O outono trouxe Réu de volta à vila com dezoito anos nos ombros e peles de animal no dorso.

    Trazia carcaças e couros para vender — resultado de semanas de caça na mata, trabalho que havia aprendido por necessidade e que agora era a moeda que pagava sal, fio, ferramentas. Entrou em Armois pelo caminho de baixo, o que passava pelo mercado, e notou que a vila havia crescido um pouco — uma fileira nova de casas no lado leste, um segundo ferreiro onde antes havia um terreno baldio, mais rostos que ele não reconhecia do que rostos que reconhecia.

    Havia também mais guardas. Dois postados na entrada principal, outros dois rondando o perímetro das muralhas com o passo medido de quem faz isso todo dia. As consequências da reunião de Harwick no verão.

    Foi no mercado que encontrou os quatro.

    Estavam juntos, como sempre haviam estado, mas eram diferentes. Mais velhos, mais contidos, com menos da leveza ruim da juventude nos ombros. Vestiam roupas comuns, de trabalho. Gareth foi o primeiro a vê-lo.

    Ficaram se olhando por um momento.

    Depois Gareth caminhou em sua direção.

    Réu ficou parado, avaliando, o treinamento havia tornado aquilo hábito.

    — Réu — Gareth estendeu a mão.

    O rapaz olhou para a mão. Depois olhou para o rosto dele.

    — Queria te agradecer — continuou o outro, sem desviar o olhar. — Pelo que fez naquela tarde.

    — Não fiz nada de útil naquela tarde.

    — Fez. — Gareth manteve a mão estendida. — Se não tivesses entrado por aquela porta e quebrado o meu nariz, a gente teria cometido um erro do qual jamais mais se livraria. — Uma pausa. — Uma tragédia terrível.

    Os olhos do garoto desconfiado foram de encontro aos outros membros do grupo de Gareth. Luke parecia envergonhado, de olhos curvados e lábios apertados. Frank, cabisbaixo, suspirava de vez em vez, como que relembrando o dia fatídico em um clima de luto. Phillip encarava-o definidamente, e ao encontro de seus olhares, acenou em agradecimento.

    Réu ficou quieto por um momento. Lembrou-se da voz de Mara — não apenas aqueles que amas, mas a todos. Lembrou-se do padre dizendo que todos mereciam uma segunda chance, que era nisso que se baseava qualquer fé que valesse alguma coisa.

    Apertou a mão de Gareth.

    — Boa sorte — disse Réu.

    — E a você — completou Gareth.

    Seguiu para a Igreja.

    As conversas dos transeuntes traziam com o ar morto do outono as notícias mais vívidas. Os templários estavam de volta à vila. Mais numerosos e ornamentados.

    Chegou no momento errado, ou no momento certo, dependendo de como se olhava. Os templários estavam saindo da Igreja — um grupo menor que o da primeira vez, quatro homens com trajes mais pesados em joias que em placas. À frente vinha um rosto que Réu reconheceu com um esforço: o antigo vice-capitão de Jacques, anos mais velho agora, mais pomposo.

    O homem saiu pela porta sem olhar para frente.

    O encontro foi violento na medida exata do descaso — o ombro do vice-capitão acertou Réu com força suficiente para derrubá-lo, e o homem seguiu três passos antes de virar. Olhou para Réu no chão.

    Não foi acidente. Réu havia aprendido a distinguir acidente de mensagem, e o olhar que ele recebeu carregava a mensagem.

    Sem uma palavra, virou de costas e foi embora.

    Entrou na Igreja. O padre Anselmo estava no altar com o rosto nas mãos, a postura de quem está rezando mas que também poderia ser a de quem está segurando alguma coisa para não despedaçar. Quando ouviu os passos de Réu, levantou o rosto depressa demais.

    A expressão que passou pelo rosto do padre ao ver Réu foi complexa. Alívio. Preocupação. Medo.

    O padre se levantou e atravessou a nave em passos rápidos que nunca eram rápidos naquela idade. Abraçou Réu com a força surpreendente dos velhos que guardaram energia para os momentos que importam.

    — Rezei para que estivesses bem — disse Anselmo, com a voz baixa. — Para a Deus e todos os santos.

    — Estou bem — disse Réu. — O que aconteceu?

    O padre se afastou. Olhou para ele como quem não sabia por onde começar.

    — Para de ir à floresta — disse Anselmo. — Por algum tempo. Fica na vila. Comigo.

    — Padre. O que está acontecendo?

    — Tempos sombrios virão — disse o velho. — Há coisas que não posso te dizer. Mas peço-te que tenhas cuidado. Muito cuidado.

    Réu olhou para o altar. Em cima do púlpito, onde geralmente ficava a Bíblia encadernada em couro, havia outro livro. Mais novo, de encadernação mais firme.

    Malleus Maleficarum.

    Réu sabia o que era. O Martelo das Bruxas — havia ouvido o nome em conversas de adultos que se interrompiam quando crianças chegavam perto. Era o manual da Inquisição. O livro que ensinava como reconhecer, capturar, julgar e eliminar praticantes de feitiçaria.

    O estômago ficou frio e pesado.

    — Padre — disse ele, devagar. — Por que os cavaleiros estavam aqui?

    — Não posso revelar.

    — Os mesmos que vieram antes? Sobre os demônios?

    — Réu — o padre o olhou com uma urgência que havia muito não via naqueles olhos. — Fica aqui. Dorme aqui esta noite.

    — Não posso.

