E, mais uma vez, Kendrick se encontrou em uma imensidão sem fim.

    O fluxo de energia que havia visto antes o envolvia por todos os lados, arrastando-o sem que houvesse chão, céu ou qualquer direção clara. Era uma correnteza infinita, feita de luz, sombra e algo que sua mente humana não conseguia nomear.

    Às vezes, parecia ainda possuir uma forma. Em outras, era apenas um fragmento perdido naquela maré infinita, levado por um pulso silencioso que atravessava tudo ao redor.

    As palavras de Neris ainda ecoavam em sua consciência fragmentada.

    Sua antiga vida vinha em pedaços. Sabia que pessoas importantes tinham chorado ao seu lado em seu leito de morte e que, antes daquele fluxo, havia tocado uma espada de empunhadura branca e adornos dourados.

    Mas os rostos, as vozes e os nomes pareciam lembranças cobertas por neblina. Algo dentro dele tinha sido arrancado, e o espaço vazio ainda doía.

    Enquanto era levado pela corrente, pontos de luz surgiam e desapareciam ao seu redor, como estrelas vistas sob a superfície de um rio escuro. Algumas passavam perto o bastante para quase tocá-lo. Outras se desfaziam antes que pudesse compreendê-las.

    Foi então que o fluxo mudou.

    A corrente, até então constante, chocou-se contra algo invisível. Toda a energia ao redor de Kendrick começou a se retorcer e se comprimir violentamente, como se fosse obrigada a atravessar uma passagem estreita.

    A pressão aumentou de repente.

    Ele tentou reagir, mas não possuía mãos, voz ou corpo com que pudesse resistir. Em seguida, veio um impacto brusco e cruel.

    Uma força o arrancou daquele fluxo antes que tivesse tempo de entender.

    Quando recuperou uma vaga noção de si mesmo, tudo parecia menor, compacto e quente.

    Estava preso dentro de algo estreito e elástico. Uma pressão constante vinha de todos os lados, envolvendo-o, comprimindo-o, mantendo-o dobrado sobre si mesmo.

    Havia um líquido quente e calmo ao redor de seu corpo.

    Kendrick tentou se mover, mas seus membros não respondiam direito. Não era como antes, quando sua forma parecia feita de energia. Agora havia limites muito mais claros.

    Ele possuía um corpo novamente… Mas aquele corpo não parecia seu.

    Não havia direção alguma, apenas calor, pressão e um som ritmado que não vinha dele.

    Tum… Tum… Tum.

    Aquele pulsar atravessava o espaço apertado ao seu redor numa cadência estranhamente segura.

    Confuso e amedrontado, foi envolvido por uma sensação estranha.

    Tudo começou a mudar… O espaço ao redor dele se contraiu. A contração o espremeu de todos os lados, arrancando-o daquela breve calmaria.

    O espaço relaxou, e se contraiu outra vez, só que mais forte e brusco.

    O líquido quente ao redor de seu corpo começou a diminuir. Aquilo que antes o protegia agora o empurrava para fora.

    Kendrick não entendia o que acontecia, mas aquele pequeno corpo compreendia a urgência da situação.

    Algo inevitável tinha começado. A pressão voltou. Seu corpo foi empurrado e comprimido através de um espaço extremamente estreito.

    De repente, uma brisa fria tocou a frente de seu corpo. A mudança de temperatura foi tão abrupta que ele tentou reagir, mas seus movimentos eram desajeitados e fracos.

    Uma força externa o agarrou, fazendo tudo sacudir.

    Mais uma vez, a pressão aumentou, empurrando-o para a frente enquanto tudo ao redor apertava, contraía e forçava sua passagem.

    Até que, de repente…

    Ele deslizou para fora.

    O espaço que antes era estreito se tornou enorme, frio e barulhento. Sons desordenados explodiram ao redor dele: vozes, passos, tecido sendo puxado, madeira rangendo, respirações ofegantes.

    Kendrick não compreendia nada. Apenas sentia aquele mundo invadindo-o com força.

    Alguém o segurava com firmeza e cuidado… Ele se sentiu pequeno e frágil, sendo segurado com facilidade.

