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    Ah, o desejo de resolver tudo com as próprias mãos. O Político estava logo ali. Por que não pôr logo um fim nele? Essa vontade quase possuiu Akane. Mas ela não podia. Precisava manter a calma. Precisava ser forte, por si mesma e pelo Kamito. Respirou fundo algumas vezes, lutando para controlar a raiva. O olhar perdeu a aura assassina, e então ela fitou Camily e Helenae com tristeza. Seu semblante carregava um vazio incomparável, motivo para mais preocupação por parte das garotas. Quem não se solidarizaria com alguém que acabou de perder a alma gêmea e, agora, estava sozinho pois foi impedida de se juntar a ele?

    — A-Akane, você acordou. Que alívio. Fiquei preocupada. Pensei que não fosse acordar nunca mais. Você está bem? Está com fome? — perguntou Camily, enquanto soltava, com aflição, a mão da amiga.

    Sua feição não poderia ser outra. Na verdade, ela e Helenae exibiam claros sinais de apreensão. E Camily carregava um fardo que sentia necessidade de compartilhar.

    — Isso tudo foi culpa minha. O Kamito ainda estaria vivo e não estaríamos aqui se eu não fosse tão descuidada e tivesse sido possuída por aquela espiã. Eu sinto muito, Akane. — ela olhava para o chão, com medo de encarar a garota à frente.

    — Não foi culpa sua, Camily. Você é só uma criança, nem deveria estar nessa maldita guerra. Eu sei que a pressão psicológica é enorme. Todos nós estamos sentindo isso. Não se culpe pelo que aconteceu com o Kamito, tudo bem? — Akane tentou forçar um sorriso, mesmo sem ter condições para tal.

    Não queria sentir raiva ou culpar uma criança, que já estava apavorada, por ser quem trouxe a espiã. Porém… Por que ela ainda estava tão assustada?

    — Qual é o problema? Por que está com medo? — Akane as analisou com atenção, algo não estava certo. — Camily, Helenae, o que aconteceu enquanto eu estava desacordada? Por que vocês estão distantes dos demais? A espiã fez alguma coisa?

    — N-não foi ela… Foi o Raishi, ou seja lá como ele se chama. Ele usou a Manifestação dele em nós e na Emota. Ele nos torturou para encontrar a espiã e a capturar. Foi… Foi bem assustador… — Helenae desviou o olhar e juntou as mãos.

    Akane ficou chocada. Nunca pensou que o Raishi que conhecia faria algo assim.

    — Aquele homem não é confiável. É cheio de mistérios e não se importa com os aliados. — Helenae enfim encarou Akane com firmeza. — Por favor, tenha cuidado com ele. Quando ele soube da morte do Kamito, disse para seguirmos em frente e que essa guerra agora seria para vingá-lo. Akane, quem é ele?

    — Eu também queria saber. Ele nunca se abriu comigo e com o Kamito. Ele sempre foi tão enigmático… Sempre nos disse que nos dava uma escolha, mas parece que ele mudou. O que será que está acontecendo? — Akane desviou o olhar para onde Raishi estava, junto com Ruby e Tenebris. Era impressão sua, ou tudo começou a mudar quando os rebeldes se juntaram ao grupo? — Seja lá o que está acontecendo, eu irei descobrir. Não se preocupem com ele. Eu prometo que cuidarei de vocês. Ou melhor, cuidarei de você, Camily, já que a Helenae tem o Solum para protegê-la.

    Akane brincou, conseguindo reduzir um pouco a tensão no ar. Camily olhou para Helenae com um sorriso sapeca, já a eudoriana coçou a bochecha e desviou o olhar.

    — Vejo que estão se dando bem. É bom ver que alguém ainda está determinada depois de tudo que aconteceu. Sobre o que estão conversando?

    Solum se aproximou sem chamar atenção. Não exibia mais aquele olhar feroz. Assim que seus olhos encontraram os de Akane, ele cortou o contato visual.

    — Akane… Eu sinto muito por não ter sido rápido o bastante para salvá-lo. Kamito era meu amigo e também meu maior rival. Eu sei que ele não se entregaria tão fácil. Pode ser apenas minha vontade de lutar, mas eu tenho certeza de que ele saiu dessa. Ele não é tão fraco assim. — afirmou com convicção, apesar da dificuldade de fitá-la.

    — Sem problema, Solum. Eu vi que você deu o seu melhor para alcançá-lo. A culpa foi minha. Eu estava perto dele e não pude segurá-lo. Eu jamais vou me perdoar se o pior tiver acontecido…, mas, querem saber? Eu também acredito que ele não se deu por vencido e encontrou seu fim lá. Kamito não é assim. — ela disse. Em seu coração, uma pequena chama de esperança lutava contra a tristeza e a solidão.

    Com o Kamito por perto, Akane se sentia completa e viva. Sem ele, incompleta e impotente. E mesmo que ele não significasse tanto para os outros quanto para ela, a ausência do rapaz de cabelos azuis marcou todos que estiveram ao seu lado.

