VII. Adrien

A primavera chegou e com ela a vila voltou a existir com mais volume — portas abertas, crianças na rua, o mercado semanal enchendo a praça de barulho e cheiro de especiaria e couro fresco. Uma promessa jazia no ar, uma que não era novidade para ninguém pois Réu não permitia que fosse.
Logo, o rapaz completaria 15 anos. Seria um moço. Teria a força de um homem, a energia de um jovem e a vontade de um herói. Sonhava em se alistar, não sabia como ou onde, mas achava que seria o tempo certo.
A imagem daquele conselho de guerra dos grandes homens que presenciou tempos atrás ainda preenchiam sua mente. Quando seria ele num dos lugares daquela mesa?
Foi quando ouviu o barulho de uma corrida exasperada. Clint vinha até ele com o rosto vermelho.
—- O que há Clint?
— Adrien — ofegou. — Gareth e os outros pegaram ela. Levaram para a casa abandonada do ferreiro velho.
Réu sentiu o estômago virar.
— Avisa o padre — bradou.
E correu.
· · ·
— Não precisas ter medo de mim — Gareth murmurou, baixo, manso e ameaçador. — Sabes quem é meu pai? O herói de Armois. O homem que limpa essas terras de cultistas e pagãos há anos. — Uma pausa calculada. — Sou filho desse homem. Posso fazer-te muito feliz.
Adrien tremia com toda a superfície de seu corpo pressionada contra a parede atrás de si.
— Olha para mim — disse Gareth.
Ela manteve o rosto baixo e os olhos crivados. Convencia-se de que se forçasse as pálpebras o suficiente, a realidade desapareceria.
Gareth gargalhou e encarou Phillip e Luke sobre os ombros, divertindo-se. Frank estava mais ao lado, inquieto, mas inerte.
— Não sejas assim. — A voz ficou mais próxima. — Só quero conversar.
Um estrondo atrás fê-lo sobressaltar.
A madeira da porta cedeu com um estralo e um garoto entrou na casa respirando fundo e varrendo a cena com os olhos num instante. Adrien encostada na parede do fundo, os braços cruzados sobre o peito, os olhos fechados; Gareth à sua frente, a mão no queixo dela de um modo que parecia prestes a descer; os três outros espalhados pela sala.
Gareth virou-se devagar.
— Olha só quem chegou.
Réu avançou sem responder.
O primeiro soco acertou Gareth no nariz com o estalo seco e satisfatório de cartilagem cedendo. O valentão rosnou, recuou dois passos com as mãos no rosto e o sangue escorrendo entre os dedos.
Então os outros três chegaram ao mesmo tempo.
Luke travou o braço de Réu por trás. Phillip veio de frente com dois socos rápidos no abdômen, como eles sempre faziam. Réu dobrou, tentou se soltar, usou o cotovelo para trás e acertou Luke no queixo — o suficiente para ganhar meio segundo, que não era o suficiente para escapar. Frank tomou o espaço deixado pelo colega e, sendo mais pesado, conseguiu rendê-lo sem espaços para novas cotoveladas.
Como um urso, Frank ergueu Réu do chão feito um boneco e o lançou contra a lama. O garoto se espatifou a ponto de sentir voltar a falta de ar que não o visitava há eras.
Phillip se sentou nas suas costas com o joelho encostado entre as omoplatas.
Réu rangeu os dentes contra o barro e superventilava. Ouviu Gareth se levantando, os passos arrastados se aproximaram de Adrien de novo, o sangue pingando do nariz partido no chão de terra batida.
— Seu pai ficaria orgulhoso — Réu cuspiu do chão.
Gareth parou.
— Cala a boca.
— Filho do herói de Armois, usando quatro homens para intimidar uma garota sozinha.
— EU DISSE CALA A BOCA.
Foi quando Adrien se mexeu.
Ela se jogou contra Luke, que estava ao lado dela, com todo o peso que tinha — que não era muito, mas era suficiente para desequilibrá-lo. Depois foi para Phillip, arranhando, puxando, tentando tirá-lo das costas de Réu com as mãos pequenas. Phillip a empurrou para o lado sem dificuldade, mas o segundo de distração foi o suficiente para Réu virar sob ele e ganhar os joelhos.
Mas isso foi tudo.
Phillip voltou, Luke chegou pelo outro lado. Réu recebeu um golpe na têmpora que deixou o mundo tilintando, e então estava no chão de novo, desta vez com a bochecha na terra e o nariz sangrando.
Gareth limpou o sangue do próprio nariz com o dorso da mão e se virou para Adrien.
A porta explodiu para dentro pela segunda vez naquela tarde.
O padre Anselmo tinha setenta e dois anos e nunca havia parecido velho até aquele momento. Mas quando entrou com o rosto que ele fazia quando a paciência havia acabado por completo — pior que a raiva era o peso de toda uma vida de fé posta a serviço da decência —, ele pareceu maior do que os um metro e setenta que tinha.
Gareth ficou parado como se houvesse sido acertado.
O padre pegou Gareth pela orelha.
Depois pegou Phillip pela orelha, com a outra mão.
E os levou para fora.
Réu ficou no chão por um momento. Adrien se aproximou e agachou ao lado dele. Tinha uma marca vermelha no queixo onde Gareth havia posto a mão, e os olhos que ainda não haviam secado completamente.
Ela estendeu a mão.
Réu olhou para a mão. Depois para ela. Então se levantou sozinho, virou de costas, e foi embora sem dizer nada.
Caminhou. Mas chegou à floresta antes que o sol descesse completamente, e andou entre as árvores sem destino por um tempo que não mediu, até que as pernas pararam de funcionar com aquela energia nervosa e ficaram só cansadas.
Chorou.
Mara o encontrou numa clareira, sentado na raiz de uma árvore velha, já sem lágrimas mas com a exaustão que fica depois delas.
Ela sentou ao lado. Em silêncio por um bom tempo.
— Quero ser um herói — declarou Réu, finalmente.
Mara não respondeu imediatamente.
— Preciso ficar mais forte — continuou ele. — Para defender as pessoas que amo.
— Um herói — disse ela, devagar, como se pesasse cada sílaba — não defende apenas aqueles que ama, querido.
Réu a olhou.
— Um herói defende a todos.
Os olhos de Réu se abriram um pouco mais e mostraram um brilho jovem e adormecido. Mara o olhou de volta. Havia uma pergunta na expressão dela.
— É isso mesmo que você quer?
— Sim — disse o menino. Os olhos ardiam, não mais de choro. — Sim, é isso.
Mara ficou quieta por um momento. Depois assentiu, com uma lentidão sopesada.
— Então começamos amanhã — declarou ela.

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