PRÓLOGO: O CHAMADO ANTIGO
O silêncio era esmagador… Kendrick estava ali, parado, sem saber como havia chegado àquele lugar. Nem sequer sabia se ainda estava em algum lugar.
Ao seu redor, uma névoa pálida se espalhava para todas as direções, apagando qualquer possibilidade de fuga… Não havia céu nem chão.
Não havia nada além daquele vazio branco e sufocante. Tudo parecia onírico, mas nenhum sonho deveria parecer tão vivo.
Aquele lugar era instável e ameaçador demais para existir apenas em um vislumbre de sua mente.
Kendrick tinha a sensação de que, a qualquer momento, a névoa poderia se romper e arrastá-lo para um abismo ainda mais profundo, de onde jamais retornaria.
Foi então que, diante dele… aquilo surgiu.
Uma espada. Não uma arma comum.
Ela tinha um estilo que lembrava as espadas orientais que ele já havia visto em filmes quando era criança, mas nenhuma era tão magnífica quanto aquela, presente bem à sua frente.
Ela pairava no centro do vazio, imóvel e silenciosa. Sua lâmina refletia uma luz esquisita que sequer existia naquele ambiente, enquanto a empunhadura tinha uma cor branca suave, parecida com marfim, que era quase reconfortante de observar.
Pequenos adornos dourados envolviam sua empunhadura com uma delicadeza extrema, como se aquela espada tivesse sido feita para ser venerada. Apesar de bela, havia algo diferente nela; era algo doloroso.
O peito de Kendrick se apertou enquanto ele observava a espada.
A espada, de alguma forma, o chamava, mesmo sem emitir som algum. Apenas vê-la fazia algo se agitar dentro dele. Não sabia explicar o quê. Só sentia que aquela sensação era antiga demais para ter nascido naquele instante.
Não era curiosidade. Nem ganância ou qualquer desejo estúpido de possuir algo grandioso. Era reconhecimento. Como se, em algum lugar esquecido de sua alma, Kendrick já soubesse quem era aquela espada. Ou talvez ela soubesse exatamente quem ele era.
Sem perceber, deu um passo à frente. Seus instintos gritavam para que parasse e se afastasse daquela coisa.
Ainda assim, seu corpo não obedeceu. Deu outro passo. E mais um.
A névoa que encobria todos os arredores girou lentamente ao redor de seus pés, ondulando como se respirasse. A espada parecia cada vez mais próxima e, ao mesmo tempo, impossível de alcançar; era como se estivesse presa dentro de uma barreira intransponível.
Ele ergueu uma de suas mãos em direção a ela. Seus dedos tremiam de ansiedade. Ainda assim, queria alcançar aquilo… Ele precisava alcançar.
Era como se Kendrick tivesse acabado de encontrar algo que procurava durante a vida inteira sem jamais perceber.
Quando se deu conta, ele notou que a distância entre si e a espada havia diminuído; a empunhadura estava tão próxima. Bastava um pouco mais. Apenas mais um único movimento, e poderia finalmente tocá-la.
Por um breve instante, teve certeza de que conseguiria. Então se moveu um pouco mais, tentando atravessar aquela barreira.
Mas, justo quando sentiu que iria atravessá-la, uma força invisível o atingiu.
O impacto foi brutal. Seu corpo foi arremessado para trás, para bem longe da espada, como se a própria realidade recusasse sua aproximação. O ar sumiu de seus pulmões. Tudo girou diante de seus olhos.
Kendrick tentou gritar, apavorado, mas nenhum som saiu de sua boca. Ao buscar apoio no chão, suas mãos tocaram apenas a névoa que o circundava.
Mas a espada continuava ali. Imóvel e distante. Fora de seu alcance.
— Que diabos é isso…? — tentou dizer, mas sua voz não se manifestou naquele lugar.
Foi nesse momento que ouviu algo. Um sussurro baixo, distante e melancólico. Kendrick sentiu um calafrio e um peso bem familiar sobre os ombros.
Aquele som não vinha da espada, mas de alguém ali. Alguém chamando por ele.
Devagar, virou o rosto em busca da voz. Demorou um pouco para encontrar a direção devido à névoa, mas, depois de focar bem a visão, a viu ainda distante.
Era a silhueta de uma mulher.
Não conseguia enxergá-la com clareza. Seu rosto, seus cabelos, suas vestes… tudo era coberto por uma luz sobrenatural, intensa demais para os olhos humanos. Ainda assim, Kendrick soube, no mesmo momento em que a viu, que ela era bela. Bela de uma forma que não parecia humana.
A única palavra que era capaz de vir à sua mente para se referir a ela era divina.
A presença dela esmagava tudo ao redor. A luz que saía de seu corpo parecia carregar duas coisas contraditórias ao mesmo tempo: um calor capaz de acolher e uma tristeza fria e profunda, que era quase insuportável.
Ela estava tão próxima. Mas, ao mesmo tempo, tão longe. Mesmo sem saber quem era aquela mulher, Kendrick sentiu, ao vê-la, as mesmas emoções que sentiu ao ver a espada.
Era como se estivesse diante de alguém que esperara por ele durante uma eternidade.
Ao redor dela, mãos começaram a surgir da névoa. Mãos pálidas, negras e deformadas. Algumas tentavam agarrá-la. Outras se contorciam em espasmos, avançando e recuando, atraídas pela luz, mas aterrorizadas pela ideia de tocá-la.
A mulher apenas manteve os olhos em Kendrick enquanto murmurava alguma coisa.
Ele jamais ouvira aquela língua. Era estranha, mística, talvez antiga. Mesmo sem entendê-la, cada som atravessava seu peito e se enterrava em seu interior, deixando uma marca que não sabia explicar.
Kendrick levou uma de suas mãos à garganta. Queria perguntar quem ela era. Entender o que aquela espada significava. Saber por que a tristeza no olhar dela o feria daquele jeito.
Mas sua voz não saía.
Nada saía. E não poder chamá-la, nem estender a mão até ela, doía mais do que deveria doer por alguém que jamais vira.
Preso naquele silêncio, não podia fazer nada além de observá-la. Então, lentamente, a mulher ergueu uma das mãos em sua direção.
As formas deformadas se agitaram ao redor dela. A névoa estremeceu, abrindo um caminho até a mulher. O fio da lâmina brilhou ainda mais forte.
E, pela primeira vez, os lábios daquela figura pareceram formar uma palavra que Kendrick quase conseguiu compreender… Mas apenas quase.
Kendrick deu um passo em sua direção, buscando se aproximar. Mas uma dor súbita atravessou seu corpo inteiro. Mesmo assim, continuou.
Queria alcançá-la. Tocar aquelas mãos frágeis. Não sabia o nome dela, nem por que ela o olhava daquela forma. Ainda assim, a ideia de perdê-la doía.
A luz aumentou. O vazio inteiro começou a rachar. Kendrick estendeu a mão.
No instante em que seus dedos estavam prestes a tocar os da mulher, um som estrondoso rasgou aquele mundo.
A espada desapareceu junto à mulher, e a névoa se desfez.
Mas, antes que tudo lhe fosse arrancado, uma certeza permaneceu dentro dele, firme demais para ser apenas parte de um sonho.
Aquela espada ainda o alcançaria.
E, quando isso acontecesse, não existiria mais caminho de volta.

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