Durante os primeiros dias daquela nova vida, ele ainda pensava em si mesmo como Kendrick… Isso era inevitável.

    Mesmo que suas lembranças estivessem fragmentadas, e que os rostos e as vozes do antigo mundo parecessem cada vez mais distantes, aquele nome ainda permanecia dentro dele.

    Mas, naquele mundo, ninguém conhecia Kendrick.

    Para a mulher loira que o embalava todas as noites com amor, ele era Karlen. Para o homem de cabelos vermelhos e olhos dourados que o carregava com um cuidado paternal, ele era Karlen.

    Para a moça ruiva que visitava a casa com frequência, sorrindo enquanto apertava suas bochechas, ele também era Karlen… Karlen D. Scale.

    Ou, como sua mãe gostava de chamá-lo:

    — O pequeno Len.

    No começo, a aceitação daquele nome era difícil, pois ele parecia pertencer a outra pessoa — a um bebê pequeno, de orelhas lupinas, que era alimentado, banhado e carregado de um lado para o outro.

    E não a alguém chamado Kendrick.

    Mas o tempo era insistente.

    Dia após dia, a voz doce de sua nova mãe repetia aquele apelido com tanto amor que ele começou a ganhar um peso próprio.

    — Len, meu amor…

    — O pequeno Len acordou?

    — Venha com a mamãe, Len.

    Pouco a pouco, ouvir aquele nome deixou de parecer estranho. Kendrick se tornou apenas uma fantasia abandonada e obscurecida em sua mente.

    Karlen era aquilo que ele havia se tornado. E, antes que pudesse perceber, seis meses haviam passado — seis meses desde que nascera naquele mundo desconhecido, dentro de um corpo que não era humano.

    A casa, que antes era grande e confusa, já possuía familiaridade.

    O cheiro da madeira úmida. O couro dos tapetes. As ervas penduradas perto da cozinha. A fumaça fraca que subia do fogão. O perfume suave de sua mãe. E o cheiro de terra e suor que sempre anunciava a chegada de seu pai antes mesmo que a porta se abrisse.

    Karlen já conhecia tudo aquilo — ou quase tudo.

    Como um bebê incapaz de falar ou caminhar sozinho, não tinha muitas escolhas além de aceitar sua nova situação. O maior problema era se adaptar.

    Talvez por não ser mais humano, aquele corpo parecia se desenvolver de maneira diferente. O fato era que Karlen percebia tudo com intensidade demais.

    O rangido da madeira durante a noite, o vento raspando nas frestas das janelas, insetos se movendo junto às paredes, passos do lado de fora da casa, água caindo dentro de uma bacia, panos sendo dobrados e o estalar distante de uma fogueira.

    Ruídos que um humano comum provavelmente ignoraria chegavam aos ouvidos dele com uma clareza irritante.

    Já não eram tão violentos quanto nos primeiros dias, quando todo barulho parecia explodir dentro de sua cabeça de recém-nascido.

    Mas continuavam ali… Sempre martelando em sua cabeça. E ele ainda não sabia como desligá-los.

    O olfato também era um problema. Karlen sentia cheiros fortes demais. Quando sua mãe cozinhava, ele conseguia distinguir o leite, as ervas, os cereais e a lenha queimando.

    Quando seu pai voltava dos campos, sentia a terra em seu corpo antes mesmo de ouvir seus passos.

    Já a mulher ruiva sempre trazia consigo o cheiro de vento, folhas e alguma fruta doce que comia no caminho.

    Por outro lado, nem tudo era ruim.

    Karlen conseguia enxergar no escuro com uma facilidade estranha. Durante a noite, quando a casa ficava silenciosa e a luz das luas atravessava as janelas estreitas, ainda distinguia o contorno dos móveis, as vigas do teto, os panos pendurados e a silhueta de sua mãe adormecida ao lado de seu pai.

    Era útil… exceto pelas vezes onde o mesmo acabava por traumaticamente experienciar o amor intenso de seus pais.

    Mas também era assustador às vezes. Mesmo quando tentava dormir, seu corpo continuava percebendo coisas demais.

    O único alívio era que seu desenvolvimento físico parecia ter avançado bem no início… Aos cinco meses, conseguiu engatinhar pela primeira vez.

    Não foi bonito. Na verdade, terminou com ele escorregando para o lado e ficando preso entre um pano dobrado e a perna de uma cadeira.

    Ainda assim, foi uma vitória.

    Desde então, passou a se esforçar cada vez mais para recuperar algo que parecia simples demais para merecer atenção: mover-se por conta própria. Controlar um corpo de bebê, porém, era muito mais difícil do que imaginara.

    A cabeça pesava, os braços eram curtos, e as pernas não obedeciam direito. O equilíbrio era uma piada cruel.

    Às vezes, tentava se mover com confiança e tombava de lado como uma trouxa de pano. Em outras, engatinhava alguns centímetros antes de bater a testa em alguma coisa, sem entender onde havia calculado errado.

    Para um bebê humano, talvez aquilo fosse normal, mas ele não era humano.

    E, naquela casa, começara a perceber que os semi-humanos esperavam algo diferente de suas crianças.

    Sua mãe sempre o observava com amor; já seu pai o observava com orgulho.

    Mas, às vezes, por breves segundos, Karlen percebia uma preocupação escondida nos olhos de sua mãe. Pequena. Quase imperceptível. Uma sombra que ela tentava apagar antes que alguém notasse.

    Ele ainda não sabia o motivo, e aquela era apenas parte do problema, porque havia humilhações muito piores do que não conseguir andar.

    Ser banhado… Ser trocado… Ser amamentado… Ser abraçado enquanto alguém dizia, em voz exageradamente carinhosa, que ele era “o filhotinho mais lindo da mamãe”.

    Sua mãe o tratava com uma dedicação absurda.

    Aquilo era profundamente reconfortante. Mas também vergonhoso, especialmente porque, por trás daquele corpo pequeno, ainda restava a noção de alguém que um dia fora adulto.

    Ou, pelo menos, de alguém que um dia atenderia pelo nome de Kendrick.

    Foi durante uma dessas situações que Karlen se viu sentado em uma pequena cadeira artesanal.

    Seu pai a construíra poucos dias antes. Era simples, feita de madeira escura, com bordas arredondadas e pequenas marcas de ferramenta ainda visíveis. Um pano grosso dobrado sobre o assento tentava deixá-la confortável.

    Diante dele, sua mãe segurava uma tigela de mingau quente.

    O cheiro era muito bom. Havia cereais, leite e algo levemente adocicado, talvez uma fruta local que ele ainda não sabia identificar.

    Com cuidado, a mulher soprou a colher, testou a temperatura contra os próprios lábios e a aproximou dele com um sorriso cheio de ternura.

    — O pequeno Len da mamãe quer comer? É isso que o bebê da mamãe quer?

    Karlen ficou imóvel.

    A essa altura, já compreendia quase perfeitamente o que ela dizia.

    Esse era justamente o problema.

    No início, aquela língua era apenas um amontoado de sons sem sentido. Depois, as palavras começaram a se repetir: Len, mamãe, papai, comer, dormir, Kelly, Raine, Angie. Em algum momento entre as conversas sobre seu berço e os cantos baixos de sua mãe durante o banho, os sons ganharam significado.

    Agora, ela esperava uma reação fofa. Um sorriso. Um gesto. Qualquer coisa que combinasse com um bebê de seis meses.

    Karlen encarou a colher. Depois, olhou para o rosto da mulher.

    Os olhos azuis dela brilhavam com expectativa.

    No fim, não havia escapatória.

    Ele abriu a boca e aceitou o mingau.

    O sabor era excelente. Quente, suave e levemente doce. E isso tornou tudo pior, porque seu corpo reagiu antes que sua dignidade pudesse impedi-lo.

    Seus olhos se iluminaram.

    A mulher percebeu na mesma hora.

    — Ah! Então o pequeno Len gostou? Gostou, não foi?

    Ela aproximou outra colherada.

    Karlen tentou manter uma expressão neutra.

    Falhou miseravelmente.

    Depois de algumas colheradas, ela inclinou a cabeça.

    — O bebê da mamãe quer mais?

    Ele travou. O olhar dela exigia uma resposta. Uma resposta de bebê.

    Resistiu por alguns segundos. Então cedeu. Movimentou os bracinhos curtos e abriu um pequeno sorriso, fazendo o máximo para parecer apenas uma criança empolgada com comida.

    O efeito foi imediato.

    Ela abriu um sorriso enorme.

    — Que coisa mais linda da mamãe!

    Antes que Karlen pudesse se arrepender, ela o tirou da cadeirinha e o pegou no colo, girando devagar pela cozinha enquanto ria como se tivesse acabado de testemunhar o maior milagre daquele mundo.

