Capítulo 0207: Theron Gaelor
Siegfried trouxe o café da manhã para Gwen e observou a jovem devorar os pães e o leite em silêncio. As suas roupas antigas estavam rasgadas e fedidas, por isso o rapaz entregou-as a uma das servas para lavar e deu a Gwen um dos vestidos bege que as criadas usavam — ela não disse uma palavra, mas claramente não ficou satisfeita com o vestido e, ao invés disso, vestiu uma de suas camisas (e nada mais).
— E então? — perguntou Siegfried. — Vai me dizer por que você tá aqui?
— …
— Não parece que tenha vindo me matar.
— Achei que já tivesse feito isso. Como você sobreviveu? De verdade! Não essa merda de ‘sorte’. Tenho certeza de que acertei o seu coração. Vi você cair. E depois… Como?
Seria possível que ela tivesse ficado preocupada?
Não. Provavelmente estava apenas curiosa. Era uma assassina profissional e certamente ver o seu alvo sobreviver ao que deveria ter sido um golpe fatal foi um choque para ela. Não via motivos para mentir.
— Foi a Ethel. Uma das minhas escravas. Ela era uma feiticeira. Salvou minha vida.
— Uma bruxa. — Gwen sorriu. — Isso faz sentido.
— Já respondi a sua pergunta. Agora é a sua vez. Por que tá aqui?
Gwen hesitou, até que…
— Eu queria ver com os meus próprios olhos.
— …
— A guilda tem uma base na cidade. Depois de te ‘matar’, eu decidi ficar um pouco por aqui. Descansar. Há algumas semanas, ficamos sabendo que o Conde Donoghan capturou o castelo. Não estávamos esperando por isso. A guilda não gosta de não saber das coisas; faz mal pros negócios. Mandaram a gente ficar de olho. Reunir o máximo de informações possível. Era o que eu tava fazendo quando vi você no acampamento, dando ordens e executando soldados. Achei que tinha ficado maluca. Que fosse uma alucinação. Precisava ver com os meus próprios olhos.
— Bem! Já viu. E agora?
— …
— Vai me matar de novo?
— Não! — ela disse. Um pouco rápido demais. E, quando percebeu isso, se calou e passou a encarar o copo de leite em suas mãos. — Eu não vou te matar. Ninguém tá me pagando pra fazer isso. Mas… Você é leal ao Conde Donoghan?
— …
— E então?
— Eu tenho uma missão.
— Isso não responde a minha pergunta.
— Não. Não responde.
— …
— Acho que, no momento, eu sou leal a uma única pessoa. E ela não usa uma coroa.
— Então, você não tá do lado do conde?
— Não.
— Nem do Rei Negro?
— Não.
— Hum.
— Eu não vou me juntar ao Príncipe Helmut, se for essa a sua próxima pergunta.
— Não era! E eu já disse que não trabalho pra ele!
— Ok.
Silêncio.
Siegfried questionou a sua sanidade por um momento. Gwen não era confiável. Havia-no traído uma vez e quase o matou. Mas odiava o Rei Negro e, aparentemente, o Conde Donoghan também. Não importava o que ela dissesse, era leal ao Príncipe Helmut. Talvez até nutrisse alguma simpatia pela Condessa Essel — já havia fechado um contrato com o Conde Essel no passado, afinal de contas. Era a sua melhor opção.
Por isso, fez-lhe uma proposta.
♦
Theron Gaelor não era um prisioneiro, mas um ‘convidado de honra’. Tinha sempre dois soldados Donoghan acompanhando-o onde quer que fosse, para a sua ‘proteção’.
Embora tivesse liberdade de castelo, havia bem pouco que ele pudesse fazer, por isso passava a maior parte do tempo treinando no pátio — quando não estava em reunião com o Rei Donoghan. Foi onde o encontrou: no pátio de treinamento, tendo um duelo com o seu amigo, Randal Hale — um jovem lorde vassalo da casa Dalton (24 anos) que foi para a guerra com Theron e acabou sendo capturado com ele no ano passado; estavam vindo em auxílio ao Barão Kessel durante o cerco do Castelo Silvergraft, quando Araphor Greenguard os interceptou, derrotou as suas forças e tomou eles como reféns (algo que o Barão Kessel nunca chegou a descobrir ou, se descobriu, nunca compartilhou com os demais).
Siegfried se aproximou.
Já haviam lhe dito mais de uma vez que se parecia com Theron — não à toa pensavam que fosse o filho bastardo do Conde Gaelor. Mas o rapaz viu pouca semelhança com o herdeiro do conde; tinha 22 anos e cabelos negros, mas seus olhos eram verdes (como os da mãe). Forte e atlético. Se tinham algo em comum, falhava em notar.
— Theron Gaelor — chamou.
O duelo parou e os dois nobres prestaram atenção em Siegfried. Não pareciam felizes.
— E quem é você? — perguntou Theron.
— Um amigo. Podemos falar? Em particular.
— Acho pouco provável.
E era.
Os guardas mantinham certa distância, mas estavam lá e prestavam atenção. Nunca que iriam deixá-los sozinhos. Siegfried puxou sua espada e desafiou Theron para um duelo. O jovem conde compreendeu de imediato o que pretendia e seu amigo também. Randal se afastou e o duelo começou.
Não era uma batalha de verdade e nenhum dos dois tentava vencer. Trocavam golpes e esquivavam, mas era apenas um teatro. Entre ataques e defesas, conversavam.
— O que quer!? — perguntou Theron.
— Meu nome é Siegfried. Fui escudeiro do seu pai. Lutei ao lado dele. Estava lá quando ele morreu.
— …
— Seu pai poupou a minha vida, mas morreu antes que eu pudesse pagar essa dívida. Eu devo a ele minha vida. E pretendo pagar esse débito. Posso tirar você daqui!
De repente, um dos ataques de Theron veio um pouco mais rápido que o normal e levou alguns fios de cabelo de Siegfried. Mais dois centímetros e teria sido um olho.
— Ouvi falar de você — admitiu Theron. — Nada de bom, por sinal. Um mercenário… E meu irmão bastardo.
— Não sou filho do conde!
— Nisso concordamos. Não nego que meu pai possa ter tido um, dois ou até dez filhos bastardos que sejam por aí, mas acho difícil de acreditar que teria levado um deles para casa. E certamente não o exibiria por aí feito uma espada nova. Então, volto a perguntar: quem é você?
— Um mercenário que paga as suas dívidas.
— Então não é um vira-casaca?
— …
— E então?
— Não é tão simples.
— Soube que traiu o Barão Kessel. Que fez causa comum com o Príncipe Helmut, tomou a minha esposa e o meu filho como reféns e dizem até que foi você quem matou meu pai!
— Se eu tivesse matado o seu pai, por que estaria falando com você agora?
— Não sei, mas não confio em você.
— Então pergunte ao seu irmão!
— O quê?
— O Sam. Ele tá aqui, não é? Vi ele andando por aí com o Barão Deepwood. Pergunte a ele sobre mim.
— A palavra de uma criança? Esse é o seu escudo?
— Ele é a única pessoa nesse castelo que me conhece. Que me conhece de verdade! Foi o único que me viu com o seu pai. Você pode escolher acreditar em boatos se quiser, mas achei que soubesse melhor do que tomar como verdade palavras sussurradas por covardes.

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