    — Filho —

    — Não posso — repetiu Réu, com paciência enervante. — Há pessoas na floresta que eu amo. Se algo ruim está vindo, o lugar onde preciso estar é com elas.

    O padre ficou de pé na nave com um rosto apertado e envelhecido.

    — Deus traz os tempos difíceis — disse Réu — para que seus homens mostrem que são capazes de enfrentá-los. O senhor mesmo me ensinou isso. Estou mais forte agora. E essa força não foi dada para que eu a guardasse.

    Anselmo olhou para ele por um longo momento. Depois assentiu, com o suspiro do velho que reconhece que já não há como reter a maré.

    — Então sê cauteloso — disse o padre. — A vila tem guardas agora, e mais virão se o perigo aumentar. Mas a floresta não tem ninguém — e é por isso que precisas estar lá quando a situação piorar, não cá. — Pausa. — Evita ir e vir com frequência. Pelo teu bem e pelo bem dos que estão contigo.

    Réu apertou a mão do padre. O padre a apertou de volta, forte.

    O rapaz saiu da Igreja com a mente já na floresta.

    Foi então que ouviu seu nome vindo de dentro da ferraria nova.

    Clint — que já não era menino, tinha os braços de quem bate em ferro o dia inteiro e um bigode que não era de leite sobre os lábios — apareceu na soleira com o avental de couro e um sorriso que não havia mudado desde os tempos da Igreja.

    — Sabia que apareceria hoje, seu canalha que não fala com os amigos — disse ele. — Entra.

    A ferraria cheirava a carvão e metal quente. No canto, apoiada contra a bancada e embrulhada em estopa grossa, havia uma forma comprida que Clint pegou com os dois braços e estendeu para Réu.

    — Fiz para você — disse ele, simplesmente.

    Réu desenrolou a estopa.

    Era uma espada. Não ornamentada, não nobre — mas boa, com o equilíbrio cuidadoso, o fio limpo e a guarda simples em cruz com o acabamento de quem ainda estava aprendendo mas tentava com seriedade.

    — Você não tinha que…

    — No dia que atacaram Adrien — interrompeu Clint, encostando na bancada com os braços cruzados. — Podia ter ido eu mesmo. Mas tive medo. — Ele encolheu os ombros. — Medo de apanhar, de ser derrubado, de ser incapaz de salvá-la. Eu sabia que você não teria.

    Réu passou o polegar pelo fio com cuidado. Sentiu o peso dela na mão — real, equilibrado, diferente de tudo que havia segurado antes.

    — Obrigado — disse ele.

    Clint assentiu de forma seca e um pouco encabulada.

    — Agora escafedasse antes que o velho Gosse descubra que eu desperdicei seu ferro com um imprestável como você.

    Réu o abraçou uma última vez e se despediu. Encontrou amigos de infância pelo caminho, disse que não poderia ficar, que tinha coisas a resolver, deu-lhes poucas palavras.

    Adrien estava perto da fonte. Ela merecia mais do que poucas palavras.

    Tinha o hábito agora de usar um véu simples sobre os cabelos e o jeito de se mover de quem encontrou um chão firme onde antes havia terreno instável. Ela o viu chegar e foi ao seu encontro com um sorriso diferente do que ele havia deixado para trás.

    Ele a abraçou. Ela prendeu o rosto no ombro dele.

    Quando se separaram, ela tinha os olhos molhados.

    — Vou te ver de novo? — perguntou ela.

    — Não sei — disse Réu. — Honestamente, não sei.

    Adrien assentiu, enxugando com as costas da mão.

    — Quero te agradecer — disse ela. — Por tudo. Pelo que fez naquela tarde, e por ter sido quem foi durante todo esse tempo. Você me ajudou a encontrar o que eu precisava encontrar.

    — O quê?

    — Que podia amar Deus sem ter medo dele. — Ela sorriu. — Foi vendo você que aprendi isso. Alguém que acredita em algo e luta por isso mesmo que os outros digam não.

    Réu ficou sem resposta por um momento.

    — Ainda te amo — disse Adrien. — Mas agora é diferente. É como se ama um irmão.

    Ele sorriu. E era um sorriso verdadeiro.

    — Fico feliz por você, Adrien.

    Ela o abraçou de novo, mais rápido desta vez. Depois se afastou e ficou de pé enquanto ele se virava para ir, com um sorriso curto no rosto.

    — Espere. — Ela chamou mais uma vez e, quando ele se virou, a moça tirava algo da cintura.

    Em silêncio, ela se aproximou e ergueu ambos os braços em direção ao rosto dele. Vendo como ela não o alcançava, agachou. Ela pôs o colar em volta do pescoço do rapaz e o ajeitou.

    Réu levou a mão ao peito, onde o pingente repousava. Era um terço feito com contas de madeira negra e um crucifixo com Cristo entalhado. O jovem sentiu o peso daquilo e ergueu os olhos apertados para Adrien como se questionasse sua convicção em dar-lhe aquilo.

    A garota acenou com um sorriso contente, e ele se deu por satisfeito.

    Réu saiu pela estrada de baixo, de volta para a mata. Não olhou para trás. Mas sabia que ela estava olhando, e isso era suficiente.

    Era o fim da tarde, com o sol baixo e vermelho nas costas. A vila ficou para trás. Na frente, a mata. Na mata, a cabana. Na cabana, Mara com seus chás e seus conhecimentos impossíveis e aquele sorriso misterioso. E Lirien, com o livro no colo e os olhos grandes e a lua chegando pelo vão das árvores.

    Família.

    Não escolheu. Foi escolhido. É como as melhores famílias chegam.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota