Capítulo 117 — Materialização de Essência: Sevoflurano.
Marlen continuou parada contra Lou-reen.
O corpo da general ainda estava entre ela e o centro do galpão, mas isso já não bastava. Marlen olhava por cima do ombro dela, presa nos olhos de Reinna, como se qualquer coisa além daqueles dois pontos tivesse deixado de existir.
Reinna puxou as correntes.
O som fez dois soldados firmarem as mãos nas hastes das lanças, mas Marlen não olhou para eles. A mão dela subiu.
Lou-reen segurou o pulso antes que passasse de seu ombro.
O gesto bastou.
Reinna veio para a frente com tudo que as correntes ainda permitiam. O pescoço bateu contra a argola, os braços puxaram em sentidos opostos e um dos aros cravados no chão saltou com um estalo de pedra partida. O soldado mais próximo largou a lança e agarrou a corrente para impedir que ela ganhasse mais espaço.
Por um instante, segurou, depois o elo cedeu.
A corrente chicoteou entre as mãos dele e o arrancou do equilíbrio. O soldado caiu de costas, batendo o ombro na pedra, e Reinna avançou sobre o espaço aberto, ainda presa pelo resto das contenções, mas agora com um braço livre descendo na direção dele.
Marlen continuava presa atrás de Lou-reen quando viu a mão do soldado ir para a espada. A lâmina começava a sair da bainha. Ela empurrou o ombro da general e passou pelo espaço que abriu, não na direção de Reinna, mas do homem no chão. O impacto entrou de lado, com o peso inteiro, jogando a mão dele de volta contra o couro.
O soldado caiu de costas outra vez, preso entre a corrente, o chão e a sargento por cima dele.
Lou-reen não tentou puxar Marlen de volta.
Reinna ainda estava sobre o soldado. O braço livre descia quando Lou-reen entrou no alcance e agarrou o antebraço deformado no meio do golpe. O impacto atravessou o braço da general e afundou seu pé na pedra.
Reinna puxou contra ela. A corrente quebrada riscou o chão em arco, raspando pedra e metal até bater no aro solto.
Kalamera avançou no mesmo instante.
Os dois braços inferiores se abriram a partir dos encaixes. Placas, anéis, hastes e dedos metálicos se separaram no ar, ainda presos ao controle dela por essência. Em vez de voltar à forma de braços, as peças se alinharam em volta da corrente solta.
O metal fechou no elo partido e correu até o aro arrancado, atravessando a corrente por dentro, mordendo as bordas quebradas e puxando tudo de volta para baixo. Kalamera firmou os braços superiores no chão, os ombros travados, enquanto as peças inferiores afundavam entre as rachaduras da pedra. Hastes finas desceram, abriram-se sob o piso e prenderam o conjunto por dentro.
A corrente esticou de novo.
Reinna tentou avançar.
Lou-reen segurou o braço livre com as duas mãos e girou o peso para o lado, tirando a descida do golpe do peito do soldado. O corpo de Reinna bateu contra a contenção remontada por Kalamera. A nova âncora rangeu, as peças tremeram, mas não soltaram.
Marlen continuava sobre o soldado, uma mão prensando o punho dele longe da espada. Só então pareceu perceber onde estava. O homem respirava rápido embaixo dela, sem entender se tinha sido salvo ou atacado.
No centro, Reinna puxou outra vez.
Marco já estava se movendo.
Ninguém olhou para ele. Todos estavam presos ao centro do galpão: Lou-reen segurando o braço de Reinna, Kalamera enterrando metal no chão, Marlen esmagando a mão do soldado contra a bainha. Marco entrou por fora da confusão.
“Diagnóstico rápido”, Nova disse. “Essência primordial acima do limite seguro. Descarga extrema de adrenalina. Estímulo químico e energético sustentando contração muscular. Dor não vai parar isso.”
Reinna puxou outra vez.
A âncora de Kalamera rangeu.
“Opção menos letal: anestésico volátil por inalação.”
“Como eu crio isso?”
“Com dificuldade, já que você não é anestesista, químico nem minimamente qualificado. Sevoflurano. C quatro, H três, F sete, O. Éter halogenado. Vou montar a estrutura.”
A imagem veio inteira na cabeça dele: carbono, oxigênio, flúor, ligações, ângulos, uma forma que Marco não entendia como médico, mas conseguia repetir como runa.
Ele puxou essência antes que Nova terminasse de ajustar a última ligação.
O Cetro pesou contra a lateral do corpo. O artefato percebia Reinna como ameaça: força fora de controle, contenção falhando, morte próxima demais. A resposta dele era eliminar.
A mão direita subiu já formando a névoa.
— Materialização de Essência: Sevoflurano.
A nuvem saiu pequena demais para a força que sacudia o galpão. Um vapor pálido, baixo, instável, sem explosão, sem clarão, sem impacto. Passou pelo espaço entre Lou-reen e a corrente, alcançou o rosto de Reinna e se abriu diante da boca dela.
A nova âncora de Kalamera rangeu.
Lou-reen afundou mais o pé na pedra.
Marco avançou mais um passo e imbuiu outra camada.
A nuvem entrou pela boca aberta de Reinna, passou pelos dentes, pelo ar rouco que ela tentava puxar. Os ombros continuaram tensionados. O braço preso nas mãos de Lou-reen ainda tremia com força suficiente para sacudir a general. O braço livre tentou descer outra vez, mas perdeu a linha no meio do movimento.
