VIII. O Treinamento

Primeiro veio o arco.
Mara tinha um arco longo guardado num canto do quarto dos fundos, envolto em couro oleado, que Réu nunca havia perguntado de onde vinha. Era um arco bom — ele percebia isso mesmo sem experiência nenhuma, pelo jeito como a madeira curvava, pela textura da corda de tripa. Mara o ensinou a ficar parado primeiro.
— Antes de atirar, aprende a ficar parado — disse ela. — Antes de ficar parado, aprende a respirar.
Réu quis dizer que o problema era justamente a respiração.
— Você nada todo dia agora — disse ela, como se ele tivesse falado em voz alta. — A asma melhorou. Você sabe que melhorou. Usa isso.
Aprender a atirar levou semanas de humilhação gradativa. As primeiras flechas foram em direções que tinham apenas relação casual com o alvo. Depois ficaram mais próximas. Depois começaram a acertar. Havia algo no arco que Réu não havia esperado — uma conversa entre o atirador e o momento, uma paciência que a espada nunca havia pedido dele.
Lirien assistia ao treinamento do mesmo jeito que assistia a tudo — do canto, com o livro no colo que ela fingia estar lendo. Réu percebeu cedo que as páginas não viravam com frequência suficiente para estar de fato lendo. Não comentou. Era agradável ser observado por alguém que não esperava que você falhasse.
— Você sempre toca o lóbulo da orelha antes de soltar — disse ela, numa tarde.
Réu abaixou o arco.
— O quê?
— A orelha direita. Antes de soltar a flecha. — Ela fez o gesto sem tirar os olhos do livro. — Toda vez.
Réu ficou parado por um segundo. Tentou atirar de novo sem fazer isso. A flecha foi torta.
— Viu? — disse Lirien.
— Não ajudou.
— Eu sei. — Ela finalmente virou a página. — Só estava observando.
Os pesos vieram a seguir. Pedras amarradas com corda, troncos carregados morro acima, água transportada em baldes de um lado para outro até que os ombros queimassem. Mara era uma instrutora de poucas palavras e muita expectativa, o tipo que nunca dizia bom trabalho mas também nunca dizia chega, e Réu aprendeu a ler o progresso na ausência de crítica.
A natação continuou. O rio atrás da cabana era mais calmo e mais largo do que o da vila, com trechos de corrente e trechos parados, e Réu nadava todos os dias ao amanhecer. Lirien aparecia às vezes sentada na margem com os joelhos dobrados e os pés na água, o cabelo ruivo ainda despenteado do sono, sem dizer nada por longos períodos. Ele não pedia que fosse embora. Ela não perguntava se incomodava.
Era uma companhia diferente de qualquer outra que Réu havia tido. Não exigia nada. Não esperava conversa quando ele não queria conversar. Mas quando falava, dizia coisas que ficavam.
Numa manhã, enquanto ele saía do rio e ela continuava com os pés na água, ela perguntou:
— Como é a vila?
— Barulhenta — disse Réu, sacudindo a água do cabelo.
— Barulhenta como?
Ele pensou por um segundo.
— Pessoas que se conhecem há toda a vida e ainda assim precisam gritar para se fazer ouvir. — Pausa. — Parecem estar brigando o tempo todo, ou disputando para ver quem grita mais alto. Eu sempre ganho.
Lirien ficou olhando para a água por um tempo.
— Aqui é diferente — disse ela. — Às vezes fico dias sem falar uma palavra e ouvir qualquer coisa além da mãe e não sinto falta de mais. — Uma pausa. — Mas às vezes fico olhando para a beira da floresta e imagino o que há do outro lado.
— Gado — disse Réu. — Mercado. Brigas de cachorro.
Ela riu. Era um riso curto, surpreso, como de quem não esperava rir.
— Você tornou a vila muito atraente.
Réu não disse nada. Mas olhou para o riso por um segundo mais do que precisava.
· · ·
As semanas foram passando com a rapidez de dias cheios, e Réu foi deixando de contar o tempo que passava na floresta em relação ao que passava na vila. A proporção foi mudando sem que ele decidisse mudar — havia sempre mais uma coisa para aprender, mais um exercício para refazer, mais uma tarde que começava com treino e terminava com os três sentados em volta do fogo enquanto Mara falava de ervas ou de estrelas ou de coisas que Réu não havia aprendido em nenhum outro lugar.
Havia também Lirien.
Não entendia bem. Havia ela do jeito que havia o rio e a floresta e o cheiro de ervas no teto da cabana — presente, parte do lugar, que faz falta quando separado do resto.
Mas havia momentos.
O momento em que ela passou por trás dele enquanto ele trabalhava com a espada e o corrigiu sem pedir licença, ajustando o ângulo do cotovelo com os dois dedos como se não percebesse que era um toque.