    Mas então um clarão intenso atravessou seus olhos, fazendo tudo se tornar branco por um instante. Piscou várias vezes, sem entender direito como conseguia fazer aquilo.

    Antes que pudesse processar qualquer coisa, sentiu um impacto súbito em uma região que identificou como sua bunda.

    O choque arrancou dele uma reação involuntária. Um choro alto, agudo e desesperado escapou de sua garganta, o som assustou até ele mesmo.

    Era o choro de um bebê recém-nascido.

    Seus pulmões puxaram o ar pela primeira vez. O frio queimou por dentro, e a ardência o fez chorar ainda mais.

    Uma voz feminina soou próxima, suave, mas apressada. Outra respondeu logo depois, mais fraca e exausta.

    Kendrick tentou entender as palavras, mas não teve sucesso. Aquela era uma língua que sua mente não reconhecia.

    Aos poucos, sua visão começou a se ajustar. Tudo ainda estava borrado pelas lágrimas, mas manchas de luz deram lugar a sombras e, por fim, a contornos trêmulos.

    Uma silhueta estava diante dele, segurando-o no colo.

    Com enorme esforço, conseguiu diminuir o choro até restarem apenas respirações curtas e engasgadas. Em seguida, tentou erguer uma das mãos para limpar as lágrimas.

    Foi aí que as viu… Pequenas, gordinhas e desajeitadas, eram as mãos de um bebê.

    Ele ficou imóvel. Ou tentou ficar, porque seu pequeno corpo continuava se movendo de maneira descoordenada, sem obedecer completamente à sua vontade.

    Aquelas mãos eram suas.

    Os dedos abriam e fechavam sem precisão. As unhas eram quase transparentes. A pele era rosada com uma textura aveludada e fina.

    Pânico e incredulidade tomaram conta dele. A silhueta à sua frente começou a ganhar forma.

    Era uma mulher jovem, de beleza marcante e natural. Seus cabelos eram curtos, chegando até os ombros, com uma franja levemente irregular. A cor lembrava um vermelho escuro, quase vinho, refletindo a luz suave do cômodo.

    Seus olhos eram cor de mel. Claros, vívidos e acolhedores.

    Vestia roupas simples, feitas de couro e pelos de animais, como se fosse parte de algum povo antigo.

    A mulher sorria para ele com uma felicidade verdadeira. Ela parecia feliz por vê-lo respirando. Por vê-lo vivo.

    Mesmo sem entender as palavras que ela murmurava, Kendrick reconheceu o carinho em sua voz.

    Com delicadeza, ela ajeitou o pano que o envolvia e limpou suas lágrimas com o polegar. Depois começou a caminhar, segurando-o como algo extremamente precioso.

    O foco de Kendrick desviou para o ambiente.

    O quarto era rústico. As paredes eram de pedra e madeira. Os móveis, poucos e artesanais. Tapetes de couro cobriam partes do chão, enquanto as prateleiras sustentavam frascos, panos e ervas secas.

    O cheiro de madeira, couro, suor, água quente e plantas medicinais preenchia o cômodo.

    A luz do dia entrava por janelas estreitas, tornando o ambiente quase acolhedor. Sobre uma cama próxima, havia uma bacia cheia de água quente.

    E, deitada ali, estava outra mulher.

    Ela parecia exausta. O suor cobria seu corpo, e sua respiração vinha pesada após um esforço longo e doloroso. Ainda assim, havia nela uma beleza tranquila.

    Seus cabelos loiros se espalhavam pela cama, e seus olhos azuis, úmidos, permaneciam fixos em Kendrick.

    A ruiva se aproximou da cama. Sentou-se ao lado dela. Então, com extremo cuidado, entregou o bebê em seus braços.

    Kendrick foi acolhido com uma delicadeza que o deixou imóvel.

    A loira o segurou como se ele fosse a coisa mais importante daquele mundo.

    Uma mão quente deslizou lentamente sobre sua cabeça. O toque era calmo, cheio de afeto.

    Ela falou algo com uma voz baixa e trêmula. Ele não entendeu uma única palavra, mas compreendeu o sentimento.

    Aquela mulher estava exausta, dolorida, quase sem forças. E, ainda assim, sorria para ele como se todo sofrimento tivesse valido a pena.

