CAPÍTULO 10: A MALDIÇÃO DE DARLUPUS
Não demorou muito para Raine retornar. Ele estava mais limpo, com os longos cabelos vermelhos ainda úmidos e roupas simples trocadas às pressas. O sorriso carinhoso de poucos minutos antes tinha desaparecido.
Angie com certeza havia percebido, e Karlen também.
Com cuidado, ela ajeitou o pano ao redor do pequeno corpo do filho antes de entregá-lo ao marido.
— Veja se não volta muito tarde — pediu, tentando manter a voz firme. — O jantar estará pronto.
Raine assentiu.
— Não vamos demorar.
Mas seu tom não tinha leveza alguma.
Acomodado nos braços dele, Karlen deixou, pela primeira vez desde que renascera, a casa onde passara seus primeiros seis meses de vida.
Do lado de fora, tudo pareceu amplo, imenso e vivo.
A casa onde moravam ficava numa região tranquila, cercada por árvores, pequenos campos de cultivo e caminhos de terra batida. Algumas construções rústicas podiam ser vistas à distância, espalhadas entre o verde e iluminadas pela luz fraca do entardecer.
Não era uma cidade, mas uma vila pequena, isolada entre montanhas que se erguiam ao longe como muralhas naturais.
O vento tocou o rosto de Karlen.
As folhas das árvores balançavam suavemente. O cheiro do lado de fora era completamente diferente daquele que conhecia dentro da casa.
Terra… Grama… Madeira… Animais distantes… Fumaça de outras lareiras… Flores que ainda não conhecia… E o som de água correndo em algum lugar próximo.
Tudo chegava ao mesmo tempo para seus novos sentidos: intenso, novo, maravilhoso.
Pela primeira vez, Karlen sentiu de verdade que existia um mundo inteiro além das paredes onde crescera.
Um mundo que ainda não conhecia.
Um mundo que talvez pudesse explorar quando aquele corpo deixasse de ser tão inútil.
Conforme Raine avançava pela trilha, o céu começou a escurecer. As primeiras estrelas surgiram acima das montanhas.
Depois vieram muitas outras… Incontáveis estrelas espalhadas por toda a extensão do céu.
Não havia luzes artificiais para apagá-las. O firmamento parecia coberto por cores cósmicas delicadas, como manchas de tinta espalhadas sobre a noite.
Então Karlen viu as luas.
Havia duas delas. Uma brilhava inteira e silenciosa.
A outra era incompleta.
Como se uma enorme mordida tivesse arrancado um terço de sua superfície. Ao redor dela, um cinturão de destroços rochosos refletia a luz avermelhada, formando um anel irregular no céu.
Imóvel nos braços do pai, Karlen contemplou aquela visão.
Era lindo demais. Aquele mundo era realmente diferente, mágico e cheio de mistérios.
Por alguns instantes, esqueceu a preocupação de Angie. Esqueceu que estavam saindo justamente porque algo em seu desenvolvimento parecia errado.
Havia uma enorme floresta além daquela vila, estendendo-se até os pés de uma cadeia de montanhas.
Talvez atrás daquelas montanhas existissem cidades… Povos… Criaturas… Monstros, aventureiros, coisas que Karlen mal podia imaginar.
Tendo esse pensamento, uma vontade nasceu dentro dele.
Pequena e crescente, era a vontade de explorar aquele mundo e conhecer tudo aquilo.
Talvez aquela nova vida realmente pudesse ser grandiosa… mas a esperança durou pouco.
Raine parou diante de uma construção pequena, feita de pedra e madeira escura. Várias plantas estavam penduradas perto da entrada. Algumas tinham folhas longas e azuladas. Outras pareciam ramos secos, marcados por flores vermelhas nas pontas.
Era a casa da curandeira.
Diante da porta, Raine bateu.
— Senhora Harbin? Sou eu, Raine.
Aguardaram alguns segundos, e a porta se abriu logo em seguida.
Uma velha senhora surgiu diante deles.
Era baixa, curvada pela idade, com cabelos grisalhos presos atrás da cabeça e olhos pequenos, porém atentos. Usava um manto simples coberto por bolsos e carregava no pescoço amuletos feitos de madeira, osso e pedra.
Seu olhar passou primeiro por Raine, descendo até Karlen.
Por um instante, seus olhos se estreitaram.
— Jovem Raine — disse ela, abrindo passagem. — Pode entrar.
Sem dizer mais nada, ele entrou.
O interior da casa era ainda mais carregado de cheiros do que Karlen esperava.
Ervas e fumaça… Álcool e raízes secas… Algo extremamente amargo, bem como algo doce demais.
Para seu olfato aguçado, aquilo quase doeu.
Incomodado, ele se mexeu nos braços do pai. Raine percebeu e o aproximou melhor do peito.