O momento em que ele acordou tarde numa manhã chuvosa e a encontrou na soleira com dois copos de chá, um estendido para ele sem que ele precisasse pedir.
O momento em que discutiram — de verdade, com voz levantada, sobre se a floresta era ou não um lugar seguro para se viver sozinho — e ela o olhou com tanta raiva que ficou bonita de um jeito que ele achou inconveniente.
Não eram coisas que ele dizia em voz alta. E quando se via dizendo em voz baixa, rechaçava com toda a força e vergonha que sentia em cada um de seus músculos.
· · ·
A espada voltou por último. Mara disse que força e capacidade física não eram suficientes — que um guerreiro que só sabia bater era uma ferramenta, não um herói.
— Um guerreiro precisa de desafios reais — disse ela. — De inimigos que testem o corpo, mas também o juízo.
Então apresentou o chá.
Era escuro, cheirava a terra e a alguma coisa resinosa que Réu não sabia nomear. Mara disse que eram ervas da floresta, que faria com que ele sentisse uma conexão maior com a natureza, que veria as coisas mais claramente.
Réu bebeu.
Duvidou dos efeitos por alguns minutos — até o mundo dobrar suavemente e se reconfigurar em algo que tinha as texturas certas mas as proporções erradas. Entre as árvores, figuras começaram a se mover. Um gigante com um olho único. Um ser com pele cinza e dentes como pedras. Uma coisa com asas de pele e voz como um gargarejo engasgado.
O medo chegou como fio de gelo pela espinha.
Réu recuou até a parede da cabana e deixou cair a espada.
Lirien apareceu na soleira, leu a situação num olhar e fechou a porta entre Réu e o que quer que estivesse lá fora.
— Está aqui — disse ela, com aquela firmeza calma que tinha aprendido de Mara. — Comigo.
Réu estava tremendo. O peito apertava, no lugar da asma estava o medo.
— Não é real — disse Lirien.
— Parece real.
— Eu sei. — Ela se aproximou e ficou de pé à sua frente. — Mas você está aqui. Comigo. E você é muito forte, Réu.
— Não sou.
— É. — Ela apertou os olhos. Não aceitava ser contrariada. — Só de buscar o que você busca, já és forte. Meninos que não têm coragem não procuram coisas como você procura.
Réu a olhou. Ela era, no meio daquele mundo torto e assustador, completamente sólida. Completamente real.
Ela o abraçou.
Braços firmes que disseram que ele estava ali, bem, e que o chão estava embaixo dos seus pés. Réu sentiu, através do tecido do vestido de Lirien, o calor do corpo dela e a regularidade do coração, e aquilo foi mais eficaz que qualquer coisa que ela poderia ter dito.
Ficaram assim por um tempo.
Quando se separaram, o mundo ainda estava ligeiramente torto nas bordas, mas já não era insuportável. Réu olhou para Lirien e ela olhou para ele, muito próximos, a luz da tarde vinda pela janela pequena fazendo metade do seu rosto dourado e metade sombra.
Ela estava vermelha.
Réu percebeu isso antes de perceber que estava olhando para ela tempo demais. Desviou o olhar.
— Obrigado.
— Não foi nada — murmurou a garota, com uma voz que tentava ser indiferente e ficou só pequena.
Foi embora para o quarto sem mais cerimônia. Mas deixou a porta entreaberta, o que não era costume dela.
· · ·
O chá voltou. Com a orientação de Lirien — pensa em mim, disse ela, antes que ele tomasse, pensa que estás me defendendo — os monstros do chá foram se tornando menos monstruosos. Não menos reais, mas menos avassaladores. Réu aprendeu a olhar para eles, a estudar como se moviam, a encontrar nos padrões dos gigantes e dos demônios o mesmo padrão que havia nos movimentos de Gareth e seus amigos.
E enquanto aprendia isso, foi aprendendo a olhar para Lirien também.
Ela não fazia nada para ser notada. Era essa a coisa estranha — não havia cálculo nela, nenhuma daquelas pequenas performances que as garotas da vila faziam quando queriam atenção. Lirien simplesmente existia com uma completude que a maioria das pessoas não tinha, como se não precisasse de aprovação externa para saber que ocupava um lugar real no mundo.
E ainda assim havia momentos em que ela o olhava, rápido, quando achava que ele não estava prestando atenção, com uma expressão que desaparecia tão depressa que ele nunca tinha certeza se havia realmente visto.
Numa tarde, estavam sentados fora da cabana com o sol já baixo, cada um com sua ocupação — ele afiando a lâmina da espada, ela lendo de verdade desta vez, as páginas virando num ritmo regular. A luz estava boa, daquele dourado de fim do verão, e os pássaros gorjeavam.
— Você sorrindo? — perguntou Lirien, sem tirar os olhos do livro.