    Preso nos braços dela, ele permaneceu com o rosto quente de vergonha e a barriga satisfeita demais para reclamar.

    Aquilo não era algo de que pudesse se orgulhar. Mas a sensação de ter uma família era mais importante do que qualquer orgulho ferido.

    E, por mais constrangedor que aquilo fosse, havia uma parte dele que não queria perder aquele calor.

    Enquanto sua mãe ainda o segurava, um reflexo atravessou seu rosto.

    Karlen virou os olhos na direção da claridade e viu uma borboleta branca entrando pela janela estreita. Suas asas brilhavam sob a luz do dia enquanto ela circulava a cozinha, passava perto das ervas penduradas na parede e pousava na borda da janela.

    A mãe de Karlen também a viu.

    — Veja, Len. Que linda.

    O bebê acompanhou o pequeno inseto com os olhos.

    Poucos segundos depois, a borboleta partiu pelo mesmo lugar por onde entrara, desaparecendo no verde do lado de fora.

    Karlen permaneceu olhando para aquela abertura estreita.

    O mundo parecia grande e vivo, verdejante como aquela visão. Havia tantas coisas além daquela casa que ele ainda não conhecia: florestas, montanhas, povos, criaturas, cidades. Talvez aventuras que sua antiga vida jamais permitiria que experimentasse.

    Depois de alimentá-lo, sua mãe o colocou no chão e voltou aos afazeres domésticos.

    Finalmente, ele teve paz, e paz significava treino. O momento mais desafiador do dia havia chegado:

    — Andar.

    Esse era seu objetivo principal.

    Nas tentativas anteriores, sempre acabava caindo sentado. Às vezes, nem conseguia levantar. Ainda assim, precisava insistir. Se estava preso no corpo de um bebê, então faria aquele corpo evoluir o mais rápido possível.

    Apoiou as mãos no chão, ajeitou os joelhos e ergueu uma das pernas.

    Na primeira tentativa, faltou força. Na segunda, o joelho escorregou e quase o fez tombar. Na terceira, reuniu tudo o que tinha, colocou um dos pés à frente e empurrou o corpo para cima.

    Por um breve instante, ficou de pé sozinho… Só aquilo pareceu uma vitória grandiosa.

    As pernas tremiam. Os braços se ergueram instintivamente no ar, procurando equilíbrio. Karlen tentou compensar o peso. Um pouco para a esquerda. Depois para a direita. Talvez, se movesse o pé…

    Não.

    Não funcionou.

    Ploft!

    Caiu de cara contra o chão.

    A dor veio rápida, acompanhada por um baque humilhante.

    Para os ouvidos da mãe de Karlen, porém, foi mais do que suficiente.

    Ela apareceu na entrada da cozinha com as orelhas erguidas e os olhos arregalados.

    — Len?!

    Karlen tentou manter a compostura. Ou o máximo de compostura que um bebê caído de cara no chão conseguia preservar.

    A mãe correu até ele e o pegou no colo, virando seu rosto de um lado para o outro à procura de ferimentos.

    Não era nada grave. Apenas um pequeno galo começando a se formar na testa.

    Ainda assim, para ela, aquilo parecia uma tragédia.

    — Meu filho… — murmurou, aflita. — Como a mamãe pôde te deixar sozinho? Você sempre se machuca quando eu me afasto por um instante…

    Karlen encarou o rosto dela.

    Como se um bebê comum fosse entender alguma coisa.

    Mas ele entendia. E talvez por isso sentisse culpa ao ver aquela preocupação sincera.

    Ela o levou para o quarto, colocou-o sobre a cama e retornou com uma pequena bacia e um pano limpo. Mergulhou o pano em água morna misturada com ervas, torceu-o e o encostou cuidadosamente sobre o galo.

    O calor aliviou a dor quase imediatamente.

    Por instinto, Karlen fechou os olhos.

    — Assim melhora, não é? — Ela sorriu, um pouco mais calma. — Meu pequeno Len é forte.

    Ela continuou cuidando dele com delicadeza, alternando entre pressionar o pano e acariciar seus cabelos finos.

    Por mais que detestasse admitir, ser cuidado daquele jeito era bom. Quente. Seguro. O tipo de conforto que ele não conseguia lembrar de ter recebido por muito tempo.

    A luz do entardecer atravessou a janela do quarto, espalhando tons dourados sobre a cama.