Apesar de rústico, o lugar era organizado. Plantas ocupavam quase todo o ambiente. Frascos coloridos, pequenas pedras marcadas com símbolos e instrumentos de metal estavam distribuídos pelas prateleiras. Em alguns potes, havia pequenos animais ou órgãos preservados.
Karlen preferiu não olhar por muito tempo.
Harbin conduziu os dois até um espaço com duas cadeiras.
— Sente-se, meu jovem. Vou buscar algo quente para você.
Raine assentiu.
Pouco depois, a velha retornou com dois pequenos copos de chá. Entregou um deles a Raine e se sentou diante dele, segurando o outro entre os dedos enrugados.
Por alguns segundos, nenhuma palavra foi dita.
Harbin apenas observou Karlen com intensidade, como se o examinasse apenas com o olhar.
Seu olhar era diferente do carinho de Angie.
Era atento, analítico, tão pesado que era quase invasivo… Aquela sensação desagradava Karlen.
Por fim, a curandeira olhou para Raine.
— Diga-me, jovem. O que o trouxe até mim a esta hora?
Ajustando Karlen nos braços, ele respondeu:
— Vim descobrir se há algo de errado com meu filho, senhora Harbin.
Sua voz hesitou por um breve instante.
— O nome dele é Karlen. Angie me disse que ele não está se desenvolvendo como deveria.
Ouvir aquilo provocou uma sensação estranha dentro do bebê.
A curandeira permaneceu em silêncio.
— Karlen… — repetiu num sussurro.
Parte da tranquilidade desapareceu do rosto da velha.
Raine percebeu imediatamente.
— O que foi?
Harbin colocou o chá sobre uma pequena mesa e se inclinou em direção ao bebê.
Um arrepio atravessou o corpo de Karlen.
— Desde que você cruzou minha porta, percebi que esta criança carrega um miasma incomum — disse ela.
Raine ficou imóvel.
A velha aproximou dois dedos da testa de Karlen, sem chegar a tocá-lo.
Seu olhar escureceu.
— Um miasma que eu esperava jamais sentir novamente em uma criança desta família.
A respiração de Raine falhou.
— Senhora Harbin…
— Não tente esconder sua origem de mim, Raine.
A voz dela parecia triste.
— Eu tratei feridos da família real quando Zenskar ainda era a capital do nosso povo. Conheci seu pai. Conheci o sangue dos D. Scale antes que os Dolphos tomassem tudo.
Karlen sentiu os braços do pai endurecerem ao seu redor.
— Desculpe, senhora Harbin. Mas eu prefiro não me lembrar daquilo! — murmurou Raine, cerrando os dentes.
Harbin olhou para a criança.
— Ele talvez seja apenas um bebê agora. Mas é justamente por ser seu filho que você não pode continuar fugindo do que esse sangue significa.
O rosto de Raine se tensionou ao ouvir a fala de Harbin.
Respirando fundo, a velha continuou:
— Você sabe muito bem a importância que possui. Você era o único herdeiro da linhagem D. Scale, mas isso já não é mais verdade, não é?
O silêncio que veio depois foi sufocante.
Karlen não compreendeu imediatamente toda a dimensão daquelas palavras.
Mas entendeu o essencial.
“Herdeiro”.
Seu pai?
Raine, o homem que voltava sujo de terra dos campos, que construía cadeiras de madeira e enchia suas bochechas de beijos inconvenientes…
Era alguém importante?
Que estava se escondendo naquela vila.
A voz de Harbin voltou a preencher a sala:
— E esta criança carrega a mesma marca que começou a destruir os homens da sua linhagem.
O copo de chá escorregou dos dedos de Raine e caiu no chão, espalhando todo o líquido sobre a madeira.
Ele nem pareceu notar. Seu rosto estava completamente paralisado, com os olhos arregalados.
A expressão de alguém arrastado de volta para um pesadelo que passara anos tentando esquecer.
— Não… — Sua voz saiu rouca. — Isso não pode ser verdade.
Por um instante, Harbin fechou os olhos, como se desejasse, tanto quanto ele, estar enganada.
— Eu gostaria que não fosse, meu jovem.
Então tornou a encará-lo.
— Mas seu filho carrega a maldição de Darlupus.
O silêncio caiu sobre a sala mais uma vez. Até mesmo os incensos pareciam queimar mais devagar.
Raine permaneceu imóvel, atônito.
Nos braços dele, Karlen continuava pequeno e confuso, tentando compreender o que tinha acabado de ouvir.
Seu pai era um herdeiro importante e fugitivo, e agora uma maldição ligada àquela linhagem existia dentro dele.
O nome que, momentos antes, começara a parecer quente e verdadeiro agora carregava um peso escuro.
Raine olhou para Harbin.
