disse nada.
— Dois filhos. O mais velho tinha oito anos. O menor, quatro.
O archote crepitou.
— Chegaram de noite. Não sei quem eram; bárbaros, mercenários, não importa o nome. Meu marido morreu na rua antes de conseguir pegar a espada que guardava atrás da porta. Os meninos estavam dentro de casa quando começou o fogo. Quando cheguei, já era tarde demais.
A mata estava quieta.
— Eu fugi. — A voz não tremia; parecia acostumada com a história. — Fugi pela rua do fundo, entrei nos campos de centeio, fui correndo sem olhar para trás. Até que encontrei-a no meio da rua. Uma criança de três anos, de pé no meio daquilo, sem saber para onde ir. Peguei ela e corri.
Réu andava com os olhos no caminho à frente.
— Chegamos ao rio. Havia uma barca amarrada na margem; dos pescadores, pequena, velha. Entrei nela com Lirien. A corrente nos levou. — Ela olhou para o archote por um momento. — Fui no rio por dois dias. Não sabia remar, sabia só segurava Lirien e esperava a vontade da água. Quando a barca bateu nas pedras e virou, eu consegui chegar à margem com ela.
— E o padre a encontrou — previu Réu.
— Vinha pela beira do rio naquela manhã. A barca estava virada nas pedras, e eu estava sentada na margem com Lirien dormindo no colo, encharcada, sem ter para onde ir. — Pausa. — Ele me trouxe para dentro de uma caverna. Cuidou das feridas. Não fez perguntas enquanto eu não estava pronta para responder.
— E quando estava pronta?
— Pedi que não contasse a ninguém. — A voz ficou plana e honesta. — Tinha medo de que alguém ouvisse o que eu era, a mulher que escapou de um ataque, e decidisse que isso explicava alguma desgraça que havia acontecido por perto. — encolheu os ombros. — Anselmo prometeu. E cumpriu.
— Por isso a floresta — disse Réu.
— Sim. Ele perguntava, às vezes. Se eu não queria vir para a vila. Se não queria conhecer as pessoas. Eu dizia que não. — Ela o olhou. — Mas mandava coisas quando o inverno era longo. Lenha. Farinha. Nada que chamasse atenção. Suficiente para dizer que estava pensando.
Réu ficou quieto por um bom tempo, então teve uma iluminação. A barca.
— Está nos fundos do armazém. Debaixo de uma lona. — Ela respondeu como se previsse a pergunta. — Pus ela para fora da água naquele mesmo dia, antes que a corrente levasse.
— Está em condições de navegar?
— Está. Mas precisará de reparos menores e de suprimentos para os três. — Ela caminhou por mais alguns passos. — Estava esperando o momento certo para dizer.
— E o momento certo é agora.
— O momento certo — disse Mara — é quando não há mais outro.
· · ·
O armazém ficava num fundo da clareira que Réu havia achado que era só mato.
Mara levantou a lona com cuidado. O barco era pequeno — largo o suficiente para três pessoas, com a quilha remendada em dois lugares com madeira nova que contrastava com a velha. Os remos estavam guardados nos flancos.
Lirien havia seguido pela sombra até o celeiro, silenciosa. Ficou de pé ao lado de Réu olhando para o barco com uma expressão que continha muita coisa que ela não disse.
— É com ele que chegaremos ao outro lado — disse Mara. — Mas precisaremos de tempo. Para os reparos e para preparar o que levar.
— Quanto tempo? — perguntou Réu.
— Um ou dois dias.
— Gareth parte ou no dia seguinte.
— Sei. — Mara cobriu o barco de novo. — Por isso temos que agir rápido.

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