V. Jacques

O inverno chegou fundo e os templários chegaram junto.
Réu os viu de longe, de cima do muro que bordeava o pomar da Igreja. Eram seis — seis cavaleiros com as capas brancas e as cruzes vermelhas, montados em cavalos que faziam os da vila parecerem pôneis bem-alimentados mas sem ambição. Na frente vinha um homem que deveria ser o capitão: mais velho que os outros, com uma cicatriz branca descendo da sobrancelha esquerda até a linha do maxilar, e um jeito ereto de sentar na sela que dizia, sem arrogância mas sem sombra de dúvida, que havia passado mais tempo sobre cavalos do que sobre os próprios pés.
Réu desceu do muro tão rápido que arranhou os joelhos e correu para a entrada da Igreja antes que os cavaleiros chegassem. Teve tempo de entrar e se esconder atrás do confessionário antes de ouvir passos pesados de bota no chão de pedra.
O confessionário era de madeira velha com frestas entre as tábuas. Suficientes para ouvir. Quase suficientes para ver.
Padre Anselmo recebeu os homens com o cerimonial de sempre — bênçãos, reverências, a linguagem formal da Igreja que Réu havia aprendido a ignorar como ruído de fundo, porque nunca tinha nada nela que dissesse respeito a ele. Mas desta vez havia diferença. Desta vez os homens tinham algo urgente na postura, algo que o presbítero parecia reconhecer e não gostar.
Falaram de Roma. De um novo papa cujos decretos estavam chegando às comunidades com a velocidade e a imprecisão de rumores antes de chegarem na forma oficial de documentos. Falaram de tensões dentro da Ordem — palavras cautelosas, medidas, de quem se preocupa com os ouvidos nas paredes. Falaram de demônios.
— Há relatos — sussurrou o capitão, baixo mas audível pelas frestas do confessionário — de atividade não natural nos vilarejos ao norte. Mulheres que praticam artes. Homens que dão ouvidos a elas.
— Não ouseis questionar o papa — interrompeu o padre Anselmo, com uma firmeza que Réu raramente ouvia naquela voz. — Não enquanto estiverdes sob este teto.
Houve um silêncio pesado.
— Com todo respeito, padre — disse o capitão, depois de um momento —, não questionamos. Reportamos.
— Reportar à Igreja é uma coisa — disse o padre. — Caça é outra.
Outro silêncio. Depois o capitão disse, com voz cuidadosa:
— Certamente, padre. Agradecemos pela sabedoria.
Os homens se prepararam para ir. Réu, que havia estado tão absorto no que ouvia que esquecera onde estava e para que servia um esconderijo, se mexeu para ver melhor — e derrubou o suporte de vela que ficava encostado no confessionário.
O barulho foi considerável.
Dois dos cavaleiros sacaram espadas com uma velocidade que fez Réu compreender, de forma muito concreta, o que significava reflexo treinado. Ele foi pego pelo pescoço antes de poder abrir a boca — um dos homens o levantou com um braço, com a facilidade de quem levanta um gato, e o outro encostou a ponta da espada em sua barriga com uma precisão ansiosa.
O capitão apareceu à frente. Olhou para Réu com aquele jeito avaliativo que bons comandantes têm — não julgando o que o homem era, mas o que o homem poderia ser.
Anselmo chegou branco como cal.
— É um dos meninos da Igreja — disse Anselmo, apertando as mãos uma na outra. — Ele admira muito os senhores cavaleiros. Sempre foi assim, desde pequeno. É levado — e aqui o padre lançou a Réu um olhar que era reprovação e afeto ao mesmo tempo. — mas é bom rapaz. Por favor.
O capitão — Jacques, Réu ouviria o nome mais tarde — ficou olhando por um momento. Então um canto de sua boca se moveu.
— Pés leves como os de uma dançarina — disse ele — mas o juízo curioso e perturbado de um poeta.
Ele fez um gesto. O cavaleiro soltou Réu, que caiu de pé mas com os joelhos pouco confiáveis. A espada foi embora.
— Acaso tiveres tanto talento com espadas quanto tens em ser enxerido — zombou Jacques, e havia algo em seu queixo erguido que não era exatamente simpatia mas também não era desumanidade —, talvez possas se tornar um de nós algum dia.
— Um herói? — Os olhos do moleque brilhavam com a suposição.
O soldado pareceu pego de surpresa pela sugestão de modo que não pôde evitar de sorrir.
— Sim. Podes dizer que sim.
Um dos outros cavaleiros protestou, olhando para o capitão com uma sobrancelha levantada.
— É seguro deixar isso assim, capitão?
— O susto foi suficiente — decretou Jacques.
E afagou o cabelo de Réu.
Foi um gesto rápido, quase distraído, como quando o corpo faz o movimento antes que a cabeça pese a decisão. A mão grande pesou sobre o cabelo bagunçado de Réu por meio segundo, e depois foi embora.
Réu ficou parado. Os cavaleiros saíram. O padre ficou olhando para ele com uma expressão que era exaustão e alívio e aquela mistura de amor complicado que é o que resta quando alguém nos assusta o suficiente.
— Não contes a ninguém — disse o padre, finalmente. — O que ouviste, o que aconteceu. A ninguém.
— Sim, padre — disse Réu.
O padre estendeu a mão e colocou no ombro de Réu. Desta vez Réu não a empurrou.
Naquela noite, na cabana da floresta, Réu contou tudo para Lirien enquanto Mara trabalhava lá fora com suas ervas. As palavras saíam rápidas, atropeladas, com aquela energia de quem guardou a coisa tempo demais. Ele descreveu as armaduras, a rapidez das espadas, a cicatriz de Jacques, o jeito como o capitão o havia olhado — avaliando, pesando, e não achando impossível o que via.
Lirien o ouviu com atenção. Quando ele terminou, ela disse:
— Como podes ficar tão admirado por homens que te ameaçaram degolar?
— Eles eram fortes — disse Réu. — Capazes. Heróicos.
— Heróicos? — Ela inclinou a cabeça como se a palavra tivesse chegado numa língua que ela conhecia mas não usava com frequência. — Eles te pegaram pelo pescoço.
— Por engano.
— Por reflexo — corrigiu ela. — O que é pior. Significa que fazem isso sem pensar.
Réu quis argumentar, mas naquele momento Mara entrou com a trouxa de ervas e perguntou, com aquele jeito de ter ouvido palavras à distância sem ter ouvido a conversa:
— De que falavam os cavaleiros com o padre?
Réu repetiu o que havia conseguido entender pelas frestas. Mara ouviu sem interromper. No final ficou quieta por um momento, olhando para nenhum lugar específico com aquela expressão que Réu havia aprendido a reconhecer — não preocupação exatamente, mas o precursor dela, o momento em que a mente examina as possibilidades e começa a separar as boas das ruins.
— Tem algum problema? — perguntou Réu.
Mara ergueu os olhos. Sorriu com o calor específico que reservava para quando queria que ele parasse de fazer perguntas.
— Nada, querido — disse ela.
Réu acreditou porque queria acreditar. Mas notou que Lirien, do outro lado da mesa, tinha ficado muito quieta.

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