Índice de Capítulo

    O campo permanecia em absoluto silêncio. Destroços colossais estavam espalhados por toda a extensão do terreno, ladeados por crateras abertas e marcas profundas de energia chamuscada que cortavam a arena de ponta a ponta. O ar parecia consideravelmente mais pesado agora. A atmosfera cobrava o seu preço, porque todos os envolvidos entendiam perfeitamente: a partir dali, não existia mais o menor espaço para erro.

    O juiz ergueu lentamente a mão direita, e sua voz mecânica e amplificada ecoou pelas arquibancadas e estruturas do estádio:

    — TERCEIRO ROUND…

    A pressão atmosférica aumentou instantaneamente, como se o próprio oxigênio respondesse ao comando. 

    — …INICIAR!

    EXPLOSÃO.

    Aura. Energia. Movimento. Tudo aconteceu rigorosamente ao mesmo tempo, quebrando a estática do ambiente. Mas antes mesmo que o caos generalizado pudesse se consolidar, Renji Asakura abriu um sorriso largo. Seus olhos vermelhos estavam fixos e cravados na figura de Kaede Shizuma.

    — Aquilo foi incrível, Kaede… — a voz de Renji saiu instigante, enquanto a sua própria aura começava a vibrar ao redor do corpo. Uma energia amarela, instável e nitidamente elétrica tomou forma. — …mas eu tenho algo mais incrível pra mostrar.

    O ambiente congelou por um décimo de segundo. E então, o comando veio: — Buzz Flow.

    BOOOOOOM.

    Uma quantidade massiva de aura amarela explodiu violentamente do corpo de Renji. No entanto, diferente de suas investidas brutas anteriores, essa energia não era apenas destrutiva; era caótica, veloz e assustadoramente viva. O corpo de Renji começou a vibrar — não de forma metafórica, mas literalmente. O ar em torno de sua silhueta distorceu-se pelas ondas de alta frequência. As pernas dele dobraram-se minimamente na base e, no microssegundo seguinte, ele desapareceu.

    Kaede arregalou os olhos. Um rastro amarelo e fulminante cortou o campo de batalha em zigue-zague numa velocidade que desafiava a física.

    Renji reapareceu instantaneamente na lateral cega de Kaede.

    SOCO.

    Kaede mal conseguiu erguer o braço para um bloqueio parcial. O impacto foi seco, mas foi apenas o início. Outro golpe violento veio direto nas suas costas. Depois, uma sequência brutal atingiu o abdômen, seguida por um direto que balançou o seu rosto. Renji surgia e sumia constantemente do campo de visão, utilizando movimentos completamente imprevisíveis, enquanto os rastros amarelos de sua velocidade serpenteavam pela arena como relâmpagos vivos.

    — TCH—! — Kaede grunhiu, cuspindo o ar.

    Outro soco. Outro. Outro. Cada impacto sequencial fazia o chão abaixo deles explodir em pedaços. Renji gargalhava abertamente enquanto se deslocava pelo espaço, completamente embriagado pelo próprio ritmo. — VOCÊ NÃO CONSEGUE ME ACOMPANHAR?!

    Kaede cerrou os dentes com tanta força que a mandíbula estalou. Os raios vermelhos de sua energia explodiram ao redor de si com uma violência renovada, tentando afastar a pressão. — CALA A BOCA!

    Os braços de Kaede começaram a se revestir densamente de plasma incandescente. Mini leões de raios surgiram na ponta de cada punho, e ele passou a descarregar ataques brutais em todas as direções imagináveis.

    BOOM. BOOOOM. BOOOOOOOM.

    Cada golpe desesperado destruía mais uma fatia da arena de testes. Os mini leões elétricos rugiam em detonações de energia vermelha à medida que Kaede girava o próprio corpo violentamente, varrendo a área para tentar interceptar o oponente. Colunas de concreto remanescentes viravam pó. O chão rachava em fissuras profundas. O ar queimava pela fricção.