Sua voz tremia.
— Isso é realmente verdade?
A velha confirmou com um aceno lento.
O pai apertou Karlen contra o peito.
— Ele vai sofrer? — perguntou. — Não existe nada que eu possa fazer? Eu não quero que meu filho pague por esse sangue…
A última palavra morreu em sua garganta.
Sangue.
Karlen percebeu o ódio com que Raine a pronunciou.
Como se o próprio nome D. Scale tivesse se transformado em uma corrente presa ao pescoço de seu filho.
Harbin observou a dor estampada no rosto dele.
— Sinto muito, Raine. Não existe cura conhecida para Darlupus… Não algo que gente como a gente possa fazer.
Ela fez uma pausa.
A frase atingiu Raine como outro golpe.
— Por enquanto, tudo o que posso fazer é recomendar cuidados para o desenvolvimento dele — continuou Harbin. — A maldição não se prende apenas ao corpo. Ela se fixa no âmago do herdeiro. Por isso, não pode ser removida com ervas ou tratamentos comuns.
Raine baixou os olhos para Karlen.
A curandeira prosseguiu:
— O crescimento dele será afetado. Seu corpo se desenvolverá cada vez mais lentamente. Seus músculos podem chegar a um ponto onde deixarão de se desenvolver. Seus ossos serão frágeis como vidro. Com o tempo, haverá muitas dores.
Karlen permaneceu quieto, absorvendo tudo o que era dito.
— Se a maldição avançar como nos antigos herdeiros D. Scale, o desenvolvimento dele poderá diminuir até cessar antes que alcance a idade adulta.
A mão de Raine começou a tremer.
— Não…
— Seu corpo acabará por se tornar algo tão frágil que ele jamais poderá viver como um semi-humano.
Lentamente, Raine ergueu os olhos. Aquela frase pareceu destruí-lo de vez.
Não falavam de um simples atraso, ou de começar a andar alguns meses mais tarde.
Falavam sobre uma sentença, uma sentença que vinha do sangue de Raine.
Mesmo devastado, Raine ouviu as recomendações da curandeira.
Exercícios físicos constantes, alimentação reforçada, acompanhamento frequente e evitar que Karlen levasse o corpo ao limite quando as dores começassem.
Harbin se levantou e caminhou até uma das prateleiras. Pegou um pequeno saquinho de pano, colocou ervas dentro e amarrou-o com um cordão fino.
Ao retornar, entregou-o a Raine.
— Misture isto em água morna quando ele começar a sentir as dores. Não é uma cura. Não impedirá a maldição de avançar. Apenas aliviará parte do sofrimento.
Com as mãos trêmulas, ele recebeu o saquinho.
— Obrigado, senhora Harbin.
Sua voz parecia vazia.
A velha o observou por alguns segundos.
— Cuide dele, Raine.
Em seguida, lançou um último olhar para Karlen.
— Crianças com essa maldição precisam de mais do que alimento e exercícios. Precisam de uma família que não desista delas quando o mundo lhes virar as costas.
Raine apertou o filho contra o peito.
— Eu jamais desistiria do meu filho.
A resposta veio baixa, mas firme. Foi a primeira coisa firme que Karlen ouviu desde que entraram naquela casa.
Harbin assentiu lentamente.
— Então talvez ele possua algo que os antigos herdeiros não tiveram.
Raine não perguntou o que ela queria dizer. Talvez já não tivesse forças para ouvir mais nada naquela noite.
A caminhada de volta pareceu completamente diferente da ida.
O céu ainda era bonito, as estrelas ainda brilhavam, as duas luas ainda pairavam acima das montanhas.
Mas Raine já não olhava para nada daquilo. Seus passos eram firmes, porém pesados.
O braço que segurava Karlen estava mais apertado do que antes, como se tivesse medo de soltá-lo.
Como se aquela maldição pudesse levá-lo embora a qualquer momento.
Karlen sentia o coração do pai batendo depressa.
Sentia a respiração presa, interrompida às vezes por pequenos tremores.
Durante todo o caminho, Raine não pronunciou uma única palavra.
O bebê também permaneceu quieto.
Sua mente estava cheia demais.
Tinha saído de casa acreditando que aquele mundo talvez fosse feito de aventura, magia e respostas sobre a espada.
Agora voltava sabendo que carregava uma maldição ligada ao sangue daquela família.
Uma parte dele deveria estar apavorada.
Talvez estivesse.
Mas outra parte, mais antiga, mais orgulhosa, mais próxima do que Kendrick um dia fora, recusava-se a aceitar aquela sentença sem lutar.
Quando chegaram em casa, Raine abriu a porta em silêncio.
Angie já os esperava.
Caminhava de um lado para o outro, com as mãos apertadas contra o próprio peito. Assim que viu o estado do marido, correu em sua direção.
