Capítulo 109 — Aliados Inusitados
Quase do outro lado do continente, o grupo de Ryruka se movia para outra cidade, ainda seguindo o rastro de Andrus com a ajuda da Manifestação da Pombo. A aliança repentina com os imperiais Edgar e Erika era inacreditável — não apenas pelo fato de se unirem, mas também por se entenderem e conviverem em harmonia. Estavam realmente empenhados em atuar na guerra, mesmo contra tudo e contra todos.
— É difícil de acreditar que vocês, rebeldes, têm Manifestações tão impressionantes. Eu pensava que o Império já tinha recrutado os melhores Manifestadores Espirituais, e que o poder da Rastreadora era o único capaz de fazer algo tão preciso e eficaz. Eu me enganei muito. — comentou Edgar, impressionado com o poder da Pombo. Logo depois, analisou Harpia brevemente. — Vocês são mesmo irmãs gêmeas? Apesar de serem idênticas, suas personalidades são muito diferentes, não é?
— Pare de irritá-las com suas conversas estúpidas, Edgar. Lembre-se: estamos aqui para nos vingarmos do Capitão Andrus e do Império. — disse Erika, removendo com fúria os emblemas do Império de suas vestes. — Não consigo acreditar que fomos enganados por todos esses anos. O Senhor Baltar não merecia uma morte tão cruel.
Enfim, completou o serviço. Sem os emblemas imperiais, suas roupas assumiram um caráter mais comum: botas longas até o joelho, calças pretas, blusa de manga longa branca e jaqueta cinza. Edgar usava as mesmas roupas, mas, ao invés de remover os emblemas, ele os rasgou ao meio com uma faca. Erika o fitou de relance.
— Ei, você sabe que isso mostra que você é um renegado, não sabe? — ela cruzou os braços. — Os guardas não pensarão duas vezes em te matar se te virem assim. Você deveria ter removido os emblemas, assim poderia se disfarçar melhor.
— Vocês parecem se dar muito bem, sem falar que seus nomes são bem parecidos. Vocês são irmãos ou parentes? Vou entender se não quiserem falar. — comentou Yujiro, que os observava com interesse. Ambos não pareciam ser más pessoas.
Entretanto, para não soar invasivo, ele sabia que precisava falar sobre si mesmo.
— Eu sou do Clã Nomura, mas deixei o clã por causa de desavenças. Cresci em outro lugar, em outro mundo, um que eu quero proteger a qualquer custo. — ele ajeitou os óculos e olhou para cima com um sorriso fraco. — O céu de lá é bem diferente desse.
— Nós não temos laços de sangue. Crescemos num orfanato, e lá recebíamos nomes de acordo com o alfabeto. Como chegamos no mesmo dia, recebemos a mesma letra. Pensávamos que viveríamos sem saber o que era o amor de um pai e de uma mãe, até que Baltar apareceu. Ele nos adotou, nos deu um lar e um propósito. Ele nos ensinou a sermos justos, fortes e a nunca usarmos a mentira. — explicou Edgar.
Ele fitou Erika, que logo abaixou a cabeça, pensativa. Edgar então olhou para o céu, lembrando-se daquele homem e de todos os bons momentos, e enfim sorriu. Por fim, voltou a olhar para Yujiro com uma expressão mais suave.
— Ele queria mudar o Império, ele era o melhor entre todos eles. Tudo que ele vinha fazendo era para reformular o Império e evitar a iminente guerra, e o que isso custou? Tudo. O império foi ingrato, por isso quero vingá-lo. — ele apertou um dos emblemas do Império, quase o arrancando fora. — Vocês não parecem ser pessoas más. Baltar nos dizia para conhecermos ambos os lados antes de tomarmos as devidas atitudes, por isso que estamos com vocês.
— Vocês terão sua vingança, todos nós cumpriremos com nossos objetivos. Nosso grupo não precisa de glória, reconhecimento ou fama. Tudo que precisamos é que nossos inimigos nos temam. Por isso eu proponho que o nosso grupo, o Esquadrão D, se solidifique agora mesmo. — dizia Ryruka, enquanto pegava a faca de Edgar. — Vamos mudar o Extra-Mundo e todos que o habitam, quebrar os malditos costumes e medos passados. Libertaremos esse mundo e os guiaremos para um futuro livre.
Sem hesitar, Ryruka cortou a palma da mão esquerda e a estendeu. Yujiro repetiu o ato. Edgar e Erika, após uma rápida troca de olhares, também o fizeram. Apenas as gêmeas mantiveram-se de fora, e Ryruka entendia a decisão delas.
— De agora em diante, lutaremos por nossos ideias e interesses. Dane-se se nos acharem egoístas ou loucos, essa é a nossa escolha. Nós faremos o nosso futuro e lutaremos por todo um povo. Somos livres de todas as amarras.
— Ryruka está certa! Chega de amarras ou preocupações. É hora de nos impormos. Juntos, podemos vencer o Império. Não somos os únicos que lutarão por essa causa, mas nós seremos aqueles que farão a diferença. — Yujiro sorriu. — Isso será por todos aqueles que não tiveram a coragem que tivemos. Vamos mostrar para todos o que realmente somos capazes. Vamos fazer a Ordem se arrepender, Ryruka. Agora temos um grupo próprio, sem que “ele” nos limite.
E assim, o Esquadrão D se consolidou, encarando o objetivo com otimismo.
A guerra ficava cada vez mais interessante, como num jogo de estratégia em que cada jogador aguardava as consequências de cada jogada. Ordem, Rebeldes, Emota, Esquadrão D e Império… Tudo estava perto de convergir. Enquanto Sora ou a Espiã ainda não falassem tudo que sabiam grupo de Ryruka tinha uma vantagem: eram os únicos que tinham as informações mais preciosas sobre os Capitães.
Em outro lugar, alguém encapuzado andava pelas margens de um rio no sentido do fluxo das águas. Em um certo ponto, parou diante de uma enorme cachoeira e seguiu até um local rochoso, onde caminhou entre os grandes pedregulhos até chegar em uma caverna escondida atrás da queda d’água.
Longe o suficiente da água, sentou-se perto de uma fogueira para se aquecer e enfim removeu o capuz e deixou os cabelos caírem. Era uma mulher adulta. Olhava atenciosamente para o fogo, que parecia se comunicar com ela.
Pouco depois, ela colocou o capuz, se levantou e caminhou até a saída. Antes de deixar o local, ela apontou a mão direita na direção da fogueira. No mesmo instante, as chama se intensificaram. E então, com o mesmo silêncio que chegou, ela saiu.

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