    Mas Renji continuava desviando em zigue-zague, movendo-se como uma aberração impossível de ser alcançada ou tocada.

    Do outro lado da linha de frente, Ryuji Arata observava o cenário. Seus olhos, no entanto, ignoravam o confronto elétrico ao lado; eles estavam focados e fixados em apenas uma pessoa: San Ryoshi.

    Silêncio absoluto na sua mente.

    E então, num movimento firme, Ryuji puxou as suas duas adagas de combate: CTD e Ancifogo.

    As lâminas vibraram no mesmo segundo em que deixaram as bainhas. Raios começaram a envolver ambas as superfícies metálicas — descargas azuis, cortantes e violentas. O solo abaixo das suas botas cedeu, abrindo rachaduras concêntricas. Ryuji ignorou completamente a investida de Renji. Ignorou a presença tática de Karaku Sabito. Ignorou o mundo ao redor. Para ele, só existia um alvo real no tabuleiro.

    San Ryoshi.

    — …Dessa vez — murmurou Ryuji.

    EXPLOSÃO.

    Ele avançou. Utilizando velocidade máxima desde o primeiro milissegundo, as duas lâminas azuis cortavam a atmosfera enquanto os raios se expandiam ao redor do seu corpo. Ele foi direto para o topo. Direto para o San.

    Mas, metros atrás, Tsubasa Hayashi arregalou os olhos. A leitura tática do espadachim foi imediata e desesperada ao perceber o erro fatal na abordagem do companheiro. — RYUJI! — gritou Tsubasa, a voz rasgando a garganta. — NÃO FAZ ESSA MERDA!

    Mas o aviso foi em vão. Ryuji já tinha cruzado o ponto de não retorno na sua corrida de ataque.

    E San Ryoshi… continuava perfeitamente parado. Apenas observando o avanço.

    Ryuji avançava.

    Velocidade máxima desde o primeiro passo. As adagas CTD e Ancifogo cortavam o ar deixando rastros azuis que persistiam no ambiente por frações de segundo antes de se dissolverem — como cicatrizes temporárias no espaço. Os raios explodiam ao redor do corpo dele em descargas violentas, respondendo à intenção com uma intensidade que fazia o chão ceder a cada passada.

    O alvo era San Ryoshi.

    Só ele.

    O som do próprio coração desapareceu primeiro. Depois os gritos. Depois as explosões ao lado, o caos de Kaede e Renji trocando destruição no outro polo da arena. Tudo virou ruído distante — abafado, irrelevante, como o mundo do lado de fora de um vidro espesso. Porque naquele instante, a mente de Ryuji havia reduzido a realidade inteira a um único ponto fixo.

    O topo.

    San Ryoshi permanecia parado no centro da arena devastada. Sem alterar a postura. Sem antecipar o recuo. Os olhos acompanhavam cada micro movimento do avanço de Ryuji com a frieza de alguém lendo uma página já conhecida — cada alteração de peso, cada transferência de intenção, cada milímetro de trajetória.

    — EU VOU—

    Karaku sorriu.

    Lá atrás. Quieto. A Meta-Visão brilhando nas pupilas com aquela luz azulada que não previa possibilidades — previa certezas. Ele já tinha visto o próximo segundo inteiro antes de acontecer. A trajetória de Ryuji. O ponto de impacto. O resultado.

    — …Idiota.

    A arma brilhou.

    Disparo.

    BOOOOOOM.

    O tiro cruzou a arena inteira como um raio negro comprimido — rápido demais para ser lido como ameaça, rápido demais para ser processado como perigo real até que já fosse tarde. Tsubasa arregalou os olhos da posição em que estava, o corpo reagindo antes da mente.

    Ryuji percebeu.

    Tarde demais.

    O projétil acertou em cheio o ombro esquerdo.

    SANGUE.