    O brilho úmido em seus olhos azuis não era tristeza.

    Contra o peito dela, Kendrick ouviu novamente um coração.

    O mesmo pulsar distante e abafado que o tinha embalado na escuridão quente de antes, agora próximo, acompanhado pelo calor de braços que o protegiam do frio.

    Por alguns segundos, ele se sentiu seguro… Seguro de uma maneira que nunca havia sentido antes.

    Foi nesse momento que percebeu algo estranho.

    No topo da cabeça da mulher loira, entre os cabelos, havia um par de orelhas de lobo.

    Kendrick piscou, mas as orelhas continuavam ali.

    As orelhas dela se moviam levemente, reagindo ao som do ambiente como se estivessem captando cada ruído.

    Ele tentou virar o rosto em direção à mulher de cabelos vermelhos.

    Ela também possuía orelhas, vermelhas e felpudas, igualmente atentas. Erguidas sobre a cabeça, movendo-se de acordo com os sons do quarto.

    O cômodo rústico já indicava que Kendrick não estava mais em seu antigo mundo. Aquelas orelhas tornavam impossível fingir que se tratava apenas de outra época. As palavras de Neris ainda ecoavam em sua mente, batendo exatamente com o fato de que naquele mundo ele sequer poderia ser humano.

    Antes que conseguisse processar melhor, um som grave ecoou pelo cômodo.

    A porta tinha sido aberta.

    Kendrick movimentou o rosto na direção do barulho.

    Uma sombra alta surgiu na entrada. À medida que avançava pelo quarto, a silhueta ganhou forma.

    Era um homem muito alto, atlético, com barba feita e cabelos longos e vermelhos até a cintura. Seus olhos dourados carregavam uma autoridade natural, agora quebrada pelo choque.

    Trazia ferramentas de campo presas às costas, uma cabaça de água e terra seca nas botas.

    No instante em que viu a mulher loira na cama e o bebê em seus braços, largou tudo no chão.

    As ferramentas bateram contra a madeira com um som alto.

    A ruiva se virou para ele e falou rapidamente, talvez tentando acalmá-lo. O homem nem pareceu ouvi-la.

    Caminhou diretamente até a cama, com os olhos marejados e presos na mulher loira.

    E em Kendrick.

    Por um instante, parou ao lado da cama, como se precisasse confirmar que aquilo era real.

    Então abraçou a mulher com força e ternura. Ela sorriu, aliviada, e afundou o rosto contra ele, permitindo-se descansar.

    O homem tocou a testa dela com a própria, murmurou algumas palavras e beijou seus lábios com emoção.

    Mas logo após isso, voltou sua atenção para ele.

    Seus olhos dourados encontraram os de Kendrick. A intensidade daquele olhar fez seu pequeno corpo estremecer.

    E isso bastou para que outro choro escapasse de sua garganta.

    O homem pareceu se assustar. A ruiva soltou uma risada baixa da reação dele. Já a loira falou algo num tom fraco, ainda sorrindo.

    Ele respondeu depressa, como se tentasse se defender de alguma acusação.

    Em seguida, estendeu os braços.

    A loira hesitou apenas por um instante antes de entregar o bebê.

    Kendrick foi colocado nos braços daquele homem enorme. Para sua surpresa, o toque dele era cuidadoso. Seus braços fortes o seguravam como se fosse mais frágil que vidro.

    Com cuidado, o homem ajeitou Kendrick contra o peito e o embalou levemente. O som de seu coração era mais grave, mais firme, mas também transmitia segurança.

    Ele disse algumas palavras numa voz rouca, carregada de emoção.

    Kendrick continuava incapaz de entender aquela língua, mas, naquele instante, algo se encaixou em sua mente.

    Ele tinha nascido novamente, como Neris havia lhe dito.

    A ideia ainda parecia absurda, mas o pequeno corpo em que estava preso era uma prova impossível de ignorar, do mesmo modo que havia passado por tantas experiências estranhas antes de chegar ali.

    Foi então que notou outro detalhe… O homem também possuía orelhas de lobo.

    Vermelhas e felpudas, semelhantes às da ruiva, elas se moviam levemente conforme os sons do quarto mudavam.

