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    Foi durante o jantar.

    Após a sua conversa com Theron Gaelor no pátio de treinamento àquela manhã, Randal Hale veio até Siegfried em seu nome. Como um simples cavaleiro com terras, a atenção que recebia dos guardas era menor — tinha liberdade de castelo (tal como Theron) e não possuía escolta (simplesmente era proibido de sair).

    Randal sentou-se ao lado de Siegfried, sem que ninguém prestasse atenção nos dois, e foi direto ao assunto:

    — Você disse que pode tirar o Lorde Gaelor do castelo. É verdade?

    — É.

    — E o que ganha com isso?

    — Pago a minha dívida.

    — Com o Lorde Alwyn. É, eu ouvi. Agora: o que você ganha com isso? Ou realmente espera que eu acredite que um mercenário está apenas ‘pagando uma dívida’?

    — Sou também um cavaleiro. Fica mais fácil de acreditar na minha palavra agora?

    — Não! Qualquer um pode se dizer um cavaleiro. Provar isso é um pouco mais difícil.

    — Você falou com o Sam?

    — E ele não mencionou nada sobre você ter sido armado pelo conde.

    — Mas disse outras coisas, não é?

    — …

    — E então?

    — O Lorde Samuel disse algumas coisas… Favoráveis em relação a você. Parece tê-lo em grande estima, por qualquer motivo que seja.

    — E imagino que o Theron já tenha tomado a sua decisão.

    — …

    — Ele vai vir?

    — Não!

    — …

    — Você não deve saber, mas sua graça tem se reunido com o Rei Donoghan para discutir uma aliança com o condado. E ele pretende aceitar.

    Siegfried sentiu o sangue gelar.

    Sabia das reuniões. Devia ter deduzido que o Rei Donoghan planejava uma aliança. Por que mais trataria Theron com tamanha deferência? Mas nunca teria imaginado que ele aceitaria. O Conde Gaelor era leal ao Rei Negro; foi um erro imaginar que o seu filho também seria? Pior! Havia falado com ele abertamente sobre traição. Deuses!

    Brandon Donoghan pensava que seu nome era Arannis Black — o barão de um pântano qualquer. Mas havia revelado sua verdadeira identidade ao Theron. Siegfried não era um nome muito comum em Thedrit. E com tudo o que Theron e Sam sabiam…

    Um pensamento sombrio lhe veio à mente: Dara.

    Sam ajudou ela a fugir do Salão dos Poucos. Sabia sobre a filha deles. Teria contado ao irmão? Teria Theron contado ao Rei Donoghan? Quem mais sabia? Teria posto a vida de Dara e Ingrid em perigo ao confiar em Theron? Teria ele rancor pelo papel que Siegfried desempenhou em capturar sua esposa e filho? Desejaria vingança?

    Siegfried sentiu o coração pulsar acelerado. Teria caído em uma armadilha? Quem precisaria matar?

    — Você levará o Lorde Samuel em seu lugar — disse Randal.

    — O quê?

    — O Lorde Theron não tem escolha. O Rei Donoghan está negociando com a Baronesa Whitefield nesse instante. E ela tem a esposa e o filho dele. Uma palavra do rei e os dois estão mortos.

    — Então por que o Samuel?

    — A casa Gaelor é leal ao Rei Negro. Ainda que o Lorde Theron seja forçado a seguir o Rei Donoghan, não podemos permitir que a reputação da casa seja manchada por uma traição. O Lorde Samuel manterá a lealdade do condado intacta, com a ajuda do Barão Kessel e dos outros lordes.

    — E, não importa quem vença, seja o Rei Negro ou o Rei Donoghan, a casa Gaelor terá alguém do lado vencedor no final.

    Randal pareceu irritado com a insinuação, mas não retrucou. Fosse ou não a intenção de Theron, era comum aos nobres distribuir a lealdade dos homens da família entre várias casas poderosas durante uma guerra. Por quê? Ora! Ninguém quer acabar do lado perdedor, mas poucos podem prever o futuro. A forma mais segura de garantir que esteja do lado vencedor no final é jogar de ambos os lados — uma tática perfeitamente legítima entre os nobres.

    Não houve mais conversa depois disso.

    Randal Hale se levantou e foi embora. Sam estava ciente da fuga, mas cabia a Siegfried decidir como e quando iriam embora; e tanto Theron como Randal achavam melhor que não estivessem a par dos detalhes.

    A fuga aconteceu na madrugada seguinte.

    Siegfried já vinha planejando isso há algum tempo. Desde que chegou no Castelo Essel há quase uma semana, para ser mais exato.

    Theron e Randal não estavam cientes, mas Siegfried planejava levar a Condessa Essel. Sua oferta a Theron era, tal como havia dito, apenas uma oportunidade de pagar a sua dívida com o Conde Gaelor.