Réu percebeu que estava sorrindo de fato.
— Estava pensando numa coisa.
— Em quê?
— Em como é diferente aqui. — Ele passou a pedra pela lâmina. — Da vila. De tudo que eu conhecia.
Lirien virou uma página.
— Para melhor ou para pior?
— Para melhor — disse ele, sem hesitar.
Ela não respondeu. Mas virou a página devagar demais para ter lido o que estava lá.
· · ·
Numa noite, Réu estava de pé no claro na frente da cabana quando ouviu passos atrás de si. Lirien apareceu com um cobertor nos ombros e o cabelo solto, os pés descalços na grama úmida.
— Não consegue dormir? — disse ela.
— Fico assim antes de tomar o chá. — Ele olhou para o céu. — Como se o corpo já soubesse o que vem.
Ela ficou de pé ao lado dele. O silêncio durou um tempo confortável.
— Tenho medo às vezes — disse ela, de repente.
Réu a olhou.
— De quê?
— De que você vá embora. — Ela continuou olhando para o céu. — E não volte.
Réu ficou quieto por um momento.
— Por que iria embora?
— Não sei. — Ela encolheu os ombros. — Você tem uma vida lá fora. A vila, o padre, os amigos. Nós somos só uma cabana no meio de uma floresta.
— Não são só isso.
Ela virou o rosto para ele. Havia algo naqueles olhos grandes que ele havia visto antes em outros contextos — nos livros que ela lia com aquela seriedade total, nas coisas que ela observava na floresta, nas conversas que ela tinha com Mara quando achava que ninguém ouvia. A mesma atenção. A mesma intensidade. Voltada para ele agora de um jeito que era difícil de receber sem fazer nada com isso.
— Não são só isso — repetiu ele, mais baixo.
Lirien ficou parada por um segundo.
Depois se aproximou um passo, pôs as mãos nos dois lados do rosto dele, e o beijou.
Parecia totalmente planejado, pensado — direto, certo, longo.
Quando terminou, ela ainda tinha as mãos no rosto dele.
— Estava com isso aqui há meses — disse ela, sem se afastar.
Réu ficou quieto por um segundo.
— Eu sabia — disse ele.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Sabia?
— Suspeitava.
— E não disse nada?
— Estava esperando para ter certeza.
Ela fez uma expressão que era meio exasperação e meio riso, uma mistura específica que ela reservava para quando ele dizia alguma coisa que a irritava e a divertia ao mesmo tempo.
— Bruto — disse ela.
— Já me disseram isso.
Na manhã seguinte, o grito de Mara acordou os dois ao mesmo tempo.
— SEUS SAFADOS!
Lirien e Réu passaram o café da manhã com as orelhas vermelhas enquanto Mara os olhava alternadamente com uma expressão que era exasperação, ternura e a resignação específica de quem previu que isso ia acontecer e esperava ter mais tempo.
— Há regras nesta casa — disse ela, com uma firmeza que não abria espaço para negociação.
— Mãe — começou Lirien.
— Há regras — repetiu Mara.
Réu olhou para o pão com mel com atenção incomum.
· · ·
As visitas à vila foram ficando mais esparsas. Não por decisão formal — era mais que a floresta havia se tornado o centro e a vila a periferia. Quando aparecia, as crianças da Igreja comentavam que ele havia sumido. O padre Anselmo não comentava nada, o que era pior.
Num domingo de outono, Réu foi à missa pela primeira vez em semanas. Sentou no banco de sempre, na segunda fileira, com o cheiro de incenso e madeira velha que era o mesmo desde que ele tinha doze anos e não havia mudado um grão. Clint sentou ao lado e pôs o papo em dias. Adrien, sentada em outra fileira, estava quieta, agora parecia um pouco mais do que sempre.
Depois da missa, o padre o esperou do lado de fora.
— Quinze anos — disse Anselmo, sem preâmbulo. — Já és adulto, então.
— Já.
— Hm. — O padre ficou olhando para ele com lábios apertados e olhos pensativos. — E o que faz um adulto com o tempo que tem?
— Fico na floresta — disse Réu. — Estou ficando mais forte. — Pausa. — Já consigo sobreviver lá sozinho. Caçar, me virar. Não preciso ficar voltando o tempo todo.
O padre ficou quieto.
— Fico mais tempo lá agora — continuou Réu. — Achei que devia avisar.
— Um caçador, hm. — o velho falou para dentro, como se ponderasse o título.
Anselmo cruzou as mãos atrás das costas e ficou olhando para a rua por um momento. Depois olhou para Réu com uma expressão que era indecifrávelmente calma.
— Manda um abraço para a dama do bosque — disse ele.
E entrou pela porta da Igreja.
Réu arregalou os olhos. Ficou na soleira por um longo momento, olhando para a porta fechada.

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