    Reunindo as poucas forças daquele corpo, Kendrick esticou uma mão em direção a elas. O movimento foi lento e desajeitado, mas o homem percebeu.

    Em vez de afastá-lo, abaixou um pouco a cabeça.

    Os dedos minúsculos de Kendrick tocaram uma das orelhas.

    Era macia, felpuda e quente… A orelha se mexeu de leve sob seus dedos. A ruiva riu novamente, e o homem a acompanhou sorrindo.

    A loira murmurou alguma coisa, olhando para Kendrick com ternura.

    Naquele momento, a conclusão veio naturalmente.

    Ele tinha reencarnado como algo diferente de um humano comum. Talvez um híbrido. Talvez aquilo que, em histórias, chamariam de meio-humano.

    Não sabia dizer ao certo, mas essa possibilidade já havia lhe sido dita antes mesmo de reencarnar.

    Kendrick observou melhor as pessoas ao redor.

    A ruiva possuía traços parecidos com os do homem. Talvez fossem irmãos, provavelmente poderia ser sua tia.

    A loira era, sem dúvida, sua mãe.

    E o homem que agora o segurava…

    Seu pai.

    A loira estendeu os braços novamente, pedindo o bebê de volta. Obedecendo com cuidado, o homem devolveu Kendrick para ela.

    Assim que voltou ao peito da mãe, sentiu o calor envolvê-lo outra vez.

    A mão dela passou por seus cabelos finos e tocou sua bochecha, limpando mais uma lágrima que escapou sem que percebesse.

    Ela disse algo numa voz suave, carregada de um carinho tão profundo que apertou o peito de Kendrick.

    Talvez fosse seu nome naquele mundo ou apenas uma palavra de amor… Ele não sabia.

    Mas o tom fez seu corpo relaxar.

    A ruiva ajeitou melhor o pano ao redor dele. O homem puxou uma cadeira para perto da cama e se sentou ao lado das duas, incapaz de tirar os olhos do bebê.

    O quarto continuava cheio de pequenos sons: a água na bacia, a madeira rangendo, a respiração cansada da loira, o riso baixo da ruiva.

    Tudo era estranho e desconhecido, mas também era vivo.

    Depois de morrer sozinho no chão frio de uma loja, estar nos braços de uma nova família parecia bom… Bom demais.

    Pensando sobre isso, Kendrick tentou alcançar as lembranças de sua antiga vida.

    Tentou lembrar do rosto das pessoas que tinha deixado para trás. Do homem que segurou sua mão enquanto morria. Do garoto que gritou por ajuda. Da vida que, mesmo dura e cruel, ainda tinha sido sua.

    Mas as imagens estavam quebradas, distantes, sem rosto e sem voz.

    Uma dor apertou seu pequeno peito, e lágrimas escorreram por seu rosto.

    Dessa vez, não era o choro instintivo de um recém-nascido. Era a tristeza de lamentar por algo perdido. Algo que ele já não conseguia lembrar com clareza suficiente para chamar pelo nome.

    A loira percebeu imediatamente. Seu rosto se encheu de preocupação.

    Ela o aproximou ainda mais do peito, embalando-o devagar enquanto murmurava palavras suaves naquela língua desconhecida.

    O homem se inclinou e tocou delicadamente sua cabeça. A ruiva também se aproximou, observando-o com uma expressão aflita.

    Kendrick fechou os olhos.

    O cheiro de couro, madeira, ervas e calor humano o envolveu. O som do coração de sua mãe naquele mundo voltou a preencher seus ouvidos.

    Tum… Tum… Tum…

    Ele tinha renascido em um novo mundo, com um corpo pequeno e frágil, nem sequer era humano.

    Ainda assim, no fundo daquela paz inesperada, havia uma inquietação.

    Mas, protegido pelo calor dos braços de sua mãe, permitiu-se acreditar que talvez Neris estivesse certa.

    Talvez aquele fosse realmente o mundo ao qual pertencia agora. Então seu antigo eu havia morrido de uma vez, e só lhe restava deixá-lo descansar.

    O que ninguém sabia…

    Era que, junto daquele nascimento, algo antigo também havia despertado no sangue daquele bebê.

    Uma sentença ou herança, ninguém poderia dizer.

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