Capítulo 116 — O que não me disseram?
Marco recuou meio passo sem perceber.
A esfera de selenita continuava presa na mão dele, mas os dedos tinham parado de apertar. Marco abriu a boca, viu a criatura no centro do galpão e não terminou a frase.
Kalamera travou atrás dele.
Reinna puxou as correntes, fazendo os aros rangeram no chão. Halikah estremeceu, mas não saiu do lugar.
Hegoria passou os olhos por Marco e Kalamera, pela esfera de selenita e pela porta aberta atrás dos dois. A expressão dela não mudou. O carvão ficou parado entre os dedos por um instante curto demais para virar pausa.
— Estão feridos?
Marco piscou, ainda olhando para Reinna.
— Não.
Hegoria inclinou o rosto para Kalamera.
O olhar dela desceu pelos quatro braços metálicos, parou nos encaixes desalinhados e voltou para o rosto da elfa.
— E a atacante?
Kalamera demorou a responder.
Continuava olhando para o corpo preso no centro do galpão. Os olhos diferentes de Reinna apareciam e sumiam atrás do cabelo sujo sempre que ela puxava a cabeça contra a corrente do pescoço.
— Fugiu depois que nós dois conseguimos segurar a luta.
Hegoria anotou uma linha.
— Vocês a feriram?
Marco apertou a selenita na mão.
— Não. Ela era rápida demais. A gente só conseguiu impedir que chegasse na Kalamera.
A elfa virou o rosto só um pouco.
— Ela usava magia de raio.
Hegoria ergueu os olhos.
— Raio?
— Azul. Rápida. Difícil de acompanhar.
O carvão voltou ao papel.
Lou-reen olhou para Marco.
— Como era a atacante?
Marco demorou um instante para responder. Ainda olhava para Reinna.
— Jovem. Cabelo prateado.
Ele engoliu seco e forçou os olhos de volta para Lou-reen.
— Não parecia estar tentando matar. Tentou chegar na Kalamera mais de uma vez. Quando viu que não ia conseguir, fugiu.
Kalamera não tirou os olhos de Reinna. Hegoria anotou mais uma linha.
— Sozinha?
— Pelo que vimos — Marco disse. — Ninguém entrou depois dela. Ninguém ajudou na saída.
Marco ergueu a mão.
— E deixou isso cair.
A esfera de selenita apareceu entre os dedos, manchada de neve derretida e fuligem da forja.
Lou-reen olhou para a esfera. Depois para Marco, depois para Kalamera. O olhar dela passou por Reinna presa no centro do galpão e parou em Halikah por um instante. A garota continuava imóvel, com os olhos grudados no rosto deformado da amiga.
— Dois ataques.
Marco abaixou a mão um pouco.
Kalamera enfim desviou os olhos de Reinna.
Hegoria manteve o carvão parado sobre o papel.
Lou-reen continuou:
— Um contra Halikah. Um contra Kalamera.
Reinna puxou as correntes outra vez. Ninguém mais se moveu.
Lou-reen virou o rosto para Marco e Kalamera.
— Eles sabiam onde vocês estavam.
O olhar dela foi para Halikah.
— Sabiam onde ela mora. Sabiam que estava indo para casa.
Halikah engoliu seco.
— Só não contavam comigo lá.
Depois olhou para Kalamera.
— Nem que vocês dois conseguissem se defender.
Hegoria baixou os olhos para o caderno e terminou a linha que tinha começado.
— Então não foi acaso — Venia disse, do canto.
— Não — Lou-reen respondeu.
A general finalmente estendeu a mão para Marco.
— A esfera
Marco entregou.
Lou-reen a pegou entre dois dedos e a virou contra a luz do galpão. A selenita estava inteira. Sem rachadura, sem marca externa, sem runa aparente fora do padrão.
Ela fechou a mão em volta da pedra por um instante e um brilho fraco acendeu por dentro.
— Aqui é Lou-reen Egalyn.
A esfera manteve a luz presa no centro.
Ninguém respondeu. Lou-reen esperou mais um instante.
— Responda.
Só o silêncio voltou.
A general baixou a esfera até a altura do peito, olhou para o brilho preso na pedra e imbuiu mais essência.
A luz aumentou.
— Aqui é a General Lou-reen Egalyn. Responda.
Hegoria se mexeu perto da mesa.
O movimento foi rápido demais e o cotovelo dela bateu numa bandeja, e duas lâminas finas deslizaram pelo metal. Um frasco tombou, rolou até a borda e caiu no chão.
Vidro estalou na pedra.
Hegoria já estava abaixada antes que o som terminasse.
— Cuidado — Venia disse.
— Eu pego.
A tenente recolheu primeiro o caco maior, depois o gargalo partido. Os dedos ficaram firmes em volta do vidro. Ela juntou os pedaços contra a palma, levantou e colocou tudo de volta na bandeja.
Lou-reen não tirou os olhos da esfera.
A selenita continuava acesa.
Sem resposta.
— Comunicação comum — Lou-reen disse.
Marco olhou para ela.
— Então alguém estava falando com ela.
— Ou esperando ser chamado.
A esfera apagou na mão da general.
Antes que Lou-reen dissesse outra coisa, passos vieram do lado de fora.
Um soldado apareceu na entrada do galpão, com neve presa nos ombros e a mão no cabo da espada.
— General.
Atrás dele, Marlen Veyl entrou.
Ela vinha com o rosto fechado de quem tinha sido arrancada de uma busca e trazida sem explicação completa. O olhar passou primeiro por Lou-reen, depois por Marco, Kalamera, Venia, Hegoria e só então pelo centro do galpão.
— Disseram que prenderam uma dessas coisas.
Reinna puxou as correntes.
Marlen olhou para ela, sem reconhecer.
Viu primeiro o corpo deformado, a pele escura demais, o cabelo grudado no rosto e os ombros presos em ângulo errado. A força absurda empurrando ferro contra pedra.
O rosto dela endureceu mais.
— Onde encontraram?
Lou-reen não respondeu na hora.
Foi menos que uma pausa, quase nada, mas Marlen percebeu.
Ela conhecia resposta militar, conhecia relatório direto. Conhecia general respondendo antes de qualquer hesitação
Lou-reen segurou meio segundo.
Marlen olhou para ela.
— O que não me disseram?
Reinna parou. A cabeça virou devagar.
O corpo inteiro acompanhou a voz, puxando as correntes um pouco para o lado de Marlen.
A sargento percebeu.
Deu um passo na direção da criatura.
Lou-reen entrou na frente sem levantar a espada.
Marlen parou contra o corpo da general.
— Saia da frente.
Lou-reen não saiu.
Marlen tentou olhar por cima do ombro dela.
Reinna puxou a corrente do pescoço, levantando a cabeça o bastante para o cabelo sujo abrir de lado. O rosto apareceu melhor.
Marlen ficou imóvel.
Por um instante, ainda tentou negar. O corpo era outro, a pele era outra. A boca, a mandíbula, os ossos, tudo tinha sido puxado para longe do que ela procurava havia dias.
Então os olhos apareceram.
Um verde, outro castanho-escuro.
Marlen entendeu antes de aceitar.
— Reinna?
O galpão ficou sem som.
Marco olhou para Halikah.
A garota não negou. Só fechou os olhos por um instante, como se a palavra tivesse batido nela de novo.
Kalamera olhou para Marlen, depois para o corpo preso no centro do galpão.
Marlen continuava encarando os olhos da filha.
Depois virou o rosto para Lou-reen.
A general sustentou o olhar dela.
— Sim.

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