    — Kamito idiota… Ele nunca cumpre suas promessas. Dessa vez, só dessa vez, irei perdoá-lo porque quero que ele esteja bem. Não me importo de ele ter quebrado essa promessa contanto que ele volte para mim. Eu me sinto tão perdida sem ele…

    — Pude ver isso naquela ponte. Você tentou se jogar de lá sem saber se sobreviveria ou não. Não sei se foi coragem ou burrice. — ele se sentou num tronco de madeira enquanto observava o lago. Mesmo tentando esconder, ele parecia triste e frustrado. — Aquele maldito Capitão… Eu quase o matei. Se não tivessem me impedido, eu teria o matado. Se eu o encontrar outra vez, não deixarei que ele escape com vida.

    — Não fale essas coisas, Solum! Você não entende o que é ter o coração partido. Eu me sentiria assim se você morresse. Você não faz ideia de como dói perder alguém que você ama… — Helenae o olhava com as bochechas levemente coradas.

    Solum ainda era incapaz de compreender o significado dessas palavras, por mais óbvias que fossem. Diante de tamanha lerdeza, Helenae revirou os olhos.

    — Um dia você entenderá. Isso sempre acontece, ainda mais quando você menos espera. Então, não seja rígido quanto aos sentimentos e ações das pessoas. A vida não é só lutar. — ela concluiu, com um ar de decepção. E assim, a conversa fluiu.

    Akane os assistia em silêncio, perguntando-se se conseguiria ser feliz sem o amado. Tudo era perfeito quando estavam juntos. Num dia, eles prometeram nunca se separar e se tornaram noivos. No outro, ele não estava mais lá. Naturalmente, um sentimento ruim surgiu em Akane. O ódio àquele mundo, à guerra e ao império.

    Em meio estes pensamentos, ela se lembrava da última noite com ele antes dessa saga começar.

    Estavam no quintal da casa dela, deitados na grama e admirando as estrelas. Ela repousava a cabeça no peito dele enquanto ele acariciava os cabelos castanhos dela. Seu toque, seu calor, seu olhar, seu sorriso… Ela amava cada parte daquele rapaz. Kamito sempre foi reservado, mas determinado. Se importava e se preocupava com os outros antes dele mesmo. Foi assim que ele a protegeu, no dia que se conheceram.

    — Por que está sorrindo? O que está admirando tanto? — ela perguntou, curiosa.

    A expressão serena e pacífica dele acelerava o coração da namorada. Kamito a fitou com um sorriso gentil, sem parar de acariciar o cabelo da amada

    — Por que você está me olhando assim? Vamos, diga alguma coisa, Kamito.

    — Eu estava admirado o céu estrelado e tudo que ele cobre. Não dá para acreditar que quase perdemos isso e que fomos nós os responsáveis por salvar isso tudo. Foi tão surreal que eu ainda não acredito que somos capazes de proteger essa cidade e as pessoas que amamos. Eu me sinto muito grato por ter feito algo bom para todos. — ele concluiu e fechou os olhos.

    Akane aproveitou a brecha para o beijar. Ele logo a encarou de volta.

    — Ora, ora. Você não disse para não roubarmos beijos um do outro? Mudou de ideia?

    — Talvez…, mas, dessa vez, você mereceu. É sua recompensa por tudo que você fez, Kamito. Meus parabéns, você é realmente incrível.

    Com um toque sutil no rosto e um sorriso leve, ela lentamente ficou por cima do namorado. As bochechas queimavam de vergonha, mas ela não se importava de ser ele a vê-la assim.

    — Eu te amo, Kamito, eu te amo muito. Eu quero passar o resto da minha vida com você, quero ser sua esposa algum dia, te fazer muito feliz e cuidar de você até o último dia das nossas vidas. Eu prometo nunca te deixar.

    — Eu também te amo, e obrigado por se importar tanto comigo, Akane. Prometo te retribuir um dia. Por enquanto, só posso dizer que nunca irei te deixar nem nada me tirará de perto de você. Eu prometo isso a você. — ele a olhava com vergonha, seus rostos estavam quase colados.

    Tão perto um do outro, Akane o beijou de novo. Dessa vez, ele retribuiu e deslizou as mãos até a cintura da companheira, a apertando com carinho.

    — Quero ficar com você para todo o sempre, não importa o que acontecer eu sempre estarei com você, Akane. Você é meu porto seguro, meu mundo. Eu sempre cuidarei de você, não importa como, eu sempre cuidarei de você.

    — É bom isso ser verdade, Kamito. Você sabe que eu não suportaria viver sem você. Se você morresse, eu seria capaz de…

    Antes que Akane terminasse de falar, Kamito girou o corpo e ficou sobre ela. Apoiava as mãos na grama — a cabeça da namorada entre elas. Seu olhar transmitia uma mensagem clara: não diga isso. Ela sorriu e o tocou no rosto com delicadeza.

    — Vamos ficar juntos para sempre, não importa como. Minha vida não tem significado sem você, Kamito. Eu entrego minha vida nas suas mãos, por favor cuide bem dela.

    Se pudesse voltar no tempo e retirar essas palavras, o teria feito. No fim, Kamito cumpriu o dever que assumiu para si e se sacrificou pela mulher que amava. Akane apertou os punhos com força e, enfim, caminho na direção de Raishi e Ruby. Ela precisava de respostas, precisava saber como eles lidariam com a perda do Kamito.

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