A batalha de Armois tinha muitos centros.

    Réu chegou pelo caminho do norte com o barulho à frente — metal, madeira, vozes cortadas pelo vento. A primeira rua estava tomada por dois guardas de Harwick que empurravam um grupo de cultistas contra a parede do celeiro. Passou por eles e dobrou à esquerda, onde o barulho era mais denso.

    O bairro velho era um labirinto de ruas estreitas. Réu trabalhou isso a seu favor — dobrava esquinas rápido, forçava os outros a chegarem de frente, mudava de direção antes de ser seguido. Derrubou três homens em dez minutos. O quarto avaliou a situação e correu.

    Então ouviu barulho no beco à direita.

    Gareth estava lá, de costas para a entrada, lutando contra dois cultistas. A espada ornada do pai na mão — comprida demais para aquele espaço, mas ele trabalhava com o que tinha, ajustando o ângulo dos golpes para as paredes próximas. Um dos cultistas caiu. O outro pressionou e Gareth cedeu dois passos.

    Réu entrou pelo flanco.

    O segundo cultista virou o rosto uma fração de segundo antes do golpe chegar. A lâmina de Réu penetrou sob a axila e o homem foi para o chão onde ficou.

    Gareth varreu o beco com os olhos. Olhou para Réu. Assentiu uma vez e saiu pela outra ponta.

    Réu foi pelo lado oposto.

    A rua principal estava tomada de fumaça baixa vinda de um celeiro no canto leste. Réu passou por dois guardas que arrastavam um ferido para a Igreja e dobrou à direita, onde havia gritos.

    Encontrou uma mulher e dois homens encurralados contra a parede de uma casa, com um cultista à frente e outro bloqueando a saída do beco. Réu entrou pelo cultista da saída, derrubou-o com dois golpes, e o primeiro fugiu quando percebeu que a proporção havia mudado. A mulher estava com o rosto coberto de fuligem e um dos homens segurava o braço com uma expressão que dizia que havia algo partido lá dentro. Réu os empurrou em direção à praça.

    — Sigam essa rua até o fim — disse ele. — Praça central. Não parem.

    Foram.

    Réu voltou para a rua principal.

    Um dos ferreiros estava no chão perto do poço, tentando se levantar com um corte na coxa. Dois cultistas sobre ele. Réu chegou pelo flanco, derrubou o primeiro com o punho da espada no capacete, encostou a lâmina no pescoço do segundo. O homem parou. Réu apontou para a rua.

    O cultista correu.

    Réu ajudou o ferreiro a ficar de pé. O homem pesava mais do que parecia e mancava, mas andava. Réu o conduziu até a esquina e o entregou a dois vizinhos que estavam acenando do portal de uma casa.

    Mais à frente, na viela que desembocava no mercado, um cultista levantou a espada sobre um barril encostado na parede da padaria. Réu estava a dez metros e a flecha saiu do arco antes que ele decidisse conscientemente atirar — o treino funcionando mais rápido que o pensamento. O homem caiu sobre o barril.

    O barril caiu.

    Do barril saiu um gato alaranjado que foi pela viela em disparada sem olhar para nenhum dos lados.

    Réu ficou parado por um segundo olhando para o gato desaparecer na esquina.

    Depois continuou.

    O mercado estava vazio mas revirado — bancas tombadas, sacos rasgados, farinha espalhada no chão de pedra que amortecia os passos e tornava tudo mais silencioso do que devia. Três cultistas estavam saqueando uma das tendas do fundo. Réu entrou pela esquerda e os dois primeiros cederam rápido, como homens que vieram fazer outra coisa e não esperavam encontrar resistência organizada. O terceiro lutou mais, mas estava cansado — havia sinal de que havia lutado antes naquela noite. Caiu na terceira troca de golpes.

    Do fundo da tenda saiu um comerciante de meia-idade com um facão de cozinha na mão e o rosto branco de quem esteve escondido e está processando que pode sair agora. Réu o olhou. O homem olhou para Réu. Olhou para os três no chão. Guardou o facão.

    — Praça central — disse Réu.

    O homem assentiu e foi.

    A batalha foi espaçando em pedaços — este beco, esta rua, este homem, o próximo, até que Réu ficou parado numa esquina por tempo suficiente para perceber que o barulho havia diminuído para o leste e cessado quase completamente ao norte.

    Caminhou até a praça.

    Caminhou até a praça.

    Edmund Harwick estava coberto com um pano que alguém havia encontrado às pressas. Um dos guardas de joelho ao lado, elmo na mão. Perto da parede da Igreja, um dos armeiros segurava Gosse pelos ombros com os dois braços.

    Phillip estava sentado no chão da Igreja com o rosto enterrado nas mãos.

    Gareth estava do lado de fora encostado na parede com a espada do pai ainda na mão. O sangue havia secado na armadura.

    No canto da praça, um cultista ainda respirava. O seminarista jovem que ajudava Anselmo às missas estava ajoelhado ao lado dele com a mão no peito do homem, a boca se movia sob os olhos fechados. Réu olhou para aquele padre jovem e sentiu o peito apertar.

    O cultista tossiu. Disse alguma coisa.

    Gareth se afastou da parede e se aproximou.

    — Ainda vives, maldito?

    O homem repetiu. A praça estava quieta e as palavras chegaram até Réu:

    — Vocês pagarão… o coração negro da floresta… ela nos protege… ela nos prometeu…

    O padre jovem fechou os olhos do homem com a mão. Fez o sinal da cruz.

    Gareth ficou olhando para o cadáver. Depois levantou a cabeça e fixou a floresta escura além das muralhas.

    · · ·

    A reunião aconteceu ali mesmo, na praça, com o cheiro de palha queimada ainda no ar. O capitão da guarda de Harwick estava presente, o braço enfaixado, o rosto fechado.

    Gareth falou primeiro.

    — Há mais deles na floresta. Esse homem disse onde ficam. Vamos enquanto ainda sabemos onde procurar.

    — Nos reportamos a Londres primeiro — disse o capitão. — Essa decisão exige ordem e reforço.

    — Meu pai está morto.

    — Eu sei. E o de Phillip também. — O comandante sustentou o olhar. — Sair dessas muralhas agora é entregar mais vidas aos ceifadores.

    — E ficar aqui esperando é deixar que eles vivam! — Gareth bradou.

    O comandante suspirou. Seu olhar buscou o corpo do Lorde e pareceu se apertar.

    — Provavelmente teremos alguma notícia da capital amanhã ou depois. Então saberemos como prosseguir.

    Gareth rangeu os dentes.

    — Então, se não vierem, esperamos Londres mandar mais cartas? Quanto tempo? Um mês? Dois?

    O capitão fechou o queixo e ficou quieto.

    Gareth olhou para os lados. Frank com a cabeça baixa. Luke com a expressão fechada. Phillip de pé com os olhos vermelhos e as mãos cerradas nos lados do corpo.

    — Pois que seja. Eu vou sozinho se for preciso — disse Gareth.

    — Sozinho, não. — disse Phillip.

    Frank suspirou e segurou a espada na bainha. Luke assentiu.

    Gareth olhou para Réu, e ele sabia o que precisava fazer. Seguiu-o.

    O capitão sacudiu a cabeça e foi embora com os guardas.

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