XIII. O Amanhecer

A luz chegou cinza pela janela da casa de Harwick antes de qualquer um estar pronto para recebê-la.
Gareth estava de pé. Luke e Frank tinham adormecido nas cadeiras — Frank com o queixo no peito, Luke com os braços cruzados e a cabeça inclinada para o lado. Phillip não havia voltado da praça. Réu não perguntou.
Réu não havia dormido.
Ficou encostado na parede com os braços cruzados enquanto a noite passava. O barulho da vila foi se apagando por fora em etapas; primeiro os gritos distantes, depois os passos, depois o silêncio pesado.
Com a primeira luz, Gareth bateu a palma na mesa.
Luke acordou. Frank levou mais tempo, e quando acordou ficou sentado com os olhos semiabertos por um momento antes de lembrar onde estava.
— É hora — disse Gareth.
— Ninguém descansou direito, Gareth — disse Réu.
— Dormi. — O outro o fitou. — E você?
Réu não respondeu.
— Não temos condições de ir à floresta agora. — Frank disse isso com a voz rouca e direta de quem sabe que ninguém quer ouvir mas fala mesmo assim. — Nenhum de nós. Entrarmos num terreno que não conhecemos, cansados, feridos, com dois homens a menos. É buscar mais mortes.
— Meu pai está morto — disse Gareth.
— Eu sei. — Frank sustentou. — E exatamente por isso não podemos fazer isso mal feito.
Gareth ficou de pé no centro da sala com aquela imobilidade que precede ou a violência ou a resignação. Luke olhou para o próprio colo. Frank esperou.
Por fim, Gareth foi até a janela.
— À tarde — disse ele.
Réu abriu a boca.
— Talvez valha a pena esperar as ordens de Londres…
Gareth socou o batente da janela.
— Você. — ele pareceu se lembrar de algo. — Você vivia correndo para dentro daquela floresta. — Avançou um passo. — O que tem lá?
— Nada.
— Você desaparecia semanas. Passava noites e dias lá. — A voz baixou. — Aqueles malditos disseram que tem algo lá que os protege. E você quer que a gente espere, descanse, que não tenha pressa.
— Gareth — disse Frank.
— Gareth — disse Frank.
— CALA A BOCA, FRANK! — não tirou os olhos de Réu. — E você. — abaixou o tom para um sussurro. — Não tens o direito de falar nada sobre esperar. Sobre calma. Sobre o que é certo fazer.
— Nunca vai entender o que é perder um pai. — As palavras saíram devagar. — Nunca.
Réu apertou o punho. Sentiu vontade de erguê-lo naquele momento. De mostrar para ele o que havia aprendido nos últimos anos em primeira mão. De por tudo a perder.
Todos ficaram quietos por um instante em que apenas a respiração pesada e descompassada de Gareth reinava no cômodo. Em algum momento, a voz ficou baixa, quase para si, e ele murmurou:
— O coração negro da floresta. Eu matarei todos naquele lugar. Toda maldita alma que se encontrar sob a sombra de uma árvore. O julgamento do Senhor há de chegar e será pela lâmina da minha espada.
— Acalme-se, Gareth. — Réu tinha os olhos crivados e os dedos apertados, mas escondidos.
— Eu estou calmo. — Gareth ficou parado por um segundo mais longo do que confortável. — Muito mais do que deveria.
Frank se levantou e pôs a mão no braço de Gareth, firme mas sem pressa.
— Um dia — repetiu ele. — Teremos uma resposta de Londres sobre o apoio. Só precisamos esperar. Um dia, no máximo dois. Então, agimos, independente de resposta.
Gareth ficou imóvel por mais um momento. Depois voltou para o quarto sem bater a porta.
Luke fechou os olhos de novo. Frank sentou, olhou para Réu por um segundo, e não disse mais nada.
· · ·
Réu esperou.
Esperou até Luke voltar a respirar fundo. Até Frank parar de mudar de posição e encarar a parede. Até o sol subir o suficiente para que a rua lá fora tivesse movimento — os primeiros passos, a voz do vendedor de pão, a discussão sobre a reconstrução.
Levantou sem fazer barulho e saiu pela porta dos fundos.
· · ·
A Igreja estava aberta.
Havia gente dentro — as mulheres que organizam o que se pode organizar depois de uma noite assim, os que haviam perdido alguém e ainda não sabiam onde colocar isso. O seminarista jovem estava no altar com os olhos fechados e a boca se movendo.
Clint estava num banco do canto, o martelo atravessado no colo, o corte no rosto já limpo mas ainda vermelho. Olhava para o altar.
Réu sentou ao lado.
Ficaram quietos. Era uma competência que haviam desenvolvido juntos.
— Vai embora — Clint constatou, como se fosse óbvio.
— Sim.
— Para longe.
— Sim.
Clint assentiu devagar, os olhos ainda no altar.
— Você volta?
— Dificilmente.
— Então vai logo.
Réu ficou de pé. Ficou parado por um segundo ao lado do banco, olhando para o perfil do amigo — o martelo no colo, o corte que viria a ser cicatriz, a postura ereta com ombros caídos.
Clint estendeu a mão sem olhar. Réu a apertou.
— Você foi lá primeiro — disse Réu. — Naquela noite. Com o martelo e a tampa de barril.
— Fui — disse Clint. — Finalmente.
— Não conta a ninguém. Sobre a floresta. Para onde fui.
Clint ergueu os olhos então. Olhou para Réu por um momento com o olhar longo de quem está guardando uma imagem.
— Pode deixar — disse ele.
Réu foi embora.
· · ·
Adrien estava na soleira, com a cesta no braço e o véu sobre os cabelos. Ela o viu chegar e ficou parada.
Réu parou na frente dela.
Ficaram assim por um segundo — os dois com o peso da noite que havia passado.
— Cuida das crianças — disse ele.
— Sempre.
— Do padre jovem também. Vai precisar de ajuda nos primeiros meses.
— Eu sei — disse ela.
Réu abriu a boca outra vez, mas as palavras pareceram pesar sobre a língua, e não saíram.
— Não me diga adeus de novo. — Ela o olhou. — Você voltou da última, e voltará dessa também.
Réu não tinha certeza.
Ela desceu um degrau e o abraçou. Rápido, firme, com os dois braços e o rosto no ombro dele. Réu ficou quieto com os braços em volta dela por um momento — o peso da cesta que ela ainda segurava, o véu simples contra a sua orelha.
Quando ela se afastou, tinha os olhos secos.
— Que Deus o acompanhe.
· · ·
A cabana estava com a luz acesa quando ele chegou.
Mara abriu a porta antes que ele batesse, já o esperava. Avaliou o estado dele num olhar — os olhos que não haviam descansado, a espada na cintura — e recuou para dentro sem dizer nada.
Lirien estava sentada à mesa com o livro fechado na frente. Réu sentou.

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