    Embora o Rei Donoghan planejasse ganhar legitimidade sobre o Condado de Essel através de Dara, havia um empecilho no seu caminho: Nanya Essel. A segunda esposa do Conde Essel era uma mulher jovem, com apenas vinte anos… E estava grávida de oito meses.

    O Conde Essel era um homem velho, com quase sessenta anos e nenhum herdeiro masculino. Isso tornava-o fraco (física e politicamente) — principalmente agora que havia sido capturado pelo Barão Kessel. Mas um herdeiro poderia mudar isso. Poderia render-lhe apoio. E a Condessa Essel devia saber disso.

    Era possível que o bebê fosse de fato filho do Conde Essel, mas as datas levantavam a suspeita: teria ela engravidado de outro homem após o marido partir para a guerra? Esteve casada com ele por dois anos, mas a gravidez veio justamente na época em que o Conde Essel estava longe.

    Os servos foram interrogados, é claro, mas as suas histórias eram sempre diferentes. Alguns juravam que a condessa era uma esposa devota que jamais deixaria outro homem tocá-la, mais eram aqueles que tinham histórias de libertinagem e devassidão cada vez mais escandalosas para contar — a condessa havia se deitado com um cavaleiro sem nome ou um bardo itinerante; um dos criados, todos os criados ou até mesmo um cavalo e outros animais. Gostava de fazer orgias ou estava apaixonada por um único homem. Ouviram de tudo.

    Mas a história mais escandalosa de todas era a de que o filho pertencia à Araphor Greenguard.

    — Foi logo depois que o Lorde Greenguard chegou no castelo — contou uma das servas. — O Conde Essel tinha sido capturado e a condessa se trancou no quarto por dias quando ficou sabendo. Ninguém conseguia falar com ela. Mas ele conseguiu. O Lorde Greenguard, quero dizer. Ele passou horas acalmando a condessa. Só os dois. Sozinhos. No quarto dela. Você tinha que ver. Depois que ela saiu, tava radiante. Feliz. E com um apetite enorme. Algumas semanas depois, a barriga dela começou a crescer. O sacerdote disse que tava grávida. E todo mundo sabe como. O Conde Essel mal tocava nela; pergunte a qualquer um.

    De todas as histórias, essa foi a única que o Rei Donoghan e todos os outros lordes foram unânimes em descartar como mentira.

    — Araphor Greenguard jamais se deitaria com a esposa de outro homem! — diziam.

    Se realmente acreditavam nisso ou estavam apenas assustados com a possibilidade de a Condessa Essel estar carregando o filho de um herói de guerra, era difícil dizer.

    Independente disso, a criança na barriga dela era uma ameaça. Se fosse o herdeiro legítimo do conde, a pretensão de Dara estaria em risco.

    O Rei Donoghan não podia simplesmente matar uma mulher grávida, tampouco um bebê recém-nascido. Tirando o fato de que isso seria condenável aos olhos de Elyon e da nobreza em geral, o Conde Essel era o avô da Duquesa Elsbeth Greenguard — e era pouco provável que ela deixasse tamanha atrocidade escapar impune; além disso, seria fácil encontrar apoio para levar à justiça um assassino de bebês (se os nobres deixassem tal crime passar em branco, abririam um precedente perigoso e a próxima mulher grávida morta poderia ser uma de suas esposas).

    Restava ao rei uma única opção: deslegitimar a criança.

    Um bastardo não tem direito a nada. Mas os servos, por mais colaborativos que fossem, não estavam ajudando. Precisava de uma confissão da própria condessa admitindo o adultério… Mas ela não cedeu.

    O Rei Donoghan frequentemente mandava os guardas trazerem-na até a sua presença para confessar. A resposta dela era sempre a mesma:

    — Sou fiel ao meu marido. Nunca o traí! O filho que carrego é dele.

    Então era mandada embora… Apenas para ser trazida novamente mais tarde e assim o ciclo se repetia. Gostava de trazê-la sempre nos piores horários possíveis e às vezes até mesmo fazia-a esperar em pé por horas. Era trazida direta do banho, encurralada quando passava no corredor ou durante as refeições, mas o horário preferido do rei era durante a noite, quando ela já estava dormindo.

    Os guardas forçavam a condessa a cruzar o pátio frio com nada além do fino vestido de chemise por baixo de um agasalho de pele. Sonolenta, enjoada e exausta.

    O rei fazia a pergunta, ela negava o adultério e então tinha de fazer o caminho de volta — na maioria das vezes, sendo trazida novamente uma ou duas horas mais tarde. De novo e de novo. Claramente pretendia quebrar o seu espírito, mas, até o momento, havia falhado.

    Não foi difícil capturá-la.

    Siegfried simplesmente aguardou até que o rei terminasse outro de seus interrogatórios noturnos e interceptou os dois guardas (tão cansados quanto a própria condessa) no caminho de volta.

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