    O pai de Karlen provavelmente já estava voltando dos campos a esta hora.

    Não demorou muito, e o rangido da porta ecoou do outro cômodo.

    As orelhas da mãe se ergueram imediatamente. Ela pegou Karlen no colo e seguiu para a cozinha.

    O pai estava sujo de terra, carregando ferramentas e com os longos cabelos vermelhos presos de qualquer jeito para não atrapalharem o trabalho.

    Ainda assim, sorriu ao ver os dois.

    Deixou as ferramentas próximas à parede, abraçou Angie e selou seus lábios com um beijo rápido. Depois, antes que Karlen pudesse se preparar psicologicamente, pegou-o no colo e encheu suas bochechas de beijos.

    A barba rala e áspera dele fez arrepios atravessarem o pequeno corpo do bebê.

    Se as situações com a própria mãe já eram vergonhosas para alguém com consciência adulta, aquela era uma experiência que ele preferia apagar da memória.

    O pai pareceu achar sua reação divertida.

    — Nosso pequeno Len está cada dia mais esperto.

    Karlen o encarou, pensando:

    E você continua tendo barba demais para alguém que beija o rosto de um bebê desse jeito. Tenha o mínimo de compaixão.

    Ainda com o filho nos braços, ele olhou para a mãe.

    — Como foi o dia, Angie?

    Ela hesitou. Seu sorriso diminuiu.

    Karlen percebeu imediatamente.

    A sombra que vinha observando nos olhos dela tinha voltado. Dessa vez, maior.

    — Foi um bom dia… — respondeu Angie. — Apesar de eu estar preocupada, Raine.

    Ao perceber o tom da esposa, ele ficou mais sério.

    — O que aconteceu?

    Angie apertou as mãos contra o avental.

    — Não sei dizer… mas acho que Karlen pode ter algum problema.

    A expressão de Raine mudou. Por um breve instante, seus braços apertaram Karlen um pouco mais.

    — Problema? Em que sentido?

    Ela respirou fundo.

    — Nosso pequeno Len já tem seis meses.

    Raine não respondeu.

    — Bebês semi-humanos normalmente começam a andar antes dos quatro meses. Alguns até antes disso. Mas Karlen já tem seis meses e só consegue engatinhar.

    A voz dela tremeu no fim.

    Imóvel nos braços do pai, Karlen sentiu que enfim entendia.

    Então era aquilo: a preocupação escondida que notara durante tantos dias. Aquela dificuldade não era comum para os padrões daquele povo.

    Ele estava atrasado… Muito atrasado.

    Raine olhou para o filho. Depois tornou a olhar para Angie.

    — Angie, tenha calma. Nem todas as crianças se desenvolvem no mesmo ritmo. Talvez ele apenas esteja demorando um pouco mais.

    — Eu sei que crianças podem ser diferentes. — Ela apertou os lábios. — Mas isso não é normal, Raine. Nenhuma criança semi-humana saudável demora tanto assim para andar.

    Ele ficou em silêncio.

    Por um instante, pareceu querer insistir. Dizer que ela estava preocupada demais. Que Karlen ficaria bem. Que aquilo não significava nada.

    Mas alguma coisa em seu rosto mudou.

    Talvez tivesse percebido o mesmo atraso havia dias. Talvez apenas não quisesse admitir.

    Raine suspirou e passou uma das mãos pelos cabelos vermelhos.

    — Certo. Não vou discutir com você.

    Sua voz saiu mais baixa do que antes.

    — Vou levá-lo até a senhora Harbin.

    Angie pareceu aliviada. Mas também assustada.

    Como se desejasse ouvir que estava exagerando e, ao mesmo tempo, temesse descobrir que não estava.

    Raine baixou os olhos para Karlen.

    Por um instante, seus olhos dourados pareceram distantes.

    — Vou tomar um banho e levá-lo ainda hoje.

    Um aperto estranho surgiu no pequeno peito de Karlen.

    Até pouco antes, tudo o que desejava era aprender a andar. Conhecer o mundo. Crescer rápido o bastante para descobrir o que existia além daquela janela.

    Agora, pela primeira vez desde que nascera, sua própria fraqueza parecia esconder alguma coisa.

    Algo que sua mãe temia e seu pai não queria admitir.

    E, enquanto Angie o apertava contra o peito, Karlen percebeu que aquela noite talvez lhe mostrasse que nem toda descoberta naquele novo mundo seria bonita.

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