— Raine…?
Ele não respondeu.
— O que aconteceu? — perguntou ela, perdendo a cor do rosto. — O que Harbin disse sobre nosso filho?
Antes que Angie pudesse fazer qualquer outra pergunta, Raine a puxou para si e a envolveu num abraço.
Karlen ficou preso entre os dois.
Por alguns segundos, Raine apenas a segurou e então começou a chorar.
Não havia controle algum naquele choro, nenhuma tentativa de continuar parecendo forte.
Sua voz saiu quebrada, esmagada por uma dor que parecia antiga demais para ter começado naquela noite.
— Me perdoe, Angie…
Ela ficou rígida em seus braços.
— Raine…?
— Eu não acreditei em você. Pensei que estivesse apenas preocupada demais. Pensei que ele estivesse bem…
O corpo de Angie começou a tremer.
— Fale de uma vez, Raine. O que aconteceu com meu filho?
Raine baixou os olhos para Karlen.
Quando tentou falar, sua voz falhou.
Então apertou os dentes e forçou as palavras para fora.
— Ele tem Darlupus.
Angie parou de respirar.
— Não…
— Ele tem aquela maldita maldição, Angie.
Por um instante, ela pareceu não compreender, como se sua mente recusasse aceitar aquelas palavras.
Então o brilho desapareceu de seus olhos.
Suas pernas falharam, e Angie caiu de joelhos no chão.
— Não…
A palavra saiu como um sussurro.
Depois, novamente, ainda mais alta e desesperada.
— Não… Não, não, não… Isso não pode ser verdade…
Ela olhou para Karlen e depois para Raine… Seu rosto se partiu em desespero.
— Nosso filho não…
Ajoelhando-se diante dela, Raine ainda mantinha Karlen nos braços.
— Harbin confirmou. É a mesma maldição dos herdeiros D. Scale.
Angie levou as mãos à boca. O choro veio imediatamente.
— Não… Ele não tem culpa disso… — soluçou. — Não tem culpa do sangue que recebeu.
Cada frase atingia Karlen de maneira diferente.
Angie abraçou Raine e Karlen ao mesmo tempo, apertando os dois contra si.
— Tenha piedade, grande senhor… — implorou, com a voz quebrada. — Tenha piedade do meu pequeno garoto…
Suas lágrimas caíam sobre o pano que cobria Karlen.
— Eu imploro a ti, Senhor das Bestas! Livre meu filho desse mau agouro! Livre meu pequeno Len dessa condenação!
Sua súplica se transformou em dor, raiva e desespero.
— Ele não merece sofrer com isso! Não merece pagar pelos pecados dos mortos! Não merece carregar a desgraça que perseguiu esta família!
Raine permaneceu ajoelhado ao lado dela, com uma das mãos cobrindo o rosto.
— Eu pensei que, escondido aqui, ele estaria seguro… — murmurou. — Pensei que fugir de Zenskar bastaria. Pensei que os Dolphos fossem o pior que meu sangue poderia trazer até ele…
Sua voz falhou.
— Mas a maldição o encontrou antes mesmo deles.
Um gemido de dor escapou de Angie enquanto ela apertava Karlen contra o peito.
Os dois choraram juntos.
Não como pais preocupados com uma doença simples, mas como quem tinha acabado de receber uma sentença.
Karlen permaneceu entre os dois, envolto por braços trêmulos, lágrimas quentes e vozes quebradas.
O pequeno Len. Karlen D. Scale. Filho de Raine.
Portador de uma maldição que todos pareciam conhecer, temer e lamentar.
Para ele, talvez pudesse enfrentar aquilo com treino, esforço e conhecimento. Se seu corpo era fraco, ele o fortaleceria. Se demorava para andar, treinaria até conseguir. Se aquela maldição pretendia determinar sua nova vida antes mesmo que ela começasse, então faria o possível para contrariá-la.
Talvez essa conclusão fosse infantil ou arrogante; talvez apenas demonstrasse o quanto ainda ignorava as leis daquele mundo.
Porque, para Angie e Raine, Darlupus era muito maior do que uma mísera fraqueza.
Naquela noite, enquanto os pais continuavam abraçados a ele, Karlen observou as sombras da casa se moverem sob a luz fraca das chamas.
Horas antes, aquele mundo parecia cheio de aventura e possibilidades, mas agora mostrava uma face diferente.
Uma face cruel, antiga e manchada de sangue.
E, enquanto as lágrimas de sua mãe molhavam seus cabelos, Karlen compreendeu apenas uma coisa:
a vida que recebera não seria gentil com ele.
Mesmo assim…
Karlen fechou suas pequenas mãos.
E se recusou a aceitar que aquela maldição fosse o fim de sua nova vida.

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