Reinna puxou a corrente.
Desta vez, o puxão saiu torto.
Kalamera sentiu a mudança antes dos outros. As peças presas ao chão pararam de vibrar no mesmo ritmo. A corrente ainda esticava, mas a força vinha quebrada, sem a mesma direção.
Marco manteve a mão erguida.
A névoa pálida cobriu o rosto de Reinna por mais um instante. Os olhos diferentes continuaram abertos. O verde e o castanho-escuro giraram sem encontrar ninguém. A mandíbula fechou e abriu uma vez, sem som. Os dedos do braço livre se curvaram no ar, procurando o soldado, depois agarraram nada.
O corpo tentou resistir sem saber mais para onde ir.
Primeiro cedeu o pescoço.
Depois os ombros perderam altura. O peso desceu pelas correntes, puxando metal, aro e peças de Kalamera para baixo em vez de para frente. Lou-reen não soltou. Esperou o último tranco.
Ele veio fraco.
Reinna ainda tentou avançar uma última vez, mas o movimento morreu no próprio começo. O braço deformado escorregou das mãos de Lou-reen até ficar pendurado pela corrente. A cabeça caiu para o lado. O cabelo sujo cobriu metade do rosto.
A névoa se dissipou.
Por alguns segundos, ninguém se mexeu.
O galpão continuava cheio de ferro, sangue, vidro quebrado e respiração presa, mas a força que mantinha todos em posição tinha sumido. A corrente de Kalamera ficou esticada sem lutar contra nada. Lou-reen permaneceu com as mãos no braço de Reinna, mesmo depois que já não precisava segurar.
Reinna não puxou mais.
Só ficou suspensa pelas contenções, pesada e imóvel, com a cabeça caída contra o próprio ombro.
Marlen demorou a sair de cima do soldado.
A mão dela continuava presa no punho do homem, mantendo a espada dentro da bainha, mas a força já não estava ali. Os dedos abriram devagar. O soldado puxou o braço para junto do peito e não tentou sacar de novo.
Marlen se levantou olhando para Reinna.
Lou-reen ainda estava entre as correntes, uma mão no braço apagado da garota, a outra perto do peito dela, pronta para segurar outro tranco que não veio. Kalamera manteve as peças fincadas no chão. Só os dois braços superiores voltaram a se erguer, tensos, enquanto os inferiores continuavam espalhados pela corrente e pela pedra.
Marlen deu um passo.
Dessa vez, Lou-reen não barrou. Só acompanhou o movimento com o corpo, perto o bastante para intervir se Reinna acordasse.
Marlen parou diante da filha.
O rosto de Reinna estava caído de lado, meio coberto pelo cabelo sujo. A pele escura, as veias altas e as deformações no pescoço ainda impediam que a mãe aceitasse o que estava vendo sem esforço. Marlen ergueu a mão, mas os dedos pararam antes de tocar.
A pergunta saiu baixa.
— Ela está morta?
Marco estava com a mão ainda erguida, a última parte da névoa se desfazendo entre os dedos.
— Não.
Marlen virou só os olhos para ele.
— Eu apenas a coloquei para dormir.
Marlen voltou para Reinna e tocou primeiro o cabelo. Afastou as mechas grudadas do rosto com dois dedos, devagar, sem olhar para mais ninguém. Depois passou a mão pela testa, pela linha da sobrancelha, pela lateral do maxilar.
Reinna não reagiu.
Lou-reen esperou mais um instante e soltou o braço dela com cuidado. O membro caiu pouco, preso pela corrente frouxa. Kalamera manteve a contenção firme no chão.
Marlen segurou o rosto da filha com as duas mãos.
O polegar dela parou abaixo da orelha esquerda. Havia uma marca pequena ali, quase perdida sob a pele alterada. Marlen limpou a sujeira com o dedo, uma vez, depois outra, até a marca aparecer inteira.
O ar saiu do peito dela sem força.
— É ela.
Halikah fechou os olhos.
Marlen puxou Reinna para si, mas o peso veio errado. O corpo apagado não tinha a leveza de uma menina dormindo. As correntes, os ombros deformados e a massa endurecida pela transformação pesaram contra o colo dela.
Dois soldados deram um passo, sem saber se tinham permissão.
Lou-reen olhou para eles.
— Ajudem.
Eles se aproximaram com cautela. Um soltou a corrente do pescoço o bastante para aliviar a queda da cabeça. O outro segurou o peso pelo lado, evitando as partes ainda presas. Marlen não soltou o rosto da filha. Quando o corpo desceu, ela recebeu Reinna no colo do jeito que conseguiu, ajoelhada na pedra, com o peso sustentado em parte pelos soldados e em parte pelas próprias pernas.
A cabeça de Reinna ficou contra o peito dela.
Marlen passou a mão pelo cabelo sujo, depois pela nuca, depois pelo rosto outra vez, confirmando cada pedaço que ainda podia confirmar. Os olhos diferentes estavam fechados agora, mas a marca abaixo da orelha continuava ali. A linha quebrada da sobrancelha também. A curva do nariz sob a alteração. O jeito da boca relaxar quando o corpo apagava.
Marlen apertou a filha contra si.

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