    O impacto foi cirúrgico na crueldade — não destruiu apenas a carne, destruiu a trajetória inteira. O momentum que Ryuji havia construído se estilhaçou num instante, o corpo sendo lançado violentamente pro lado em múltiplos giros descontrolados, atravessando o chão destruído até que ele fincou as adagas na pedra com força suficiente pra arrancar faíscas e frear o deslize.

    Silêncio.

    A fumaça subia lenta do ponto de impacto. O ombro esquerdo era um desastre — rasgado, inerte, respondendo apenas em dor.

    Ryuji arfava com os dentes cerrados.

    Karaku abaixou a arma com uma calma que era quase insultuosa.

    — Você ainda ignora o campo.

    E então San Ryoshi se moveu.

    Só um passo.

    Mas o campo inteiro pareceu afundar junto com aquele passo — como se o peso da presença dele fosse uma lei física que o ambiente obedecia. Ryuji ergueu o olhar na mesma fração de segundo, o instinto disparando antes de qualquer raciocínio consciente.

    Perigo.

    Perigo absoluto.

    San apareceu na frente dele. Não houve deslocamento perceptível — havia distância, e então não havia mais. As adagas subiram por reflexo puro, os raios ainda vibrando nas lâminas, e então—

    San as segurou.

    Com as mãos. Puras. Sem reforço visível, sem técnica elaborada. Apenas as palmas fechando sobre o aço carregado de eletricidade com uma naturalidade que tornava tudo mais aterrorizante do que qualquer explosão de aura poderia ser.

    A onda de choque do impacto explodiu para fora em todas as direções, varrendo os destroços ao redor e abrindo novas rachaduras no chão já esgotado.

    Ryuji congelou.

    Os raios das adagas tentavam rasgar a defesa, tentavam encontrar uma brecha, tentavam fazer qualquer coisa além de tremer inúteis entre aquelas palmas. San observou as lâminas por um momento — sem pressa, sem urgência — como quem examina algo que encontrou no chão.

    E então apertou.

    CRACK.

    As adagas gemeram sob a pressão. O metal, carregado de Sen, vibrou de forma irregular, instável, como um animal preso tentando se libertar.

    Ryuji não conseguiu se mover.

    — Você continua focando só em mim.

    A voz de San saiu baixa. Sem raiva. Sem arrogância. Só a frieza seca de uma constatação.

    Uma pausa.

    Os olhos dele aprofundaram — não como ameaça, mas como sentença.

    — E isso…

    A aura ciano escura começou a subir ao redor do corpo de San. Densa. Profunda. Com aquele peso específico que não precisava explodir pra ser sentido nos ossos de quem estava perto.

    — …vai matar seu time inteiro.

    BOOOOOOM.

    O chute veio no abdômen com uma força que não parecia pertencer a um ser humano. Não foi brutalidade descontrolada — foi precisão monstruosa, cada Newton de impacto direcionado com a exatidão de quem sabe exatamente quanto é necessário para encerrar um movimento.

    Ryuji cuspiu sangue imediatamente. O corpo atravessou estruturas, derrubou o que ainda estava de pé, e só parou quando não havia mais nada pra destruir no caminho.

    Ao longe, Tsubasa travou.

    Não de medo. De compreensão. Uma clareza brutal e repentina que chegou como água fria — eles estavam repetindo o mesmo erro. De novo. O mesmo padrão que os havia destruído nos rounds anteriores, embalado numa roupagem diferente mas com a mesma falha fundamental no centro.

    Karaku virou a arma devagar.

    Agora mirando Tsubasa.

    — Sua vez.

    Silêncio.

    No meio da arena destruída, entre os destroços e a fumaça e o sangue que desenhava rastros no chão rachado, Ryuji tentava levantar. O ombro esquerdo não respondia. As adagas tremiam na pegada. O corpo protestava em cada ponto possível.

    Mas os olhos—

    Os olhos ainda estavam presos em San Ryoshi.

    Como se a derrota não tivesse chegado ainda.

    Como se o round ainda pudesse ser diferente.

    Como se a obsessão fosse mais forte do que tudo que o corpo estava gritando.

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